Grindhouse, uma homenagem ao cinema bagaceiro dos anos 70

COMING ATTRACTIONS

Para dar ainda mais realismo à experiência cinematográfica de Grindhouse, Tarantino e Rodriguez pensaram, desde o começo, em rodar falsos trailers que seriam exibidos no intervalo entre os dois segmentos. Inicialmente, o próprio Tarantino faria todos eles. Então, Rodriguez dirigiu o seu próprio, Machete, deixou prontinho e mostrou ao colega. Tarantino amou: pegou uma cópia em DVD e saiu mostrando para amigos, como os cineastas Eli Roth e Edgar Wright. Eles não só adoraram como perguntaram a Tarantino se podiam fazer seus próprios trailers falsos. E foi assim que surgiu a ideia de convidá-los para a função.

No total, Grindhouse tem quatro trailers de filmes que até então não existiam – cinco no caso do Canadá e de algumas regiões dos EUA, onde também será exibido Hobo with a Shotgun, filminho dos canadenses Jaison Eisener, John Davies e Rob Cottenil que venceu o concurso de trailers realizado pelos produtores de Grindhouse.

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Na edição normal do filme, Machete é o primeiro preview, exibido logo no início, antes de Planeta Terror. Ao final do segmento de Rodriguez, antes do início de À Prova de Morte, entram, na ordem, Werewolf Women of the S.S., de Rob Zombie; Don´t, dirigido por Wright, e Thanksgiving, de Roth. Saiba mais sobre os quatro “micro-filmes” abaixo:

They call him Machete“, diz a voz no anúncio do trailer. “He knows the score. He gets the women. And kills the bad guys!”. O mal-encarado, tatuado e ex-criminoso (foi preso por assalto à mão armada!!!) Danny Trejo não tem apenas um dos rostos mais feios do cinema contemporâneo, mas também um grande amigo, o cineasta Robert Rodriguez. Desde que eles trabalharam juntos pela primeira vez, em A Balada do Pistoleiro, foi amor à primeira vista, e Trejo agora aparece em todas as obras do cineasta. Ainda em 1993, Rodriguez escreveu o roteiro de Machete, um longa-metragem que teria Trejo no papel-título de um agente secreto mexicano contratado para fazer um serviço sujo nos EUA; só que ele é traído, incriminado e parte para a vingança. Por diferentes motivos, o projeto não saia do papel. Mas Rodriguez não desistiu da ideia.

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Quando eu conheci Danny Trejo, pensei nele como um Van Damme ou Charles Bronson do México, que deveria estrelar sua própria série de filmes“, disse o cineasta, numa entrevista. Com a possibilidade de rodar trailers falsos para Grindhouse, o conceito de Machete voltou a surgir e Rodriguez resolveu lançar o preview para ver como seria a reação do público. Até os produtores de Grindhouse gostaram, e deram sinal verde para que o cineasta filmasse seu tão sonhado longa-metragem (“They fucked with the wrong mexican!” é a frase no cartaz).

Machete, o trailer, lembra uma típica produção blacksploitation dos anos 70, só que neste caso é “mexsploitation“. O mal-encarado Machete é contratado por um homem de terno (Jeff Fahey, “emprestado” do elenco de Planeta Terror) para assassinar um político, no estilo John Kennedy. Quando vai realizar o trabalho, entretanto, ele é traído por um dos homens do seu contratante, baleado e deixado entre a vida e a morte. Seria muito simples se tivesse morrido, mas Machete sobrevive e pede a ajuda de um velho amigo, agora padre (interpretado por Cheech Marin, da extinta dupla Cheech & Chong), para exterminar todos os traidores. Tito Larriva, da dupla Tito & Tarantula, aparece rapidamente como um dos bandidos chacinados pelo “herói“.

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Rodriguez disse que criou o conceito do personagem quando ouviu a história de que o pessoal do FBI e do DEA (o órgão americano de combate às drogas) costumava contratar agentes mexicanos para realizar os trabalhos mais pesados e perigosos. E o cineasta ainda proporciona um momento de felicidade ao eterno figurante e agora astro Trejo, colocando-o numa cena do trailer com duas gatas peladas!!! Machete também inclui uma frase que parece saída da série Rambo: quando um bandido desarmado implora ao padre Cheech que tenha piedade, este responde “Deus tem piedade… Eu NÃO!“, antes de explodir a cabeça do criminoso com um tiro de escopeta!!!

Como curiosidade, Trejo havia interpretado um personagem chamado “Machete” na série Pequenos Espiões, dirigida por Robert Rodriguez. E uma cena do trailer, onde ele joga facas através do teto solar de uma limusine, é um auto-plágio de uma cena exatamente igual, com o mesmo Danny Trejo, que Rodriguez filmou em A Balada do Pistoleiro!

