Ed Wood e a construção de Plan 9 from Outer Space

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Quando passo algum tempo refletindo sobre Ed Wood, inevitavelmente tenho a pergunta: de que são feitos os clássicos? Pegando exemplos aleatórios, o que Cidadão Kane, A Noite dos Mortos-Vivos e Psicose têm em comum e que os fazem ser cultuados até hoje? Sem querer me estender demais no meu ponto de vista, pelo menos uma coisa os filmes precisam ter para serem considerados clássicos: devem ser atemporais, ou seja, transmitir sua mensagem e causar o mesmo impacto no espectador na época de lançamento e novamente cinquenta anos depois.

Assim, os filmes de Edward D. Wood Jr. são clássicos por serem atemporais, mas o baixo orçamento e a falta de habilidade do diretor fazem suas obras serem tachadas e jogadas com toda a força – justamente, cabe dizer – nas prateleiras dos filmes Trash.

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E o que dizer sobre o principal filme de sua fugaz carreira? Como podemos classificar o mestre de todos os sortilégios, a referência suprema quando se trata das maiores bagaceiras registradas em celuloide?

Pois bem, após comemorar 50 anos de produção em 2008, a nona tentativa de invasão pelos alienígenas ao nosso planeta está prestes a ser dissecada em detalhes que só a autopsia de Roswell conseguiu ser tão completa. Vocês estão interessados no desconhecido… No misterioso… É por isso que estão aqui. Nós lhe daremos todas as evidências daquele dia fatídico… Meus amigos, não podemos esconder mais estes segredos. Deixem-nos punir os culpados e recompensar os inocentes. Podem seus corações permanecer firmes aos fatos chocantes sobre Plan 9 From Outer Space?

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Parte I – Antes – Planejando o Plano Nove

“Can your hearts stand the shocking facts about grave robbers from outer space?”

Um louco genial ou simplesmente louco?” esta é a comparação mais recorrente quando se fala no diretor Edward D. Wood Jr. – e a esta altura muitos de vocês já conhecem a fama de “incompetente” e “incapaz” que carrega seu nome em todas as produções que realizou. Porém é de se admirar que um profissional que produzia filmes B com tão pouca expressão nos anos 50 tenha sido tão esculachado e ignorado em seu tempo, acumulando o ódio dos críticos e sendo ridicularizado pelo público.

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Naqueles tempos, Wood representava uma versão do “sonho americano” à sua maneira. Vindo de uma família pobre se mudou para Hollywood em 1947, quando o futuro diretor fundou com o parceiro Crawford Thomas uma produtora de filmes comerciais para a televisão devidamente nomeada Wood-Thomas Productions, em um pequeno prédio localizado no número 4477 da Hollywood Boulevard.

Levaria quase uma década depois para que Wood realizasse seu “Magnum Opus” e em 1957 já havia estabelecido sua dúbia reputação através de seus trabalhos anteriores já lançados e na companhia do então decadente mestre do horror Bela Lugosi, de quem Wood tinha admiração e frequentemente quando criança assistia a seus filmes no cinema, em especial sua interpretação em Drácula e Chandu the Magician.

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Só para fazer uma retrospectiva, o western Crossroads of Laredo, seu primeiro filme, não foi finalizado porque estourou o ínfimo orçamento e ficou perdido por muitas décadas, mas já possuía muitas características de seus próximos filmes como o uso de papelão como elemento de set e um bocado de comédia involuntária.

No começo dos anos 50, um “inempregávelBela Lugosi, por conta das mudanças drásticas na indústria do cinema, encontrou-se com Wood e desta união saiu I Changed My Sex ou Glen or Glenda?, seu debut oficial e sua obra mais particular, por se basear na vida privada do próprio diretor.

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Todavia Glen or Glenda? era excessivamente experimental para o público “normal” que não comprava a ideia de um homem se vestindo de mulher repleto de cenas e diálogos alucinógenos – pelo menos o bizarro uso de Lugosi dava um certo respeito para Wood. Em seguida o diretor rodou o policialesco Jail Bait com o futuro Hercules Steve Reeves em sua estreia no cinema.

Bride of the Monster foi o próximo – e cá entre nós, ruim por ruim acho que Bride… é muito pior que Plano 9… – e a esta altura a saúde de Lugosi já dava sinais de que estava excessivamente debilitada para que o ator pudesse prosseguir trabalhando. Diz-se até que durante as filmagens de Bride… Lugosi precisava ser levado em casa para tomar injeções de morfina e voltava ao set para continuar suas participações.

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Pouco tempo depois, a situação de Lugosi com as drogas piora e outro recorrente de Wood, o ex-lutador de luta-livre Tor Johnson, precisou intervir e salvar o eterno Drácula de si mesmo: durante a promoção do filme Black Sleep, do diretor Reginald Le Borg, Lugosi adquiriu um impulso violento de se jogar de janelas, sendo impedido muitas vezes por Tor. Em abril de 1955, Lugosi admite que está doente e depressivo, declara abertamente para a imprensa que se considera um usuário e se interna voluntariamente em uma clinica de reabilitação, voltando algum tempo depois com uma saúde muito melhor.

No meio tempo Wood se sentia frustrado, sofrendo por não ter uma distribuição em grande escala, alguma produção que o fizesse alçar voos na carreira ou mesmo emplacar algum projeto nas grandes produtoras de Hollywood. De forma que o diretor, por amor ao cinema e acreditando que poderia realizar algo significativo em seu ofício, correu atrás para realizar uma suposta película chamada Tomb of the Vampire (outras fontes dizem que o título seria The Ghoul on the Moon).

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No início de 1956 Ed Wood conseguiu algum dinheiro de um investidor para realizar o filme, porém os 900 dólares foram suficientes apenas para rodar um dia de filmagem sem som de Lugosi usando sua capa de Drácula sem nenhuma história particular para contar. Isto já era considerado impressionante por si só, pois cineastas da época afirmaram que com este dinheiro não daria nem para alugar as roupas dos figurantes. As locações utilizadas foram um cemitério nos arredores de Hollywood e a frente da casa de Tor Johnson na época. Mal sabia Wood que o resultado seria a base para o filme mais infame do diretor.

Porém uma tragédia se abateu sobre o futuro projeto, quando, em 16 de agosto de 1966, Bela Lugosi morre por causa de um ataque cardíaco. Wood ficou chocado e sem saber como prosseguiria sem o velho amigo e “galinha dos ovos de ouro“. Buscando por uma inspiração, o diretor teve uma ideia maluca: iria fazer o filme com Lugosi, a despeito do fato de que sua principal estrela não estava mais entre os vivos.

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O “detalhe” de que Lugosi não poderia estrelar uma película estando falecido foi resolvido com a utilização de seu quiroprático chamado Thomas Robert Manson, bem mais alto do que o ator e cuja única semelhança eram seus cabelos grisalhos e as orelhas, forçando o médico a aparecer na tela com o rosto todo coberto. Manson apareceria de “cara limpa” no derradeiro filme de horror de Wood, Night of the Ghouls. Então começava a elaboração do roteiro.

Logo que teve o “estalo“, Wood passou a inventar a história e a escrever como um louco. Amigos do diretor usaram a palavra “elétrico” para descrevê-lo enquanto redigia o que futuramente iria se tornar Plan 9 From Outer Space, no tempo que ainda era chamado de Grave Robbers From Outer Space. Possivelmente inspirado nas antigas revistas de ficção científica e de notícias sobre aparições de discos voadores, o script sobre uma raça de alienígenas que querem tomar o mundo usando um exercito de mortos reanimados foi finalizado em menos de duas semanas.

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Todavia ainda existia mais uma barreira a transpor: encontrar financiadores que entrassem no barco que Wood estava construindo depois de todos os seus repetidos fracassos, porque os contatos habituais haviam rendido apenas algumas poucas centenas de dólares que mal dariam para realizar um simples comercial. Foi quando se encontrou com J. Edward Reynolds, que gerenciava o complexo de apartamentos em que Wood morava, e acabou se tornando o principal investidor dos cerca de 60 mil dólares que o filme custou. Reynolds se demonstrou empolgado por participar na última produção “estrelada” por Bela Lugosi e também acabou fazendo uma ponta em Plan 9 como um dos coveiros.

As filmagens foram escaladas em cinco dias em estúdio – leia-se um minúsculo estúdio de som localizado num beco entre um hotel e um clube de strip em Santa Monica – e outros dois dias para as tomadas externas. Nesta altura o título foi alterado para o definitivo Plan 9 From Outer Space, pois os membros da igreja batista (incluindo Reynolds) que também eram produtores achavam que o termo “Ladrões de Túmulo” era um sacrilégio, além disto, por imposição deles, Ed Wood e boa parte do elenco precisou ser batizada antes de eles cederem o dinheiro para o filme, o que foi acatado pela equipe por força das circunstâncias. Curiosamente, Tor Johnson se converteu após este evento.

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Todos os sets – incluindo o avião, a casa do protagonista e o cemitério – foram construídos dentro do Quality Studios, como era chamado o prédio, e que era bastante usado por diretores nos anos 40 e 50 que precisavam de um lugar barato para rodar seus filmes. Trazendo para o projeto figurinhas de Wood como Tor Johnson, Paul Marco e Conrad Brooks somados com as novas aquisições como o astrólogo da televisão Criswell (nome verdadeiro: Charles Criswell King), o futuro veterano Gregory Walcott e a falida apresentadora de um programa de horror Maila Nurmi, caracterizada como Vampira. Com todos comprometidos em realizar um filme realmente bom, um blockbuster (ao menos na cabeça do diretor), nascia Plan 9 From Outer Space.

Parte II – Durante – Os Discos Voadores Sobrevoam Hollywood

“You realize there is a government directive stating that there is no such a thing as a flying saucer?”

Uma obra prima do exploitation sci-fi, um triunfo da vontade sobre a incapacidade ou o ingrato título de pior filme de todos os tempos? Chame do que quiser, contudo não se pode negar que Plan 9 From Outer Space se tornou um dos maiores cult movies existentes e ainda hoje sua notoriedade serve de referência e influência para muitos cineastas – ao expor o baixo orçamento em favor do entretenimento ou especialmente no quesito do que não fazer. Para dar um exemplo, diretores do calibre de Joe Dante e Sam Raimi são fãs declarados da película. Contudo, o que raios este longa-metragem possui de tão atraente que mantém a chama acesa ainda hoje? É o que vamos descobrir daqui a pouco.

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Para quem não conhece a história, Plan 9 começa com a “predição” de Criswell (que voltaria em Night of the Ghouls). A abertura é um show à parte, mas que você jamais imaginaria ver em outro filme: o vidente com cabelo engraçado olha fixamente para a câmera e solta um monólogo genial, repleto de linhas hilárias (“Future events such as these will affect you in the future“) narradas como se o homem fosse entrar em colapso a qualquer momento. Ouçam o homem! Ladrões de túmulos do espaço sideral estão chegando! hehehe…

Após este prefácio entram os créditos iniciais e Criswell passa a ser narrador. Neste momento entra a última participação de Bela Lugosi no cinema e o contexto em que as cenas são usadas é no mínimo absurdo. A esposa do personagem sem nome de Lugosi – que será chamado de “Ghoul Man” daqui pra frente – morre por algum motivo ignorado e um grupo se reúne para o funeral (de manhã bem cedo).

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Após o acontecido, a tripulação de um avião avista um disco voador que em seguida paira sobre o cemitério onde dois coveiros estão enterrando a esposa de “Ghoul Man“. Contestando o que acabaram de ver alegando que estão velhos, eles são surpreendidos e atacados pelo cadáver ressurreto da mulher (Maila Nurmi, falecida no dia 10 de janeiro de 2008) – a qual chamaremos de Vampira. Enquanto isso, a dor do personagem de Lugosi é tão grande que se transforma em desatenção, Ghoul Man atravessa a rua e é morto atropelado.

A despeito de a esposa ser enterrada no solo, o velho é sepultado numa cripta – bem minúscula por sinal. Os parentes que comparecem ao sepultamento avistam os corpos dos coveiros e chamam a polícia. O inspetor Daniel Clay (Tor Johnson, que na época precisava de um professor de dicção imediatamente) chega ao local que já está repleto de outros oficiais, entre eles o tenente John Harper (Duke Moore) e os patrulheiros Kelton (Paul Marco), Jamie (Conrad Brooks que conseguiu papel num filme pior, The Beast of Yucca Flats com Tor Johnson) e Larry (Carl Anthony). Clay pega uma lanterna e vasculha o cemitério em busca de indícios enquanto os demais ficam mais próximos aos coveiros.

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O casal formado por Paula Trent (Mona McKinnon) e Jeff Trent (Gregory Walcott, A Casa do Espanto 2 e Texas Lady) – não coincidente o piloto do avião que avistou o disco voador pela primeira vez – mora perto do cemitério e Paula fica nervosa com a movimentação. Jeff está mais assustado com o que viu no começo do filme e com a reação do governo que exigiu silêncio do piloto para manter o acontecido em segredo.

Outro OVNI faz um rasante e tanto os Trent quanto os policiais são jogados ao chão com o vento poderoso. O disco voador então pousa no cemitério e Clay vai investigar, mas mal sabe ele que Ghoul Man (agora Thomas Robert Manson) voltou dos mortos e o segue até que o investigador se encontre cercado entre ele e Vampira. As balas do revólver não fazem efeito e Clay é assassinado pelos dois zumbis, o que resulta em mais um funeral, o terceiro no mesmo dia.

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Agora aparecem mais três discos voadores que passam em locais movimentados dos Estados Unidos, especialmente Hollywood, o que de alguma maneira me fez lembrar bastante a abertura da finada TV Manchete, pois eles passam pelas sedes das TV’s estadunidenses ABC, CBS e NBC. A aparição é notícia nos jornais e uma mulher liga para a polícia. Através da colagem porca de filmes de arquivo que fariam Bruno Mattei corar, o exercito representado pelo tenente Tom Edwards (O astro de westerns dos anos 30 e 40, Tom Keene) arquiteta uma represália com mísseis e foguetes.

Sem sucesso no ataque as pequenas naves desaparecem e retornam para a nave mãe. É quando vemos pela primeira vez os “alienígenas” e uma surpresa: eles são iguais a nós (!), apenas vestidos com roupas estranhas.

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Cabe aqui uma explicação: quando ficou sabendo que a produção envolveria aliens ameaçadores, o encarregado dos efeitos Harry Thomas foi escalado pare criar a aparência dos antagonistas. Thomas chegou a mostrar uma versão teste para Ed Wood, que se tratava de um rosto humanóide com olhos gigantescos e a boca redonda, todavia naquela oportunidade o diretor não comprou a ideia e disse que “não havia tempo ou dinheiro suficiente“. Assim ao invés de uma maquiagem ridícula não teve maquiagem alguma e Thomas pediu que o diretor tirasse seu nome dos créditos.

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Voltando ao filme, o “chefe” dos aliens (John Breckinridge) recebe o casal Eros (o impagável Dudley Manlove) e Tanna (Joanna Lee, The Brain Eaters), que diz o que se trata o “Plano 9“: reanimar os mortos para criar um exercito e matar os vivos – e me pego pensando que se o nono é um plano tão bobo quanto esse, quais eram os outros oito que não deram certo. Na Terra, Daniel Clay se torna o terceiro cadáver assassino e apesar da matemática conspirar contra os alienígenas – três zumbis letárgicos contra alguns bilhões de habitantes terráqueos – os moradores das proximidades do cemitério ficarão absurdamente apavorados.

Enquanto Jeff vai realizar mais um trabalho, Ghoul Man invade a casa dos Trent e persegue Paula pelo cemitério. Pra mim, esta sequência é a mais legal e caótica de todo o filme: Paula corre passando pelo mesmo cenário várias vezes indo e voltando, uma “mini-cova” é mostrada pulsando (antecedendo o ressurgimento de Daniel Clay), costurada com cenas desconexas de Tor, Vampira e Lugosi. A mulher desesperada chega até a beira da estrada onde é encontrada por um conhecido que está convenientemente passando de carro. A polícia volta ao local, descobrindo que o túmulo de Clay foi violado e os zumbis se recolhem na nave pousada dos alienígenas.

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No pentágono, o alto escalão quer explicações sobre o ataque contra os OVNIs e o general Roberts (o veteraníssimo Lyle Talbot com mais de 300 créditos como ator na TV e no cinema) conversa com seu subordinado Edwards, explicando que os alienígenas enviaram uma comunicação. Nela, Eros explica que os humanos desenvolveram armas cada vez mais poderosas e que agora colocam o universo todo em risco e estão dispostos a destruir nosso planeta por isso – sem querer comparar, contudo imagino que qualquer semelhança com O Dia em que a Terra Parou lançado muitos anos antes não seja mera coincidência. Assim, Roberts manda o tenente para o cemitério também.

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O “Plano 9” parece não ter agradado ao chefe que aparenta eterna insatisfação e demanda resultados, então Eros passa a executar o “plano 9B“: usar um raio desintegrador em Ghoul Man na presença dos humanos que negam sua existência com o intuito de ganhar tempo enquanto recrutam mais zumbis. Agora o oficial do exercito, os policiais e os Trents partem em uma cruzada para impedir que os alienígenas, sejam lá de qual planeta, destruam a Terra.

