Herschell Gordon Lewis, o Padrinho do Gore!

Eu nunca fiquei surpreso como eu conseguia tirar tanto de orçamentos tão pequenos. Minhas regras eram absolutas: primeiramente, jamais filme um ensaio. Segundo, faça fazer, e terceiro, não termine o dia até ter filmado toda a agenda.

Como definir uma pessoa que trabalhou como um sério professor de inglês, um respeitadíssimo publicitário e acabou como um dos maiores provocadores de náuseas do cinema dos anos 60? Um lunático bipolar talvez, mas no caso de Herschell Gordon Lewis não se trata de sorte ou acidente, tudo o que ele construiu foi meticulosamente planejado.

Herschell Gordon Lewis

E na minha sincera opinião Lewis é, além de o criador de um subgênero que tantos adoram, os splatters movies, um diretor injustiçado. Um profissional que em seu tempo não conseguiu fazer a maioria dos críticos ver o valor da diversão de suas obras além dos excessos criativos ou das ausências de recursos, mas mesmo assim deixou um valioso legado cinematográfico para os futuros cineastas da época. Este artigo serve não apenas para fazer justiça ao mito, mas contar a interessante história de um dos grandes pioneiros renegados da sétima arte. Na síntese, quer ver um autêntico exploitation com bastante entretenimento? Pegue qualquer filme de H. G. Lewis, coloque para rodar e aproveite a viagem.

Herschell Gordon Lewis nasceu no dia 15 de junho de 1929 (embora algumas fontes afirmarem que ele nasceu em 1926) na cidade de Pittsburgh, estado da Pennsylvania.
Depois de completar seus estudos básicos, Lewis partiu para o curso de jornalismo na universidade de Northwestern, em Evanston, Illinois, chegando até a graduação de mestre para alguns anos depois se tornar um professor de literatura inglesa no colégio estadual do Mississippi.

Em mais uma troca de carreira, Lewis foi atraído por deixar seu emprego como professor e se tornar o gerente da radio WRAC na cidade de Racine, em Wiscosin, e logo em seguida passou para diretor de estúdio da WKY-TV, em Oklahoma.

Em 1953 ele finalmente firmou suas raízes em Chicago, onde começou a trabalhar para a agência de publicidade de um amigo, enquanto ensinava em um curso de graduação de publicidade durante a noite na universidade de Roosevelt. Ao mesmo tempo, começou a dirigir informes comerciais para uma empresa chamada Alexander and Associates, que Lewis compraria a metade junto com o sócio Martin Schmidhofer, trocando o nome da firma em seguida para Lewis e Martin Films.

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Avançando um pouco para 1960, Lewis decidiu entrar no negócio do cinema, produzindo e dirigindo no mesmo ano o filme The Prime Time, o qual financiou com dinheiro do próprio bolso. Como o retorno aconteceu, sua próxima produção foi Living Venus (1961), que ele próprio dirigiu, inspirado na história de Hugh Hefner e os primeiros anos da revista Playboy. Apesar de muito pouco conhecida, possui duas características marcantes nos próximos trabalhos de H.G. Lewis: a associação com o produtor parceiro e lenda do exploitation, David F. Friedman e os problemas com a censura.

Basicamente Living Venus é um exploitation soft-core com muita nudez, mas de um nível que o mainstream de Hollywood não estava acostumado e por isso a produção não pode ser exibida nos grandes cinemas por causa das rígidas leis de censura da época.

Por três anos, Friedman e Lewis se tornaram verdadeiros produtores mercenários para uma série de financiadores e donos de redes de cinema marginal que estavam procurando pessoas que pudessem deixar uma marca no campo do sexploitation. De acordo com Friedman – entre curtas, cenas e longas metragens – eles produziram mais de 30, porém destes apenas sete filmes ainda existem hoje e são reconhecidos como produções Friedman/Lewis. São eles: The Adventures of Lucky Pierre (1961), feito com menos de 8 mil dólares; três filmes de campo de nudismo – Daughter of the Sun (1962), Nature’s Playmates (1962), Goldilocks and the Three Bares (1963), este último talvez o único musical nudista da história; e três “dramédias” com pornografia soft-core, Boin-n-g (1963), Scum of the Earth (1963) e Bell, Bare and Beautiful (1963). A maioria destas produções foi rodada na Flórida.

