Livide (2011)

Livide (2011)
Nem pense na noite
Livide
Original:Livide
Ano:2011•País:França
Direção:Alexandre Bustillo, Julien Maury
Roteiro:Alexandre Bustillo, Julien Maury
Produção:Vérane Frédiani, Franck Ribière
Elenco:Chloé Coulloud, Félix Moati, Jérémy Kapone, Catherine Jacob, Béatrice Dalle, Chloé Marcq, Marie-Claude Pietragalla, Loïc Berthezene, Joël Cudennec, Sabine Londault, Serge Cabon

por Tiago Toy

Em 2007, época da safra de free gore, o cinema francês trouxe um dos filmes mais violentos e perturbadores que eu tive o prazer de ver, À l’intérieur (A Invasora). Escuro, direto e sem medo de chocar, a película abusou do sangue e deixou os telespectadores arrepiados de tensão. Eu fiquei.

Uma obra-prima do gênero, fiquei me perguntando se os diretores Alexandre Bustillo e Julien Maury conseguiriam fazer o raio cair duas vezes no mesmo lugar. A receita nem sempre funciona na segunda tentativa, M. Night Shyamalan que o diga, citando apenas um. Quatro anos depois saíram as primeiras imagens do novo projeto da dupla, animando os fãs do horror. O trailer foi como a cereja sobre o bolo. E finalmente Livide (2011) estava pronto. Valeu a espera? Para quem aguardava algo como A Invasora não de todo. Para quem gosta de uma história bem contada, sim. E é de lamber os beiços.

Lucie Klavel, uma mini Liv Tyler com Heterocromia (olhos de diferentes cores, e dizem que cada um deles tem uma alma diferente, capaz de entrar e sair do corpo), começa em seu primeiro dia de trabalho como enfermeira ajudante de Catherine Wilson, uma mulher vivida e de palavras duras. As duas visitam rapidamente alguns idosos esquecidos pelas famílias para fazer o que eles não conseguem mais. Medicá-los, limpá-los, e por aí vai. Nas redondezas da cidade há um pântano, e próximo a esse pântano existe um casarão aparentemente abandonado. É lá que reside uma das pacientes de Catherine, Sra. Jessel, uma idosa praticamente mumificada que passa os dias em coma na cama (desculpem a aliteração). Respirando através de um tubo e recebendo constantes transfusões, a velha exibe um colar com uma estranha chave repousando sobre as muxibas.

Livide (2011) (1)

Lucie questiona porque a velha é mantida nesse estado sozinha e não em uma clínica, já que a sua única filha, completamente surda, faleceu há muitos anos. Catherine conta a Lucie que a velha era uma respeitada e famosa professora de balé; consequentemente podre de rica. Um de seus desejos era morrer na casa, e como todos que têm dinheiro têm também suas vontades atendidas… A enfermeira conta também que, em algum lugar da mansão, há um tesouro escondido, que pode ser ouro, jóias, ou o que a imaginação permitir.

A respiração da velha em meio a penumbra é como uma canção macabra, e que somada à fotografia eficiente de Laurent Barès constrói um conto de fadas (me refiro às versões originais) lindo de se ver. As cores frias predominam, dispensando a excitação que as fortes influenciam e mantendo um ritmo lento na medida certa, sem cansar.

Contando ao namorado William, um rapaz ambicioso que trabalha com o pai no mar, sobre seu dia e dando ênfase na visita à casa do pântano e ao misterioso tesouro, Lucie desperta nele a esperança de dinheiro fácil, um vislumbre de uma possível vida melhor. Ela não aprova as ideias maliciosas do rapaz e vai embora. Em casa, ponderando os prós e contras da empreitada, acaba cedendo e, pouco tempo depois, ela, William e Ben, um amigo garçom, seguem em direção ao pântano.

Livide (2011) (2)

Com a condição de não quebrarem nada e pegarem apenas o necessário, invadem facilmente o casarão pelo porão, um buraco entulhado de porcarias. Pelos corredores silenciosos e tomados pelo breu, procuram pelos cômodos e se deparam com uma porta trancada, a única. Lucie lembra da chave no pescoço da velha e lá vão eles, cheios de coragem e burrice. A chave servindo ou não na porta, Ben acaba arrombando-a. No interior, encontram algo que traz a cena mais sinistra de todo o filme. Não digo que não haja outras interessantes, pelo contrário, mas essa é curiosa, como uma pintura criada por algum artista com sérios problemas. Sob os pés da “coisa” a chave mostra sua utilidade, e a música finalmente começa a tocar. Demorou, mas veio. Passos pesados, ar carregado, sensação de “agora fudeu”. A velha não pode ter acordado. Pode? Será mesmo ela, ou…?

Ao perceber que o tesouro não era tão brilhante quanto imaginavam, os invasores concluem que o melhor é ir embora, mas se você está aqui no Boca com certeza sabe que sair não será tão fácil quanto entrar. Nessas horas as portas se tornam a prova de bala, machadadas ou cabeçadas, e grades brotam do chão, como todo filme de terror que se preze. Separar-se dos amigos é burrice, andar no escuro é burrice… Só pelo fato de terem entrado na casa na calada da noite já ganharam Mestrado em burrice aplicada.

