Cinema, Entrevistas

Exclusivo: entrevista com Ian Powell, diretor de Lâminas da Morte

O diretor comenta os planos para os próximos filmes da franquia e fala sobre suas influências e sobre como foi gravar um filme de forma independente

Com a colaboração de Laura Dourado e da Cineart Filmes

O serial killer Jack, o Estripador é um tema favorito em filmes de terror. Chegando hoje aos cinemas brasileiros, o independente Lâminas da Morte aborda o mito do assassino de prostitutas cuja identidade ainda é desconhecida, mas traz um toque diferente: aqui, Jack é uma entidade sobrenatural que assombra um grupo de roteiristas nos dias atuais.

Lâminas da Morte foi escrito e dirigido por Ian Powell e Karl Ward, e o primeiro separou um tempinho para conversar com o Boca do Inferno sobre o filme, comentando a escolha de Jack, o Estripador como tema, os próximos filmes da prometida franquia, suas influências e como foi gravar um filme de forma independente e com uma agenda tão apertada. Confira!

Jack, o Estripador, é um tema recorrente em filmes de terror. Como Lâminas da Morte se destaca de outros filmes baseados em suas histórias?

Eu acho que outros filmes sobre Jack, o Estripador, giram muito em torno de quem Jack era. A ideia do filme é contar uma história moderna. Nós queríamos fazê-lo como parte de uma série de filmes e a ideia é que nós os gravemos em locações datadas da época de Jack, que podem ter sido envolvidas nos assassinatos de alguma forma. Mas, fora isso, nós queremos criar esta nova mitologia. A ideia é que suas facas foram roubadas de seu túmulo. Já a ideia para a sequência seria que, para qualquer lugar que as facas forem levadas, o espírito vai junto. Então é quase sobre o espírito livre de Jack, o Estripador. Nós não estamos tentando sugerir quem ele pode ter sido, nós faremos isso em filmes futuros, mas é muito mais como o começo de uma premissa para alguma coisa.

Esta é a primeira vez que você dirige um filme com outra pessoa? Se sim, como surgiu a colaboração com Karl Ward? Como foi a experiência?

Esta é a primeira vez que eu dirigi um filme com outra pessoa. Eu já fiz um outro longa-metragem, mas tinha um relacionamento tão próximo com o produtor que nós realmente trabalhamos juntos nesse outro filme. Todos os filmes são colaborações e, quando você está trabalhando com um orçamento pequeno e uma agenda apertada, você precisa trabalhar muito próximo de todo mundo. A forma como eu trabalhei em Lâminas da Morte, ele foi originalmente desenvolvido, bizarramente, como um projeto em 3D. Eu o levei a um workshop de 3D na Bélgica e conversei com meu diretor de fotografia, e a ideia de gravarmos em 3D em dez dias… Dez semanas já teria sido difícil. Karl entrou através de algo que chamamos de “tapar a lacuna”, uma tentativa de conseguir investimentos internacionais.

Dirigir em um set foi bem interessante. Nós dois dirigimos muito do filme. Às vezes ele dirigia uma cena quase que sozinho, como a cena do beijo no final, outras eu dirigia quase que inteiramente sozinho. Ele é muito bom em motivar os atores. Nós tivemos um elenco muito bom, eu acho que Kelby Keenan, a protagonista, é muito boa, espero que ela vá para Hollywood. Com algumas pessoas você só precisava apertar o botão de ligar e eles começavam a atuar, foi fantástico. Foi um desafio, mas eu acho que isso beneficiou muito o filme.

No filme, você usa várias referências antigas, como O Iluminado. Você considera Lâminas da Morte um filme cult?

Eu acho que sim. Eu fui bastante influenciado por um filme chamado Desafio do Além, o original de Robert Wise, que, para mim, um dos filmes mais assustadores já feitos. Quando eles tentaram refilmá-lo, não ficou tão assustador. Eu acho que, quando você está fazendo um filme, especialmente de terror, você absorve várias influências que viu antes e várias coisas que o assustam. Obviamente nós tínhamos um enredo muito definido em Lâminas da Morte, nós sabemos o que queremos comunicar, mas eu acho que você joga com todas essas influências e com seu subconsciente. O filme foi bastante influenciado por O Iluminado, por Desafio do Além, por filmes como Suspiria. Nós usamos um esquema de cores muito vivas, mas tivemos que suavizar um pouco o ajuste das cores. E Mario Bava, eu sou muito influenciado por ele, toda a ideia de emoções serem transmitidas pelas cores. Quando você está fazendo um filme de terror, está perseguindo várias coisas que aconteceram no passado, e fãs de terror conhecem essa história.

Filmes de terror atraem grandes públicos para os cinemas, e por isso há muitos lançamentos do gênero. O que o motivou a assumir o desafio e dar início a uma nova franquia de terror?

Foi uma ideia que eu tive em 2008. Eu pensei: “quem é o serial killer definitivo e que não tenha sido explorado recentemente?”. E eu queria fazer algo bem gótico, mas que pudesse ser ambientado nos dias atuais. Eu queria criar uma nova mitologia ao redor de um novo grupo de personagens. Jack é um personagem que todo mundo conhece, as pessoas fazem tours em Londres, meio milhão de pessoas procura por Jack, o Estripador no Google todos os meses, porque ninguém sabe quem ele era e ainda é um mistério. Na verdade, originalmente nós íamos gravar em um manicômio, tudo estava resolvido e o lugar era incrível. É o manicômio mais antigo de Londres, datado de 1830, um lugar extraordinário e extremamente assombrado, mas, no último minuto, o diretor do hospital ouviu que era sobre Jack, o Estripador e disse “não, vocês não podem gravar aqui”. Porque ele recebeu uma equipe que gravou um documentário… Ainda há pessoas que dizem que Jack foi para a América, voltou e foi internado em um manicômio específico. Ele é uma figura controversa e as pessoas nem sempre querem falar sobre isso, e eu acho que esse foi o motivo.

Como você disse, Jack é o serial killer mais conhecido da história, o que o torna um personagem com bastante apelo cinematográfico. Até onde você acha que seus filmes podem levá-lo?

Eu acho que há oportunidades enormes para a história. Sem revelar muito, as facas de Jack, o Estripador estão meio que seladas em seu túmulo e coisas acontecem nesse prédio que tem a ver com a lenda de Jack. Basicamente, para onde quer que as facas sejam levadas, o espírito vai junto. Eu estou escrevendo a sequência no momento, em que um ladrão rouba a caixa de facas e as leva para um negociante de arte, então Jack vai voltar.

Você escreveu Lâminas da Morte em 2008, foram quase oito anos até filmar e terminar o filme, quanto do conceito original do projeto foi mudado ao longo desse tempo?

Sinceramente, não muito, ele foi filmado em sua plenitude. A sinopse que eu escrevi para o filme em 2008 é basicamente o filme em si, ele se desenvolveu um pouco mais quando tentamos fazer em 3D. O que aconteceu foi que como o filme foi filmado muito rápido, várias coisas que eram mais complicadas no roteiro acabaram ficando de fora, várias cenas fora do prédio Electrowerkz. Havia uma grande cena no aterro perto do rio Tâmisa no começo do filme, antes da cena inicial, onde uma garota tentava cometer suicídio pulando do aterro na água, mas é parada pelo namorado abusivo; e o personagem principal estaria caminhando pelo mesmo lugar, essa era uma grande cena.

Como você disse, vocês filmaram tudo em pouco tempo, apenas dez dias, como foi o processo de encaixar todo o filme nesse período?

Foi bem caótico. Algumas cenas ficaram de fora, como a cena inicial do suicídio, que era bem elaborada e foi substituída pela cena dos dois personagens principais dentro de um carro fazendo alusão ao acontecimento; também havia outra cena, onde uma das personagens estava em um trem e sonhava que outra personagem segurava suas tripas sangrentas no final do vagão, essa cena explicava um pouco da história pessoal da personagem principal e acabou ficando de fora também. Também havia mais explicações sobre as coisas que aconteciam com a personagem, mas sinceramente eu acho melhor que isso tenha ficado de fora. Eu acho que as restrições que tivemos ajudaram no filme, mas eu não quero dar uma impressão errada… o que eu quero dizer é que o filme é redondo, e com as cenas que ficaram de fora ele ficou mais enxuto e amarrado.

