As Sequências e Remakes de Ringu

Sabia que O Chamado, o filme americano dirigido por Gore Verbinski e produzido pela Dreamworks, não é a primeira, mas sim a segunda refilmagem do original japonês Ringu??? E sabia que o filme feito em 1998 por Hideo Nakata já tem duas continuações oficiais e uma não-autorizada, além de ter originado uma minissérie de TV e até mangás (revistas em quadrinhos orientais)???? E, por fim, que todo material é baseado em quatro livros de um popular autor japonês de livros de horror, Kôji Suzuki???? Pois é isso mesmo. Bem-vindo ao fascinante, e riquíssimo, mundo de Ringu.

Entretanto, o texto que segue contém muitas informações que podem estragar sua surpresa antes de assistir a Ringu ou mesmo à refilmagem The Ring. Por isso, a recomendação é que você só continue lendo estas mal-escritas linhas após ver pelo menos uma das duas versões. Caso contrário, você jamais irá se perdoar por ter descoberto alguns dos segredos de Ringu ANTES de ver o filme!

Rasen (1998)

AS CONTINUAÇÕES

Antes do filme original ser feito, em 1998, Kôji Suzuki já tinha escrito o livro Ringu (que deu origem à adaptação cinematográfica) e também duas obras que dão seguimento à história, chamadas Rasen e Loop. O quarto livro, The Birthday, é de 1999. Kôji nunca se envolveu no roteiro de Ringu e nem no de sua continuação, Ringu 2, feita pelo mesmo diretor Hideo Nakata dois anos depois, em 2000. O curioso de tudo isso é que, em 1998, foi feito um outro filme como se fosse a continuação de Ringu, com outro diretor e equipe técnica, mas alguns atores do original. Ou seja: Ringu é o primeiro e único filme no mundo a ter duas parte 2, uma oficial e outra bastarda.

A história é meio gozada: a produtora de Ringu, a Asmik Ace Entertainment, contratou duas equipes diferentes para realizar, no mesmo ano (1998), simultaneamente, Ringu (dirigido por Nakata) e uma continuação chamada Rasen, baseada no segundo livro da série, escrito por Kôji Suzuki. Rasen foi dirigido por outro cineasta, Jouji Iida, mas alguns atores do original fazem participações.

A ideia da produtora era lançar os dois filmes no mesmo ano: se o público gostasse de Ringu, obviamente iria ver também a sequência Rasen, o que geraria uma boa renda à Asmik Ace – que realizou dois filmes praticamente pela metade do preço. Entretanto, o resultado não ficou dos melhores e Rasen acabou sendo considerada uma continuação não-oficial quando o diretor do filme original, Nakata, realizou Ringu 2 em 1999, sem qualquer relação com a história de Rasen. O mesmo já foi feito nos Estados Unidos quando Steve Miner dirigiu Halloween H20, a sétima continuação de Halloween, de John Carpenter, ignorando totalmente as continuações feitas após a parte 2.

Mas o enredo de Rasen é no mínimo interessante, e baseado fielmente no livro de Suzuki: voltam os personagens de Hiroyuki Sanada como Ryuji (o ex-marido de Reiko, morto no final de Ringu) e de Mai Takano, a aluna que estava namorando Ryuji, interpretada por Miki Nakatani. O filme começa com Mitsuo Andou, um médico-legista, fazendo a autópsia de Ryuji – que, logo descobrimos, foi seu colega de escola. A morte do amigo permanecia inexplicável pela polícia (mas todos que viram Ringu sabem que ele foi morto por Sadako).

SequenciasRingu

A história dá uma reviravolta quando Mitsuo descobre uma estranha mensagem no estômago do morto. Assim o legista toma conhecimento da história da fita amaldiçoada que teria matado Ryuji, e cria a teoria de que a vingança de Sadako aconteceria pela infecção das pessoas que assistiam a fita com um vírus mortal, que demoraria sete dias para incubar no organismo, matando a pessoa logo depois deste prazo – além de provocar alucinações referentes a Sadako.

