Torn Apart (2011)

Torn Apart (2011)
Zumbis de The Walking Dead em uma webserie satisfatória

Torn Apart
Original:Torn Apart
Ano:2011•País:EUA
Direção:Greg Nicotero
Roteiro:Greg Nicotero, John Esposito
Produção:Tevin Adelman
Elenco:Lilli Birdsell, Rick Otto, Griffin Cleveland, Madison Leisle, Rex Linn, Danielle Burgio

por Tiago Toy

Enquanto nós, fãs de The Walking Dead, aguardamos a volta da metade final da 2ª temporada, o que nos resta é buscar notícias, ler as HQs ou assistir Torn Apart, uma interessante websérie, onde é possível acompanhar os eventos finais que transformaram uma simples mãe na zumbi mais icônica do programa: a morta-viva da bicicleta!

Sua primeira aparição foi na HQ Nº01, lançada em outubro de 2003 pela Image, na página 12, logo após o policial Rick Grimes despertar de um coma no Harrison Memorial Hospital, sozinho e cercado por mortos-vivos. Ainda sem saber da terrível epidemia que assolou boa parte da Terra, Rick caminha por algumas ruas até encontrar uma bicicleta caída em meio à vegetação. Ao se aproximar, descobre uma mulher, putrefata e sem boa parte dos membros inferiores, com locomoção limitada. Diante dos gemidos aterradores da moribunda, Rick rouba a bicicleta, para logo depois cair em prantos. Mais tarde, após conhecer Morgan e seu filho Duane, Rick volta e dá o merecido fim à pobre coitada.

Divida em seis micro-episódios de cerca de 4 minutos cada, todos foram lançados simultaneamente no site da AMC no dia 3 de outubro de 2011, servindo como um aquecimento para a estreia da segunda temporada. Hoje, porém, consegui assistir a websérie completa, de uma vez, e deixo minhas impressões. Pra quem não gosta de spoilers, sugiro que não continue!

1º Episódio – A New Day

“- Por que as coisas precisam morrer?
– São os planos de Deus, meu querido. Tudo morre.”

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É com a silhueta de uma mãe, seus dois filhos e uma conversa vazia de esperanças que começa Torn Apart. Após um fade out, encontramos Hannah, a protagonista da websérie, despertando do que parece ter sido um acidente automobilístico. Nada muito violento, mas o suficiente pra tê-la deixado inconsciente e com um belo corte na testa. Sem perder tempo, Hannah vasculha no banco traseiro e descobre que seus filhos, Billy e Jamie, sumiram. Ao despertar, porém, ela estava com a cabeça pressionando a buzina, provocando um barulho nada sutil. É o primeiro buraco de Torn Apart. Acho difícil que nenhum zumbi tenha se interessado pelo som e deixado Hannah descansar como um anjinho.

Desesperada, e sem deixar claro se sabia ou não sobre a epidemia, Hannah deixa o carro e sai em busca dos rebentos aos gritos. Outro erro, pelo mesmo motivo do primeiro. Todos sabemos que os walkers são atraídos não só pelo cheiro, mas também por sons. E os gritos estridentes de Hannah são o bastante para atrair muitos. Claro, pode ser que ela não sabia o que acontecia e nem pensou em procurar os filhos de maneira mais silenciosa, mas não é por isso que os zumbis se tornariam surdos de uma hora pra outra.

Em um quarteirão próximo, Hannah se depara com algo que a faz começar a perceber que as coisas não andam bem das pernas. Em meio ao que sobrou de uma festa de aniversário, com balões coloridos e churrasqueira, uma quantidade generosa de sangue mancha uma toalha, e um corpo caído por trás de um container de bebidas permanece inerte. A mão ensanguentada do fulano não a deixa mais calma. E Hannah retoma a gritaria.

Ao virar correndo por outra esquina, duas pessoas chamam sua atenção. São os primeiros zumbis de Torn Apart. Eles estavam tão próximos do local do acidente e não ouviram a buzina ou os gritos? Não apontei os erros à toa. Pelas roupas, o único que dá atenção à presença de Hannah é um guardinha de trânsito. Assustada com sua aparência e os rosnados hostis, Hannah foge, perseguida pelo morto-vivo, enquanto a outra zumbi continua entretida em seu lanchinho, uma suculenta e nada sortuda figurante.

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Ponto para a maquiagem, que consegue ser tão boa quanto os zumbis da série original. O zumbi é um tanto quanto rápido, mas considerando que é um recém-zumbificado, pode-se relevar tal detalhe. Aliás, depois de ver que os walkers podem escalar grades e usar pedras para quebrar portas, decidi que é realmente uma adaptação dos quadrinhos, e não os próprios. “Viva” as adaptações…

Em uma daquelas cenas tensas, em que você fica gritando “Vai logo, mulher!“, Hannah vasculha debaixo do tapete de entrada, procurando a chave, à medida que o assustador zumbi se aproxima. A porta se abre e uma referência – proposital ou não – à cena inicial do game Resident Evil 2 acontece. Um homem abre a porta e mira o cano da arma à cabeça de Hannah (Leon e Claire?). Vendo o zumbi já em seu jardim, a mira muda e os miolos do morto-vivo explodem. Hannah é salva, por ora.

2º Episódio – Family Matters

Começa exatamente onde o anterior terminou. Hannah entra aos tropeços na casa do homem que a salvou, seu ex-marido Andrew, e seus filhos aparecem sãos e salvos. O que me incomodou foi a atuação fraca de quase todos os atores (exceto pelo homem). O que era pra ser um choro se tornou careta de dor de barriga. A menina é péssima.

Andrew percebe o ferimento na testa da ex-mulher e vai logo questionando a causa. Afinal, pode ser uma mordida, e ele teve experiências infelizes com duas pessoas mordidas – o que é visto nos próximos micro-episódios. Hannah explica sobre o acidente e abraça os filhos, em uma cena que poderia ser comovente se melhor interpretada e explorada. A sensação de ver uma mãe aliviada em encontrar sua cria segura é ótima, mas a atuação deprime.
Um porta-retrato exibe a fotografia das crianças com outra mulher, e Hannah pergunta onde está ela, Judy, a madrasta dos pirralhos. Andrew mantem o olhar vago e ignora a pergunta, preocupado em fazer um curativo na testa da loira.

Sozinhos, Andrew conta a Hannah sobre a epidemia, dizendo que está por toda parte. Nenhuma novidade. Billy aparece perguntando por Max, o cachorro da família, e o pai diz que ele está dormindo lá fora. Quando o menino avisa que vai acordá-lo, o homem explode, e percebemos que ou o cão virou comida de zumbi, ou é apenas preocupação paterna. Fiquei com a primeira opção. Além disso, Andrew demonstra que se importava muito com o animal, o bastante para gritar com o menino de maneira desnecessária. Talvez seja carga emocional demais para um homem o que está acontecendo lá fora (e o que ele teve que fazer antes).

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O desfecho do episódio mostra um tapete enrolado, manchado de sangue, se mexendo e alguns rosnados baixos são emitidos. Oh, é aí que você está, Judy?

Um episódio morno, sem sal e sem açúcar, que termina com uma leve temperada. Por outro lado, como em um bom filme de zumbis, sempre há um momento em que os personagens param, descansam e se apresentam.

3º Episódio – Domestic Violence

Um dos melhores, mostra exatamente o que zumbimaníacos gostam. O capítulo pode ser considerado um flashback, onde conhecemos Judy, a madrasta, e o que houve com ela.

Andando pela rua, Judy traz na mão uma sacola – de mercado, talvez. Ou seja, ela teve tempo de fazer compras e, quando voltou, tudo estava ferrado. Ao encontrar uma garota caída no asfalto, se desesperou e cometeu uma das piores burradas em um apocalipse zumbi. Respiração boca-a-boca! O pior é não ter percebido os olhos abertos da jovem zumbi. Uma morta-viva fresquinha, sem ferimentos aparentes, apenas o olhar perdido, aberto para um novo mundo.
O que acontece em seguida é previsível, mas funciona. Gore total!

Na casa de Andrew, notícias no rádio comentam sobre os ataques sem motivo aparentes que tomaram proporções catastróficas. É clichê a maneira como a mídia vê os ataques, e não somente em Torn Apart, Madrugada dos Mortos e Diário dos Mortos são ótimos exemplos. Ninguém faz ideia do que está acontecendo, e sempre tentam buscar uma explicação plausível. Ninguém menciona que “está acontecendo o mesmo que nos filmes de mortos-vivos“. É como se, naquele mundo, ninguém nunca tivesse ouvido falar de zumbis. Caramba, ainda é a Terra! Bem que podiam citar que os ataques se assemelham muito aos dos filmes de Romero. Preferem ignorar, e isso não agrada.

Andrew vai direto lavar as mãos, ensanguentadas, após deixar uma espingarda (!) sobre a pia. O que você aprontou, cara? Coisa boa não foi; a expressão não é das melhores. Talvez tenha matado seu primeiro zumbi. Ou…
Em seguida, acontece um corte na energia. Pelo que entendi, foi apenas pra dar um clima. Não há explicação, nenhum zumbi se enroscou na caixa de força, ninguém se atrapalhou no gato. Detalhes que podem até dar suspense, mas que, sem uma boa explicação, deixam o roteiro a desejar.

Andrew encontra a porta principal aberta e um rastro de sangue pela sala. Pessoas desesperadas e armas não combinam, certo? Em partes. Quando Judy versão zumbi aparece, rodando como um João-Bobo (que zumbi esquisita!), Andrew, completamente despreparado, mal se vira e atira, acertando Judy em cheio. O tiro não é na cabeça: é na barriga. Ainda assim, por sorte (ou como uma solução fácil para os próximos acontecimentos irem de acordo com o que o diretor pretende), a zumbi desmaia. Ora, ela não estava morta? Além de voltar à vida, ela ainda desmaia? Eita!

Após o chororô, Andrew a enrola em um tapete, onde ela vai permanecer quietinha até a hora certa. Bem cooperativa essa zumbi, não?

4º Episódio – Neighborly Advice

Em vez de voltarmos em tempo real, regredimos mais um pouco no tempo, onde Andrew está em busca de armas. Flagrado pelo vizinho, Mike Pommer, confessa estar procurando uma arma para matar seu cão, pois algo o mordeu. Tudo bem que seria muito sangue frio matar o próprio cachorro à pauladas, por exemplo, mas precisa invadir a casa alheia? As motivações dessa websérie são infelizes. Tudo muito forçado… De qualquer maneira, Mike diz que há problemas maiores do que o cachorro, e descobrimos sua perna ferida com um curativo feito às pressas. Andrew diz que ele precisa ir a um hospital, como se fosse adiantar. Mike conta que o CDD está preparando a cura, conforme noticiado. O CDD é aquele lugar que vai pelos ares no último episódio da 1ª temporada. Pois é, o Mike e qualquer outro esperançoso vai ficar chupando o dedo enquanto espera a cura.

Durante uma atuação indigna de nota, Mike acredita que o incidente é culpa de terroristas, outro detalhe presente em muitas obras zumbísticas. É sempre culpa de terrorismo. Romero deixou muitos filhos ao longo de tantos anos, ora.

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Confessando ter atirado na esposa, diz que não teve coragem de fazer o mesmo com seus netos. Outro clichê vem em seguida: as crianças estão presas no quarto. É legal imaginar criança- zumbi presas em um cômodo, se batendo umas às outras, prontas para sair e criar um rastro de morte… Mas ficamos apenas na imaginação. Mike segura a arma em direção à própria cabeça e a entrega para Andrew. Um tiro. Adeus, Mike!

Episódio bacana. Nada de extraordinário.

5º Episódio – Step-Mother

De longe o melhor episódio. Hannah lamenta os últimos acontecimentos, então percebemos que a coisa toda já está rolando há algum tempo. Coisa rápida, nem dá tempo de sentir algo.

O melhor começa a seguir.

Voltamos praticamente onde o 2º episódio terminou, finalmente. Enquanto irmãos discutem sobre Max e seu pai – o que transparece que Andrew não é dos melhores -, quase notam a presença de Judy, agora uma zumbi faminta, tarde demais. Ela se desenrola do tapete e levanta, por pouco vendo os pirralhos, que são rápidos e se escondem sob a mesa. A cena onde a zumbi cambaleia ao redor da mesa, obrigando as crianças a ficarem quietinhas, é tensa. O telespectador prende a respiração durante todo o trajeto da morta-viva. O caldo engrossa quando a dupla se tranca no armário, mas não rápidos o bastante para despistar a fedida (que, diga-se de passagem, exibe uma maquiagem muito bem feita, ponto alto da equipe de The Walking Dead).

Morta, mas não burra, Judy-zumbi vai direto ao armário e basta pouco para que consiga abrir a porta (estranhamente puxando-a…) e, em vez de atacar os sanduíches humanos de uma vez, estica a mão e os assusta com a cara feia. As crianças conseguem passar a sensação de desepero. Nada que se possa comparar a Carl ou Sophia, mas dá pra engolir. Gritam com vontade. Atuação muito melhor do que Hannah, que surge com um machado, como uma heroína, com a frase de efeito “Fique longe da minha família!” e transformando-a em uma Nick-Quase-Sem-Cabeça. Uma mãe teria se esvaído em lágrimas, concordam? Hannah parece letárgica: apenas chama os filhos e a emoção que se foda. Atuação sofrível.

Apesar de pequenos defeitos (nada que comprometa o conteúdo geral, pelo menos do episódio em questão), Step-Mother vale pelo restante da websérie.

6º Episódio – Evertything Dies

Chegamos ao fim de Torn Apart.

