Viagem Maldita X Quadrilha de Sádicos

Viagem Maldita (2006)

Dois filmes, duas épocas: Viagem Maldita é uma refilmagem contemporânea do clássico setentista Quadrilha de Sádicos, de Wes Craven, lançado em 1977. Remakes viraram uma febre (ou seria praga?) da recente produção cinematográfica americana, e a lista de obras modernas que tentaram dar um novo verniz a produções clássicas e/ou conhecidas do passado é interminável (de O Massacre da Serra Elétrica até A Profecia). Neste cenário, Viagem Maldita pode ser erroneamente comparado com uma refilmagem quadro a quadro do original. E muitas vezes parece exatamente isso, com algumas pequenas e bem-vindas alterações, mas basicamente mantendo a mesma estrutura de personagens e de roteiro. O interessante é que, mesmo sendo semelhante ao original, esta refilmagem representa perfeitamente como, em praticamente três décadas, pouco ou nada mudou.

Os tempos eram outros quando Craven filmou seu The Hills Have Eyes. Aliás, os anos 70 foram uma fonte inesgotável de ótimos, brutais e chocantes filmes de horror, baratos e cínicos, sérios e assustadores. Isso, dizem os entendidos em cinema, era um reflexo do fim da era do “paz e amor” dos hippies, um reflexo da desesperança dos cineastas americanos pelo seu próprio “american way of life“, uma espécie de resposta ensanguentada em celuloide para os sacos de cadáveres que voltavam do Vietnã, trazendo os corpos dos adolescentes mortos numa guerra medíocre; e tinha ainda a sujeira dos governantes (Caso Watergate, lembram?), os conflitos raciais, a crise de energia, a Guerra Fria… Como eu escrevi na minha crítica sobre Quadrilha de Sádicos, poucas vezes os filmes de horror foram tão assustadores quanto naquela década, pois nos anos 70 eles deixaram um pouco de lado os fantasmas e casas mal-assombradas para enfocar os horrores mais humanos – neste sentido, até os zumbis de Dawn of the Dead, de George A. Romero, assumiram uma postura crítica em relação à sociedade americana consumista e desprovida de sentimentos.

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O que mudou 30 anos depois, quando o francês Alexandre Aja comandou seu remake rebatizado Viagem Maldita (argh!) no Brasil? Pouco ou nada: os Estados Unidos continuam recebendo seus jovens despedaçados em sacos de cadáveres (só mudou o país, do Vietnã para o Iraque); a desesperança em relação aos políticos está ainda mais acentuada, os conflitos raciais continuam e sofreram um upgrade pós-11 de setembro (imagine quem é árabe vivendo nos EUA nos dias atuais…), e por aí vai. Se o mundo mudou, foi para pior. Sendo assim, não havia o que mudar em Quadrilha de Sádicos: nesta nova versão, os personagens podem até ter carros mais modernos (com sistema de localização por GPS), roupas mais modernas e formas mais modernas de comunicação (como telefones celulares). Mas, destituídos de todas estas modernidades, e de outros elementos diretamente ligados à “civilização“, os personagens do “novoThe Hills Have Eyes tornam-se tão selvagens quanto os do “velhoThe Hills Have Eyes, se não mais. Logo, o mundo mudou, mas o ser humano não. Acredite ou não, Viagem Maldita continua tão plausível no nosso “mundo moderno” quanto era lá atrás, nos anos 70.

Eu confesso que recebi a notícia de um remake de Quadrilha de Sádicos com certo ceticismo. Não que o original de Wes Craven esteja entre os meus filmes preferidos – embora eu goste muito, não incluo entre os meus clássicos de estimação. No Orkut, chamei o remake de “um atraso“, principalmente porque Quadrilha de Sádicos já havia inspirado dezenas de outras produções, de Canibal (um slasher obscuro dos anos 80) aos recentes Detour – Rota 666 e Pânico na Floresta. Para a nova geração, um remake da obra de Craven poderia até ser considerado mais uma cópia sem novidades do que vem sendo feito nos últimos anos. Só fiquei mais tranquilo ao ver o nome do francês Alexandre Aja, responsável pelo fantástico Alta Tensão (Haute Tension), no comando dessa refilmagem. Como o jovem diretor mostrou que entende de criar tensão e suspense em seu trabalho anterior, fiquei imaginando o que ele faria com Quadrilha de Sádicos, que era, basicamente, um filme tenso, mas não exatamente violento – até porque a violência do trabalho de Craven envelheceu mal, e perde feio para seu trabalho mais famoso e brutal, Last House on the Left, de 1972.

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Para a minha surpresa, Aja, um jovem parisiense só um ano mais velho que eu conseguiu não apenas atingir novos níveis de tensão e de suspense, mas também quintuplicar a violência do original. Viagem Maldita é um banho de sangue, com cenas que farão a “geração-Pânico” se mijar de medo nos cinemas. Se o roteiro não tem novidades, a execução da proposta (e a execução dos personagens, hehehehe) é brilhante, comprovando porque Alexandre Aja é um dos nomes mais promissores da nova geração.

O remake começa com uma introdução inexistente no original. Letreiros informam que o deserto do Novo México foi o cenário de diversos testes nucleares realizados pelo governo americano entre 1945 e 1962, e que o próprio governo negava supostas mutações genéticas provocadas pela radiatividade. Em seguida, acompanhamos três técnicos, com roupas anti-radiação, realizando testes e medições de radiação numa área do deserto. A operação é interrompida quando um rapaz ensanguentado aparece gritando por ajuda; mas, antes que o trio possa ter qualquer reação, uma criatura que vemos apenas de relance massacra os três usando uma pontiaguda picareta – e o filme pega pesado desde o início, mostrando desde crânios atravessados até um sujeito que fica cravado na picareta e é erguido do solo, sendo arremessado em direção aos rochedos quase como um martelo humano! Terminado o “serviço“, o misterioso agressor sai de caminhonete, arrastando os quatro cadáveres mutilados amarrados no pára-choque do veículo! Somente mais tarde descobriremos que o assassino é Pluto, um dos mutantes canibais do clã que vive escondido naquele deserto. No original, para quem não lembra, Pluto ganhou a carranca de Michael Berryman, um ator naturalmente feioso; nesta nova versão, é interpretado por Michael Bailey Smith, coberto por uma pesada maquiagem.

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Nos moldes de outro remake, Madrugada dos Mortos, os créditos iniciais de Viagem Maldita são uma colagem fantástica de imagens chocantes com uma música country lenta (não, desta vez não é Johnny Cash, mas sim Webb Pierce e sua “More and More“, onde canta: “Mais e mais nós esquecemos sobre o passado…“). Ao lado de imagens reais de documentários sobre testes nucleares, mostrando os efeitos explosivos da bomba atômica (lembrando também Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick), os créditos enfileiram fotos, reais e forjadas, de defeitos de nascença gerados não pela radiação, mas pelo uso de armas químicas (no caso, o Agente Laranja despejado pelos americanos durante a Guerra do Vietnã).

Quando a história recomeça, o filme segue fielmente a trama de Quadrilha de Sádicos, do início até praticamente o fim. Um posto de gasolina vagabundo encravado no meio do deserto, gerenciado por um suspeito frentista (Tom Bower), é o pivô de todo o horror que se abaterá sobre os Carter, uma típica família americana de classe média que está cruzando os Estados Unidos de trailer, de San Diego para a Califórnia, comemorando o aniversário de casamento do patriarca, Big Bob (Ted Levine, que interpretou o psicopata Buffalo Bill em O Silêncio dos Inocentes), e sua esposa Ethel (Kathleen Quinlan, uma envelhecida musa dos anos 80). No carro e num trailer viajam os três filhos do casal, Bobby (Dan Byrd, de… cof, cof!, Mortuária), a bonita e chatinha Brenda (Emile de Ravin, da série Lost) e a mais velha, Lynn (Vinessa Shaw, que trabalhou com Kubrick em De Olhos Bem Fechados). Esta última está acompanhada do marido banana, Doug (Aaron Stanford, o Pyro da série X-Men, irreconhecível), e da filha bebê Catherine (Maisie Camilleri Preziosi). Ah sim: não dá para esquecer dos dois cachorros, chamados Beauty e Beast (Bela e Fera).

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Como no original, Big Bob é um detetive da polícia aposentado, durão, casca-grossa e daquele tipo bem mandão com a esposa e a garotada. Os filhos não estão lá muito contentes em fazer a viagem de trailer, já que de avião seria muito mais rápido e não precisariam aguentar os “pavorosos” momentos em família, como pai cantando ao volante! No outro extremo, Doug é exatamente o oposto de Big Bob: um vendedor de celulares pacato, pau-mandado da esposa e humilhado em tempo integral pelo sogro. A parada da família no posto de gasolina assinala o triste destino do clã Carter, já que o frentista é cúmplice da Quadrilha de Sádicos (hehehehe) que vive no deserto, um grupo de mutantes e canibais gerados pelos testes nucleares na área. O modus operandi dos bandidos é sempre o mesmo: o frentista indica aos visitantes de passagem um suposto atalho pelo meio do deserto, na verdade uma armadilha, e os monstrengos atacam os viajantes, saqueando seus itens mais valiosos para o frentista, enquanto a carne dos cadáveres vira almoço para a turma. Escabroso, não?

E é claro que os Carter logo se tornam as próximas vítimas, quando Big Bob resolve tomar o tal atalho sem desconfiar de nada. O carro da família sofre um acidente, provocado por pontas de metal colocadas providencialmente no meio do caminho, bate num rochedo com os quatro pneus furados e fica fora de ação. Perdidos no meio do deserto, onde os celulares estão sem sinal e onde o rádio-amador do trailer não funciona, os pobres turistas se vêem obrigados a buscar ajuda. Big Bob decide caminhar de volta até o posto de gasolina e utilizar o carro do frentista para chamar um guincho; ao mesmo tempo, manda Doug caminhar para o outro lado da estrada, em busca de alguma casa ou fazenda. O patriarca ainda deixa o pequeno Bobby como responsável pelas mulheres da família, dando-lhe um revólver em mãos para “defender o trailer“. E, após uma reza em conjunto, os dois “homens” da família (Big Bob e Doug) seguem o seu caminho, deixando a área livre para o ataque das monstruosas aberrações que vivem nas colinas…

Numa cena inexistente no original, Doug caminha quilômetros até chegar no fim do “atalho“: uma enorme cratera repleta de carros e caminhonetes de diversos modelos e épocas, repletas de ferrugem e marcas de sangue; num plano fantástico, a câmera de Aja sobrevoa o local, mostrando a extensão do “cemitério de veículos” e o tamanho da encrenca em que a família está metida – no caso, a vastidão daquele maldito deserto. O resto é igualzinho ao filme de Craven. Um dos cães, Beauty, foge do trailer e vai para as colinas, sendo seguido por Bobby; quando o pirralho encontra o cachorro, ele está com o bucho aberto (embora Aja não utilize uma carcaça verdadeira de animal com as tripas de fora, como Craven fez em Quadrilha de Sádicos). Atordoado, na tentativa de voltar ao trailer, o garoto tropeça, cai e perde os sentidos, sendo observado por uma misteriosa figura que veste uma jaqueta vermelha com capuz – e que é Ruby (Laura Ortiz ), uma das integrantes do clã de mutantes, que, exatamente como sua contraparte no filme original, não está nem um pouco satisfeita com a vida no deserto e tenta mudar o cardápio de carne humana, pois, que meigo, tem dó das pobres pessoas normais…

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Enquanto isso, o machão Big Bob chega ao posto de gasolina somente para descobrir que o frentista não era tão santo quanto parecia: no escritório do sujeito, além de dinheiro, cartões de crédito e aparelhos eletro-eletrônicos roubados dos outros turistas atacados pelos canibais, o policial aposentado encontra até uma orelha ensanguentada dentro de uma embalagem de hamburger. Arrependido de seus crimes (sabe-se lá porque), o frentista está bêbado e se lamentando no banheiro do lado de fora do posto. Antes de explodir os miolos com um tiro de escopeta, ele balbucia coisas sem sentido, do tipo “Você não entende o que está acontecendo por aqui… As crianças cresceram como animais selvagens… Eu fiz o melhor que pude!“. Mal o frentista se suicida, e Big Bob começa a ouvir estranhos ruídos nas proximidade. “Papai, papai!“, chama uma voz sinistra, e antes que o patriarca dos Carter consiga se defender, ele é agarrado pelo famoso Papai Júpiter (Billy Drago, o rei dos canastrões e eterno vilão de filmes B, que aqui infelizmente aparece pouco).

Nesta altura do campeonato, já estamos no final do primeiro ato de Viagem Maldita. Doug e Bobby voltam ao trailer, mas o garoto, para não preocupar a mãe e as irmãs, decide não contar nada sobre o cachorro estripado nas colinas. É um erro mortal, pois logo os canibais do deserto darão sua última cartada, atraindo a atenção da família de uma forma horrenda (ainda mais violenta que a encenada no filme de 1977) para poder invadir o trailer, estuprar, matar e sequestrar a pequena Catherine. Humilhados, feridos e horrorizados com tamanha covardia, os sobreviventes da família resolvem se reagrupar, primeiro para se defender, e em seguida para dar o troco. E então, como no filme de Craven, os civilizados se tornam tão bárbaros, cruéis e sanguinários quanto os selvagens.

Mais até do que no original, Viagem Maldita enfoca de maneira bem clara a transformação daquelas pessoas pacíficas em assassinos frios, principalmente através do personagem Doug; durante todo o primeiro ato, ele é apresentado como um almofadinha que mal consegue discutir com a esposa Lynn e com o sogro; um capacho, em resumo. Odeia armas e violência (“Doug é democrata, ele não acredita em armas“, alfineta Big Bob); porém, quando vê sua família agredida e sua pequena filha raptada, Doug se transforma numa autêntica máquina de matar, tão sádica quanto os vilões. E isso fica evidente na cena em que ele ataca um dos mutantes, de surpresa, com um machado: não contente em torcer a lâmina nas costas do vilão, ao vê-lo caído Doug ainda pensa, por alguns rápidos segundos, na forma mais cruel para exterminá-lo, enfiando a face pontiaguda da lâmina diretamente no olho do infeliz! Ao trocar o golpe certeiro de machado por uma solução mais brutal e “criativa“, não estaria o “herói” descendo ao nível sanguinário dos “vilões“?

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Aja aproveita esta transformação para tecer uma ferrenha crítica à sociedade norte-americana atual, crítica esta que nem sempre cai bem na proposta do filme. Em uma cena, por exemplo, uma bandeira dos Estados Unidos é utilizada com propósitos sangrentos (alguns críticos desavisados acharam que era uma postura patriótica do roteiro, quando na verdade é exatamente uma crítica!). Além disso, Aja apresenta a família de mutantes sanguinários como uma típica família americana, que vive numa velha cidade-fantasma projetada para os testes nucleares dos anos 50, com suas casas suburbanas repletas de manequins sorridentes. No auge da crítica à francesa de Aja, um dos mutantes, imobilizado numa cadeira-de-rodas com seu crânio absurdamente gigantesco, canta o hino nacional americano enquanto tenta justificar a violência dos seus semelhantes: “Vocês mandaram suas bombas e nos transformaram naquilo que somos!“. Evidentemente, este verniz “político” fica em segundo plano, e é uma pena que certos críticos influentes tenham se perdido ao levar em conta apenas tais aspectos do filme, sem analisar devidamente o resto – afinal, ainda estamos vendo uma história de horror, e não uma folheto de propaganda política.

