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Banquete de Sangue: Os 50 anos de um marco do gore e do exploitation!

Quando imaginou no que poderia chamar a atenção, a primeira resposta veio quase instantaneamente: muito derramamento de sangue!

Banquete de Sangue (1963)

Antes de A Serbian Film… Antes de A Centopéia Humana… Antes de O Albergue… Antes de Evil Dead… Antes de Holocausto Canibal… Antes de A Noite dos Mortos Vivos… Enfim, antes de tudo o que tinha potencial de choque no que era exibido em película e telas grandes havia um cineasta chamado Herschell Gordon Lewis. Suas criações sangrentas que abriram portas para que o chamado cinema de drive-in, gore e o exploitation americano ganhasse asas, lucratividade, e com isto estimulasse a criatividade de centenas de cineastas e os pesadelos de milhares de espectadores.

E este artigo tem o objetivo de comemoramos juntos o jubileu de ouro do primeiro e mais notório filme de H.G. Lewis, Blood Feast (ou Banquete de Sangue no Brasil), que completou 50 anos em 2013 envelhecendo muito mal, contudo não pode deixar de se fazer notar por sua simplicidade e total falta de pudor numa época em que liberação sexual, assassinatos brutais e o mundo cão eram temas muito afastados do cotidiano dos americanos do início dos anos 60.

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Para entender um pouco mais sobre o mundo cinematográfico pré-Banquete de Sangue, recomendo a leitura da série de artigos Um Pesadelo Americano – A História do Exploitation, mas, resumidamente, nos anos 60 os Estados Unidos estavam emergindo de um período pós-segunda Guerra Mundial e prestes a cair em outra, a Guerra do Vietnã (mais ou menos em 1965) e ainda por cima a Guerra Fria começa a tomar forma e cores. Eram tempos tensos, a televisão começava a manter todos atualizados em tempo real, e no meio de tudo as famílias estavam se esforçando em manter o status quo mesmo com a paranoia atômica e os problemas econômicos… Tudo isto somado com a própria cultura careta da época, chegamos à conclusão de que as pessoas não estavam preparadas para serem chocadas em algo que se tratava de puro entretenimento, que era os cinemas e os populares Drive-ins. Com raras exceções, o horror de baixo orçamento da época era pouco ousado e podia se resumir a monstros gigantes e criaturas sobrenaturais inofensivas.

Antes de Banquete de Sangue, H.G. Lewis já era cineasta e já havia dirigido filmes de baixo orçamento, contudo eram típicos exploitations da época pré-horror: Os “nuddie cutties“, precursores dos sexploitations mais atrevidos dos anos 70, que são em sua maioria pseudo-documentários sobre campos de nudismo escritos especificamente para colocar alguns pares de seios na tela – era o material que tinha de mais respeitável para masturbação masculina antes da explosão do erotismo e da pornografia.

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Todavia é fato de que o gosto pelo mórbido sempre foi uma característica inerente à espécie humana e, de certa forma, foi nisto que Herschell Gordon Lewis pensou para criar Blood Feast. Quando imaginou no que poderia chamar a atenção, a primeira resposta veio quase instantaneamente: muito derramamento de sangue. Em suma, o famoso falem mal, mas falem de mim.

O filme anterior do diretor que serviu de avant-premiere para Banquete de Sangue foi Scum of the Earth (1963), rodado em associação com o produtor David Friedman, que conta a história de um grupo de pornógrafos que aterrorizam uma jovem com fotos escandalosas. Uma cena em particular, em que um dos personagens comete suicídio com um tiro na cabeça foi de importância vital para que o diretor percebesse que o impacto em cenas fortes é tão repugnante como atrativo, o que embrionariamente gerou Banquete de Sangue. Assim, foi rodado em cima de um roteiro de 15 páginas escrito por Allison Louise Downe (colaboradora frequente do diretor) baseado em história bolada pelo próprio Lewis, com um orçamento de menos de 25 mil dólares – o que o forçou a fazer uma série de concessões econômicas – e tudo em apenas uma semana. Lewis e Friedman sabiam que estavam fazendo algo diferente, porém jamais previram em seus sonhos mais otimistas que estavam virando uma página na história do cinema de horror.

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A trama é muito simples e a cena de abertura já dá o tom do restante da produção: uma mulher chega em casa, liga o rádio e é ouve um boletim de notícias (na voz do próprio diretor) em que um maníaco misógino está à solta, recomendando que não saiam de casa à noite. Sem dar muita bola, ela vai para um relaxante banho de banheira, mas é surpreendida e tem o olho arrancado a faca por um assassino grisalho com olhos penetrantes. Já morta, a mulher ainda tem a perna arrancada a golpes de facão. Tudo (ou quase tudo) mostrado sem pudor.

Entram os créditos iniciais e a música tosquíssima – composta por H.G. Lewis – que nos fará companhia por todo o tempo de projeção. Uma marcha com órgão, surdo e trompa que segundo o diretor levou três vezes mais tempo para ser finalizada que as filmagens. Voltando ao filme somos conduzidos ao departamento de investigação onde o chefe de polícia (Scott H. Hall), atordoado com o novo assassinato, pede prioridade ao seu detetive mais ilustre, Pete Thornton (William Kerwin) para resolver o caso.

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Mal sabe ele que o responsável por isto é alguém acima de qualquer suspeita! Já na próxima cena somos apresentados a Fuad Ramses (Mal Arnold), um comerciante especializado em grandes banquetes que é abordado por Dorothy Fremont (Lyn Bolton), que pretende organizar uma festa de aniversário para a filha Suzette (Connie Mason, que foi Playmate em 1963, o único motivo para sua escalação no elenco, segundo o diretor). A diferença é que este ano ela pretende algo especial, não só porque a filha merece, mas também por conta do ineditismo que causará inveja em todo seu círculo de amizades.

