Críticas

Perfume: A História de um Assassino (2006)

A qualidade da fotografia confere um tom a mais na grandiosidade do resultado final. Um filme sombrio, de beleza ímpar, refinada e sensível!

Perfume (2006)

Perfume: A História de um Assassino
Original: Perfume: The Story of a Murderer
Ano:2006•País:Alemanha/França/Espanha
Direção:Tom Tykwer
Roteiro:Andrew Birkin, Tom Tykwer, Bernd Eichinger
Produção:Bernd Eichinger
Elenco:Ben Whishaw, Francesc Albiol, Dustin Hoffman

“Bem vindo a um mundo de paixão e assassinato.”

Em 1738, o lugar mais fétido do planeta era o mercado de peixes de Paris, a maior cidade da Europa. Um fedor inconcebível para os tempos modernos. Era a quinta vez que a vendedora de peixes dava a luz em sua barraca. O recém nascido, quase morto, seria jogado ao lixo, em meio às tripas e peixes podres, assim como os outros. Mas Jean-Baptiste Grenouille decidiu que seu destino seria diferente. O primeiro som que saiu de sua boca conduziu sua mãe a forca.

Jean-Baptiste Grenouille se tornou um dos homens mais geniais e notórios de seu tempo. Sobreviveu a uma infância de maus-tratos num orfanato, trabalhou como escravo num curtume até tornar-se aprendiz do famoso perfumista Baldini. Entretanto, Grenouille não era um ser humano comum. Ele possuía o dom extraordinário de identificar o odor de todas as coisas; habilidade que lhe permitiu, em pouco tempo, superar seu mestre na arte de misturar essências. Mas a obsessão em eternizar todos os aromas e manipular o perfume perfeito arrastou o perfumista à uma realidade que fugia ao controle da razão, transformando sua vida numa história de loucura e horror.

O escritor alemão Patrick Süskind conseguiu imprimir nas páginas de seu best-seller um universo repleto de odores, fazendo com que o leitor mergulhasse numa dimensão alternativa e vivesse através do olfato de Jean-Baptiste. O Perfume – A História de um Assassino (1985) é considerado por muitos leitores e críticos uma obra-prima da literatura mundial contemporânea, sendo traduzido para mais de 37 países e vendido mais de 30 milhões de exemplares.

A inevitável adaptação cinematográfica já havia sido anunciada várias vezes e diversos diretores de peso tiveram seus nomes ligados ao projeto, entre eles Tim Burton e Ridley Scott. Até mesmo Stanley Kubrick esteve envolvido no projeto, mas desistiu afirmando que a obra era infilmável. O produtor alemão Bernd Eichinger (de A Queda – As Últimas Horas de Hitler) negociou com o autor Patrick Süskind durante anos os direitos pela adaptação. O entendimento aconteceu apenas em 2001, num valor aproximado de 10 milhões de Euros. A direção acabou nas mãos do também alemão Tom Tykwer, do pop-cultuado Corra Lola Corra (Lola Rennt, 1998).

Esboçava-se então a produção de maior orçamento a ser realizado pelo cinema alemão (algo em torno de 50 milhões de Euros). A tarefa não era das mais fáceis. A própria transposição do texto literário para a linguagem audiovisual já se constituía um grande obstáculo. Fora a fidelidade à obra original, era necessário definir um foco para a adaptação: poderia ser um drama, um thriller ou mesmo um suspense. A escolha mais sensata e menos arriscada foi a mistura quase homogênea entre o drama e o suspense. O roteiro, muito bem redigido por Andrew Birkin, Bernd Eichinger e o próprio Tom Tykwer, converge para as ações e os sentimentos da personagem central Jean-Baptiste Grenouille, quase como uma obra biográfica.

Perfume (2006)

Em Perfume – A História de um Assassino, as cenas de violência não são estilizadas ou ressaltadas, elas acontecem naturalmente, assim como os assassinatos são naturais ao propósito de Jean-Baptiste, um homem solitário e incompreendido, que enxerga o mundo através aromas. Existe ainda uma grande ironia na vida do nosso anti-herói (o enredo não o define exatamente como vilão): mesmo podendo sentir e distinguir cheiros a quilômetros de distância, seu corpo não exala nenhum odor. Ainda criança, é esta ausência de cheiro que o faz refletir sobre a falta de sentido em sua vida e futuramente o move em busca dos seus objetivos.

O protagonista é interpretado brilhantemente pelo novato Ben Wishaw (o Keith Richards de Stoned – A História Secreta dos Rolling Stones). Pouco conhecido, mas talentoso, Wishaw consegue dar profundidade ao silencioso e misterioso personagem central, sem exagerar ou torná-lo artificial. Ao elenco unem-se ainda veteranos de renome como Dustin Hoffman (Sob o Domínio do Medo) e Alan Rickman (o professor Severus Snape da série Harry Potter). John Hurt (O Homem Elefante) empresta sua voz à narração poética e enfática da trama.

A bela trilha musical, cuja sonoridade e arranjos harmônicos ajustam-se perfeitamente ao cenário, foi composta pelos parceiros Reinhold Heil e Johnny Klimek (responsáveis pela trilha Terra dos Mortos, de George Romero). E Se a direção competente de Tom Tykwer, na maioria das vezes não se mostra inovadora, a qualidade plástica da fotografia de Frank Griebe confere a Perfume um tom a mais na grandiosidade do resultado final. Um filme sombrio, de beleza ímpar, refinada e sensível.

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5 Comentários

  1. Samara Nunes

    Como o próprio crítico colocou, é um filma “sombrio, de beleza impar, refinada e sensível”. A estória transcorre com uma narrativa fascinante. Eu diria que esse filme é: 20% de diálogos, 40% de trilha sonora e 40% de narração. Tudo isso envolto em 100% de imagem e fotografia.
    Um espetáculo, com certeza um dos melhores filmes que já tive o prazer de assistir. Muito fiel ao livro. Uma observação que me parece, ninguém perceber, é que o protagonista tem problemas mentais. Ele só consegue falar aos cinco anos e foi criado completamente desprovido de carinho e amor. Ele consegue extrair o feromônio, das mulheres que assassina. Como a própria narrativa, diz; ele tinha um dom extraordinário. Percebemos que todo aquele dom nato, foi jogado fora pela condição do sistema em que ele foi criado. “Como uma bactéria”, ele sobreviveu. É o que nos diz, a narração.
    Parabéns pela crítica. Maravilhosa!

  2. Letye Andrade

    Não gostei! Poético? Um serial Killer. O pior filme que já vi! Pra piorar mataram um inocente. Não recomendo.

    • Renata

      Pensei que só eu tinha achado uma bosta. Kkk realmente, embelezar um serial killer é o fim!

  3. Davi Mercatelli

    É um filme surpreendente e merece ser visto.

    Temos um personagem amoral e que se guia unicamente pelo seu olfato. Tem-se roteiro, atuações, fotografia e figurino impecáveis.

    Ótimo filme e está recomendado!!

  4. vanessa vasconcelos

    me surpreendi com esse filme,muito legal.

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