Esquisitices na Orgia da Morte de Ed Wood

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No começo dos anos 1960, o produtor de cinema búlgaro Stephen C. Apostolof resolveu tentar a sorte no mercado de cinema sexploitation de Hollywood. Foi quando seu amigo e diretor de fotografia William C. Thompson disse que conhecia alguém especializado em fazer filmes baratos e rápidos. Seu nome: Edward D. Wood Jr. Ou simplesmente Ed Wood.

Thompson, que tinha sido diretor de fotografia de quase todos os filmes de Wood (inclusive os famigerados Plan 9 From Outer Space e Glen or Glenda?), marcou um almoço para que Apostolof e Ed se conhecessem, num restaurante que costumava reunir a nata do cinema em Los Angeles. Imaginem a surpresa do búlgaro quando Wood apresentou-se vestindo suéter angorá, saia acima dos joelhos, peruca loira e bigode!

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Foi dessa forma meio torta (e definitivamente engraçada) que Apostolof e Wood se conheceram e iniciaram uma bizarra parceria: o primeiro produzia e dirigia a preço de banana, o segundo escrevia roteiros escalafobéticos com temáticas cada vez mais absurdas. E o primeiro trabalho da dupla foi o inacreditável Orgia da Morte – tradução brasileira infeliz para Orgy of the Dead, ou Orgia dos Mortos.

Orgia da Morte pode ser definido como a mais porca desculpa da história do cinema para se fazer um longa-metragem. Também pode ser definido como um dos roteiros mais estúpidos e sem propósito já “escritos” por Wood, pior até do que o já célebre Plan 9 (que pelo menos tinha algo próximo de uma narrativa, algo que não existe aqui).

Além disso, o projeto é uma das mais esdrúxulas reuniões de “talentos” (ou “desprovidos de…“), juntando num mesmo balaio strippers, o pseudo-médium Criswell (!!!) e dois manés com fantasias de carnaval de lobisomem e múmia! ]

E sabe o quê? Por tudo isso, o filme é divertidíssimo de tão tosco e sem-vergonha – mais um autêntico Filme para Doidos em sua mais pura essência!

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Embora tenha sido dirigido e produzido por Apostolof (espertamente escondido atrás do pseudônimo A.C. Stephen), Orgia da Morte é puro Ed Wood. Tudo que caracteriza o cinema do célebre cineasta aparece no filme: os erros grosseiros de continuidade (dia vira noite e depois vira dia novamente), o elenco habitual de Wood (Criswell e uma dublê de Vampira, recrutada quando a original pulou fora do projeto!) e os diálogos ridículos sendo declamados com empolgação shakesperiana pelos “atores“.

É muito fácil e rápido falar sobre a “trama“, porque, na verdade, ela não existe: a exemplo de Plan 9 e Night of the Ghouls, duas obras anteriores escritas e dirigidas por Wood, Orgia da Morte começa com um close na fuça de Criswell, que “acorda” dentro de um caixão e levanta-se para o seu tradicional discurso sem pé nem cabeça (algo que José Mojica Marins copiaria posteriormente nas aberturas dos filmes do Zé do Caixão).

Visivelmente lendo textos escritos em cartazes ou cartões atrás da câmera (perceba os movimentos dos olhos, que ele nem tenta disfarçar), e com a maior cara de encachaçado, o ator-apresentador anuncia: “Eu sou Criswell. Durante anos, tenho dito coisas quase inacreditáveis, relatado o irreal e mostrado que ele é mais do que um fato. Agora vou contar uma história sem limites, tão surpreendente que alguns de vocês podem até desmaiar. Esta é a história de pessoas na hora do crepúsculo. Uma vez humanos, agora monstros, presos entre a vida e a morte. Monstros para sentir pena, monstros para desprezar. Uma noite de assombrações, que renascem das profundezas do mundo“.

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(E Wood é tão sem-vergonha que simplesmente reproduziu o mesmo discurso inicial do mesmo Criswell em um filme anterior, Night of the Ghouls, cujo título inclusive é citado na última frase proferida pelo personagem!!!)

Corta para o carro do nosso casal de protagonistas, e você sabe que está vendo um legítimo filme de Ed Wood (embora ele não seja o diretor aqui) quando os planos gerais foram filmados à luz do dia e os planos médios dos atores na escuridão da noite!!!

Nossos “heróis” são o casal Bob (William Bates, no primeiro de seus dois filmes) e Shirley (Pat Barrington, que a partir de então se transformaria numa estrelinha do cinema sexploitation). Ele é um escritor de histórias de horror em busca de um velho cemitério onde pretende conseguir inspiração (não pergunte…); ela é uma ruivinha deliciosa, mas infelizmente chata e resmunguenta.

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Antes que a ação comece, segue-se um diálogo hilário entre o casal:

– Visitar um cemitério numa noite como essa deve dar muitas ideias para uma boa história de horror.
– Mas tem tantas coisas boas para escrever, Bob.
– É claro que tem, e eu tentei todas elas. Peças de teatro, histórias de amor, westerns…
– Mas histórias de horror? Por que histórias de horror?
– Shirley, eu escrevi durante anos sem conseguir vender uma única palavra. Meus monstros me fizeram bem. Você acha que devo desistir deles para escrever sobre árvores, cachorros ou margaridas?

(Inclusive percebe-se algo de auto-biográfico no personagem de Bob, já que o próprio Ed Wood fez tudo isso – peças teatrais, romances, westerns… -, mas acabou mais lembrado pela sua “contribuição” ao cinema fantástico, escrevendo e dirigindo histórias de horror e ficção científica.)

Perto dali, num velho cemitério abandonado (que conveniente!), o Imperador das Trevas (Criswell, quem mais?) desperta do túmulo ao lado de sua amada/criada, a Princesa das Trevas (quanta inspiração, Wood!), vivida pela deliciosa Fawn Silver. Nos créditos, a moça aparece batizada como “Black Ghoul“.

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Pelo figurino e pelo estilo, o cinéfilo com um mínimo de conhecimento da obra de Wood vai perceber que o papel da moça foi escrito para Maila Nurmi, na época popular como a personagem Vampira, com a qual apresentava filmes de horror na TV. Vampira havia trabalhado com Ed em Plan 9 e sabiamente pulou fora desse filme aqui, mas os produtores resolveram criar uma personagem semelhante para deixar bem claro que a intenção inicial era ter Vampira no elenco!

(Mais um adendo: sabe-se que Maila processou Cassandra Peterson anos depois, alegando que a personagem desta, a popular Elvira, era um plágio de Vampira. Ora, quem devia ter processado Cassandra era a pobre Fawn Silver, pois Elvira é uma cópia cuspida e escarrada da Black Ghoul de Orgia da Morte, no traje, no penteado e até nos peitões!!!)

Voltando ao filme: de tempos em tempos, em noites de lua cheia, o Imperador das Trevas sai do túmulo para julgar as “almas condenadas” dos recém-falecidos, obrigadas a humilhar-se diante dele para sua diversão e satisfação.

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No papel parece bonito; na prática, o que veremos pelos próximos 60 minutos são meninas entrando e saindo de um cenário fuleiro imitando cemitério para fazer shows de strip-tease (!!!); esporadicamente, cansado de ver peitos balançando, o Imperador das Trevas ordena que seus súditos torturem algumas delas, mas são cenas fuleiras e sem nenhum valor sádico ou masoquista.

Sim, e você leu corretamente: apenas “almas condenadas” de MENINAS são julgadas durante o filme e obrigadas a dançar e tirar a roupa diante do Imperador e da Princesa das Trevas. O personagem de Criswell justifica isso rispidamente – “E quem quer ver um homem dançar?” -, uma explicação com a qual eu concordo plenamente.

Quando o carro de Bob e Shirley capota na estrada (não havia dinheiro para filmar o desastre, então quem “capota” é a câmera, girando várias vezes para simular o acidente), eles são aprisionados pelas forças do mal e obrigados a acompanhar a dancinha das strippers até o restante do filme, quando a Princesa das Trevas pretende sacrificá-los para a sua própria diversão (aparentemente, ela não curte strip-teases como o seu mestre).

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É impossível o leitor ter uma ideia da pobreza e do absurdo de Orgia da Morte sem realmente ver o filme. O argumento não passa disso (casal aprisionado é obrigado a assistir terríveis shows de strip-tease de “almas condenadas” – todas elas gostosas e peitudas, claro!), e deve haver uns 20 ou 30 diálogos O FILME INTEIRO, com o restante da narrativa sendo preenchida pelas mulheres nuas dançando e sacudindo os peitos, ao som de uma trilha sonora que é impossível de definir, de tão “excêntrica“!!!

A obra se encaixa num subgênero do sexploitation conhecido como “nudie-cuties“, ou simplesmente “nudies“. Realizados antes da popularização dos pornôs softcore e (posteriormente) hardcore, os nudies limitavam-se a mostrar mulheres nuas, mas em tal quantidade que a história ficava em segundo, até terceiro plano – histórias que se passavam em campos nudistas, por exemplo, eram bem comuns e livraram o diretor ou roteirista de pensar numa justificativa para pelar a mulherada.

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Orgia da Morte é por aí: após filmar 10 minutinhos que servem apenas como desculpa narrativa, os realizadores devem ter percorrido todas as casas de “shows adultos” da região em busca de strippers que trabalhassem por miséria.

São 10 números de dança ao longo do filme, e as caracterizações das moças são simplesmente hilárias: elas aparecem vestidas como índias, espanholas, havaianas e lá pelas tantas aparece uma fantasiada de gatinho (!!!), que tira a roupa enquanto toma chicotadas de um dos servos do Imperador das Trevas!!!

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Menos mal que todas as meninas são gostosas pra caramba, e se os showzinhos ficam no limite entre o cômico e o brochante, pelo menos a variedade de peitos (grandes, pequenos, firmes, caídos…) garante a atenção do público masculino.

A própria Pat Barrington aparece num segundo papel, com cabelo loiro, e, graças ao milagre da edição, dança diante dela mesma. Em cena chupinhada de 007 Contra Goldfinger, a dançarina é castigada por sua “ambição” (não pergunte…), sendo mergulhada num caldeirão com ouro derretido, de onde sai com o corpo todo dourado!

As outras delícias em cena são Mickey Jines, Barbara Nordin, Bunny Glaser, Nadejda Klein, Coleen O’Brien, Lorali Hart (aka Texas Starr), Rene De Beau, Stephanie Jones e Dene Starnes. A Princesa das Trevas Fawn Silver infelizmente não tira a roupa.

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A “carreira” das moças não foi muito adiante (pelo menos fora das casas de strip-tease), mas duas viraram celebridades cult com o tempo: os peitões de Lorali/Texas Starr foram motivo de piada em dois filmes da série Corra que a Polícia Vem Aí! e motivo de punheta no pornô Mature Women; já a búlgara Nadejda continuou fazendo filmes, e em 2011 foi ressuscitada com um pequeno papel em Mega Python vs. Gatoroid!

Além de Criswell, da clone de Vampira, do casal de “mortais” e das strippers, Orgia da Morte também conta com dois tosquíssimos monstros que aparecem como servos do Imperador das Trevas – um lobisomem e uma múmia.

Ambos funcionam como “alívio cômico“, fazendo piadinhas e comentários sem graça entre as dancinhas, mas podiam até ficar de boca fechada, pois seu figurino pobretão já garante as risadas naturalmente – com destaque para o lobisomem que, em certo momento, levanta a cabeça e exibe ao espectador o pescoço limpinho do ator, onde o maquiador esqueceu de colar pelos…

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Na conclusão da “trama“, a luz do sol chega para salvar Bob e Shirley de um triste destino. Os raios solares transformam todas as assombrações em esqueletos, e é curioso como Apostolof repete um erro grosseiro que Wood havia feito em Plan 9: quando Criswell se dissolve, resta apenas um esqueleto com a capa que o personagem vestia, como se ele estivesse pelado por baixo da capa!!!

Outra referência a Plan 9 é o fato de Criswell entrar em cena segurando a capa em frente ao rosto, como fazia o dublê de Bela Lugosi em Plan 9 (lembre-se que ele precisava esconder o rosto por não ser nada parecido com o falecido ator!).

Acredito até que Wood escreveu o personagem do Imperador das Trevas pensando no já falecido Lugosi para o papel. Até porque Criswell veste uma capa originalmente usada por Lugosi em Bud Abbott Lou Costello Meet Frankenstein (1948).

De dancinha em dancinha, de peitos desnudos em peitos desnudos, surgem aqueles hilários diálogos que somente Ed Wood sabe escrever. Como Criswell questionando a presença de Bob e Shirley no cemitério: “Vivos onde apenas os mortos deveriam estar?“. Ou esta acachapante conversa entre o casal amarrado e prestes a morrer:

Uma bela hora para discutir a relação:

Nos créditos iniciais, Ed Wood aparece como autor do roteiro “baseado em seu livro ‘Orgy of the Dead‘”! E eu confesso que sempre fiquei me perguntando como poderia haver um livro disso, considerando que 80% do filme são meninas tirando a roupa.

Recentemente, descobri que Orgy of the Dead, o livro, foi publicado na mesma época em que o filme chegou aos cinemas, numa espécie de “venda casada“, e na verdade não é uma novelização da trama de Orgia da Morte, mas sim uma coletânea de contos de Wood (incluindo os famosos The Night the Banshee Cried e The Final Curtain).

No caso, os contos ocupam, no livro, o espaço que as dancinhas ocupam no filme. A primeira edição tinha prefácio assinado por Forrest J. Ackerman, como você pode ver na reprodução da capa ao lado (e eu definitivamente compraria um livro com essa capa e esse título!).

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O diretor Apostolof trabalharia com roteiros de Wood em diversos outros filmes, progressivamente piores, como Drop Out Wife (1972) e The Beach Bunnies (1976).

Cada vez mais miserável, Ed entregou-se ao alcoolismo e fez um último trabalho como cineasta, o pornô Necromania, em 1971. Ele morreu de ataque cardíaco em 1978; Apostolof faleceu recentemente, em 2005.

Alguns anos antes de falecer, Apostolof gravou uma entrevista falando sobre Orgia da Morte, e explicou que seu sonho era fazer uma continuação contemporânea do filme (!!!), em que pretendia explicar detalhes do original, como a relação entre a múmia e o lobisomem (palavras do próprio diretor). A história se passaria no futuro, no ano 3000 (!!!), e teria menos shows de strip-tease e mais narrativa.

(In)Felizmente, ele morreu sem realizar seu sonho, mas deixou como legado esse impressionante trash movie, um daqueles filmes inacreditáveis e charmosos exatamente pela ruindade.

Considerando que quase não há história nem diálogos, eu recomendo exibições de Orgia da Morte em telões ao fundo de shows de rock (as imagens casariam perfeitamente com um show da banda Damn Laser Vampires, por exemplo), ou em bares com temática de rock e cinema fantástico, como o (atualmente fechado) Astronete em São Paulo.

Mas uma qualidade do filme eu preciso ressaltar: mesmo com a ruindade generalizada em todos os departamentos, o uso de cores vivas nas cenas (“In shocking SEXICOLOR“, anunciava o pôster de cinema) é impressionante, lembrando a fotografia nas obras de diretores italianos como Mario Bava e Dario Argento – especialmente o vermelho, sempre presente em detalhes do figurino ou da maquiagem das meninas, e no cabelo de Shirley.

Já o restante irá apetecer apenas aos fãs de sacanagem (embora as dancinhas de topless sejam bem inocentes para os padrões atuais) e de trash movies. Não sem motivo, outro notório diretor de tralhas esteve envolvido na produção: Ted V. Mikels (responsável por The Astro-Zombies!!!) assumiu o cargo de assistente de direção que pertencia a Ed Wood, quando Apostolof expulsou o roteirista do set por encher a cara durante as filmagens!

Por tudo isso, e já me estendi demais, Orgia da Morte é um daqueles filmes cujo fascínio é difícil de explicar.

Você pode até odiar a si mesmo enquanto estiver assistindo essa porcaria, pode até acionar a tecla Fast Foward incontáveis vezes até os créditos finais começarem a subir, mas com certeza se pegará pensando nas imagens (e nas bobagens) nos dias seguintes, até surgir uma incrível vontade de rever, nem que seja para mostrar para os amigos, para eles rirem junto.

Portanto, prepare-se para ser hipnotizado por Orgia da Morte você também – ou, no mínimo, curtir oitenta e poucos minutos de mulheres gostosas fazendo strip-tease sem a necessidade de gastar grana num puteiro!

UPDATE: Hugo Malavolta, leitor contumaz do Filmes para Doidos e enciclopédia viva sobre cinema mundial, acaba de enviar para o meu e-mail duas incríveis fotos dos bastidores das filmagens dessa tralha. Não sei de onde ele tirou, mas não duvidaria se Hugo tivesse participado das gravações em pessoa. A primeira mostra a gostosa da Pat Barrington sendo pintada de dourado para a cena chupada de Goldfinger; na segunda podemos ver o diretor de fotografia Robert Caramico em ação. Valeu, Malavolta!

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga “Entrei em Pânico…”, entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

Um comentário em “Esquisitices na Orgia da Morte de Ed Wood

  • 03/05/2015 em 19:31
    Permalink

    Uma perola do cinema trash ! este filme nem foi lançado em DVD somente foi lançado em VHS pela á Continental Home Video isso há anos atras dificil de ser encontrado .

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