Nós tivemos um ótimo diretor de fotografia. Nós não planejamos gravar tudo com velas e tochas, que é como teríamos feito no manicômio, porque aquele lugar era enorme e teria sido a única forma de fazer, mas nós tivemos um bom design de set, bons atores. O Electrowerkz, onde nós gravamos, é uma locação incrível, cheia de sucata, é fácil se perder e é bem assustador. Na verdade, o lugar é uma casa noturna com uma sucata anexa, e na parte de cima existe um campo de paintball que nós mudamos umas oito vezes como cenários diferentes, e nosso departamento de arte, composto só por duas pessoas que nunca faziam uma pausa para o almoço, mudavam um set enquanto nós estávamos filmando no corredor, então nós alternávamos. Nós estávamos preocupados em não conseguir gravar o filme todo, então eu mantive um mapa do filme e garanti que tínhamos todas as cenas chave de que precisávamos. Às vezes, durante a noite nós escrevíamos uma cena para ligar outras cenas que não tínhamos gravado. No fim das contas, eu acho que funcionou a favor do filme. Foi uma loucura, e várias cenas foram gravadas bem rapidamente.

Qual outro serial killer você gostaria de ver sendo produzido com uma história diferente? O que você tem em mente para seus próximos projetos?

Eu não sei se eu tenho outro personagem nesse estilo [serial killer] que eu quero pôr em um filme. O próximo filme que eu estava prestes a fazer era com o Karl Bonfils, mas infelizmente ele morreu em um ensaio. Eu queria fazer um filme novamente associado a objetos místicos e misteriosos, porque quando Edgar Allan Poe morreu, sua morte foi sob circunstâncias muito estranhas. Ele foi encontrado em Baltimore e ninguém sabia como ele foi parar lá, e depois de dois dias ele morreu. Então, nessa minha história, ele teria sido encontrado com um livro de histórias não publicadas que desapareceu, foi passado de geração a geração e com o tempo foi ganhando um certo poder que te permitiria entrar em um mundo diferente, o mundo do Poe. O protagonista seria um colecionador, não do tipo Indiana Jones, mais como o Johnny Depp em O Último Portal. Então eu gostaria para o meu próximo projeto um filme que fosse filmado em diferentes locações e com um enredo místico.

Esse é o seu primeiro filme distribuído internacionalmente? No Brasil ele será distribuído pela Cineart Films, como você se sente alcançando um público bem maior?

Eu estou extremamente empolgado com isso. Eu queria pegar um avião e participar da estreia! É muito bom saber que o projeto será exibido em vários lugares… meu outro filme foi distribuído na França, Alemanha, Estados Unidos e México, mas apenas na TV e VOD, além de alguns festivais ele não teve estreia nos cinemas, então eu estou muito feliz com isso.

O que você conhece do cinema brasileiro?

Como todo mundo, eu fiquei muito impressionado com Cidade de Deus. Eu não estou muito familiarizado com os filmes brasileiros recentes, mas eu sempre fui fascinado pelo Zé do Caixão, eu vi alguns dos filmes dele e também um documentário. Esta figura sombria de cartola, e a parte religiosa que é parte diabo, parte Deus, se encaixa bem com Jack, o Estripador, porque ninguém sabia quem ele era e por isso as pessoas o colocaram em sua própria mitologia, e há muitas semelhanças. Eu adoro o ator que criou o personagem e eu acredito que o último filme que ele fez foi Encarnação do Demônio, em 2008. Eu me interesso muito pelo horror tradicional brasileiro.

O que você tem a dizer para o público brasileiro?

Gostaria de dizer que eu estou emocionado que o filme será exibido no Brasil e eu realmente espero que vocês gostem. Ele é um mistério, a atmosfera é muito bem trabalhada e tem um elemento sobrenatural, então eu espero que isso deixe todos intrigados e que vocês se divirtam bastante. Espero que um dia eu possa filmar um projeto no Brasil, eu adoraria a experiência!

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