Críticas

The Last House on Dead End Street (1977)

Um filme antigo, pequeno, obscuro e tão sujo e violento quanto um exploitation pode ser!

The Last House on Dead End Street (1977)

The Last House on Dead End Street
Original:The Last House on Dead End Street
Ano:1977•País:EUA
Direção:Roger Watkins
Roteiro:Roger Watkins
Produção:Roger Watkins
Elenco:Roger Watkins, Ken Fisher, Bill Schlageter, Kathy Curtin, Pat Canestro, Steve Sweet, Edward E. Pixley, Nancy Vrooman, Suzie Neumeyer, Paul M. Jensen, Ken Rouse, Alan Cooper, Howard Neilsen, Doreen Ellis, Helene Roberts

As “últimas casas” sempre deram trabalho para as vitimas dos filmes de terror: temos relatos na Rua Inferno (Last House on Hell Street, 2002), na beira do parque (House on the Edge of the Park, de Ruggero Deodato, 1980), na praia (Last House on the Beach, de Franco Prosperi, 1978), na floresta (Last House in the Woods, 2006) ou mesmo perto do lago (Last House Near the Lake, de Enzo Castellari, 1979) – todos locais a serem evitados.

Claro que esta onda começou com “A Última Casa à Esquerda” – The Last House on the Left ou em seu título nacional, Aniversário Macabro, lançado no ano de 1972 – e, como de praxe no mundo onde a exploração do sucesso de um é capitalização certa, muitos vieram em seguida, a maioria sem a menor relação com o filme de origem tal como a série italiana Zombie ou as inúmeras produções com Pânico em algum lugar” no título que vemos por aí.

No entanto, se nenhuma destas produções inspiradas na original se compara em qualidade com o debut de Wes Craven, existe ao menos uma “casa” que deveria ser visitada por aquele que gosta de bizarrices e violência: é a última casa na rua sem saída ou The Last House on Dead End Street, que não apenas copiou quase o título inteiro, mas também a famosa tagline It’s only a movie” de seu predecessor mais famoso… Ao menos o infernauta pode ficar tranquilo, pois as semelhanças param por aí.

The Last House on Dead End Street (1977) (2)

The Last House on Dead End Street é um filme tão obscuro e cercado de mistério que se tornou mais conhecido no círculo por causa do “disse que me disse” do que por pessoas que verdadeiramente assistiram, assim é essa reputação que a produção carrega até os dias de hoje, já que a distribuição também não ajudou a esta pequena película.

Para começar o filme foi produzido e filmado entre os anos de 1972 e 1973, com um orçamento absurdo de aproximadamente mil e quinhentos dólares, contudo não pôde ser lançado na época, pois uma das atrizes acionou judicialmente os “realizadores” pelo uso de cenas a qual considerou de mau gosto, fazendo com que Dead End Street ficasse sem ver a luz do dia até 1977.

O termo “realizadores” está entre aspas de propósito por outro motivo: pouco se sabia dos que estavam envolvidos com tamanha barbaridade, porque os créditos eram escondidos por pseudônimos, a maioria sumiu do mundo do cinema e, entre idas e vindas judiciais ninguém assumiu publicamente ter comandado o filme. Todo este mistério avançou até o ano de 2000, quando Roger Michael Watkins, que faz o papel principal, não apenas confirmou que era o diretor, mas também o roteirista, o produtor e o operador de câmera em boa parte das filmagens.

The Last House on Dead End Street (1977) (3)

E tem mais uma: na cabeça do diretor Watkins a produção era chamada The Cuckoo Clocks of Hell e contava à sua maneira a saga dos assassinatos da família Manson. Dizer que se tratava de uma saga não é exagero porque a primeira edição possuía 175 minutos! Pensando no mercado internacional, uma primeira limpeza aconteceu para uma apresentação em Cannes (que nunca ocorreu) deixando a duração com pouco mais de duas horas. Até que enfim foi picotado pela distribuidora para caber em 78 minutos que é a versão de cinema “sem cortes” que conhecemos. Todavia devido ao grau de violência existem versões significativamente menores como a australiana de 74 minutos.

Só que, acredite, apesar do tamanho pequeno e do orçamento irrisório que não paga nem o açúcar do café do Eli Roth, os 78 minutos de Dead End Street são mais sangrentos do que os fãs de O Albergue podem suportar e em um comparativo mais contemporâneo está mais puxado para um protótipo do que podemos ver atualmente no multi-censurado A Serbian Film, onde Dead End arranca alguns pontos tanto pela veracidade amadora da produção quanto pelo clima opressor e a brutalidade gratuita das cenas. Um feito considerável para um pequeno exploitation desconhecido com mais de 40 anos de idade.

A história é simplista até demais e difícil de acompanhar na primeira metade do filme. Basicamente acompanhamos Terrence Hawkins (Watkins), recém saído da cadeia, que, considerando a sociedade culpada por seus males, decide se vingar, iniciando seu plano de “fazer alguns filmes realmente estranhos“, segundo suas próprias palavras.

Inicia uma conversa com o produtor Ken Fisher (o próprio Ken Fisher) para arrumar uma câmera e fazer pornografia caseira e tentar ganhar uns trocos. Ken também revela que trabalhou num matadouro, diálogo este que não serve para nada além de render algumas cenas baratas de vacas sendo mortas num matadouro real.

The Last House on Dead End Street (1977) (4)

Mas voltando a trama principal, Ken orienta Terry para procurar o casal composto por Jim (Edward E. Pixley) e Nancy Palmer (Nancy Vrooman) como atores principais de seu “meta-filme” e Steve Boley (Steve Sweet) para patrocinar as filmagens. Contudo, Terrence procura Bill Drexel (Bill Schlageter) primeiro e o convence a ser seu operador de câmera bem como recruta alguns amigos anônimos degenerados para trabalhar em seu projeto. Neste meio tempo vemos a futura estrela Nancy recebendo umas chicotadas numa festa de magnatas pervertidos (não me pergunte o sentido) e Jim mostra para Steve algumas de suas filmagens, só que ele acha todas uma porcaria e pede inovação, algo que nunca tenha sido visto antes.

Terrence faz umas filmagens (um homem sendo estrangulado em frente a câmera) e mostra seu material gravado para Boley e o casal Palmer e é elogiado pela realidade da produção. Claro que para efeitos do filme o que foi apresentado era um snuff autêntico, porém o diretor fica muito puto, pois com as fitas nas mãos Steve e Jim o cortaram dos créditos finais e ficaram com toda a grana da venda do vídeo para os ricos perversos cansados de pornografia. Terry, querendo vingança, pede então um encontro com Steve a fim de discutir os negócios num lugar pré-estabelecido.

E é isso. Exatamente aos 40 minutos de projeção, quando o produtor picareta finalmente entrar pela porta da “última casa da rua sem saída“, esqueçam o roteiro e preparem-se para uma série das mais chocantes torturas e cenas bizarras que se pode assistir em celulóide, causando tanto repulsa quanto o genuíno medo. Precisa ter sangue muito frio para não se incomodar com estas cenas, porque é um filme que te prende pelo estômago de uma maneira absurda.

Claro que é de causar estranheza de quem assiste pela primeira vez que, para um filme de terror com a reputação que Dead End Street tem, a primeira metade é bastante arrastada, monótona e sem graça. É verdade, mas isso pode causar o efeito inverso já que o espectador fica tão aborrecido e “amaciado” que não está preparado para incessante e intensa violência que fica mais assustadora por causa da pouca iluminação e o aspecto granulado das câmeras de 16mm. Por exemplo, se eu fosse fazer um comparativo as cenas de morte deste filme com Snuff (1976), que tem fama e bastidores polêmicos bem semelhantes, eu ficaria com Dead End Street, pela atmosfera, o profissionalismo e qualidade técnica de Roger Michael Watkins.

The Last House on Dead End Street (1977) (5)

A trilha sonora merece um destaque a parte principalmente no início e no final, com os cantos assustadoramente angelicais, alguns efeitos eficientes no sintetizador e muitas vezes apenas as batidas de um coração, tão altas que poderiam ser a do público assistindo-o, quando o banho de sangue começa.

Das grandes falhas podem se citar principalmente a dublagem das falas de todos os personagens tal como toda a parte sonora em mono do filme; o formato fullscreen também não é muito atraente e, obviamente, pessoas não acostumadas a produções setentistas de baixo orçamento para drive-ins encontrarão mais outro punhado de motivos inerentes a quase todos estes filmes como a qualidade de imagem, amadorismo do elenco, entre outros.

Claro que, se é tão manchado de sangue assim, o filme não poderia passar sem respingar em alguém e aconteceu lá no Reino Unido. O curioso é que quem levou a bordoada não foi ele, mas um filme de Tobe Hooper que não tinha nada a ver com a conversa! Aconteceu que na Inglaterra The Last House on Dead End Street foi lançado com o título alternativo Funhouse e com o escândalo dos Vídeo Nasties (que baniu dezenas de produções das prateleiras das locadoras) o filme perseguido por engano foi para o infinitamente menos nocivo The Funhouse, de Hooper (Pague para Entrar, Reze para Sair, no Brasil) enquanto o filme de Watkins ficou intacto a princípio. Vai entender esses censores…

Como se trata de uma película que nunca foi lançada no Brasil (e fico infeliz em admitir que nunca será) o jeito é recorrer aos métodos tecnológicos ou comprar o DVD duplo importado, caríssimo e fora de catálogo que contém comentários em áudio, documentários, curtas de Watkins e outras coisinhas mais.

De qualquer maneira, ao ver a versão sem cortes, não estranhe a transferência pobre e que algumas cenas sejam extremamente mais castigadas do que outras. Ocorre que a única cópia disponível (e talvez existente) em celulóide – comprada por Mitch Davis, organizador do Fantasia Festival – é cortada no gore em algumas partes e para complementar o material faltando foi utilizada uma fonte em VHS com qualidade ainda menor. Apesar de receber loas do circulo admirador do cinema obscuro e cult, Roger Watkins permaneceu na obscuridade e dirigiu filmes de menor expressão nos anos 80, falecendo em 06 de março 2007 aos 58 anos.

Para fechar, o que Dead End Street mostra em seus frames sujos é a degradação do ser humano com provocações, violência e arte balanceado de uma forma que merece ser conhecido por muitos e admirado por poucos, só não dá para ficar indiferente ou em cima do muro! Assista em um quarto escuro, repita sempre “é só um filme… é só um filme…” e deixe a mente de Roger Michael Watkins fluir na tela em vermelho vivo!

Leia também:

4 Comentários

  1. Luiz

    O filme é bem grindhouse/video nasty, e tem uma atmosfera bem bizarra. Vale a pena ver uma vez!

  2. Thiago Marques

    Preciso ver esse filme urgentemente!!!!!!!!!!!!

  3. roland

    tem no youtube esse em ingles sem legendas ,decepçao total igual o tal Anthropophagus (1980) broxante.

  4. vanessa vasconcelos

    rapaz,eu já tinha ouvido falar desse filme,e agora lendo a tua crítica me deu muita vontade de ver,vou caça-lo na net.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *