Críticas

Floresta Negra (1997)

Pode levá-lo a imaginar uma série de produções baseadas em contos de fadas em uma linguagem mais sobrenatural e com uma estética mais dark.

Floresta Negra (1997)

Durma bem…durma para sempre!

Floresta Negra
Original:Snow White: A Tale of Terror
Ano:1997•País:EUA
Direção:Michael Cohn
Roteiro:Thomas E. Szollosi, Deborah Serra, Irmãos Grimm
Produção:Tom Engelman
Elenco:Sigourney Weaver, Sam Neill, Gil Bellows, Taryn Davis, Brian Glover, David Conrad, Monica Keena, Anthony Brophy, Frances Cuka, Chris Bauer, John Edward Allen, Miroslav Táborský, Andrew Tiernan

Contos de fadas. De acordo com o conhecimento popular, representam histórias bonitas e lúdicas, com mensagens positivas, lindos cenários, além do tradicional final feliz. Mas você, fã de filmes de terror e suspense, já parou para pensar que algumas destas tramas podem ter um lado macabro e sombrio? Calma, pois não estamos dizendo para você correr para uma locadora e alugar Branca de Neve e os Sete Anões com o intuito de procurar elementos de horror. Mas apenas é importante ter o conhecimento que mesmo uma obra infantil pode ter potencial para um bom filme de suspense, dependendo da proposta.

E foi com essa intenção que o diretor (infelizmente desconhecido) Michael Cohn produziu em 1997 o bom filme Floresta Negra (Snow White: A Tale of Terror), baseado justamente na história da Branca de Neve e os Sete Anões, mas sem nenhuma menção bonitinha do clássico desenho da Disney que foi lançado em 1937. Aliás, ambos os filmes são adaptados do conto dos famosos Jacob e Wilhelm Grimm (saiba mais abaixo). A diferença das produções foi o caminho escolhido pela direção dentro de cada uma das propostas de linguagem dos filmes que geraram resultados bem diferentes.

Em Branca de Neve e os Sete Anões, que foi rodado em animação pelos estúdios Disney, acompanhamos a bela Branca de Neve, que ameaçada por uma rainha má e ciumenta, foge para o bosque e consegue abrigo na casa de sete anões, que trabalham em minas de diamantes. Não demora muito para que a rainha encontre a jovem donzela e arme contra a moça. Tido como um dos clássicos supremos da Disney, o filme fez sucesso pela história agradável, capaz de encantar a toda a família, personagens marcantes e o excelente trabalho de animação, feito a mão, na longínqua década de 30. Visto hoje, Branca de Neve não perdeu em nada do seu brilho e encanto e consegue ficar muito acima de várias produções de animação atuais.

Qualquer pessoa em sã consciência pensaria que pegar esta obra prima da Disney e rodar com atores seria um passaporte para o fracasso, mas alguém viu tal possibilidade de forma diferente e não apenas apostou em uma versão de carne e osso do filme, como também abandonou o estilo lúdico e infantil do original, partindo para uma história voltada para o macabro e a obscuridade que a obra original apenas (muito apenas) sugeria dentro da própria trama, com a figura da madrasta como vilã, além da ambientação da floresta, entre outras.

O nome do corajoso em propor tal projeto de uma Branca de Neve dark foi do diretor Michael Cohn, que tinha apenas dois outros trabalhos no currículo e depois de realizar este desafio, nunca mais gravou nada. Em Floresta Negra temos exatamente os personagens principais de Branca de Neve, no caso a rainha má e a pobre garota. Os anões ficaram de fora do novo filme, que apesar da ligação, deve ser visto como uma história independente da animação dos anos 30.

A Branca de Neve de Cohn responde pelo nome de Lilliana e está longe de ser uma garotinha agradável e indefesa, como a personagem da animação. Esnobe, metida e chata, ela é a própria adolescente rebelde, mas dentro desta nova trama, enquadra-se perfeitamente, embora a jovem atriz Monica Keena (Freddy Vs. Jason, 2003) não faça nada além do trivial. Para a rainha má, fica difícil, após ver o filme, escolher uma vilã tão cruel e elegante quanto Claudia, feita com a classe e o talento já conhecido de Sigourney Weaver (a eterna Ripley da série Alien).

A essência da história de Floresta Negra é semelhante à de Branca de Neve. Na época das Cruzadas, um nobre viúvo (Sam Neil, de Jurassic Park, 1994) com uma filha adolescente, decide se casar novamente, sem imaginar que sua nova esposa praticava bruxarias e que com o tempo perseguiria a enteada. A partir dessa descrição, a versão original de Branca de Neve será apenas uma leve lembrança dentro desta nova produção, que consegue ter vida própria além da origem infantil.

Fruto do roteiro, assinado pela dupla Thomas E. Szollosi e Deborah Serra, baseado no conto original dos Irmãos Grimm, parte do sucesso da produção se deu por realmente criar um trabalho diferente do original. Além da história, os cenários também são uma atração à parte, com a floresta na qual parte da trama se passa, escura e sinistra, além do castelo também possuir um ar sombrio. A maquiagem, em especial a de Sigourney Weaver quando se transforma em velha, também é um outro ponto positivo dentro da trama. Aliás, a madrasta má de Weaver é uma combinação da vilã Julia, de Hellraiser 1 e 2 com a personagem Diabolim, do desenho animado Cavalo de Fogo. O único ponto negativo do filme recai no seu final, que infelizmente não consegue fugir do tradicional o bem vence o mal.

Floresta Negra (1997) (1)

Assistir a Floresta Negra também pode levar o espectador a imaginar uma série de outros trabalhos semelhantes que poderiam ser feitos ao se filmar contos de fadas em uma linguagem mais sobrenatural e com uma estética mais dark. Um dos projetos mais aguardados pelos fãs do gênero terror seria a adaptação para a tela grande do projeto Alice, baseado no vídeo game American McGee’s Alice, que serviria como uma “sequência” do também clássico infantil Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderlands, 1952). No novo filme, que já foi cancelado e anunciado diversas vezes, Alice estaria internada em um hospício, após a ação do “primeiro filme“, mas logo a moça conseguiria fugir do local para voltar ao País das Maravilhas, onde o caos havia dominado o lugar.

Ficou curioso com a proposta? Alugue Floresta Negra e fique mais pensativo em como seria rever alguns clássicos infantis dentro de uma visão macabra. Imagine aquela sua história infantil predileta, que você escutava quando criança, e se lembre como, em alguma parte, você tinha medo da bruxa má ou da floresta em que a mocinha se perdia. Bom, tal história pode ter então uma inclinação para uma visão sombria, basta apenas ser explorada.

Os Verdadeiros Autores

Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm nasceram em Hanau, na Alemanha, em 1785 e 1786, respectivamente. Tentaram ser advogados, como o pai, mas logo abandonaram a profissão para se dedicarem à literatura, tornaram-se estudiosos da língua alemã, eruditos, historiadores e narradores excepcionais.

Apesar de terem ficado conhecidos internacionalmente através de seus famosos contos, a dupla na verdade não era autora de parte dos textos que assinava. Isso acontecia porque muitas das histórias já faziam parte da cultura local alemã, sendo contadas pelos mais velhos para as crianças e como no século 17 não havia tantos livros ou facilidades de impressão, com exceção de manuscritos religiosos e documentos, a dupla resolveu preservar tais contos e dessa forma, passou a pesquisar e recolher relatos entre a população.

Foi deste trabalho que surgiram e foram preservadas algumas das fábulas que se tornaram famosas como a de Rumpelstiltskin, o anão que transforma palha em ouro, além da Gata Borralheira e da própria Branca de Neve e os Sete Anões. Através de uma observação mais profunda na obra dos irmãos, é possível perceber que os textos da dupla não são propriamente contos de fadas e, sim, histórias, com mensagem positiva, mas que possuem elementos mágicos e sobrenaturais. Personagens como bruxas, monstros, lobos e dragões figuravam nas tramas, que possuíam mistérios e aventuras. A narrativa é criada em cima de um personagem principal, que precisa vencer os vilões ou situações ruins para alcançar a felicidade.

Em 2005 foi lançado o filme Os Irmãos Grimm (The Brothers Grimm), que conta justamente a vida da dupla e acompanha parte do processo criativo deles. No filme de Terry Gilliam (Os 12 macacos, 1995), a história deles é mostrada justamente como os contos que os tornaram famosos: repleto de simbolismos, fantasias, pitadas de aventuras e um final feliz. No caso dos irmãos, tal epílogo acontece pelas histórias escritas e coletadas por eles terem conseguido não serem esquecidas com o passar dos anos.

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