A verdade é que, como filme de horror escancaradamente tenso e sangrento, Viagem Maldita é uma das melhores produções dos últimos anos; neste ano em particular, disputa o posto com O Albergue, de Eli Roth, e dificilmente alguma outra produção bancada por um grande estúdio vá tirar o lugar destes dois no ranking. Seguindo na linha de violência explícita e exagerada que Aja já havia adotado em Alta Tensão (recentemente lançado nas locadoras brasileiras, mas inédito nos nossos cinemas), Viagem Maldita começa devagar para logo atirar-se num interminável pesadelo sangrento. A cena do ataque ao trailer, que já era sanguinolenta no original de Craven, ficou mais longa e gráfica; já a resposta dos Carter contra seus agressores é o ponto alto da matança e da sangreira, com Doug assumindo uma postura heróica (inexistente em Quadrilha de Sádicos) e despachando violentamente vários dos canibais.

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Lembro de uma resenha histórica do Quadrilha de Sádicos original, publicada naqueles velhos guias de vídeo da Nova Cultural, onde o crítico dizia que os atores do filme de Craven pareciam estar realmente sentindo medo nas cenas de suspense e violência. A mesma observação pode ser tranquilamente aplicada a Viagem Maldita: apesar de contar com alguns atores bem meia-boca, que a princípio parece que vão servir apenas de enfeite (como a australiana Emile de Ravin), quando o bicho pega todo mundo surpreende pelo nível de realismo das situações e interpretações, sem fazer feio em comparação ao original. Não duvido, inclusive, que os atores tenham saído realmente machucados ou arranhados de algumas cenas mais pesadas, como o ataque ao trailer ou o momento em que Doug toma uma surra daquelas de Pluto, sendo arremessado, como um boneco de pano, contra paredes, portas e janelas. Também contribui para a atmosfera de realismo o fato de Aja nunca “limpar” os seus personagens: quando eles começam a se sujar de sangue, ficam repletos de sangue seco e coagulado até o final, diferente do que normalmente acontece nos filmes do gênero – em que os heróis sempre encontram um tempinho para se limpar. A degradação física e psicológica de Doug, por exemplo, fica muito mais realista no momento que vemos aquele sujeito pacato ser cada vez mais banhado em sangue – o seu próprio e o dos outros -, até terminar praticamente tingido de vermelho, dos pés à cabeça. A maquiagem e os efeitos especiais ficaram a cargo da KNB, a empresa dos mestres Greg Nicotero (que faz uma ponta como um dos mutantes) e Howard Berger, o que já dá uma bela ideia do que esperar…

Como acontecia no filme de Craven, Viagem Maldita também se beneficia do fantástico cenário no deserto, quase um personagem à parte. As cenas foram feitas não no Deserto de Mojave, na Califórnia, onde o original de 77 foi filmado, mas sim em Marrocos (!!!), onde o sol causticante incomodou atores e equipe técnica. Em compensação, temos belíssimos planos gerais que dão uma ideia da terrível situação em que os personagens se encontram, perdidos no meio do nada, no que parece ser uma paisagem infinita de areia e desolação. Isso contribui para ressaltar a ideia de que, retirados violentamente da sua amada civilização (dos telefones, das delegacias de polícia, etc.), os personagens centrais se vêem obrigados a regredir a um estado quase primitivo, à altura de seus algozes. Ninguém vai ajudá-los no meio daquele deserto; eles mesmos terão que resolver a situação. Vale ressaltar, ainda, a participação marcante do cachorro Beast, que, como no original, manifesta um desejo de vingança tão intenso quando o dos protagonistas, matando ele próprio alguns dos mutantes.