A família conclui que o melhor é fugir, e Andrew volta ao porão da casa de Mike para buscar as chaves da caminhonete. É aí que está o erro, meu amigo! O infeliz tem a coragem de entrar em um porão escuro pra dedéu e ainda acreditar que vai conseguir voltar vivo. Em um apocalipse zumbi, as coisas não são tão fáceis.

Lembra das crianças presas no quarto? Pois é… Elas não estavam tão presas assim. Mal se vira com as chaves em mãos, Andrew se depara com os lindos e fofos zumbizinhos, vestidos a caráter para uma festa de aniversário (aquela do jardim do primeiro episódio, lembra?). Não sei se somente eu penso isso, mas zumbis lentos não são tão perigosos assim. Crianças então… Bastaria chutá-los, ou dar-lhes umas boas vassouradas. Andrew talvez não esteja em sua melhor forma, e é facilmente abatido pelos zumbizinhos. Vergonhoso, Andrew. Vergonhoso!

Ouvindo o chamado de um helicóptero sobre o salvamento, Hannah decide que já esperaram demais pelo ex. Com os filhos, uma bolsa e uma pistola na mão, se vão.

Como todo bom filme de zumbi, é agora que tudo vai pro espaço. Quando finalmente os sobreviventes acuados decidem tomar coragem e enfrentar o mal, na maioria das vezes se dão mal. Por que aqui seria diferente? Afinal, já sabemos qual será o destino de Hannah.

A rua está com mais zumbis do que quando Hannah despertou no carro. O começo do fim é quando a infeliz decide voltar ao carro, sendo mordida no braço por um zumbi que estava no banco traseiro. Como ele foi parar ali já que estava quando Hannah despertou? Ora, ele obedeceu ao diretor, entrou e ficou deitadinho até que ela voltasse. Teve medo do carro ser roubado, então decidiu cuidar dele até que sua dona voltasse… Faça-me o favor, zumbi!

Após a cena dramática de Hannah entregando a arma aos filhos, dizendo que os ama e orientando para que vão direto à área segura, Jamie fecha o arco com a forte frase do início: “– São os planos de Deus, meu querido. Tudo morre.”

Em um ato de proteção materna, Hannah vai até os zumbis e se deixa ser comida (no mau sentido), dando chance para que os rebentos tenham uma chance de fugir. O gore vem com tudo, com direito a tripas e ossos sendo estraçalhados. Moribunda na grama, perto de uma bicicleta (afinal, ela não era uma ciclista em vida, como todos pensavam), vemos a chocante transformação de uma mulher normal a uma zumbi asquerosa. Mais uma vez, e não me canso de dizer, ponto para a maquiagem. É um trabalho primoroso, lindo de se ver. Parece real.

Enquanto Hannah rasteja com dificuldade, sentimos pena. Ver um zumbi qualquer se banqueteando de carne humana nos dá vontade de atirar em sua cabeça. Ver uma pessoa que conhecíamos transformada em zumbi, em uma situação tão triste, nos dá vontade de chorar. É nesse ponto que percebemos: não é um videogame, onde vamos sair atirando a torto e a direito. Querendo ou não, eles são pessoas. Pessoas jogadas em uma vida horrível, sem escolha, onde passarão o resto de suas “vidas” em uma busca desenfreada por algo que nunca encontrarão. Carne? Pode ser. Temporário. Vão matar e comer, porém nunca estarão satisfeitas. Sempre vão querer mais, e não vão parar até conseguir. No fundo, são mais parecidos com os vivos do que pensamos.

Torn Apart é uma diversão rápida, despretensiosa, que deve ter servido bem de aquecimento para o começo da 2ª temporada. Eu, como fã antigo (digo das HQs) e crítico, não me convenci. Ficou clara minha insatisfação quanto à atuação. Tudo bem, não é nada oficial, mas leva o nome The Walking Dead, querendo ou não. Maiores cuidados com certos detalhes viriam de bom grado. O que percebi é que a websérie foi feita às pressas, sem tanta vontade, apenas para atrair mais público. Não dou nota vermelha, entretanto; Torn Apart diverte. Tem seus bons momentos.

Nada mais.

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Autor Convidado

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Um infernauta com talentos sobrenaturais convidado a ter seu texto publicado no Boca do Inferno!

2 comentários em “Torn Apart (2011)

  • 01/05/2015 em 03:13
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    Vou ser curto e grosso: TWD não passa de uma novela mexicana com zumbis. Aliás, nem novela mexicana tem tanto dramalhão.

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  • 11/06/2013 em 15:38
    Permalink

    tbm gostei muito disso aí.

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