Cinema, Entrevistas

Entrevista com o diretor Marco Dutra

Diretor de Quando Eu Era Vivo fala sobre como é trabalhar com um gênero que ganha cada vez mais visibilidade no Brasil.

Marco Dutra

Dutra já tem outros dois projetos no gênero horror.

O terror nacional Quando Eu Era Vivo está em cartaz nos cinemas. Na última terça-feira, o diretor Marco Dutra esteve em BH para uma sessão comentada e conseguimos um bate-papo com o mesmo, para saber mais sobre trabalhar com um gênero que ganha cada vez mais visibilidade no território nacional. O filme é uma adaptação do livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli.

Boca do Inferno: Você já havia adaptado o quadrinho Desgraçados para um roteiro. Conte como nasceu essa nova adaptação do livro A Arte de Causar Efeito sem Causa.

Marco Dutra: Primeiro a questão do gênero, que eu gosto desde criança. Eu não sei se foi a cultura de videolocadora que eu cresci, onde tinham as prateleiras categorizando os filmes – a Comédia, o Suspense, a Ficção Científica, o Terror, o Infantil – e eu sempre achei que essas eram as famílias do cinema, e sempre me incomodou muito que o nacional não fazia parte disso, ele era meio que um gênero em si. Acho estranho porque eram ferramentas narrativas, e não sei por que a gente não pode usar, entendeu? O que me impede de fazer um musical, uma comédia, uma animação? Eu posso fazer. Rolava alguma coisa do tipo, “ah a gente não sabe fazer, a gente não pode fazer, porque é isso, porque é aquilo”; isso é besteira, é uma baixa auto-estima nacional, um preconceito mesmo, que acho que impedia a gente de se envolver. Desde a faculdade, a Juliana [Rojas, co-diretora de Trabalhar Cansa] e eu, a gente queria se meter com isso e tal, do nosso jeito, claro; isso não quer dizer que queríamos copiar alguém – a questão é, usar ferramentas para narrar, e a gente não via por que não usar essas ferramentas. Em Quando Eu Era Vivo, foi a primeira vez que usei trilha sonora incidental, que eu quis ir ainda mais longe nessas convenções que a gente reconhece nos filmes de gênero, e é isso. Eu pretendo continuar nessa pegada, isso está me satisfazendo como realizador, ver que eu posso fazer o que eu gosto de fazer.

E quanto ao Mutarelli, eu tinha trabalhado pro Rodrigo Teixeira, que é o produtor desse filme, na adaptação de Desgraçados, mas esse projeto nunca aconteceu, foi engavetado. Mas acho que o Rodrigo vai retomar. De qualquer forma, não seria eu quem iria dirigir, era o projeto de outro diretor. O Rodrigo é muito amigo do Mutarelli, mas não quer produzir só Mutarelli. Só que ele sabia que eu gostava desse romance, que conheci na época do Desgraçados, e falei pra ele “esse romance dá um filme legal”, e quando ele quis fazer esse romance, ele me ligou.

BI: Como foi a recepção do Mutarelli com a adaptação, uma vez que foram feitas algumas alterações – como, por exemplo, a personagem de Bruna, que no livro é uma Artista Plástica, e no filme é uma Estudante de Música?

MD: Ele leu o roteiro e gostou muito, falou que a gente conseguiu levar a essência do livro pro filme. Ele até fez um comentário engraçado, “Nem senti tanta diferença na sensação do roteiro”. Acho que o que ele quis dizer que, independente do que tá igual isso, ou diferente aquilo, ele acha que a essência principal do livro tá lá. É um fruto meu e da Gabriela Amaral, que é co-roteirista, pois a gente fez escolhas; escolhas de caminho; é um livro muito complexo, muito denso…

BI: É diferente, a linguagem do cinema…

MD: São linguagens diferentes, então você tem que fazer uma ponte, não tem jeito, e nessa ponte as coisas mudam, e essa coisa de ela estudar música que eu coloquei… Ela ser estudante de artes plásticas tem muita importância dentro do universo do livro, que é um universo mais de texto, de palavra, de risco no papel… não sei se você já viu o livro, mas tem uma arte gráfica do Mutarelli no meio das páginas, que é muito importante no livro, e eu acho que no cinema… texto no papel… Mas agora música funciona no cinema, é um elemento forte.