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Quando procurou Robert Rodriguez e se ofereceu para filmar um dos trailers falsos de Grindhouse, na premiação do Scream Awards, em outubro de 2006, Rob Zombie tinha duas ideias: ou seria o trailer de um WIP (filmes com mulheres na prisão) ou de um nazisploitation. Fascinado por obras desta segunda categoria, como Ilsa – She Wolf of the SS e Love Camp 7, Zombie optou por uma ideia maluca juntando nazistas e lobisomens, que chega a lembrar as doideiras do brasileiro Ivan Cardoso.

Para transformar a ideia em realidade, ele chamou o amigão Bill Moseley (o Ottis de A Casa dos 1000 Corpos e Rejeitados pelo Diabo) e a esposa gostosa Sheri Moon Zombie, mais Udo Kier, a musa do cinema classe B oitentista Sybil Danning, Tom Towles e até o astro Nicolas Cage, no improvável papel de Fu-Manchu!!!

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Ao contrário de Machete, que passa uma ideia bem aproximada do que seria um filme verdadeiro baseado no trailer, o preview de Werewolf Women… não dá muita ideia sobre a trama do falso filme. Começa com um letreiro, sobre cenas de documentário da Segunda Guerra Mundial, dizendo que finalmente pode ser contada “a verdade sobre o diabólico plano de Hitler para criar uma raça de super-mulheres“. A seguir, vemos cenas de Sybil e Sheri vestindo fetichistas roupas de oficiais nazistas, Tom Towles disparando um revólver, garotas com os peitos de fora, Moseley como cientista louco, e, claro, um bisonho e trash lobisomem, tudo ao som de um trecho da clássica Nona Sinfonia de Beethoven!

A grande atração do trailer, entretanto, é ver Nicolas Cage pagando mico como Fu-Manchu, gritando: “Esta é a minha Mecca!!!“, antes de disparar exageradas risadas insanas!!! hahahahaha. Apesar da ideia curiosa, duvido que Werewolf Women of the S.S. realmente tivesse potencial para virar filme, ao contrário de Machete e Dpn’t. E vão dizer que eu pego no pé do Rob Zombie, mas seu trailer é, sem sombra de dúvida, o mais fraco e sem graça dos quatro.

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Não deixa de ser surpreendente quando um trailer de dois minutos dirigido pelo inglês Edgar Wright (conhecido por aliar humor e horror) é a coisa mais assustadora que se vê em MUITO tempo. Don´t é um pesadelo indescritível, que o diretor disse ser inspirado no cinema italiano dos anos 70, principalmente em obras de Dario Argento, como Suspiria. O trailer nada mais é do que uma sequência desconexa de acontecimentos violentos, assustadores e bizarros, sem dar qualquer pista sobre a trama – e, por isso mesmo, é apavorante!

O título bizarro – que poderia ser traduzido como “Não Faça“, em português – refere-se a uma série de alertas feitos pelo sinistro narrador do trailer (Will Arnett) enquanto se desenrolam as imagens de pesadelo, como “If you’re thinking in going in to this house… Don’t!“, ou “If you’re thinking in opening this door… DON’T!“. Paralelamente, enquanto o aviso “Don’t” é repetido infinitas vezes, sucedem-se imagens de crianças com os olhos vazados (lembrando The Beyond, de Fulci), mortes escabrosas (com cabeças cortadas ao meio e olhos arrancados) e closes de bocas cuspindo sangue. O clima é bizarro e genuinamente arrepiante, lembrando realmente uma produção italiana dos bons tempos – e é uma verdadeira pena que seja o trailer falso de um filme que não existe…

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Wright revelou, ainda, que o nome Don´t foi baseado nos títulos genéricos e doidos com que muitas produções europeias eram lançadas no mercado americano, citando o exemplo do clássico The Living at the Manchester Rogue (“Os Mortos-Vivos do Necrotério de Manchester”), do catalão Jorge Grau, que nos EUA foi lançado como Don´t Open the Window (“Não Abra a Janela”), e nem ao menos existe uma cena envolvendo janelas na trama!!! hahahaha. O diretor também revelou que o letrero “Don’t” repetido infinitas vezes durante o trailer foi uma ideia inspirada no preview de Torso, giallo do italiano Sergio Martino, onde a palavra “Torso” também era repetida diversas vezes sobre “freeze frames” de cenas de suspense e assassinato. Wright só esqueceu de citar como inspiração (talvez porque sua ideia seja praticamente um copiar + colar) que Don´t se parece muito com o trailer do clássico slasher Chamas da Morte/A Vingança de Cropsy (1981), onde o narrador faz vários alertar parecidos sobre cenas do filme, como: “If you’re planning to go camping this summer… DON’T!“.

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Quem tem olho vivo verá atores conhecidos em meio às imagens lisérgicas do preview: Jason Isaacs, de Resident Evil e O Enigma do Horizonte, é o homem de barba que se aproxima do portão da mansão, nas primeiras cenas; a dupla de Shaun of the Dead, Simon Pegg e Nick Frost, aparece respectivamente como a criatura canibal que ataca os jovens e o gordo demente que devora bonecos de bebês no porão; entre as garotas, estão a cantora Katie Melua e a atriz Emily Booth, do excelente Evil Aliens.

