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Grindhouse, uma homenagem ao cinema bagaceiro dos anos 70

O mais completo artigo da internet sobre essa experiência cinematográfica, incluindo os trailers falsos e bastidores das produções!

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Surgido do sonho nostálgico e bizarro de dois dos mais criativos cineastas da atualidade, Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, Grindhouse não é apenas um filme: é uma verdadeira experiência cinematográfica. E, como tal, só funciona quando visto numa sala de cinema. Desistam, portanto, de baixar via torrent para ver na telinha do computador ou separados em DVD. Determinadas brincadeiras com a linguagem das próprias sessões de cinema, como imagem propositalmente fora de foco, rolos de negativo “faltando” e falhas na imagem e no som só têm sentido quando vistas dentro de uma sala de cinema (como é que a imagem vai sair de foco no computador ou no DVD?), assim como os comerciais anunciando futuros lançamentos e os trailers falsos dirigidos por outros criativos cineastas da nova geração, convidados por Tarantino e Rodriguez para participarem da brincadeira.

Grindhouse, como todo mundo já deve estar careca de saber neste mundo com overdose de informação, é o apelido de algumas salas de cinema dos Estados Unidos especializadas em passar filmes de qualidade duvidosa – pelo menos para os esnobes espectadores fãs de produções classe A. Estes cinemas eram o reduto dos “exploitation movies” (produções sensacionalistas com muito sexo e violência), dos filmes bagaceiros de kung-fu ou spaghetti western porcamente dublados em inglês, das aventuras baratas com perseguições automobilísticas, dos sangrentos filmes de horror italianos, entre outros. Não eram salas chiques, mas sim pulgueiros em bairros pobres das grandes metrópoles, e que viviam do negócio “veja dois filmes pelo preço de um“. Os primeiros cinemas Grindhouse surgiram na metade dos anos 60, mas foi durante a década de 70 que o negócio se tornou uma febre.

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Quentin Tarantino, nerd e fanático por cinema “alternativo“, não perdia estas sessões, onde era possível ver, numa única sessão, um giallo produzido na Itália seguido de uma produção vagabunda sobre mulheres na prisão rodada nas Filipinas. Antes do programa principal e no intervalo dos dois filmes, era comum a exibição de uma porrada de publicidade (comerciais de lanchonetes, por exemplo) e trailers fuleiros de outras produções, dando tempo para que a galera pudesse esticar as pernas, ir ao banheiro ou comprar pipoca. Como os cinemas Grindhouse eram normalmente vagabundos, assim também era a qualidade técnica dos filmes exibidos: os negativos projetados eram sujos, velhos, gastos, cheios de riscos e falhas; não raras vezes, a direção da sala era obrigada a alertar o público para a falta de cenas inteiras ou até de um rolo inteiro da película, coisa que, diz a lenda, acontecia com frequência – tinha até projecionistas que gostavam de cortar pedaços de negativos para guardar de lembrança antes de mandar os rolos para outro cinema, conforme mostrado em Pesadelo Mortal, de John Carpenter.

No Brasil, o conceito de sessão “dois em um” foi relativamente popular, principalmente em cinemas vagabundos durante os anos 70-80, quando eram exibidos um filme do Chuck Norris antes e um pornô depois. Mas, de modo geral, este formato desapareceu no final dos anos 1980 (junto com as próprias salas de cinema de rua) e hoje é praticamente desconhecido para as novas gerações, acostumadas à chamada “Era dos Multiplex“ dentro dos shopping centers. Para quem quiser ter uma ideia da experiência de uma verdadeira Grindhouse antes de ver o filme de Tarantino e Rodriguez, recomendo procurar por 42nd. Street Forever – Volume 1, uma coletânea com dezenas de trailers de produções exploitation exibidas em sessões duplas. Um dos comerciais é fantástico: anuncia a exibição dupla de Women and Bloody Terror e Night of Bloody Horror (ambos de 1969), duas produções capengas cheias de sangue e mulher pelada, e é seguido de uma suposta matéria de TV onde um repórter entrevista espectadores na sessão onde um homem ficou louco dentro do cinema com o excesso de sexo e violência!!! hahahahaha. A coletânea também permite ver o trailer de “coisas” como Boss Nigger (em tradução literal, “Chefe Negão“), western de 1975 estrelado pelo negro Fred Williamson, e que, visto hoje, mais parece uma brincadeira de cinéfilo do que um preview verdadeiro!!!