Quando Eu Era Vivo (2014)

BI: Quando Eu Era Vivo tem sido bem aceito pelo público e pela crítica. O que você acha desse panorama do cinema de gênero daqui pra frente?

MD: Eu acho que a gente vai ver muitos filmes de gênero brasileiros a partir daqui; não que não tenha, tem o Dennison Ramalho, o Aragão… acho que tem bastante, mas a questão é que tá todo mundo ainda na beira do circuito, mesmo eu, todos os nossos filmes ainda estão comendo pela borda, mas comendo pela borda, uma hora você engole. Acho que todo mundo entendeu que as convenções do gênero são potentes para narrar, tem terreno pra usar essas ferramentas no Brasil, porque é um país muito complicado, muito violento, e com uma história absurda e eu acho que isso é o terreno do gênero.

BI: Como foi a escolha do elenco?

MD: Raramente eu trabalho com teste, foi praticamente escolhido a dedo, com algumas exceções. No final eu trabalhei com o Carlos Albergaria, que é o filho da Helena [Albergaria], que fez a Olga, e trabalhou comigo no Trabalhar Cansa. Tem o Kiko Bertholini, que é um amigo meu, que fez o Pedro, a Gilda Nomacce já trabalhou comigo em vários filmes – são pessoas que admiro e com quem sempre quis trabalhar, só que você não pode trabalhar com seus amigos sempre, porque você não faz o papel para o seu amigo, você faz o papel e depois vê com quem você vai trabalhar. No caso desse filme, foi muito prazeroso trabalhar com a Gilda, com a Helena, com as crianças, com a Tuna Dwek, com o Kiko, com o Eduardo Gomes – que são os coadjuvantes do filme, que eu acho da mais fundamental e absoluta importância para todos os filmes, uma coisa que eu defendo até a morte – que aprendi com o Hitchcock, com o John Ford – que assim, entrou em cena, tem que ser um ser completo. São atores fenomenais que fizeram tudo certinho, na medida.

E aí tem esse trio central, O Pai, o Filho e a Bruna. O Fagundes já gostava do livro, e a gente sabia disso, ele queria muito fazer, gostou muito do roteiro, e o nosso dilema foi conseguir encaixar a agenda dele na nossa, pois ele estava fazendo Gabriela na Globo e Vermelho no Teatro, tivemos que fazer um malabarismo. O Marat eu conheço desde 2006, um ator que admiro profundamente, e eu o propus pro Rodrigo Teixeira, que se envolve muito com o casting. Ele gostou muito do Marat, que adiou 8 compromissos que tinha para fazer o filme. A Sandy eu propus, pois eu precisava de uma atriz que cantasse, ou uma cantora que atuasse, então a gente abriu um pouco o universo das possibilidades para a Bruna. Quando apresentei para o Rodrigo, no início ele achou esquisito, mas depois abraçou a ideia. Mandamos o roteiro pra ela, que gostou. Nunca imaginaríamos que ela aceitaria. Ela nos chamou para conversar no escritório dela em Campinas, e parecia que a gente se conhecia há trinta anos – e ela foi muito simpática, e entregue a uma personagem que não tem nada a ver com ela.

BI: Falando de Sandy, você acha que o público saberá separar a figura da “Sandy cantora” da figura “Sandy, atriz de filme de terror?”

MD: Quando anunciaram que a Madonna ia fazer Evita, foi muito polêmico, e nunca entendi o motivo para essa polêmica, eu gostei muito da Madonna como Evita. A Sandy é a mesma coisa. “Ah, é a Sandy” – ela tem uma coisa de celebridade que vem primeiro, antes de ela ser cantora, de ser atriz, ela é celebridade. Então tem esse lance do culto da celebridade que impede essas pessoas de passarem desse estágio da máscara. Eu tive reações muito boas à presença da Sandy no filme, e fiquei muito feliz. Existem pessoas que não embarcam e é uma questão delas, e pessoas que embarcam, e também é questão delas. A gente fez o nosso trabalho, do tamanho que poderia ser feito.

BI: Você acha que existe um preconceito com o gênero de Terror Brasileiro?