Neste caso, as aparições sobrenaturais de Sadako surgindo da TV em Ringu seriam um mero efeito colateral de um misterioso vírus que impregna o organismo de quem assiste a fita amaldiçoada, e assim fica explicada a morte de todas as vítimas após sete dias. Trata-se de uma reviravolta muito maluca na trama original, e por isso talvez o filme não tenha sido bem recebido pelo público.

Como Rasen não alcançou o sucesso planejado, a estratégia da produtora foi no mínimo corajosa: eles resolveram esquecer que Rasen existia e contrataram o mesmo diretor do Ringu original, Hideo Nakata, e os mesmos atores para fazer a sequência oficial, Ringu 2, em 1999, sem qualquer menção à história de Rasen.

Desta vez, além dos personagens de Mai Takano e Ryuji, voltam também a repórter Reiko e seu filho Yoichi, todos interpretados pelos mesmos atores do original. O pior é que a trama do filme ficou semelhante à da sequência bastarda: o filme também começa com um autópsia, mas não é a de Ryuji, e sim a do corpo putrefato de Sadako, retirado do fundo do poço no final de Ringu. O roteiro lança a ideia de que Sadako não teria vivido apenas sete dias no poço, mas sim 30 anos!!!

Enquanto isso, a namoradinha de Ryuji, Mai, sai em busca de Reiko e seu filho Yoichi, em busca de respostas para a misteriosa morte do professor universitário. Ela descobre que o pequeno Yoichi está desenvolvendo ainda mais os poderes paranormais herdados do pai, e provavelmente será uma arma importante no combate aos poderes destruidores de Sadako.

Mesmo com algumas cenas assustadoras, Ringu 2 também não chegou nem perto do estrondoso sucesso de Ringu. O problema é que em Ringu 2 não há mais aquele gostinho de novidade: o espectador já sabe a história por trás da fita e de Sadako. Por isso, a continuação se limita a dar algumas explicações sobre as origens de Sadako e sobre a lógica científica da fita amaldiçoada e como ela age na morte das pessoas que a assistem, eliminando o encanto sobrenatural do filme original.

Como curiosidade, existe uma cena em Ringu 2 que foi aproveitada no remake americano de Ringu, que é a visita ao manicômio onde está internada a amiga de Tomoko (a jovem sobrinha de Reiko, morta no início de Ringu). Em um flashback, descobrimos que a amiga voltou do banheiro bem a tempo de ver Sadako saindo da TV e matando Tomoko. Por isso, ficou mentalmente perturbada e foi internada em um manicômio, onde simplesmente não pode ver um aparelho de TV – isto foi aproveitado na versão americana, onde a jovem perturbada, rebatizada como Becca, passa por um corredor onde há uma televisão apenas escondida por trás de uma cortina, para não ter um colapso.

Com esta segunda sequência oficial, o culto a Ringu já estava mais do que deflagrado. A onda tomou o Japão de assalto, originando uma minissérie na TV e muitas histórias em quadrinhos baseadas nos personagens e situações mostradas tanto nos livros de Suzuki quanto na série cinematográfica. Assim, era questão de tempo para que uma terceira continuação de Ringu (sem contar Rasen) saísse do papel.

Foi o que aconteceu ainda em 2000. Os produtores sabiam que não havia mais história para contar (tanto a trama da fita amaldiçoada quanto a vingança de Sadako já tinham sido satisfatoriamente aproveitadas, e não havia uma forma de usar novamente estes elementos sem chatear os fãs da série). Assim, resolveram contratar o escritor Kôji Suzuki (embora os créditos sejam para Hirsohi Takahashi, o IMDB informa que o autor realmente esteve envolvido na roteirização de um de seus contos, escrito em 1999) para escrever uma chamada prequel, ou seja, uma história que se passa antes de Ringu 1 e Ringu 2. O diretor Nakata, responsável pelos dois primeiros filmes, não topou dirigir um terceiro e foi substituído por Norio Tsuruta.

Apropriadamente batizada de Ringu Zero – conhecida nos EUA como Ringu Birthday -, esta nova (e até agora última) aventura no universo de Ringu conta uma história que se passa 30 anos antes dos acontecimentos mostrados nos dois primeiros filmes. Sadako é apresentada não como uma entidade do mal, mas sim como uma adolescente normal (interpretada por Yukie Nakama), que não entende seus misteriosos poderes. O filme está mais para drama do que para horror, embora envolva uma trama paralela sobre mortes assombrosas e magia.