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Fã declarado do cinema de horror em geral, Alexandre Aja usa a receita certa para fazer deste remake uma produção memorável, mesmo que não-original. A trilha sonora, por exemplo, nunca se rende a pseudo-sucessos do hard rock moderninho para tentar atrair o público jovem; na verdade, na maior parte, a música é tensa, irritante, composta por alguns poucos sons abafados com acordes mais graves, acentuando a atmosfera de horror e de ameaça iminente. Aja também consegue incluir o que parecem referências explícitas a Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg (no fato de Ruby perambular pelo cenário com um capuz vermelho); Sob o Domínio do Medo, de Sam Peckinpah (na transformação do pacífico Doug em máquina de matar); e até uma auto-citação a Alta Tensão (quando um cadáver que não está “bem morto” acorda e respira fundo, dando um susto no personagem que se aproxima e no próprio espectador). Repare, ainda, numa cena muito, mas muito parecida com Amor à Queima-Roupa, de Tony Scott (roteiro de Quentin Tarantino, para quem não sabe), quando um ensanguentado Doug está de joelhos e “ameaça” Pluto com uma chave-de-fenda (lembrando a ensanguentada Patricia Arquette de joelhos e “ameaçandoJames Gandolfini com um saca-rolhas no filme de Scott; até mesmo a forma como a cena se conclui é idêntica!). Tudo bem que Aja às vezes se rende a certos vícios de linguagem modernetes (câmera acelerada) e outros típicos do cinema de horror americano atual (como os sustos falsos e vultos que passam em primeiro plano na frente da câmera, seguidos de uma explosão da trilha sonora). Mas não é nada que comprometa este jovem talento, certamente um nome a acompanhar em meio a dezenas de videoclipeiros medíocres que surgiram nos últimos anos.

Por seguir fielmente o roteiro original de Wes Craven (reescrito por Aja e por Grégory Levasseur, parceiros também em Alta Tensão), Viagem Maldita pode até não ser tão surpreendente para quem já conhece o original – a ordem dos acontecimentos é idêntica e os mesmos personagens morrem, com uma pequena mudança na conclusão. Mesmo assim, por atualizar os níveis de tensão e violência gráfica, e por não render-se nunca às soluções fáceis dos remakes feitos recentemente, Viagem Maldita ganha muitos pontos, melhorando o que já era bom e, em muitos pontos, tornando-se bastante superior ao original (veja mais no texto seguinte). Arrisco-me até a dizer que supera, com folga, Quadrilha de Sádicos, entrando com louvor naquele panteão selecionadíssimo de refilmagens que conseguem ser melhores que os originais (onde também figuram A Bolha Assassina, O Enigma de Outro Mundo, A MOSCA e alguns outros). O próprio Craven sentiu orgulho do remake, que mantém o clima sujo e rústico da obra de 1977, sem tentar atenuar a história grosseira e sua conclusão completamente amoral. Curto e grosso, é um filme pra macho, que muita gente vai odiar justamente pelos seus excessos.

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Mas o ideal é ver o quanto antes Viagem Maldita. E que ele se torne um referencial para o cinema de horror do século 21: ou os novos diretores fazem filmes mais sujos, mais sangrentos e absurdamente mais violentos e mais sádicos como o de Alexandre Aja, ou que abandonem de vez seus empregos para dirigir comédias românticas! Não há mais espaço para “filmes frescos” depois de um Viagem Maldita

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

7 comentários em “Viagem Maldita X Quadrilha de Sádicos

  • 23/09/2014 em 16:58
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    Last House on the Left pode até ser o filme mais brutal que o Craven já dirigiu, mas está longe de ser seu trabalho mais famoso como o sempre exagerado Felipe Guerra afirma no texto.

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  • 22/09/2014 em 23:27
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    Discordo radicalmente do Felipe quando diz que The Hills Have Eyes e Hostel foram os 2 maiores filmes de horror lançados por aqui no ano de 2006! São dois ótimos filmes, com certeza, mas The Descent foi inquestionavelmente a maior produção do gênero lançada naquele ano.

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  • 14/09/2014 em 16:05
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    Realmente The Hills Have Eyes é o único filme que o remake é bem melhor que o original. Um dos meus filmes favoritos com certeza.

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  • 26/07/2014 em 06:54
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    Apesar de ser um remake de um classico e tao bom quanto.

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  • 13/03/2014 em 17:36
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    apesar do primeiro ser ótimo,o remake supera.

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  • 09/03/2014 em 15:59
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    Show de bola amo Viagem Maldita!!!!!!!!

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