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Dylan Dog – 30 Anos de Pesadelos

O Boca do Inferno deseja um feliz aniversário a um dos mais importantes personagens do horror mundial

Dylan Dog, o Detetive do Pesadelo, é um dos mais importantes e queridos personagens do fumetti, o quadrinho italiano. Criado em outubro de 1986 pelo jornalista e escritor Tiziano Sclavi, com visual inspirado no ator Rupert Everett, elaborado por Claudio Villa, o personagem foi nomeado em homenagem ao poeta Dylan Thomas. Publicado durante um dos períodos mais prolíficos e populares para o gênero do horror, Dylan Dog se tornou um fenômeno. Suas revistas alcançavam tiragens de mais de um milhão de exemplares vendidos na época e suas histórias inspiraram um lendário festival de cinema de horror na Itália, o Dylan Dog Horror Festival, que durou mais de 15 anos entre 1986 e 1993, e contou com a presença de grandes nomes do gênero como Wes Craven, Robert Englund e Bruce Campbell, entre outros.

dylan_dog1-3Dylan Dog chegou às bancas italianas como uma novidade. Dylan era um investigador particular, especializado em casos estranhos e sobrenaturais, alcoólatra em recuperação, vegetariano, sensível, romântico, hipocondríaco e, principalmente, humano! Enquanto os quadrinhos americanos se esforçavam para mostrar que os super-heróis não eram nada mais do que humanos superpoderosos e fantasiados em clássicos como Watchmen e Cavaleiro das Trevas, Dylan Dog foi pelo caminho contrário, mostrando o poder de uma pessoa comum. Mostrando como uma pessoa cheia de “defeitos” pode ser muito mais do que aquilo que pode parecer à primeira vista. Dylan Dog é um herói como poucos.

Suas histórias se passam em Londres, onde o nosso herói possui um escritório/apartamento no número sete da Craven Road, onde divide seu tempo entre construir uma maquete de um galeão espanhol que nunca fica pronta, tocar clarinete e solucionar casos estranhos, que geralmente chegam a ele através de “bellas donas” das quais cobrará 50 libras mais despesas por dia. Tiziano compõe seu Dylan Dog como uma mistura de James Bond e Sherlock Holmes, juntando o sucesso com as mulheres do agente secreto inglês de Ian Flemming com o vício, o instrumento musical como forma de estimulo intelectual na solução de casos e a parceria com a Scotland Yard, do detetive de Conan Doyle. Dylan, inclusive, possui seu próprio Watson na forma do hilário e infame Grouxo.

Grouxo é o ajudante de Dylan sempre pronto para fazer uma piada infame e inapropriada e salvar a vida do nosso herói surgindo do nada para jogar um revólver para Dylan. Não é à toa que Grouxo foi inspirado em Grouxo Marx. Aquele dos famosos Irmãos Marx. Grouxo é responsável pelos momentos cômicos das histórias de Dylan, mas o sarcasmo e a ironia permeiam todas as histórias, mesmo aquelas mais violentas e trágicas. O gosto ácido do humor inglês também faz parte da impecável caracterização da série tornando-a ainda mais saborosa.

Inicialmente, Dylan Dog enfrentava monstros clássicos do cinema como zumbis, vampiros, lobisomens e múmias, mas aos poucos, enquanto o sucesso da série crescia, as histórias foram amadurecendo e nosso detetive do pesadelo começou a enfrentar perigos mais reais como assassinos seriais, maridos vingativos, padrastos que torturam seus enteados, traficantes de pessoas e órgãos. Afinal, não há pesadelo maior do que aquele vivido por muitos de nós em nosso dia-a-dia. Em uma das mais belas histórias da série, um homem simplesmente se torna invisível de tanto ser ignorado por todos a sua volta. Em outra, baseada em uma história real, um casal mantém preso um garoto que eles mutilam aos poucos, vendendo seus membros no mercado negro. Impossível não se assustar, rir e se emocionar com o rico universo criado por Tiziano Sclavi.

Um dos pontos mais importantes da série é a empatia que temos com o personagem principal. Dylan reage às situações como uma pessoa de verdade reagiria. Ele foge quando tem medo, chora quando sofre e apanha quando seu adversário é mais forte. A humanidade presente nas páginas de Dylan Dog pode ser considerada o principal fator para o sucesso do fumetti. Tornando-o o segundo quadrinho mais vendido da Itália, perdendo apenas para Tex, outro grande sucesso da Bonelli, editora responsável por publicar as histórias de Dylan Dog em seu país natal.

