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Aquarius e o horror nosso de cada dia

Não é um filme de horror, mas pode ter alguns elementos tão comuns a este gênero tão abrangente!

Uma das verdades máximas do cinema de horror foi sabiamente proferida pelo ator Robert Englund, o nosso eterno e querido Freddy Krueger. E o filme em questão foi justamente o ótimo O Novo Pesadelo, de 1994. A cena mostrava Englund conversando com a atriz Heather Langenkamp. Ambos interpretam eles próprios na produção que foi dirigida por Wes Craven. Englund fala para a colega que os fãs de A Hora do Pesadelo gostariam de ver os dois juntos novamente. Langenkamp brinca que ambos poderiam fazer uma comédia romântica e Englund logo afirma que até uma comédia romântica pode ter espaço para uma decapitação ou duas.

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O fã de filmes de horror não apenas sabe que isto é verdade como consegue reconhecer estas cenas de decapitações em produções que oficialmente passam longe do horror. E claro, a ideia de decapitação apresentada por Englund serve muito mais como metáfora de algo comum ao gênero horror do que propriamente cabeças sendo degoladas em cena.

Considerado um dos melhores filmes nacionais de 2016, se não o melhor, Aquarius não é em nenhum momento um título de horror. No entanto, possui uma cena de decapitação ou duas. Aquarius foi dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, responsável pelo elogiado O Som ao Redor, de 2012. Aquarius conta a história de Clara (Sonia Braga), que é a única moradora de um pequeno edifício cujos demais apartamentos foram comprados por uma imobiliária. O dono da construtora tem em Clara o único empecilho antes de colocar o Aquarius abaixo e construir um prédio moderno.

Desde a sua estreia, no Festival de Cannes, Aquarius vem colecionando elogios e polêmicas. Diretor e elenco foram destaques na mídia internacional por chegarem ao tapete vermelho de Cannes com cartazes sobre a questão política atual do Brasil. Isso transformou o filme em uma espécie de ato simbólico de resistência, e a sua protagonista Clara como heroína nacional.

O que muita gente pode desconhecer é que antes de fazer O Som ao Redor, Kleber dirigiu alguns ótimos curtas. Entre eles, destaque para Vinil Verde e A Menina do Algodão. Ambos são duas tentativas muito bem realizadas que flertam com um horror psicológico capaz de deixar o público tenso com o que vai acontecer. Sem sangue, sem gritos e sem vilões envoltos em clichês, estes dois curtas trabalham com o medo dentro de uma perspectiva mais intimista, próxima da realidade e envolvente.

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Ao conhecer estes dois curtas, é possível perceber em Aquarius este flerte de Kleber com o horror. Acompanhar o drama e a luta de Clara colocam o público praticamente como um morador do seu pequeno edifício, no qual na calada da noite, quando as luzes se apagam, parece existir uma certa áurea de mistério. Seja em um sonho ou simplesmente através de um móvel que insiste em ser mostrado pelo diretor, o estranho não é sobrenatural ou violento e apenas acontece quando estamos naquela fronteira tênue entre o real e o desconhecido. Neste caso, basta encostar a cabeça no travesseiro e fechar os olhos para estar diante deste desconhecido. Na próxima cena, ao acordar, o sonho parece algo distante. E como em uma rotina diária, nos concentramos no que é real e parte do dia-a-dia.

Além disso, Kleber cria um eficiente suspense em torno de Clara e do que vai acontecer. Parece estarmos diante de um filme de Alfred Hitchcock, no qual a cada avanço do filme vamos coletando pistas, mas parecemos cada vez mais distantes de fazer com que os pedaços recolhidos façam algum sentido para o que vai acontecer com Clara. E Kleber faz este caminho sem precisar correr. Como em um bom vinho, vamos bebendo lentamente.

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Caso você decida assistir Aquarius depois de ler este artigo, saiba que antes de mais nada estará diante de um ótimo filme. E não, este filme não é de horror. Mas pensando na metáfora da decapitação proposta por Englund, talvez consiga encontrar alguns sutis momentos de medo que acabam por tornar a trama ainda mais interessante para quem é capaz de fazer esta leitura mais profunda. Neste caso, Sonia parece ser a nossa final girl lutando contra um vilão assustador por ser praticamente invencível.

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Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista com Mestrando em Comunicação. Fã de Cinema, mas com gosto especial para filmes de Terror. Para ele, o gênero vai muito além de sangue e morte. Contato: filipefalcao@bocadoinferno.com.br

8 Comentários

  1. Marcos

    Meu Deus como essa “politificazão” ta ficando doentia na nossa sociedade, conseguiu contaminar todo e qualquer site, ou critico… Espero que isso tenha um fim, pois politicos veem e vão, o entretenimento fica. É insdicutivel o talento do Kleber independente de suas opiniões politicas, MAS colocar Aquarius como um filme de terror é de uma propaganda desnecessaria desse talento do cineasta. A maior parte da resenha e forçadamente procurando cenas do filme que criam “sensação” disso ou daquele que PODE ser elementos comuns nos filmes de terror… Como o próprio autor confessa, é possível ver elementos de terror ate em comedias romanticas, nem por isso acho produtiva uma resenha AQUI NESTE site, sobre os elementos de terror em AMERICAN PIE, ou NUNCA FUI BEIJADA, ou em dramas “serios” que passam longe do terror, embora tenha elementos ‘interpretativos’ com ele, como A LISTA DE SCHIDLER, TEMPO DE DESPERTAR, FORREST GUMP… Filmes fantasticos que não se justificam estarem num site como esse assim como AQUARIUS… Enfim, uma boa resenha, mas com desnecessario cunho politico.

  2. Murilo

    Ver a lenda Sonia Braga naquele quarto ao som de Bethania e Roberto Carlos, sozinha, relembrando os momentos da juventude e a solidão e sofrendo incomodos que querem se apropriar do aquarius dá uma aflição digna de um filme de horror

  3. Murilo

    FIlme maravilhoso. Grito que apareceu no Boca do inferno. Sinal que é coisa boa sim! <3

  4. Carol

    O que uma boa resenha faz… fiquei com vontade de ver!

    • Bruno

      Filme de peteba. Foi ridículo o protesto deles. Só serviu pra queimar o filme é envergonhar o Brasil.

      • Silvana Perez Silvana Perez

        E viva o direito de todo cidadão protesta, né? Vergonha nenhuma aí.

      • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

        Como se o Brasil precisasse de um filme pra isso.

        Aliás, o filme só tem dado orgulho.

        Ao contrário de alguns cidadãos que confundem direito a se manifestar com o direito a falar bobagem.

      • Marcos

        Como falaram, concordando ou não é direito dos caras protestarem contra qualquer bobagem ou motivo serio que eles acharem relevantes, e verdade seja dita, já se envergonhava sozinho, sem ajuda dos realizadores… Tenho minhas criticas ao local apropriado, e ao motivo do protesto, porem, recomendo a todos a assistirem o filme é MUITO BOM, independente da opinião politica dos realizadores…

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