SequenciasRingu-1

Como o filme traça uma verdadeira biografia da jovem Sadako, muita gente comparou o ato de assistir Ringu Zero a ler o diário de uma inimiga mortal e descobrir que ela não é muito diferente de nós mesmos.

O REMAKE DESCONHECIDO

Nem Gore Verbinski, nem o estúdio Dreamworks foram os primeiros a refilmar o Ringu original. Na verdade, a primeira refilmagem do surpreendente Ringu foi feita e lançada já no ano anterior ao original, em 1999, numa produção conjunta entre duas produtoras, uma japonesa, outra coreana. O remake, para não confundir o público oriental (afinal, na época, acabava de sair Rasen, a continuação não-oficial de Ringu), foi batizado como Ringu Virus.

Fãs da série consideram Ringu Virus um filme tão bom quanto o original. Apesar da maioria dos detalhes serem iguais, este remake dirigido e roteirizado pelo coreano Kim Dong-Bin é mais fiel ao livro de Kôji Suzuki do que o Ringu dirigido em 1998 por Hideo Nakata.

Isso aconteceu porque Nakata, espertamente, resolveu contar a história ao seu modo, utilizando apenas os elementos principais do livro. A história é praticamente a mesma: uma jornalista chamada Sun-Ju (Shin Eun-Kyung) investiga a misteriosa lenda de uma fita de vídeo maldita depois que sua sobrinha morre junto com três amigos, todos no mesmo dia. Ela se une ao neurocirurgião Choe Yol (Chong Chin-yong), que fez a autópsia nos corpos dos jovens mortos e acredita haver algo sobrenatural no caso.

O restante da história segue praticamente da mesma forma que Ringu. Uma das principais diferenças é que Sadako agora foi rebatizada como Eun-Suh, e a menina é estuprada antes de ser atirada no poço. Há outras pequenas diferenças, todas relativas ao romance original, mas elementos de Ringu também são aproveitados. O remake ficou com 105 minutos, seis a mais que o original.

Alguns anos depois, em 2002, era a vez dos americanos aproveitarem a onda Ringu lançando a refilmagem The Ring, desta vez mais baseada no filme do que no livro. Todas as situações básicas foram mantidas, mas a história por trás da origem da fita foi totalmente mudada para o mundo ocidental, envolvendo um rancho de cavalos e parapsicologia. Prefira Ringu: de alguma forma, a história parece perder boa parte do seu encanto quando muda do Japão para os Estados Unidos…

OS LIVROS

Kôji Sizuki lançou quatro livros baseados no universo de Ringu. Como vivemos num país de Terceiro Mundo, nenhum deles foi lançado por aqui.

O primeiro livro, que deu origem ao filme japonês de 1998, foi lançado sete anos antes, em 1991. Trata-se da história do repórter Kazuyuki Asakawa (isso mesmo, homem, e não mulher, como na adaptação para o cinema), cuja sobrinha morre em circunstâncias misteriosas. Ele descobre uma misteriosa lenda urbana sobre uma fita VHS que mata quem a assiste após sete dias. A maior diferença do livro para o filme, além do personagem principal masculino, é que não existe a famosa cena de Sadako saindo da TV para matar.

Nas páginas do livro de Suzuki, o espírito de Sadako pode sair de qualquer superfície reflexiva – não só da tela da TV, mas também do espelho retrovisor de um automóvel ou do capacete de um motociclista.
Isso explica um dos grandes furos do filme original, onde alguns dos jovens amaldiçoados morrem muito longe de um aparelho de TV (um estava dirigindo uma moto, outros dois estavam trancados dentro de um carro parado). O diretor de Ringu, Hideo Nakata, confidenciou em entrevistas que colocou a cena de Sadako saindo da tela da TV em homenagem a um de seus filmes preferidos, Videodrome, do canadense David Cronenberg.

A saga de Ringu continua no segundo livro Spiral, também conhecido como Rasen, que foi lançado em 1995 e adaptado para o cinema também em 1998 – naquela que acabou virando uma continuação bastarda ao ser renegada pela produtora. No enredo do livro, o patologista Mitsuo Andou faz a autópsia no corpo de um amigo dos tempos do colégio, Ryuji Takayama – morto no final do Ringu original – e encontra uma mensagem em código no interior do seu cadáver.

Ao lado do colega Miyashita, o médico tenta descobrir a verdade sobre a fita amaldiçoada, através de um relato deixada pelo sobrevivente da história original.

É aqui que surge a ideia de que a vingança de Sadako se daria por meio de um vírus desconhecido, que infecta todas as pessoas que assistem à fita, ficando incubado e matando seu hospedeiro em sete dias. Mas a história ainda reserva várias surpresas, como o suposto renascimento de Sadako.

SequenciasRingu-2

Em 1998, enquanto Hideo Nakata começava a filmar seu primeiro livro, Suzuki lançava a terceiro obra do universo Ringu, chamado Loop. Agora a história envolve um jovem estudante de Medicina chamado Kaoru Futami, cujo pai e namorada morrem após contrair uma espécie desconhecida de câncer. Kaoru ouve boatos de que o vírus teria relação com um projeto ultrasecreto de guerra bacteriológica desenvolvido nos Estados Unidos, e assim começa a investigar.

O incrível de Loop é como o escritor consegue pegar elementos de Ringu e Rasen e escrever uma nova história, com um rumo totalmente diferente, embora contenha detalhes relacionados nas duas histórias anteriores. Este ainda não foi adaptado para o cinema.

Finalmente, em 1999, aproveitando a fama do filme Ringu, baseado no primeiro livro da série, Suzuki lançou a quarta (e até agora última) história baseada em seu universo, chamada simplesmente The Birthday. Surpreendendo os leitores que esperavam uma continuação da aventura anterior, o autor preferiu escrever um livro com três contos, dando mais desdobramentos na história de Sadako, do seu vírus da vingança e da lenda da fita amaldiçoada. O primeiro conto, chamado Floating Coffin, continua a história da investigação de Mai Takano no livro Rasen (o segundo da série); em seguida vem Lemonheart, conto sobre a juventude de Sadako, adaptado no ano seguinte (2000) para o cinema, em Ringu Zero, cujo roteiro teve uma mão do próprio autor Suzuki. Para o fim ficou o conto Happy Birthday, uma continuação dos eventos mostrados no último livro, Loop.

The Birthday foi o último livro de Kôji Suzuki situado no universo de Ringu. Por enquanto…

(Visited 276 times, 1 visits today)
Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

4 comentários em “As Sequências e Remakes de Ringu

  • 18/02/2018 em 04:34
    Permalink

    Bom texto. Não sabia dessas informações. Esses dias conferi os 6 filmes antigos (os 5 japoneses e o sul-coreano). Apesar de achar os filmes medianos, a história me interessou muito. Gostei mais dos dois lançados em 98 (Ringu e Rasen). Fiquei com vontade de ler os livros, mas… né rs

    Resposta
  • 02/11/2016 em 20:51
    Permalink

    Valeu pelas informações, muito legal o artigo!

    Resposta
  • 12/04/2015 em 00:47
    Permalink

    Caro Felipe M. Guerra, você fez uma ótima análise sobre continuações e remakes, mas, algumas informações estão um tanto falhas: a Sadako feita por Yukie Nakama foi do Ringu 0 apenas, já a “Rie Ino”, a Sadako dos primeiros dois filmes do chamado (oficiais), Hinako Saeki foi Sadako em “Rasen/Spiral”, teve a Ayane Miura (Ringu: Kazenban, de 1995, filme feito rpa TV antes do RINGU mesmo), teve a Sadako de Tae Kimura (Ringu: The Final Chapter, Rasen (Séries de TV)), e atualmente temos a Ai Hashimoto (Sadako 3D,Sadako 3D 2). ^^

    Resposta
  • 12/01/2014 em 17:45
    Permalink

    Tenho os 3 exemplares do Oriental…, muito bom por sinal!
    Claro, que a versão americana, tem seus bons momentos, mas, nada que não chega aos pés da Asiática. Muita gente torce o nariz, mas, com certeza, são, por definição, 1000x melhores que a dos AMERICANOS.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien