Horrorcore: O lado negro do hip hop

Quando se trata dos fãs de filmes de horror logo vem ao imaginário a imagem dos góticos de maquiagem pesada ou adolescentes cabeludos com camisetas das mais variadas bandas de metal, mas o que poucos sabem é que adeptos da cena rap/hip hop também já investiram pesado no gênero e um dos exemplos disto é o obscuro gênero conhecido como Horrorcore.

Horrorcore (também conhecido como horror rap) é um dos subgêneros da música Rap que surgiu do Gangsta Rap no final da década de 80. Diferente do rap tradicional que se apega a temas como a vida nos subúrbios, brigas de gangues e no temor ao “Divino” o Horrorcore tem o seu lírico baseado nos filmes de horror, assassinos seriais, satanismo e no sobrenatural. O estilo teve origem com vários grupos de hardcore e gangsta rap, com destaque para o Geto Boys, que utilizava de termos “supernaturais” para descrever a violência contida em suas músicas. O termo “horrorcore” surgiu após diversos grupos se utilizarem de temas que também tratavam do mesmo conteúdo de livros de horror e derivados.

Além da temática sombria inclusa nas suas letras outra característica bastante singular do gênero é a utilização de máscaras e maquiagem pesada pelos integrantes dos grupos, que variam de adereços que lembram grandes ícones do horror como capuzes, máscaras de hóquei e pinturas no estilo “corpse paint”, normalmente usada pelas bandas de metal extremo. Máscaras e pinturas de palhaços também são uma forma de personalização dos cantores de horrorcore e um dos grupos que mais se sobressai neste quesito é o Insane Clown Posse, da cidade de Detroit, que cunhou o termo “jugallo” para denominar tanto os fãs da banda quanto do próprio estilo horrorcore.

Outros grandes nomes do horrorcore internacional dignos de nota são: Flatlinerz, Gravediggaz, Twiztid, Brotha Lynch Hung, Necro, KidCrusher, Boondox, Razakel, Kung Fu Vampire, SickTanicK, Cannibal Carib e Texas Microphone Massacre.

O HORRORCORE NO BRASIL

Mesmo que timidamente o estilo também ganhou corpo em terras brasileiras. O gênero teve sua origem em 1994 quando a música “Gritos de Agonia“, do grupo de rap Seres Mortais, foi gravada para a coletânea Fest Rap I. Um ano depois (1996), a gravadora Maracanã lançou a coletânea Fest Rap II, onde um grupo do mesmo seguimento, chamado Fúria Verbal, (apadrinhados pelo Seres Mortais) apresentou seu trabalho. O grupo se destacava pelos coros graves durante a música, letras com frases de impacto e temas quase sempre relacionados ao estado de espírito, alucinações e narrações em quarta pessoa, como se a voz da consciência aparecesse para atormentar o protagonista. As apresentações do grupo também inovaram o cenário do rap nacional com suas produções de palco e figurino, que incluía uso de máscaras, toucas, roupas pretas, pinturas no rosto, lanternas no escuro, castiçais, tochas, entre outros adereços. O estilo do grupo passou a ser conhecido como “Estilo Tormento”, por causa do refrão da música gravada na coletânea. No refrão, a frase entoada é a seguinte: “Nunca passará, o tormento ficará em sua mente!“.  Diferente do Horrorcore original, que foca mais nas histórias de horror, assassinato e satanismo, o “Estilo Tormento”, mesmo sendo produto do horrorcore, se diferencia por sua característica de deixar uma mensagem positiva além do fato relatado.

Mas nem tudo são flores (de cemitério, of course!) no mundo do horrorcore. No Brasil, dois jovens de aproximadamente 13 anos, um deles filho de um delegado, e outro filho do dono de uma rede de TV (mais precisamente a RBS TV) estupraram uma garota da mesma idade na cidade de Florianópolis, estado de Santa Catarina. Pouco após o crime um vídeo foi postado no YouTube onde os jovens interpretam a música “O Próximo Terror De Stephen King” do rapper Patrick Horla. O caso foi denunciado pelo blogueiro Amilton Alexandre (vulgo Mosquito) que, curiosamente, foi encontrado morto em dezembro de 2011. A polícia ainda considera Horla como principal “incentivador” do crime, o que em minha opinião é um absurdo. A maldade humana não precisa de gatilhos artísticos pra aparecer e se eles fizeram isso foi em sã consciência, pois eu sou alucinado por  filmes onde reinam desmembramentos, canibalismo e barbáries e nem por isso eu pego um machado e saio arrancando cabeças por aí, hehehehe…

E pra finalizar deixo aqui alguns dos difusores do estilo em terras brasileiras: Antraz, Doença Sonora, Soarez, Terror Gang, Bulldog Fantazma, Parazita, Karnificina, STK Demogorgon, Sete Cruzes. Aos curiosos e entusiastas uma coletânea bem bacana de Horrorcore BR pode ser ouvida no Youtube.

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Iam Godoy

Iam Godoy

Escritor, colunista, fotógrafo, libertino, subversivo e um porra-louca sem noção do perigo. Comanda desde 2013 o site Gore Boulevard, antro de clássicos e bagaceiras sangrentas.

4 comentários em “Horrorcore: O lado negro do hip hop

  • 08/09/2017 em 18:39
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    É muito vacilo falar do Antraz e do Terror Gang sem citar o Lord Tagman o Hand of Death, também esqueceram do Lord Infamous e o Three 6 Mafia

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  • 26/07/2017 em 01:19
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    Lembro de um grupo de hip-hop (ou dupla) que cantava uma música que era trilha sonora de um filme da série “A Hora do Pesadelo”. Tem até vídeo-clipe com o Freddy Krueger. Acho que Rock nd Roll combina mais com o gênero, embora eu também curta rap.

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  • 01/07/2017 em 03:30
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    O Horrorcore também é foda , eu curto tanto Nacional quanto o gringo principalmente Alemão .
    Apesar de eu curtir bastante o Horrorcore a minha preferência sempre foi e sempre vai ser o Gangsta Rap , seguido pelo Chicano Rap e finalizando com o Horrorcore !
    E em relação ao Horror eu sou um Gorehound , um aficionado pelo GORE !
    O Horror e o Rap pra mim não são apenas gêneros um do cinema e o outro da música , fazem parte de mim e são a minha vida , tanto que já sofri e sofro descriminação e preconceito , mais foda-se as consequências !

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  • 29/06/2017 em 10:33
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    Excelente artigo. Sou fã de hip hop e filmes de terror. Muitos desses cantores eu não conhecia, vou procurar.

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