Fuad sugere então um banquete egípcio, de um tipo que não é feito há milhares de anos. A mulher adora a ideia, justamente porque (surpresa, surpresa!) a filha estuda culturas antigas na faculdade, o dá o sinal verde para o homem elaborar começar seu trabalho.

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Aos iniciados no horror – e pelo que vimos até aqui -, é obvio que no meio das muitas frases de duplo sentido do diálogo com a mulher o que ele quis dizer foi que irá fazer um banquete em homenagem à deusa Ishtar. E por banquete, leia-se várias preparações usando partes humanas e femininas que Fuad fará questão de coletar frescas de cada uma de suas próximas vítimas.

Com este ponto de partida não é preciso entregar mais nada, pois as coisas acontecem daqui para frente como esta introdução dá a entender: Fuad mata vitima após vitima, arrancando um pedaço de cada vez para compor seu banquete, para desespero do detetive Pete e seu capitão, sempre chegando atrasado aos eventos.

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No fim das contas, Pete (surpresa, surpresa!) é namorado da jovem aniversariante e até acompanha algumas aulas sobre civilizações antigas na faculdade com ela, o que dará uns bons lampejos para a investigação e será fundamental para que ele junte as peças rapidinho para impedir Fuad antes que ela mesma seja oferecida como sacrifício a Ishtar, quando o banquete de sangue estiver pronto.

Os curtos e velozes 66 minutos da peça apresentam atuações primárias (tanto que ninguém seguiu carreira depois da era do exploitation), uma história cheia de coincidências, erros de continuidade e buracos de roteiro. Como por exemplo no final do filme, quando temos um Fuad em fuga E MANCO, e ainda consegue correr mais que os policiais gozando de plena saúde.

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Com uma avaliação técnica tão ruim, Banquete de Sangue poderia passar como um suspense exploitation sessentista como tantos outros. Claro que para quem está no século 21 é mais difícil entender e pode achar uma tosqueira (que, pessoalmente dá um charme a mais a produção), contudo é preciso levar em consideração que a diferença é que nunca, nunca mesmo, o público na época foi exposto a tamanha quantidade de sangue e brutalidade gráfica. São visceras expostas, línguas e tripas arrancadas, toneladas de um sangue em vermelho vivo e quase brilhante, característico das demais películas do diretor. Claro que vistos hoje e sem a menor carga dramática e de tensão, é mais fácil rir do que se repugnar (embora algumas cenas ainda tenham seu impacto), porém, repito, os tempos eram outros e o ineditismo do que é visto obra começou um fluxo de violência como inspiração para tantos outros que lançaram seus respectivos filmes. Se nós realmente somos descendentes dos macacos, qualquer splatter film que preste tem em seu DNA esta obra de Herschell Gordon Lewis.

Banquete de Sangue teve sua première em 06 de julho de 1963 na cidade de Peoria, Illinois e fez sucesso, tanto sucesso que há uma lendária história de que Lewis e Friedman no sábado seguinte ao lançamento ficaram presos em um congestionamento na cidade. Putos da vida por um momento, acabaram descobrindo que o congestionamento foi provocado pela fila de carros querendo entrar no drive-in onde o filme estava sendo exibido… A fila chegou até a rodovia e a polícia estadual precisou ser chamada para organizar a bagunça no trânsito. O marketing também foi grande parte contribuinte do sucesso e a fim de vender mais ingressos, Friedman pediu a alguns exibidores distribuirem sacos de vômito personalizados aos que compraram ingressos, e, em Sarasota, Florida, Lewis e Friedman anonimamente pediram uma liminar para IMPEDIR e exibição do filme na cidade e assim chamar mais a atenção. Jogada de gênio!

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Evidentemente o êxito não veio graças à crítica… A conceituada revista Variety publicou um artigo em 06 de maio de 1964 detonando a produção do começo ao fim, “um insulto mesmo para as audiências mais pueris e devassas e um fiasco em todos os departamentos“… Em resposta Friedman escreveu em sua auto-biografia lançada em 1990, A Youth in Babylon: Confessions of a Trash-Film King, se perguntando: quem disse ao crítico da Variety que eles estavam se levando a sério ao fazer Blood Feast?

Em sua terra natal incrivelmente a MPAA nem se deu ao trabalho de colocar uma censura, porém os problemas acabaram exportados para a Inglaterra onde a produção se tornaria a mais antiga a figurar na lista de banidos pela BBFC, órgão de censura do país, no escândalo dos Video Nasties.

No Brasil a finada distribuidora Sunrise lançou o filme há muito tempo em VHS e sem nenhuma projeção de lançamento em um DVD nacional, o jeito é se contentar com o material importado, disponível em DVD e Blu-ray pela Something Weird Video com vários materiais extras, incluindo comentários em áudio bem humorados do diretor e do produtor David Friedman, falecido em 2011.

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Agora a pergunta final: se Blood Feast foi tão seminal e abriu as portas para o cinema extremo, ele continua relevante ainda hoje, cinquenta anos depois? A verdade é que sob os aspectos técnicos, Banquete de Sangue já não era um grande filme em sua época e envelheceu mal. Fato é que filmes posteriores de H. G. Lewis, como Maníacos ou The Wizard of Gore, são muito mais interessantes, tanto por conta do roteiro quanto pela qualidade e o orçamento empregado, porém é inegável que a trilha de sangue deixada por este pequeno exploitation quinquagenário contaminou e continua influenciando a incontáveis jovens cineastas que veem neste guilty pleasure um marco a ser reverenciado. Longa vida a Ishtar!

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