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A partir daí a dupla passou a olhar por um ângulo diferente sobre os filmes nudistas que estava fazendo e – pensando no mercado saturado – veio com a ideia de atrair o público pelas tripas, enfatizando o sangue e a violência, em um mercado que virtualmente nenhum outro produtor havia explorado.

Para tanto os dois escreveram um roteiro de 15 páginas, chamaram o projeto de Blood Feast, e, com um orçamento de menos de 25 mil dólares, começaram as filmagens. A velocidade com que o filme tomou forma foi impressionante: Lewis começou um dia depois do final das filmagens de Bell, Bare and Beautiful e foi finalizado sete dias depois. Era o fim da fase sexploitation do diretor e o início da fama de pai do gore, apesar de Hershell jamais ter pensado que estaria ditando moda no cinema.

Lançado em julho de 1963, a produção seminal foi um sucesso imediato. A despeito do orçamento diminuto, ritmo lento, uma variedade de problemas técnicos e atuações horríveis, Lewis sabia como promover suas obras e a audiência pipocava nos cinemas de bairro e drive-ins, normalmente com a produção fazendo par em sessões duplas com outras bagaceiras do exploitation. Foi banido em várias partes do país pelo nível sem precedentes de violência e as assustadoras (para a época) cenas de assassinato, uma ação que aumentou drasticamente a demanda por produções da mesma espécie. Blood Feast foi lançado no Brasil em VHS pela extinta Sunrise Vídeo com o título Banquete de Sangue.

Banquete de Sangue (1963) (2)
Banquete de Sangue (1963)

Com os lucros deste filme, Lewis e Friedman voltam para a Flórida para rodar o segundo da trilogia de sangue do diretor, Two Thousand Maniacs! – lançado nacionalmente em VHS sob o título de Maníacos. O roteiro foi inspirado em Brigadoon, a lenda sobre uma cidade mágica que aparece uma vez por século. Na versão de Lewis/Friedman, a cidade fica no extremo sul dos Estados Unidos, é chamada de Pleasant Valley e aparece a cada 100 anos para fisgar alguns turistas do norte a fim de vingar os assassinatos cometidos pelas tropas da união durante a Guerra Civil.

As proporções da produção, apesar de ainda minúsculas, foram substancialmente maiores do que no filme anterior: um orçamento que foi quase o triplo de Blood Feast, um roteiro de 70 páginas e duas semanas de filmagens, além de melhores recursos técnicos. As reações quanto ao lançamento em março de 1964 foram as mesmas: fascinação com a história e repulsa pelo grafismo dos violentos assassinatos mostrados em todos os sórdidos detalhes e, tal como seu antecessor, fez um excelente caixa, sendo o pessoal favorito do próprio diretor.

Maníacos (1964)
Maníacos (1964)

Durante o inverno estadunidense de 1964, Lewis e Friedman fizeram o que seria sua última produção juntos, Color Me Blood Red (1965), que conta a história de um pintor que mata a fim de usar o sangue de suas vitimas como tinta para seus quadros. Logo após o término das filmagens, Friedman terminou sua associação com Lewis, dando como motivos problemas com a compensação financeira e conflitos de edição e produção.

Friedman se mandou para Hollywood pouco tempo depois para continuar seu trabalho por lá, deixando Lewis como produtor, roteirista e diretor por conta própria. Como se não fosse suficiente, Color Me Blood Red se mostrou uma produção mais reprimida, mais experimental e por isso não foi tão popular e lucrativo quanto os trabalhos anteriores do diretor.

Lewis continuou trabalhando e ainda em 1964 lançou o leve e contido Moonshine Mountain, rodado no estado da Carolina do Norte. No entanto, depois desta produção, a carreira do diretor começou a declinar. Usando os fundos de sua bem sucedida empresa de publicidade em Chicago, Lewis passou a vislumbrar novos mercados e rodou dois filmes infantis nesta época, Jimmy, the Boy Wonder (1966) e The Magic Land of Mother Goose (1967). Reza a lenda que os negativos foram perdidos e não existe mais nenhuma cópia, mas relatos de críticos na época afirmam que o primeiro é doloroso de assistir e o segundo é completamente descartável.

Ainda tentando encontrar uma nova sintonia em sua carreira no cinema, Lewis comprou alguns filmes não finalizados e os re-editou para lançamento. Um deles é o notório Monster a-Go Go (1965), uma produção cuja reputação é tão ruim que é ranqueado por alguns lado a lado com as bagaceiras de Edward D. Wood Jr., enquanto o seguinte, Sin, Suffer and Repent (1965), saiu direto da linha de montagem dos filmes sensacionalistas do fim dos anos 50: começando como um daqueles filmes educativos sobre doenças venéreas, ele logo se torna uma história tórrida sobre gravidez fora do casamento, completo com uma cena real de parto.

Um dos motivos para a realização desta prática era utilizar estas produções como segundo filme nas sessões duplas da época, fazendo par com os filmes dirigidos por Lewis. Desta maneira, com os direitos pertencendo a mesma pessoa, o diretor não teria problemas na hora do proprietário do cinema repartir os lucros, coisa que era bastante problemática naquele tempo.

Um dos maiores filmes de Lewis, orçamentariamente falando, foi rodado durante o final dos anos 60. A Taste of Blood (1967) se trata de uma película vampiresca que bebe da veia das clássicas produções britânicas da Hammer. Apesar de tecnicamente melhor que suas primeiras obras e com uma fotografia interessante, este é um filme muito prejudicado pelo excesso do tempo de duração (são quase duas horas), a ausência do estilo que é característico de Lewis, e acaba cansando o espectador um bocado.

Uma abordagem semelhante apareceria em seu próximo filme, Something Weird (1967), uma mescla de ficção científica, comédia e horror (mas sem violência explicita) sobre um homem que ganha poderes clarividentes após sofrer um acidente na rede de energia elétrica e tem o rosto deformado. Para recompor sua beleza, ele faz um pacto com uma bruxa feia – que parece bela para as outras pessoas – em troca de amor e vai ajudar a polícia a resolver crimes.

Lewis em seguida volta a flertar com o gore extremo em The Gruesome Twosome (1967), onde mãe e filho possuem uma loja de perucas e escalpelam jovens garotas de um colégio próximo para conseguir sua matéria-prima. Este é sempre lembrado não apenas pela violência, mas pela péssima atuação do elenco, mesmo considerando que se trata de H. G. Lewis.

Neste período ele também roda três filmes marginais de ação e delinquência juvenil (cabe dizer, anos antes de A Laranja Mecânica), Blast-Off Girls (1967), She-Devils on Wheels (1968) e Just for the Hell of It (1968). Seus próximos dois filmes são um retorno ao sexploitation soft-core do início da década com Linda and Abilene (1969) – notório por ser a última produção a ser rodada no rancho Spahn antes de ser invadido pela família Manson – e The Ecstasies of Women (1969), ambos desaparecidos do grande público.

Então as coisas começaram a ficar difíceis para o diretor. Em 1969 os cineastas independentes estavam cada vez mais e mais soterrados pelo mainstream de Hollywood que começaram a fazer suas próprias produções de ação, drama e horror violento sem restrições da censura. Em 1970, Lewis faz o absurdo e excessivo (e por isso mesmo um dos meus favoritos pessoais) The Wizard of Gore, sobre um mágico chamado Montag que, digamos, gosta de fazer o truque de serrar mulheres ao meio sem muitos rodeios.

The Wizard of Gore (1970) (3)
The Wizard of Gore (1970)

Em seguida dois filmes de drama que se passam nas fazendas do sul dos Estados Unidos: This Stuff’ll Kill Ya! (1971) e Year of the Yahoo! (1972), ambos eram considerados perdidos até serem restaurados pela distribuidora estadunidense Something Weird – que lançou quase todos os trabalhos do diretor em DVD e cujo nome é notoriamente inspirado no filme homônimo de Lewis.

Outra película perdida do diretor, mas desta vez ainda não encontrada, é o desconhecida blaxploitation erótica Black Love, de 1972, rodado todo com elenco negro como um pedido pessoal de um amigo de Lewis em Chicago. Então ainda no mesmo ano, Herschell Gordon Lewis se despede do cinema com o alucinógeno terror Gore Gore Girls, sobre um serial killer que mata dançarinas exóticas nos clubes mais variados da cidade. Admira-me que Lewis não tenha dirigido este filme com alguma dose de LSD no sangue, pois o ritmo é tão absurdo que parece uma paródia de si mesmo.