O sucesso do personagem o levou para o cinema duas vezes. A primeira, em 1994, no filme Pelo Amor e Pela Morte (Dellamorte Dellamore), de Michele Soavi – que escreveu diversas aventuras do personagem – é um caso interessante de “mídia cruzada”. O filme se baseia em um livro escrito em 1991, por Tiziano Sclavi e conta a história de um coveiro, Francesco Dellamorte, que apresenta diversas similaridades com Dylan Dog. Principalmente, visualmente, uma vez que Francesco é vivido nos cinemas por Rupert Everett, que serviu de inspiração para o visual de Dylan nos quadrinhos. O envolvimento com uma mulher fragilizada, o confronto com o sobrenatural e o assistente estranho, que aqui lembra o comediante Curly Howard, dos Três Patetas, e o surrealismo da história completam o pacote de semelhanças. Pelo Amor e Pela Morte não é um filme oficial de Dylan Dog, mas é o mais próximo do personagem que os fãs chegaram, já que a próxima tentativa de adaptar as aventuras do detetive para as telonas, Dylan Dog e As Criaturas da Noite, merece ser esquecido.

Dylan Dog e As Criaturas da Noite, de 2010, é um filme de Kevin Munrue que até tentou adaptar mais fielmente as histórias do personagem para os quadrinhos, com Brandon Routh no papel do detetive do pesadelo, mas peca pelo excesso de ação, efeitos especiais ruins e na tentativa de transformar Dylan Dog em um super-herói.  O resultado final é desprezível e o filme não acrescenta nada à longa carreira do personagem. Talvez se tivesse sido produzido hoje, quando as pessoas já possuem uma melhor compreensão da amplitude do universo dos quadrinhos, Dylan Dog tivesse mais sorte. Para os brasileiros o filme ainda tem um sabor mais amargo, já que foi a última vez que tivemos algo inédito do detetive do pesadelo por essas bandas.

Apesar de todo o sucesso de público e crítica das aventuras de Dylan Dog,  esse sucesso nunca foi o suficiente para que a série fosse publicada decentemente no Brasil. Ao longo de todos estes anos, pouco mais de sessenta aventuras do detetive do pesadelo foram lançadas por aqui. O título mais longevo, publicado pela Mythos, durou apenas quarenta edições e, antes disso, a Record havia publicado onze revistas do personagem e a Conrad, seis. Com o amadurecimento do mercado de quadrinhos no Brasil, é impossível que nenhuma editora tenha se interessado em relançar este material por aqui.

Os leitores de quadrinhos mais novos e mais adeptos do mainstream talvez não conheçam Dylan Dog. Talvez até os leitores mais velhos não tenham tido a oportunidade de ler uma história de Dylan Dog, mas as aventuras do detetive do pesadelo são um marco na história dos quadrinhos mundiais e no horror em geral. Não é à toa que na data de hoje, esteja acontecendo em Milão, o Dylan Dog Horror Day, com sua própria “zombie walk”, encontro entre escritores, artistas e fãs dos quadrinhos, exibições de filmes e documentários e, é claro, uma exposição de artes originais e quadrinhos do personagem. E nesta data comemorativa tão importante para o gênero do horror mundial, o Boca do Inferno deixa aqui o seu feliz aniversário para este personagem tão querido.

Parabéns por seus trinta anos, Dylan Dog!

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Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Designer por formação e apaixonado por HQs e Cinema de Horror desde pequeno. Ao contrário do que parece ele é um sujeito normal... a não ser quando é Lua Cheia. Contato: [email protected]

8 Comentários

  1. Dylan é ótimo, queria muito que voltassem a publicar, poderia ser até um anual.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

      Pois é! Eu acho que deveria rolar um compilado das edições coloridas, com um bom editorial, explicando tudo sobre o personagem nos extras e jogar nas livrarias pra ver o que rola.

      Se até Hellboy tá caminhando desse jeito! Capengando, mas caminhando…

  2. Lisi

    Pertenço a uma família “bonelliana”, amamos e colecionamos os quadrinhos produzidos pela Bonelli, garimpamos em sebos,web,feiras,etc.Tudo começou com meu pai colecionando Tex e daí, para Martin Mystere, Zagor, Mágico Vento, Mister No, Nick Raider… Dylan Dog é o meu preferido! Não assisti a nenhum dos filmes em respeito à obra. Sobretudo o Grouxo ser excluído da trama é como um sacrilégio!

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

      Pois é! Não sei como funciona a questão dos direitos de imagem do ator envolvendo sua família e tudo o mais, mas nos quadrinhos rola usar! :/

  3. Olá estamos criando uma pequena editora com foco no terror e faroeste, temos uma personagem nacional e procuramos material estrangeiro. Mandamos e-mail para os detentores dos direitos de Dylan Dog … curtam nossa página e dêem sugestões: https://www.facebook.com/editoralorentz

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

      Estamos torcendo por aqui! <3

  4. Gabriel herberth Ferreira de lima

    Eu comprei uma revista usada do Dylan por 4 reais e não imaginava o peso que o personagem tem !

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

      Compre todas as que encontrar!

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