Grindhouse, uma homenagem ao cinema bagaceiro dos anos 70

…E A PRÓXIMA SESSÃO?

Um crítico americano escreveu, e sua observação foi absolutamente genial, que Grindhouse é uma homenagem apaixonada à forma mais obsoleta de cultura cinematográfica. Logo, ninguém pode esperar que Planeta Terror ou À Prova de Morte sejam obras geniais, com qualquer outro compromisso que não o de divertir. Tarantino levou a coisa um pouco mais a sério do que Rodriguez, mas os dois segmentos, somando os trailers, são o mais próximo que se pode chegar de uma sessão de cinema Grindhouse dos anos 70 – o próprio Tarantino comentou que só lamenta o fato dos dois segmentos que eles dirigiram serem melhores do que os “verdadeiros” filmes exibidos nas velhas Grindhouses!!!

Infelizmente, Planeta Terror e À Prova de Morte perdem feio para os verdadeiros exploitation movies que faziam a felicidade dos fãs das Grindhouses, e que eram feitos dessa forma ingenuamente, não de propósito, como no caso dos segmentos de Rodriguez e Tarantino. Fico pensando como seria divertido assistir uma verdadeira sessão “dois em um” com filmes bagaceiros numa boa sala de cinema… Por sinal, se Grindhouse tem um grande mérito, este é o de transformar, por três horas, as luxuosas salas de cinema multiplex dos shopping centers em vagabundas Grindhouses. hahahahaha

Desde que o projeto foi anunciado, com a ideia “dois filmes em um“, eu imaginei que o grande público não ia entender a brincadeira, ainda mais esta garotada burra e sem cultura que infesta os cinemas de shopping nos dias atuais. Não deu outra: mesmo nos Estados Unidos, berço das Grindhouses, e onde há muito mais cultuadores de filmes exploitation do que no Brasil (pelo menos lá eles têm estas produções em DVD…), Grindhouse provocou confusão e não foi recebido com tanto entusiasmo quanto esperavam seus realizadores e, principalmente, produtores.

A primeira semana do filme em cartaz lá nos States foi decepcionante, com uma bilheteria de meros 11,5 milhões de dólares, quando o esperado era entre 20 e 30 milhões na abertura. Talvez seja culpa do gênio que resolveu lançar uma obra dessas no feriado de Páscoa, quando as famílias vão ao cinema em busca de produções fofinhas e inofensivas, não de zumbis purulentos e sangrentos acidentes de carro… Mas não se engane: Grindhouse com certeza está longe de ser um fiasco de bilheteria e com certeza vai se pagar, principalmente quando chegar ao DVD – embora, como eu escrevi no começo, a experiência de ver o filme em casa não seja tão divertida quanto na sala de cinema.

Se grande parte do público não entendeu a brincadeira, a crítica também se dividiu: alguns elogiaram a “genialidade” de Tarantino e Rodriguez por homenagearem o cinemão insosso, porém divertido, das Grindhouses. Outros não viram a menor graça no festival de nojeira e violência, e jogaram lenha dizendo que Grindhouse é ainda pior do que as piores produções das velhas sessões duplas, e que os verdadeiros frequentadores dos cinemas Grindhouse jamais iam curtir o longo e excessivamente dialogado À Prova de Morte. Uma das melhores críticas diz que “Tarantino e Rodriguez fizeram cinema com o coração, mas isso não significa que todo mundo vai entender a brincadeira“. É exatamente este o ponto: para 90% dos espectadores, infelizmente, “Grindhouse“, “exploitation“, “WIP” e outros termos de cinema bagaceiro não significam absolutamente nada, e estes realmente não vão gostar tanto da “brincadeira“.

Grindhouse (2007) (39)A bilheteria reduzida na estréia levou o produtor Harvey Weinstein a se lamentar. Para quem não sabe, ele é um dos caras mais xaropes do mundo do cinema, e também o desgraçado que pega filmes asiáticos e corta de 20 a 30 minutos para lançar no mercado ocidental (foi ele quem mutilou os fantásticos Ong-Bak e Shaolin Soccer para exibir nos EUA, e o pior é que são essas cópias fajutas e cortadas que chegam ao Brasil!). Preocupado com os números de Grindhouse na estreia, o ambicioso Weinstein já estava pensando seriamente em tirar a obra de cartaz lá nos EUA e dividi-la em dois filmes separados e “normais“, colocando de volta todas as cenas retiradas e os “missing reels“, e avacalhando toda a ideia original da sessão “dois em um“.

Pois é assim, separadamente, que os brasileiros deverão ver o trabalho de Tarantino e Rodriguez.

Isso acontece porque o conceito “Grindhouse” não existe fora dos EUA. E, desde o começo, os produtores já tinham a ideia de lançar Grindhouse num formato diferente em outros países: ao invés de um único programa com três horas de duração, os dois segmentos seriam separados (só não se sabe com certeza como ficaria no caso dos falsos anúncios de publicidade e trailers). Por um lado isso é bom (afinal, veremos os filmes separadamente e com cenas a mais, sem ficar comparando um e outro, como acontece na “sessão dupla“); por outro lado, é muito ruim (teremos que pagar dois ingressos ao invés de um só, e dividir os filmes acaba justamente com o objetivo de Grindhouse, que é o de oferecer um programa duplo!!!). Vou dar minha opinião sincera: embora a grande sacada do projeto seja exatamente a sessão dupla, penso que a separação pode beneficiar os dois filmes, já que o segmento de Tarantino, com muito menos ação e sangue que o de Rodriguez, não será apresentado como “a metade final das três horas“, mas sim como produção independente. Só vendo para saber…

Sucesso ou fracasso, Grindhouse já está gerando frutos. Primeiro, foi um festival Grindhouse que aconteceu nos EUA (e só lá, infelizmente), com sessões duplas de verdadeiros filmes baratos, antecipando o lançamento da obra de Tarantino e Rodriguez. Depois, veio a notícia de que Machete, concebido como um dos trailers falsos, viraria longa-metragem “de verdade“, dirigido e roteirizado por Robert Rodriguez e estrelado por Danny Trejo. E o futuro, agora, ninguém sabe como vai ser: os dois cineastas já manifestaram seu interesse em desenvolver um Grindhouse 2, onde Tarantino finalmente faria seu “filme bagaceiro de kung-fu falado em mandarim e dublado em inglês“. Alguns espectadores também gostariam que a Parte 2 desse espaço justamente para os projetos apresentados nos trailers falsos do original, como Don´t ou Thanksgiving.

Grindhouse (2007) (40)Realmente, a partir de agora, as possibilidades são inúmeras. E, desde já, deixo aqui uma sugestão para Tarantino e Rodriguez: se Grindhouse é uma experiência que funciona muito melhor no cinema, que tal lançá-lo em DVD como se estivéssemos assistindo uma fita VHS já muito gasta de alguma locadora fuleira, com o aviso de “proibido reproduzir cópias” e falhas como “fita mastigada“? Ainda dentro dessa ideia, a opção “seleção de cenas” poderia ser desativada do DVD, obrigando o espectador a passar o filme para a frente com a tecla FF, como fazia nos tempos das velhas fitas cassete. Já pensou a doideira?

De uma coisa eu tenho certeza: se Grindhouse serviu para algo (além de divertir, óbvio), foi para dar o devido valor e reconhecimento a todas as produções vagabundas, mas muito divertidas, que encontravam nas velhas salas de cinema americanas um espaço nobre. Estas produções, não raras vezes, são execradas por cinéfilos arrogantes, ou mesmo classificadas de “lixo cultural“. É engraçado, mas nestes tempos pretensiosos de Lars Von Trier e dramas iranianos sobre crianças que perderam a sandália, ainda acho as produções bagaceiras dos anos 70 e 80 muito mais legais que muito vencedor do Oscar. Quem sabe agora produções exploitation, blacksploitation, nazisploitation, nunsploitation, WIP e outras ganhem edições caprichadas em DVD também no Brasil… Sonhar, afinal, não custa nada. E o sonho de Tarantino e Rodriguez já está aí, transformado em realidade, para todo mundo ver.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

Um comentário em “Grindhouse, uma homenagem ao cinema bagaceiro dos anos 70

  • 01/08/2016 em 14:17
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    Excelente matéria!!!

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