Como a velhota não era professora de balé a toa, a bailarina aqui ganha um tom mórbido, diferente da delicadeza usual. Fantasmagóricas em sépia, o efeito cromático na presença das bailarinas é forte e se choca com o sangue derramado a marteladas e/ou facadas. Sorrisos inocentes escondem dentes prontos para dilacerar sua carne, em um show de vampirismo e canibalismo, embalado por movimentos ora graciosos ora bruscos. É o momento das fadas do conto entrarem em cena, no caso com grande vocação para bruxas.

Livide (2011) (4)

Livide não assusta. Está mais para um conto de fadas, é como o defino (embora ainda seja um conto de horror). Enquanto é bastante óbvio para qual direção ele segue, é interessante acompanhar as motivações e ações dos personagens. A atuação não é digna de um Oscar, mas boa o bastante para que acreditemos. A atriz que interpreta Lucie (Chloé Coulloud) nos apresenta uma personagem simpática e com profundidade genuína, e não há queixas a serem feitas sobre o elenco de apoio.

Os dois terços iniciais do filme são substancialmente melhores do que o final. Isso se dá porque não se sabe para qual gênero ele vai. Há o terror, suspense, drama, fantasia. A transação entre eles não acontece da melhor maneira, deixando alguns buracos que dificultam fazer algum sentido em algumas partes. Em certo momento você vai se perguntar o que diabos está acontecendo. O final é… Qual adjetivo vai servir aqui? Curioso. Peculiar. Acredito que mais confuso do que o pretendido.

O resultado geral é absolutamente belo e entrega uma experiência prazerosa. O terror é psicológico e não dá margem para sustos fáceis. Os cineastas apelam por uma ou duas vezes no máximo por eles, mas não estraga a experiência. Há aquela figura que aparece do nada atrás do infeliz desavisado? Sim. A música, porém, não vai explodir para garantir que você pule de susto. O gelo na espinha se encarregará de mantê-lo grudado na cadeira, os olhos fixos na tela esperando pela cena seguinte.

Livide (2011) (5)

Mesmo que existam alguns defeitos em Livide, reforço que os aspectos positivos mais do que compensam os negativos e que, no geral, é um filme genuinamente bom. Eu recomendaria para fãs de horror maduros, abertos a algo diferente de À l’intérieur. Considerando a natureza gráfica do anterior, foi interessante ver os diretores apostando em uma abordagem diferente. E apesar de tudo, creio que foi bem sucedida.

(Visited 641 times, 1 visits today)
Autor Convidado

Autor Convidado

Um infernauta com talentos sobrenaturais convidado a ter seu texto publicado no Boca do Inferno!

6 comentários em “Livide (2011)

  • 21/02/2016 em 16:05
    Permalink

    Quem se educar a não esperar os clichês e o ritmo típicos dos filmes americanos a que estamos mal acostumados pode apreciar bastante esta obra.

    Achei as atuações fracas. O clima e a chamada paleta de cores contribuem para criar a atmosfera apropriada.

    Dou nota 3.

    Resposta
  • 13/12/2015 em 03:26
    Permalink

    Achei o cenário, o som, o tema (da velha em coma na mansão sinistra) interessante e apavorante. Lamento pela falta de sentido na parte final… e pela fantasia em excesso; mas tem plena razão o crítico: o filme é bom, alias excelente se comparado com a boçalidade dos ‘terrores’ yankee e nipônico. Na linha dos grandes filmes de terror italianos, espanhóis e ingleses aos quais sempre vale a pena assistir e pensar. É dos poucos que pretendo assistir novamente! ASSISTAM E tremam de medo…

    Resposta
  • 10/07/2015 em 02:30
    Permalink

    Conheci esse filme através do Boca e achei um ótimo filme é muito tenso. E vamos falar a verdade é ruim de qualquer um de nós ir cuidar de uma senhora em uma casa daquelas. Deus é pai estou fora.

    Resposta
  • 14/06/2013 em 15:11
    Permalink

    Buscando filmes de terror novos me deparei com essa obra curiosa, terror francês, sem a menor obrigação de agradar grandes massas como os blockbusters americanos, tenso, curioso, enigmático… realmente ficam algumas falhas, situações inexplicadas mas o todo não decepciona. O final poderia ser melhor, mas já que não o foi, fica a sensação angustiante de vidas não vividas, imaginando o que poderia ter acontecido se fosse diferente… divagando, literalmente.

    Resposta
  • 21/05/2013 em 09:02
    Permalink

    Assisti noite passada. Esse filme é muito bom. Simplesmente adorei.

    Resposta
  • 04/05/2013 em 22:09
    Permalink

    me interessei muito não,mas quem sabe depois eu não mude de idéia.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien