O Terror pelas Ondas de Rádio: A Interpretação de A Guerra dos Mundos

Movimentações estranhas vindas do planeta Marte. Discos voadores. Alienígenas marcianos pouco amigáveis. Ataques contra o planeta Terra e seus habitantes. Armas invencíveis e destruidoras, como gases letais e raios laser. Pânico geral. Morte. Estas situações podem ser perfeitamente atribuídas a um dos grandes clássicos da literatura de ficção-científica, A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, que relata o que seria uma invasão de marcianos na Terra. E se os marcianos realmente resolvessem atacar a Terra? As imagens acima poderiam ser reais… e, em muitos sentidos, foram mesmo reais em 1938 quando um locutor de rádio interpretou a obra de H. G. Wells sem avisar que era uma interpretação, provocando pânico e terror na cidade de Nova Iorque e em todos os Estados Unidos. O nome do radialista: Orson Welles.

Para entendermos o que aconteceu, precisamos conhecer um pouco da vida de Orson Welles.

Orson Welles: o Gênio

Orson Welles (1)Orson Welles nasceu em 6 de maio de 1915, já sendo considerado um gênio aos três anos de idade. De acordo com relatos do próprio Welles, ele aprendeu mágica aos cinco anos com Harry Houdini, um dos mais famosos mágicos de todos os tempos; bebia coquetéis aos oito anos; foi toureiro na adolescência; tinha escrito uma monografia sobre a história universal do teatro; tinha lido clássicos no palácio do Paxá de Marrakesh, entre tantas outras histórias. Grande parte desta autobiografia é mentirosa, mentiras estas que Welles criava para aumentar sua fama de gênio e para esconder sua profunda tristeza, pois ele passou grande parte de sua infância e adolescência num internato. Seus pais separaram-se quando ele tinha seis anos. Sua mãe morreu quando ele completou nove e seu pai quando fez quinze, vítima do alcoolismo. Apesar de ser um mentiroso de primeira, ele também era realmente um gênio.

O jovem e energético Welles queria apresentar os clássicos do teatro para o homem comum e, em 1936, dirigiu a peça Macbeth, de William Shakespeare, no Harlem, bairro pobre e negro de Nova Iorque, conseguindo grande sucesso. Ele chocou o público ao montar um texto de Shakespeare com um elenco praticamente amador e composto apenas de negros – e o choque seria uma das marcas da carreira de Welles.

Logo, ele seria contratado para apresentar programas de rádio, fazendo várias vozes e personagens, chegando a improvisar no ar várias vezes, para desespero do resto do elenco, quando não dos patrocinadores. Um dos maiores sucessos de Welles foi fazer a famosa voz do herói Sombra. Welles era tão requisitado para programas de rádio que se utilizava de uma ambulância com a sirene ligada para se deslocar de uma estação de rádio para a outra ou para o teatro que apresentava suas peças. Não existia crime em andar numa ambulância com a sirene ligada sem um doente dentro e Welles aproveitou-se do “furo” jurídico.

A Guerra dos Mundos (1953) (8)

O rádio proporcionava-lhe muito dinheiro, que era investido nas suas atividades teatrais, como manter o Mercury Theater e financiar suas montagens teatrais. Em 1937, Welles estreou outra peça de Shakespeare, Julio Cesar, interpretado com roupas atuais e fazendo críticas ao nazismo. Muitos críticos teatrais consideram essa encenação de Julio Cesar como uma das mais importantes feitas de uma obra de Shakespeare. Atualizando a peça e a utilizando como críticas diretas ao nazismo, que não era o “grande inimigo” dos Estados Unidos na época (a Segunda Guerra Mundial começaria em 1939 e os norte-americanos apenas entrariam nela em 1941), Welles mais uma vez chocou o público. E chocaria ainda mais no mais célebre programa de rádio já feito.

Marte Ataca!

Na noite de 30 de outubro de 1938, trabalhando no programa “Mercury Theater On the Air“, pela CBS, que adaptava para a linguagem da rádio peças de teatro e romances famosos, Welles resolveu apresentar A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells. Mas o apresentou de maneira diferente, seguindo seu talento para improvisações: a obra de H. G. Wells seria apresentada como se fosse uma notícia real, interrompendo a transmissão normal do programa como se fosse um boletim de notícias. Assim, o pequeno público ouvinte ficou intrigado por aquele boletim informando sobre estranhas movimentações vindas do planeta Marte. A notícia começou a circular rapidamente. Dizemos que era um “pequeno público“, pois a grande audiência do horário era da emissora rival da CBS, a NBC, com o programa apresentado pelo ventríloquo Edgar Bergen e seu boneco Charlie McCarthy. Welles sabia que o programa de Bergen fazia um intervalo com músicas depois de 12 minutos. E foi justamente neste intervalo que seus marcianos pousaram na Terra.

Orson Welles (2)

Welles fez com que os atores e atrizes fossem bem convincentes e dramáticos, que foi justamente o que fizeram: a chegada dos marcianos e seus ataques letais com gases e raios laser foram dramaticamente narrados. A destruição era total e o avanço dos invasores inevitável. A audiência do programa subiu vertiginosamente neste momento e poucos desconfiaram de que não era uma invasão real, apesar de outras estações não estarem dando cobertura sobre este fato. Num lance de gênio, depois da narração de um violentíssimo ataque dos marcianos, Wells segurou a pausa e um silêncio aterrador tomou conta da rádio. Welles segurava a pausa por um tempo que pareceu infinito, aumentando a agonia do público, que começou a sair pelas ruas e a mostrar seu pânico. As “notícias” voltaram ao ar pouco depois, ainda narradas dramaticamente.

O rebuliço, nesta altura, já era notável: pessoas ligando para seus parentes mais distantes para se despedir, congestionando as linhas dos mais calmos lugares dos Estados Unidos; suicídios; pessoas molhando as cortinas para evitar a ação dos gases marcianos; correria e pânico nas ruas; choros; partos prematuros, fuga em massa para as montanhas ou lugares distantes; forças policiais completamente perdidas; e um número considerável de pessoas afirmando ver marcianos em todos os lugares.

Um dos executivos da CBS, Davidson Taylor, apareceu no set do programa durante a transmissão e pediu para que fosse dita a verdade, pois aquele programa estava matando as pessoas de pavor. Welles recusou-se a parar o programa, pois o objetivo era este mesmo, provocar pavor nas pessoas. Logo, a polícia invadiu o local e interrompeu a transmissão. No dia seguinte, Welles iria pedir desculpas pela transmissão da noite anterior, alegando não saber o que estava acontecendo. Era uma desculpa pouco convincente, logicamente, pois ele fora informado por Taylor do pânico que tomou conta do país. A vida de Welles pode ser resumida nesta transmissão: literatura, improvisação e choque, além de uma excepcional genialidade para transformar um corriqueiro programa de rádio numa das fontes de terror mais puras que a mídia do século XX pode criar. Leis contra boletins noticiosos falsos foram criadas depois deste incidente.

Alguns leitores devem estar achando que o terror produzido pelas ondas de rádio dos anos 30 devia-se também à ingenuidade do público. Devemos tomar cuidado com esta perspectiva: o rádio da época funcionava como a televisão funciona hoje em dia e, na última guerra transmitida recentemente, a produção televisiva ajudou na produção de nossas sensações, aterrorizando-as ou amparando-as, de acordo com as necessidades dos “Senhores da Guerra“. A manipulação de sensações continua hoje em dia.

Consequências

Orson Welles ficou realmente preocupado com o “sucesso” de sua transmissão, pois o caos provocado por ela poderia destruir sua carreira. Mas a polêmica o ajudou, pois ele foi contratado por Hollywood e assinou o maior contrato da história até então: 150 mil dólares anuais e completa liberdade para fazer seus filmes. O primeiro fruto deste contrato foi Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941), considerado por 9 entre 10 críticos de cinema como o melhor filme já feito.

A Guerra dos Mundos (1953) (9)

A queda da carreira de Welles foi tão vertiginosa como sua ascensão, já que o sucesso de crítica de Cidadão Kane não foi acompanhado pelo sucesso de público. Kane foi baseado na vida do magnata da imprensa norte-americana William Randolph Hearst, que não gostou desta abordagem e seus jornais atacaram o filme, ajudando ainda mais no seu fracasso. A liberdade de Welles foi diminuída drasticamente, seus filmes posteriores foram mexidos pelos executivos e sua promissora carreira em Hollywood acabou arruinada.

Mas, antes do fracasso, o sucesso de Orson Welles deveu-se ao terror produzido pela interpretação de A Guerra dos Mundos.

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Orivaldo Leme Biagi

Orivaldo Leme Biagi

É mestre e doutor em História pela UNICAMP e pós-doutor em Relações Públicas pela USP. Atualmente é professor e Coordenador do curso de Direito da FAAT.

Um comentário em “O Terror pelas Ondas de Rádio: A Interpretação de A Guerra dos Mundos

  • 26/06/2016 em 20:01
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    Orson Welles para mim é um genio.. pena que ele morreu esquecido e pobre em 1985 … e hoje cultuado por um filme que foi na epoca ignorado pelo o publico ” Cidadão Kane ” é uma lição de cinema Welles conduz o filme brilhantemente com tomadas de camera magnificas ,uma historia ate hoje atual .. e uma filme que nunca envelhecerá .
    Ótimo texto deste gênio do cinema nunca deve ser esquecido e sim lembrado por cinefilios apreciadores de bons filmes.

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