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Eu posso até apanhar, mas arrisco dizer que os menos de dois minutos de Don´t são a parte mais bizarra, criativa e genial das três horas de Grindhouse. Se os outros segmentos apelam para o humor escancarado, satirizando os exageros das produções baratas exibidas nas salas de Grindhouse, Don´t trata o gênero com respeito e reverência. Por isso, eu adoraria, mas adoraria mesmo, ver o que um bom diretor italiano poderia fazer usando o clima, o “argumento” e cenas parecidas com estas filmadas por Edgar Wright – que, com louvor, subiu mais algumas posições no meu ranking de “Novos diretores cujo trabalho vale a pena acompanhar“.

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É o último dos trailers falsos, antecipando o início de À Prova de Morte e marcando, definitivamente, o fim da brincadeira em Grindhouse. Conhecido pela extrema violência e pelas piadas sexistas em seus filmes anteriores (Cabana do Inferno e Hostel, além de 2001 Maníacos, que ele produziu), Eli Roth entrega mais do mesmo: mortes bem sangrentas e gráficas, mulheres peladas e sacanagem a rodo, inclusive um boquete que acaba com o namorado da boqueteira perdendo a cabeça (o sujeito azarado é interpretado pelo próprio Roth, e a mocinha por Jordan Ladd, que apareceu em Cabana do Inferno; ironicamente Roth e Jordan também estão em À Prova de Morte!!!).

Thanksgiving” é o nome do feriado americano do Dia de Ação de Graças, data importantíssima para os gringos, que lembram da colonização do território norte-americano por peregrinos (para nós, felizmente, este dia imbecil não significa absolutamente nada). Roth e seu velho amigo Jeff Rendell são fãs dos velhos slasher movies dos anos 80, tipo Halloween e Sexta-Feira 13, e sempre se divertiram com o fato dos assassinos atacarem em datas festivas. Entretanto, alegam eles, nenhum produtor jamais lembrou do Dia de Ação de Graças, adotado por Roth no seu falso trailer.

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Meu amigo Jeff cresceu em Massachusetts, nós éramos grandes fãs de slashers e, todo mês de novembro, esperávamos que alguém lançasse um slasher movie onde o assassino atacasse no Dia de Ação de Graças“, relembra Eli. Antes de ele se transformar numa das jovens promessas do cinema de horror, a dupla chegou a bolar toda uma história para o seu slasher de Ação de Graças: seria sobre um garoto que se apaixonou por um peru (!!!), e viu a ave ser executada pelo seu pai para o jantar de Ação de Graças. Resultado: o garoto enlouquece, mata toda a família e vai para um manicômio, de onde foge, quando crescido, para se vingar da cidade no feriado de Ação de Graças. Qualquer semelhança com o Halloween original NÃO é mera coincidência!

Quando Roth foi convidado por Tarantino para dirigir um dos falsos trailers de Grindhouse, ele ligou para Rendell e disse que podiam colocar finalmente as suas ideias em prática. “E nós nem precisamos filmar tudo, apenas as melhores partes!“, comemorou o cineasta. O trailer foi gravado em apenas dois dias na República Tcheca, onde Roth estava rodando Hostel 2. O papel de assassino vestido como peregrino ficou com o próprio amigo do diretor, Jeff Rendell. E o trailer de Thanksgiving entrega justamente o que promete: sacanagem e mortes violentas, como a da cheerleader gostosa e pelada (Vendula Kristek) que, brincando numa cama elástica, cai de pernas abertas sobre o punhal deixado lá pelo assassino!!! (Isso realmente deve ter doído). Ironicamente (pelo fato de ser uma brincadeira), Thanksgiving traz algumas das melhores cenas de assassinato desde o ressurgimento dos slasher movies com Pânico, de Wes Craven.

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Porém, ao contrário do que muita gente opinou quando o falso trailer foi exibido, não acho que Thanksgiving poderia render um bom filme. Afinal, como o próprio Roth disse, as melhores cenas já estão todas no preview, e o diretor nada mais poderia fazer além de criar uma história fajuta para amarrar as cenas e encher linguiça entre um assassinato em outro. Logo, melhor ficar só no falso trailer mesmo – e ganha um pirulito quem não rir na cena em que um policial enfia o dedo na poça de sangue de uma vítima, coloca na boca e diz: “It´s blood…”. hahahahahaha.

Olho vivo para enxergar Michael Biehn, “emprestado” do elenco de Planeta Terror, como o xerife aterrorizado com as mortes, e Jay Hernandez, o astro de Hostel, como um rapaz que perde, literalmente, a cabeça!!! E preste atenção na música do trailer: Roth “roubou” de Creepshow (1982), de George A. Romero!

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

Um comentário em “Grindhouse, uma homenagem ao cinema bagaceiro dos anos 70

  • 01/08/2016 em 14:17
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    Excelente matéria!!!

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