MD: Existe um preconceito com o gênero, tipo “Ah, filme de terror eu não vejo”. Várias pessoas da minha família me falam isso. Mas existe um público para ao cinema de gênero. Em uma exibição no Rio, havia umas 30 pessoas para ver Quando Eu Era Vivo e uma fila enorme para ver Herdeiro do Diabo, que é um filme frágil, na minha opinião, que não foi muito discutido, nem muito elogiado, muito menos respeitado – mas o público tá lá, pagando, batendo o ponto. Mas a questão é essa, se vai ver Herdeiro do Diabo, vai ver Quando eu era Vivo, vai ver Mar Negro. Se a gente não abrir nossa cabeça, a gente não vai conseguir… a gente precisa conquistar um espaço, que deveria ser nosso também, mas não é, a gente trabalha em um terreno dominado.

BI: Como você avalia a questão da produção do gênero no país, em termos de investimentos, sejam diretos, ou por Leis de Incentivo?

MD: Olha, sendo muito sincero, todos os filmes que produzi, sejam os curtas ou os longas, e os próximos que vou produzir – assim, eu tenho 33 anos – tá tudo bem! Não estou tendo dificuldade para fazer os filmes. Tenho dificuldades naturais, mas não consigo sentar aqui e falar pra você “Não consigo fazer filmes”, isso não é verdade. É muito difícil fazer filmes pra todos, porque é caro, porque é difícil de conseguir dinheiro, porque você tem uma série de entraves, de captação, de investimento… No entanto, estamos fazendo filme. Existe alguma coisa que temos que começar a entender melhor. Porque a gente não consegue trazer as pessoas para ver nossos filmes, acho que porque a gente trabalha em um território dominado, tem várias questões envolvidas – tem a mídia, divulgação, distribuição, orçamento pra colocar um comercial na televisão, dinheiro pra fazer cópias pra estrear em 200 salas, interesse para isso também; tem o mercado exibidor, cujo maior espaço é para o cinema estrangeiro. Mas o nosso espaço está crescendo, por isso estou otimista. Não quero ser cego também, mas ano a ano aumenta a nossa fatia.

BI: Quando Eu Era Vivo é um filme “barato” para os padrões de muitas produções nacionais. Você gostaria de trabalhar com mais grana? Uma superprodução?

MD: Não acho que faz sentido pra mim, não nesse momento. Adoraria fazer um filme de 50 milhões de dólares, mas não é essa a questão – a questão é que você tem que entender mercadologicamente onde você está. Se alguém me ligar dos EUA pra fazer Batman 5, isso é uma coisa, posso aceitar, posso não aceitar…

BI: Vimos recentemente o Sam Raimi convidar o jovem diretor uruguaio Fede Alvarez para dirigir o remake de Evil Dead, após ver seu curta-metragem. Isso aconteceu próximo da gente. E se o John Carpenter te ligasse por exemplo?

MD: Aí primeiro eu morro, aí depois eu…

BI: Dei um bom exemplo, né…

MD: Só não faria um remake do Carpenter, pois é uma obra intocável, é um desastre o que tem sido feito. Trabalharia no exterior, sem problema nenhum. Agora não é uma questão do tipo, meu sonho é “cada degrau, um orçamento mais alto” – cada projeto é um projeto. Se eu quiser, posso fazer um filme na minha casa, com uma câmera, tipo Atividade Paranormal, não tem problema.

BI: Você tem algum novo projeto? Pretende continuar no gênero?

MD: Vários projetos, o mais próximo é As Boas Maneiras. Já temos o dinheiro, é um filme de terror que vou co-dirigir com a Juliana, e a gente quer muito filmar esse ano ainda. O Rodrigo Teixeira me convidou para fazer um filme que se chama Demeter, que é um filme de terror, e o roteiro está em desenvolvimento. Continuo no gênero, sem medo.

BI: Valeu demais Marco, sucesso em seus projetos!

MD: Valeu!

*Colaboração na elaboração da entrevista de Silvana Perez e Valmique Júnior.

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Ivo Costa

Ivo Costa

Estudante de Cinema, fez parte do Juri Popular do Cinefantasy em 2011. Além de crítico do Boca do Inferno, atua como diretor e roteirista de curtas-metragens. Contato: [email protected]

2 Comentários

  1. Cristina

    Abrindo espaço para o gênero no Brasil, gostei. Que diretor inteligente!!

  2. vanessa vasconcelos

    boa sorte pra ele de agora em diante.

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