Após aquele ano, seus dias de exploitation estavam acabados… Lewis se retirou do mercado e voltou de cabeça para sua carreira na publicidade que se mostrou bem mais produtiva (financeiramente falando): Ele escreveu e publicou mais de vinte livros e duzentos artigos sobre o assunto e fundou a Communicomp, especializada em marketing direto com clientes por todo o globo e se tornou uma respeitada autoridade sobre o assunto, respeito que jamais conseguira como diretor independente.

Banquete de Sangue (1963)
Banquete de Sangue (1963)

A despeito de ter deixado sua carreira cinematográfica para trás, Lewis sempre quis fazer uma sequência para o filme pelo qual ficou estigmatizado, Blood Feast. Depois de 30 anos e um longo processo de produção, seu objetivo foi finalmente alcançado quando o diretor se reuniu novamente com David F. Friedman e foi convidado para a realização de Blood Feast 2: All U Can Eat (2002), igualmente divertido, sangrento e caricato quanto suas maiores películas. Mais recentemente o diretor fez participações através de pontas nos filmes Chainsaw Sally (2004), Smash Cut (2009), The Uh-oh Show (2009), The Deadly Sins: Inside The Ecomm Cult (2009), The Gainville Ripper (2010) e Tonight you Die (2011).

Hoje, Lewis reside em Fort Lauderdale, Florida, encabeçando a Lewis Enterprises, empresa de consultoria e publicidade em mala direta, fazendo seminários pelo mundo todo, todavia nunca se esqueceu ou deixou de arrebanhar seus fãs que não eram vivos na famosa era das grindhouses e drive-ins e que podem conferir seus feitos na época do DVD.

Lançou um livro de memórias chamado The Godfather of Gore Speaks e tem um projeto na gaveta sobre de um filme chamado Zombificador, uma antologia com 5 histórias curtas que se conectam em algum momento e que está sendo alardeado como o filme mais sangrento e nojento já realizado pelo diretor. O projeto já tem Bill Moseley (Rejeitados pelo Diabo) e Michael Berryman (Quadrilha de Sádicos) no elenco, o que já configura no elenco mais famoso já reunido em um filme de Lewis, hehe…

Zombificador está em fase de arrecadação de recursos, que acontece através do site de crowd funding Indiegogo para conseguir seus 100 mil dólares de orçamento. Uma merreca perto da importância de Lewis que jamais deixará de ser, para sempre, o “Padrinho do Gore“.

Porém mesmo com o reconhecimento tardio de sua renegada carreira, em 2009 ele dirigiu a comédia de horror The Uh-Oh Show, e está em processo de finalização o sangrento Herschell Gordon Lewis´ Bloodmania, com previsão de lançamento em 2015. Uma boa notícia, embora todos saibam que mesmo fora de atividade Herschell Gordon Lewis jamais deixará de ser, para sempre, o Poderoso Chefão do Gore.

Curiosidades

– Hershell foi casado três vezes e destas relações geraram cinco filhos;

– O diretor fazia quase todas as partes de narração nos seus filmes e trailers, pois Lewis não queria (ou não podia) pagar para um ator fazer isso;

Wizard of Gore é o filme favorito do personagem de Jason Bateman no premiado filme Juno;

Blood Feast foi o filme mais antigo a ser perseguido pela censura britânica no escândalo dos Vídeo Nasties.

Filmografia Selecionada

2015: Herschell Gordon Lewis´ Bloodmania
2009: The Uh-oh Show
2002: Blood Feast 2: All U Can Eat
1972: The Gore Gore Girls
1970: The Wizard of Gore
1968: Just for the Hell of It
1968: She-Devils on Wheels
1967: Something Weird
1967: The Gruesome Twosome
1967: A Taste of Blood
1965: Color Me Blood Red
1965: Monster A Go-Go
1965: Sin, Suffer and Repent
1964: Maníacos/Two Thousand Maniacs!
1963: Scum of the Earth
1963: Banquete de Sangue/Blood Feast

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Gabriel Paixão

Gabriel Paixão

Colaborador e fã de bagaceiras de gosto duvidoso. Um Floydiano de carteirinha que tem em casa estantes repletas de vinis riscados e VHS's embolorados.

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