Violência, comportamento e Beethoven em Laranja Mecânica

Laranja Mecânica (1971)

“Loucura é achar que podemos viver num mundo sem violência” – Stanley Kubrick

Laranja Mecânica foi mais uma destas geniais obras literárias que acabaram definitivamente assegurando imortalidade nas telas do cinema, e foi o grande Anthony Burgess o escritor do homônimo livro que mais tarde ganhou forte popularidade ao ser projetado como filme pelo diretor de cinema Stanley Kubrick, que morreu no dia 7 de março de 1999. Mas sua morte como a morte de todo aquele que cria e trabalha com arte seja esta qual for, não canta a sua miserável vitória porque foi a arte quem foi a vencedora! E aqui se fez valer aquela frase do poeta Augusto dos Anjos, Oh! Morte, contra a arte, em vão teu ódio exercês!, ou aquela outra do sábio Leonardo da Vinci, Tudo morre no homem, menos na sua arte

Stanley Kubrick morreu, mas seus trabalhos como diretor de cinema, sua visão criadora e dinâmica ultrapassou sua própria essência, e esta brilha cada vez mais e daqui para frente com maior intensidade rumo ao infinito.

Laranja Mecânica (1971) (3)

E as novas gerações irão futuramente deparar-se com alguns de seus filmes e exclamar: “Genial! Magnífico! Impressionante de se ver!

Laranja Mecânica é hoje muito mais que uma obra literária graças à Stanley Kubrick, mas Laranja Mecânica é também muito mais que um filme, é um cult graças aos punks e skinheads dos anos 70, que transformaram quase todas aquelas imagens de ultra violência em realidade…

O filme foi lançado em 1971, mas, logo após seu lançamento, foi expressamente proibido devido não só às impressionantes cenas de ultra violência e estupro, mas também pela forte ideologia política que o mesmo continha, e nesta época era classificado como um “filme de forte influência para alguns jovens“, e isto era muito perigoso… E realmente foi!

Imediatamente os primeiros grupos de jovens que conseguiram assistir ao filme passaram a espelhar-se naquelas cenas e transportá-las para a vida real, que em nenhum momento era menos real que o filme!

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Os subúrbios de Londres, repletos de skinheads e punks, tomaram o filme como culto sagrado. E aquela espécie de “moda” bootboy com elegância podia ser vista em muitos pontos onde eles encontravam-se. Os skinheads podiam então serem vistos trajando roupas brancas e botas pretas e o chapéu-coco, pondo em prática o “Horror Show” em alguns locais lembrando porém que, neste caso, se trata de uma ramificação do skinhead no estilo “droogs” do filme e não o movimento como um todo. Diria que algumas gangues skins eram mais familiares a este tipo de atitude que as outras, coisas dos anos 70…

Mas se o filme Laranja Mecânica foi proibido, como foi que aqueles jovens foram tão fortemente influenciados pela obra? Acontece que foram tiradas cópias piratas desta obra, ainda que de péssima qualidade e estas eram então muito bem apreciadas. Mas se analisarmos hoje este filme, veremos que aquelas atitudes daqueles “droogs” das cenas são normais em comparação com as chacinas e os crimes que todos os dias banham o subúrbio com mar de sangue, na realidade do dia-a-dia de todos nós. É ver a vida…

A estrela principal do filme foi muito bem escolhida, e o talento para “papel de mau e perverso” foi dado ao ator Malcolm McDowell, aquele que nasceu para reencarnar das cinzas do grandioso império romano. O grande imperador Calígula das telas do cinema. Isto mesmo: Calígula! O mesmo ator! Porém, em Laranja Mecânica, Malcolm McDowell faz o papel de um líder “droog” de nome Alex The Large.

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Seu visual “droog” consiste numa maquiagem no rosto, roupas brancas, blusa e calças, coturnos de cor preta, bengala estilete, chapéu coco, estilo Charles Chaplin. Alto e bem encorpado, ele é bom de briga e chegado em estuprar mulheres. Mas esta figura possui um lado nobre, vejam os senhores, ele gosta de música clássica! Em especial o grande Luduvig Van Beethoven, que aliás é a trilha sonora de quase o filme inteiro. E sobre o ritmo de sinfonias clássicas rolam as principais cenas. Os seus companheiros também possuem o mesmo visual agressivo e tem quase as mesmas atitudes, costumam beber copos de leite misturados com alguma coisa num ambiente exótico, onde as mesas e cadeiras têm formato de mulheres nuas.

Não vou ficar descrevendo todas as excelentes cenas do filme ou contá-lo todo. Mas em poucas palavras, Alex mata uma mulher, vai preso, e lá na cadeia ele opta por um novo tratamento psicológico contra o impulso da violência em todas as suas faces. Ele é então levado a um sanatório especial onde é obrigado a ver vários filmes de ultra violência, sob o efeito de uma droga que é nele injetada. Seus olhos ficam adaptados a um bizarro aparelho que os prende e os mantém abertos, mesmo contra a vontade. Então ele, após todos os exames, passa a se regenerar e sentir náuseas e vômitos seguidos de dor, toda vez que voltar a praticar ou sequer pensar em praticar atos de violência e estupro.

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O filme é extenso, cerca de 138 minutos de duração, e é inútil descrever seus detalhes de modo que encheria linhas sobre linhas e não conseguiria atingir completamente os detalhes e a grandeza da obra – é necessário ver! Assistir ao filme para perceber o universo estranho de beleza e emoção seguido de um “certo terror“. Sim, porque não dá um “certo terror” ver uma cena de violência explícita?

O filme Laranja Mecânica é muito bem conceituado no mundo underground e a influência passou para a música, que espelhando na filosofia e no visual do filme, criou um ritmo excelente de se ouvir!

Surgiram bandas, a maioria de skinheads, com nomes como Blitz, The Oppressed, The Warriors, Last Resort, entre outras. Mas a mais popular, cultuada inclusive pelos punks, foi a banda The Adictis, que radicalmente se vestem como os “droogs” do filme.

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Claramente podemos ver como a obra de Anthony Burgess criou mais vigor e poder através do prisma cinematográfico de Stanley Kubrick e daí passou para as ruas, encarnou nas gangues dos anos 70, influenciou bandas de punk rock e skinheads, etc…

Existe ainda o lado “político ideológico” do filme, mas prefiro falar do lado mais rueiro pois este está muito mais perto de nós que o outro.

Muito bem, vamos assistir Laranja Mecânica que a gente ganha muito mais vendo uma imagem de cinema do que só ouvindo falar nela…

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Marcos T R Almeida

Marcos T R Almeida

Historiador, artista alternativo, escritor e pesquisador de cinema e literatura fantastica e de horror, colecionador de filmes e livros raros desconhecidos do grande publico

5 comentários em “Violência, comportamento e Beethoven em Laranja Mecânica

  • 20/10/2015 em 20:48
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    Sem querer ser chato mas, já sendo, gostaria de fazer algumas observações. A primeira delas é que a trilha sonora do filme não é inteiramente composta pela música de Beethoven, como afirma o autor do artigo. A bem da verdade, a trilha sonora de Laranja Mecânica apresenta mais composições de Rossini do que de Beethoven. E, gente, eu odeio fazer isso, mas eu não pude deixar de notar que o Marcos cometeu, pelo menos, dois erros um tanto quanto constrangedores: primeiro ao referir-se ao personagem central como “‘mal’ e perverso”; e, segundo, ao dizer que o mesmo “é obrigado a ver vários filmes de ultra violência, ‘sobre’ o efeito de uma droga que é nele injetada”. Sei que tais falhas foram provavelmente cometidas por distração, mas vocês bem que podiam revisar melhor esses textos antes de publicá-los. Não gosto de ver gente que tem muito mais cultura e conhecimento do que eu falhando na escrita dessa maneira. Pra vocês terem ideia, eu tenho 23 anos, deixei de estudar há 10, nunca li um livro na minha vida, nunca saí da cidade onde eu moro, não entendo porra nenhuma de música clássica (Beethoven pra mim não passa de um nome familiar), e nem sequer já vi esse filme (a observação que faço sobre sua trilha sonora é meramente baseada no que li no Wikipedia).

    Espero que esse meu comentário de bosta os inspire a prestar mais atenção no que vocês escrevem de agora em diante.

    Um grande abraço!

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    • Marcelo Milici
      20/10/2015 em 22:11
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      Ótimos comentários, amigo! A culpa nem sempre é do crítico, mas do editor. Esses erros passaram pelos meus olhos de lince, e já foram corrigidos. Grande abraço…

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    • 08/12/2016 em 16:38
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      Analfabeto confesso e ainda deseja ser modesto. Vai estudar seu leitor de wikipedia.

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  • 25/01/2015 em 16:39
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    Um clássico atemporal e maravilhoso. Filme nota 10.

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