[ATENÇÃO: SE VOCÊ NÃO QUER SABER COMO O FILME TERMINA, PULE OS PRÓXIMOS DOIS PARÁGRAFOS] O grupo formado por Jeff, Edwards e Harper descobre a nave no meio do cemitério e, por algum motivo ignorado, Eros deixa-os entrar. Dentro da nave, começa uma série de pérolas de diálogos e comparações sobre os motivos pelos quais os extraterrestres quererem tanto exterminar os humanos: nós estávamos prestes a descobrir um novo tipo de arma, chamada de solarmanite, capaz de fazer a luz solar explodir(!) e dizimando todo o universo através de uma reação em cadeia. Eros também mostra que Clay capturou a esposa de Jeff como garantia para que seja ouvido.

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Jeff fica tão puto que briga com Eros e derruba parte da “aparelhagem” no chão… Com mil diabos, na confusão até Eros joga pedaços da nave em Jeff! Tanna tenta decolar o OVNI, contudo a nave se incendeia, os humanos fogem e o disco voador explode no ar. Viva! A humanidade está livre para destruir o Sol e reduzir o universo em cinzas!

Por onde começar? Toda a produção é pobre. Dos figurinos ao roteiro repleto de buracos, nada escapa a um olho mais clínico. Os diálogos são uma ofensa ao bom gosto e a coerência, Wood nitidamente escrevia sem pensar que pessoas normais jamais diriam tais coisas e não raramente o que é dito até contradiz eventos mostrados no filme. Destacar uma única fala é ser injusto com as demais, porém linhas infantis como quando Eros profere sua indignação com os humanos através da frase “You see? You see? You’re stupid minds! Stupid! Stupid!” ficam gravadas no inconsciente coletivo de muita gente.

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Até a coerência na ordem dos eventos é comprometedora. Para dar um exemplo, em certo ponto da produção, as imagens de arquivo de Lugosi ficam entrecortadas com as cenas do cemitério, que não fazem sentido por dois motivos. Primeiro, Lugosi está nitidamente em um campo aberto enquanto o quiroprático de Wood está num cenário totalmente diferente e mais importante, Lugosi gravou de DIA e a ambientação do cemitério é à NOITE! Estas alternâncias entre dia e noite ocorrem nove vezes só nesta cena! Erros como este em Plan 9 são extremamente corriqueiros!

Os efeitos especiais na verdade deveriam se chamar “efeitos simbólicos” para ser mais correto. Ficaria mais decente se Wood colocasse uma tarjeta debaixo de cada disco voador e escrevesse “imagine que isto é um OVNI“. A propósito, muito se discutiu sobre o que seriam os discos voadores: embalagens de pizza pintadas? Calotas de carro? Tampas de latas de lixo? A realidade é mais simples, um brinquedo de criança que era vendido na época e que era suspenso por fios. E claro, não seria “Ed Wood” se não desse para ver o fio que segura os modelos em algumas cenas, no entanto, o charme tosco dos efeitos ainda chuta a bunda de muito CGI por aí.

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Uma das curiosidades sobre a produção é o fato de que o “personagem” de Lugosi não ter nome e andar de capa o tempo todo apesar de nunca ser explicitado de que poderia se tratar de um vampiro. No roteiro escrito por Ed, o personagem era descrito como “o personagem Drácula“, o que confundiu até os protagonistas da produção, afinal é um filme sobre mortos-vivos tecnicamente. O que me admira é que apesar do lapso permanente de talento de Wood como diretor e roteirista, ele conseguiu realizar um filme que pode ser acusado de qualquer coisa, menos de ser arrastado.

O valor da diversão é baixo se levarmos a sério, contudo é irresistível se entrarmos no ritmo cômico pra valer. O uso de nomes conhecidos do público no elenco apenas aumenta mais o entretenimento. Existem contrastes gigantescos nas interpretações, pois enquanto alguns exageram demais na composição dos personagens outros são bem contidos, diria até constrangidos. Penso que o diretor não tenha feito qualquer esforço na tentativa de unificar o trabalho do elenco, o que é bom pra nós, amantes do bom trash.

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Creio que a principal falha do filme é ele tentar ser mais ambicioso que o orçamento permitiu e no final Plan 9 From Outer Space se tornou uma experiência única que fará você rir com vontade e voltar a fita muitas e muitas vezes para pegar aquele detalhe no canto do cenário ou procurar aquele errinho. Como costumam dizer, “Não importa a que horas você assiste PLAN 9, sempre vai parecer que são três da manhã“.

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Gabriel Paixão

Gabriel Paixão

Colaborador e fã de bagaceiras de gosto duvidoso. Um Floydiano de carteirinha que tem em casa estantes repletas de vinis riscados e VHS's embolorados.

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