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Mas voltando à história das Grindhouses: em meio aos anos 80, quando o videocassete chegou às casas das famílias americanas e se tornou uma febre, os tais cinemas “dois em um” perderam a razão de existir. Afinal, agora o cara poderia locar não apenas dois, mas 10 filmes fuleiros e ver no conforto do seu lar, não numa sala vagabunda e desconfortável de cinema. Foi nesta década que as Grindhouses desapareceram do mapa, inclusive as mais famosas, que ficavam na Broadway e em Hollywood Boulevard (em Los Angeles) e no Times Square, em Nova Iorque. Já nos anos 90, tais salas eram apenas uma vaga lembrança. Menos, é claro, para Tarantino.

Foi enquanto rodava seu clássico Kill Bill – confessadamente inspirado em produções baratas de kung-fu e faroeste que ele assistia nas Grindhouses – que o cineasta teve a ideia inicial: rodar um autêntico filme de pancadaria igual àqueles feitos em Hong-Kong nos anos 70, com falhas no negativo, cenas fora de foco ou estragadas e diálogos em cantonês ridiculamente dublados em inglês. À medida que ia pensando nesta ideia (largamente divulgada na imprensa, inclusive em sites brasileiros sobre cinema), Tarantino percebeu que podia explorá-la de maneira ainda mais nostálgica, recriando a sensação “dois em um” das velhas Grindhouses. Ao convidar seu amigo de longa data Robert Rodriguez (outro fã de sessões duplas) para gravarem um “filme” cada um para um único projeto, Tarantino deu origem a esta doideira chamada Grindhouse.

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Inicialmente, Grindhouse teria pouco mais de duas horas, com os falsos filmes de Tarantino e Rodriguez durando, no máximo, 60 minutos cada. Separando os dois, apareceriam trailers falsos dirigidos pelo próprio Tarantino. Cada vez que se encontravam para discutir o projeto, entretanto, os dois amigos iam expandindo a brincadeira. Os dois “filmes” logo saltaram de 60 para 120 minutos cada um (!!!), e a dupla convidou cineastas amigos, como o inglês Edgar Wright (Todo Mundo Quase Morto) e o americano Eli Roth (Hostel e Cabana do Inferno) para dirigir os trailers falsos; mais tarde, Rob Zombie, diretor de A Casa dos 1000 Corpos e Rejeitados pelo Diabo, ficou sabendo da ideia e resolveu se oferecer para também dirigir um trailer. Para completar, os dois ainda criaram um concurso nacional (nos Estados Unidos) para que cinéfilos e diretores amadores criassem seus próprios trailers falsos de exploitation movies, além de congestionar a internet com inúmeras informações e pôsteres falsos antes mesmo de começarem a filmar!!! A inventividade da dupla parecia não ter limites…

Mantendo-se dentro do espírito das produções baratas que eram exibidas nas velhas Grindhouses, Rodriguez escreveu um filme de zumbis chamado Planeta Terror, repleto de sangue e nojeira, e que considera um cruzamento entre A Noite dos Mortos-Vivos e Fuga de Nova York! Tarantino tentou fazer um slasher movie, mas, num toque pessoal, inventou um assassino que não utiliza facões ou machados, e sim um carro de dublê cinematográfico. Assim nasceu o segundo segmento, À Prova de Morte. Além de slasher, o episódio também homenageia os filmes com perseguições automobilísticas dos anos 70, como Gone in 60 Seconds (o original de 1974, não o remake péssimo com Nicolas Cage e Angelina Jolie) e Corrida contra o Destino (Vanishing Point, de 1971), ambos citados abertamente no roteiro de Tarantino. Já os trailers falsos fazem homenagens aos slasher movies onde assassinos atacam em datas festivas (Thanksgiving, de Eli Roth); às enigmáticas e climáticas produções italianas dos anos 70 (Don’t, de Edgar Wright); aos filmes exploitation sobre nazismo (Werewolf Women of the S.S., de Rob Zombie), e ainda aos filmes classe Z de ação, repletos de tiroteios, frases de efeitos e sexo (Machete, dirigido pelo próprio Robert Rodriguez).

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Cada um dos cineastas (inclusive os convidados para filmar os trailers falsos) teve liberdade total para desenvolver seu projeto. Alguns atores dos dois segmentos principais de Grindhouse foram “emprestados” para aparecer também nos trailers, e, tornando o projeto ainda mais divertido, personagens de um dos “episódios” volta-e-meia aparece no outro. Até o texas ranger Earl McGraw, interpretado por Michael Parks em Um Drink no Inferno (de Rodriguez) e Kill Bill (de Tarantino) reaparece em dose dupla, tanto em Planeta Terror quanto em À Prova de Morte! Detalhe: o personagem tinha morrido logo nas primeiras cenas de Um Drink no Inferno, mas insiste em voltar em quase todas as produções dos dois cineastas!!! hahahaha.

Durante a fase de edição, a dupla teve também a ideia de suprimir cenas inteiras de seus segmentos para poder usar a tela “missing reel” (quando falta um rolo de filme). Afinal, os trabalhos de ambos estavam com quase duas horas cada, e Grindhouse ficaria com mais de 4 horas de duração desse jeito! A solução foi sumir com pedaços de cada filme e colocar um falso pedido formal de desculpas da “gerência do cinema” pelo incômodo!!! hahahaha. O mentor da coisa, obviamente, foi Tarantino, que lembrou de The Sell-Out (1976), produção policial italiana que tinha visto numa Grindhouse com um dos rolos faltando: “Era muito interessante porque, depois do rolo faltando, você não sabia se o herói tinha transado ou não com uma garota, porque ela dizia que sim e ele dizia que não“, lembra Tarantino. E Rodriguez gostou da ideia, justificando: “O segundo ato dos filmes é geralmente o mais previsível e chato!“. Os dois segmentos adotam a tática dos “rolos faltando“, suprimindo cenas inteiras. Mas, aparentemente, estas sequências de “missing reels” foram realmente filmadas e devem ser incorporadas como extras nos DVDs.

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Aumentando a sensação de “sessão dos velhos tempos“, os produtores também colocaram avisos anunciando os trailers, anunciando a atração principal e trazendo a classificação do filme (“The following film is Restricted“); o logotipo da Dimension aparece em duas versões “antiquadas” no começo de cada segmento. Tanto Planeta Terror quanto À Prova de Morte também ganharam “lobby cards“, aquelas velhas fotografias em tamanho ampliado com o nome do filme, que ficavam penduradas na porta dos velhos cinemas – e que eu nem sei se ainda existem, nesta época de multiplex…

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O resultado da brincadeira (dois “filmes” de quase 1h30min mais anúncios e trailers falsos) é uma ambiciosa produção de 53 milhões de dólares, 191 minutos de duração e o elenco dos sonhos de qualquer fã de produções classe B, onde nomes de destaque como Bruce Willis, Nicolas Cage e Kurt Russell aparecem lado a lado com Jeff Fahey, Sybil Danning e Michael Biehn! Escrevi “ambiciosa produção” porque Grindhouse é uma brincadeira inspirada, mas unicamente para cinéfilos, e certamente não-recomendada para todos os públicos. Nem todos vão comprar a ideia, tanto que a obra teve uma bilheteria aquém do esperado na sua estreia nos Estados Unidos. E se por lá, onde surgiu o conceito de cinema Grindhouse, a recepção foi amena, imagine num país como o Brasil, onde não existe esta tradição “dois em um” e onde uma minoria vai sacar as referências aos exploitation movies dos anos 70… Pior: espectadores desavisados não vão entender bulhufas em relação aos trailers falsos e certamente vão acreditar que as falhas propositais na projeção são culpa da sala de cinema que está exibindo o filme (hahahaha), o que poderia tornar a exibição de Grindhouse uma grande dor-de-cabeça para os cinemas brasileiros!

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A partir de agora, você acompanha o mais completo artigo da internet brasileira analisando esta fantástica obra. Fique primeiro com as análises individuais de Planeta Terror e À Prova de Morte, como se fossem realmente dois filmes independentes, e, depois, acompanhe as resenhas de cada um dos falsos trailers. Prepare-se para a sessão dupla e divirta-se!!!

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1 Comentário

  1. WELLINGTON SILVA TAVARES

    Excelente matéria!!!

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