The Grapes of Death (1978)

Um pequeno clássico desconhecido
Um pequeno clássico desconhecido

The Grapes of Death
Original:Les raisins de la mort
Ano:1978•País:França
Direção:Jean Rollin
Roteiro:Jean-Pierre Bouyxou, Christian Meunier, Jean Rollin
Produção:Claude Guedj
Elenco:Marie-Georges Pascal, Félix Marten, Serge Marquand, Mirella Rancelot, Patrice Valota, Patricia Cartier, Michel Herval, Brigitte Lahaie

Para a maior parte dos fãs de horror, a citação dos nomes de George A. Romero e Jean Rollin na mesma frase é o fim do mundo, e talvez até motivo mais do que suficiente para dar um tapa na orelha do abusado que ousou citar ambos lado a lado. Afinal, para 99% da humanidade, o francês Rollin era indiscutivelmente (e injustamente) um dos piores diretores a pisar na face da Terra, da mesma patota do hiperativo Jess Franco, tendo realizado algumas bombas tão catastróficas que talvez até Bruno Mattei e Ed Wood teriam vergonha de assinar. Entre elas, a título de curiosidade, está Zombie Lake (aquele dos zumbis com a cara pintada de tinta guache verde), que ele dirigiu, e Mondo Cannibale/White Cannibal Queen, que ele escreveu para o amigão Jess Franco dirigir. O que pouca gente imagina é que Jean Rollin (nascido Jean Michel Rollin Le Gentil em Paris, no ano de 1938 – e falecido em 16 de dezembro de 2010) tinha um pouquinho mais em comum com o norte-americano George Romero além do fato de o sobrenome de ambos ter 6 letras e começar com “Ro“.

Isso porque, entre 1978 e 1982, o francês rodou sua própria e original “trilogia dos mortos“, a exemplo de Romero, que até então não havia concluído sua trilogia inicial (Dia dos Mortos só saiu em 1985). Mais: Les Raisins de La Mort, cujo título internacional é The Grapes of Death (As Uvas da Morte), o primeiro filme da trilogia dos mortos de Rollin, é uma espécie de versão francesa de A Noite dos Mortos-Vivos. E se não virou clássico como seu predecessor de 1968, pelo menos é uma bela surpresa. Especialmente porque não é frequente encontrarmos filmes franceses de mortos-vivos, e um dos poucos existentes é aquela bomba de A Revanche dos Mortos-Vivos, dirigido por Pierre B. Reinhard em 1987 – é, aquele mesmo das zumbis estupradoras.

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Pode-se dizer, inclusive, que The Grapes of Death é uma “versão etílica” de A Noite dos Mortos-VIvos. Isso porque se os zumbis de Romero vinham de lugar nenhum (e até hoje não se sabe de onde diabos eles saíram, apesar de milhões de teorias para tentar explicar o seu surgimento), os zumbis de Rollin são simplesmente pessoas contaminadas por beberem vinho (!!!) feito a partir das uvas impregnadas com um novo tipo de pesticida experimental. E levando em consideração que francês adora beber vinho (provavelmente até no café da manhã), imagine o tamanho do estrago.

Logo, apesar de caminharem lentamente e com o olhar perdido, e de exibirem tenebrosas pústulas e deformações em seus rostos, os “zumbis” de Rollin não são exatamente mortos-vivos, pelo menos não no sentido clássico da palavra, mas sim seres humanos envenenados e enlouquecidos por um produto químico, algo semelhante a O Exército de Extermínio (outro clássico de Romero) e ao posterior Nightmare City, de Umberto Lenzi (em que pessoas contaminadas por radiação se transformam em “zumbis” hiperativos).

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Some ainda um toque de Zumbi 3/Let the Sleeping Corpses Lie, do catalão Jorge Grau, e você terá esta saborosa mistura que é The Grapes of Death. Por sinal, saborosa como um bom vinho. Mas não este do filme, claro.

Ironicamente, esta produção de 1978 só saiu do papel como um projeto mais “comercial“, que pudesse dar dinheiro nos cinemas e assim tapar o rombo de um filme anterior do francês. Explico melhor: em 1975, o produtor de filmes pornográficos Jean-Marc Ghanassia tentou investir em algo diferente de putaria e bancou o terror erótico Lévres de Sang/Lips of Blood (Lábios de Sangue), uma das muitas histórias de vampiros dirigidas por Rollin (que era simplesmente fascinado pelo tema). O problema é que o filme foi um fracasso comercial, e o pobre Ghanassia teve que deixar até as cuecas para pagar as contas do fiasco. Buscando uma compensação, em 1978 ele pediu para que o diretor pensasse em dirigir uma coisa mais convencional, que desse uma boa renda nas bilheterias para sanar as contas que ficaram do fracasso de três anos antes.

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A ideia do produtor era filmar uma história de horror sobre alguma coisa inofensiva do dia-a-dia que de repente se mostrasse perigosa e mortal. O próprio Rollin recomendou usar tabaco ou vinho como catalisador da epidemia. E assim surgiu The Grapes of Death, aproveitando ainda a onda de filmes de mortos-vivos, que naquele ano estavam em alta graças ao sucesso de Dawn of the Dead, de Romero, lançado no mesmo 1978. E foi basicamente assim que surgiu este surpreendente filme francês de zumbis – antes mesmo que os italianos, os reis de copiar as fórmulas norte-americanas, lançassem seus próprios filmes com mortos-vivos!!!

Escrito por Christian Meunier e pelo próprio Rollin, a partir de um argumento do diretor e de Jean-Pierre Bouyxou, o filme começa mostrando diretamente a fonte da contaminação: um grupo de trabalhadores de uma vinícola passa agrotóxicos nas videiras, e, mesmo usando máscaras que cobrem o rosto e o nariz, percebe-se claramente que estão sofrendo os efeitos de respirar o pesticida – principalmente quando a trilha sonora dá lugar ao som amplificado da respiração arfante de um dos trabalhadores. Ao fim do dia, um dos rapazes passa mal e se queixa de dor no pescoço, mas o patrão ambicioso se apressa em dizer que não é nada que uma boa noite de sono não resolva, e ainda avisando que no dia seguinte chegará um lote de máscaras hermeticamente fechadas, que protegerão melhor os trabalhadores do veneno. Mas aí já será tarde demais, claro.

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Corta para um trem que cruza aquela região rural francesa, praticamente vazio (talvez para economizar o salário dos figurantes), exceto por duas amigas que estão num dos vagões, curtindo as “férias de outubro, quando todos os outros estão trabalhando” – uma desculpa do roteiro para poder mostrar o trem vazio, obviamente… Uma delas é a nossa heroína, Elisabeth (a gracinha Marie-Georges Pascal). A outra é Brigitte, uma loira anônima que você pode esquecer desde já, pois ela não vai durar nem cinco minutos no filme. Elas estão seguindo rumos diferentes: enquanto Brigitte vai desembarcar antes, Elisabeth segue até o final da linha para um vinhedo chamado Roubelais, onde vive seu noivo Michael (como é um filme francês, pronuncia-se “Michél“).

Os problemas começam na parada em uma das estações, quando embarca no trem aquele sujeito que no dia anterior havia se queixado de dor no pescoço, lembra? Sem falar nada, mas mantendo o rosto sem expressão, ele primeiro aparece encarando a amiga loira, e depois vai sentar no vagão agora quase vazio onde está Elisabeth. A viagem começa e o cara parece passar mal. Diante dos olhos da apavorada garota, feridas começam a pipocar no seu pescoço e no seu rosto, até que uma das bochechas incha e começa a derramar pus (um efeito razoavelmente realizado, considerando a pobreza da produção). Neste momento, Elisabeth levanta e se manda do vagão (demorou, pô!), enquanto o tal homem se arrasta atrás dela pedindo ajuda. No corredor, a garota em fuga ainda se depara com o cadáver ensanguentado da amiga Brigitte, e então, apavorada, puxa o freio de emergência e sai no pinote quando o trem pára.

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Perdida sabe-se lá onde, bem no meio de uma enorme região rural aparentemente desabitada, Elisabeth passará o resto do filme zanzando de lá para cá e se defendendo dos ataques de agricultores e moradores das vilas da região, que se transformaram em putrefatos assassinos enlouquecidos, cobertos de feridas melequentas, por terem abusado do consumo do tal vinho envenenado, “batizado” com o pesticida experimental que mata muito mais do que apenas as pragas da lavoura. Bem feito! Quem mandou serem tão bebuns?

A partir de então, e estamos nos 10 minutos iniciais do filme, não há mais um roteiro específico. Ao invés de se barricar numa casa e ficar lá tentando resistir aos ataques dos infectados, Elisabeth teima em seguir em frente, querendo chegar até o vinhedo onde trabalha seu noivo antes que a contaminação se espalhe até lá – se é que já não se espalhou. No caminho, vai encontrando hordas de pessoas infectadas (os “pseudo-zumbis” de Rollin) e personagens excêntricos que ajudam ou atrapalham na sua missão, como uma garota cega (Mirella Rancelot) que se perdeu de casa e mal sabe o que anda acontecendo naquela região; uma bela ninfomaníaca que parece se comunicar com os infectados (interpretada pela atriz pornô Brigitte Lahaie, musa do diretor); uma jovem (Patricia Cartier) cujo pai lentamente demonstra sinais da infecção, e uma dupla de matutos que usa espingardas e dinamite para despachar os enlouquecidos contaminados, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo! Conseguirá Elisabeth chegar até seu destino ou morrerá nas mãos dos zumbis etílicos que a esperam pelo caminho?

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O roteiro de The Grapes of Death segue fielmente a ordem dos acontecimentos de A Noite dos Mortos-Vivos: começa com uma dupla num lugar afastado de casa sendo atacada por uma das criaturas; uma das vítimas morre, e a outra escapa apenas para descobrir que o mundo virou um caos. Sem saber direito o que está acontecendo (como no filme de Romero), a sobrevivente vai topando com outras pessoas que, invariavelmente, acabam morrendo nos confrontos com as criaturas. A diferença básica, além das criaturas de Rollin não serem mortos-vivos, é que The Grapes of Death se passa o tempo todo na estrada, ao invés de mostrar os personagens se trancando numa casa, como fez o diretor norte-americano em seu clássico de 1968. Mas o resto é muito semelhante, e Rollin até tenta incluir toques da crítica social de Romero, ao mostrar que as relações entre os humanos “normais” são piores e mais perigosas do que seus encontros com os “monstros“.

Nem preciso lembrar, aqui, que vários filmes italianos seguiram o “estilo Romero de filme de zumbis” a partir do final dos anos 70, dando origem a alguns que são legítimos clássicos, como o Zombie de Lucio Fulci, mas também diversas tralhas, de Predadores da Noite, do Bruno Mattei, ao impagável Nights of Terror, de Andrea Bianchi. Ao contrário destas cópias italianas de Dawn of the Dead, o filme de Jean Rollin não tenta imitar a fórmula das produções norte-americanos, nem tenta fingir que sua história se passa nos Estados Unidos ou no Caribe. Muito pelo contrário: o diretor aproveitou, com muito bom gosto e senso fotográfico, paisagens e cenários tipicamente franceses, compondo um filme plasticamente belíssimo, que não parece ripoff ou cópia xerox do cinema ianque, como as tralhas italianas.

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Como a ordem expressa de Rollin era fazer um filme de horror que fosse acessível para o grande público, ao contrário de seus delírios sobre vampiras lésbicas, ele aqui também abandona algumas viagens e doideiras típicas de seus trabalhos anteriores, na busca por uma história mais redondinha. Resultado: The Grapes of Death é, talvez, o seu trabalho mais convencional, e por isso mais acessível para quem não tem muita familiaridade com a obra do cineasta. Para completar, esta também é, reconhecidamente, a primeira produção “splatter” made in France, e não lhe faltam sangue, nojeiras, nudez gratuita e mutilações.

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Entretanto, vou direito ao ponto: apesar de conter todos estes elementos que fã de horror adora, The Grapes of Death definitivamente não é para todos os públicos, e muito menos para a geração pós-Extermínio e pós-Madrugada dos Mortos, que deverá achá-lo muito lento e arrastado. Afinal, lembre-se que isso aqui é um Filme Francês, e, como tal, abusa daquele clima lento, silencioso e introspectivo típico dos “filmes de arte” europeus. Cinéfilos impacientes costumam dizer que filme francês é a coisa mais chata que tem. Não estão de todo errados, mas é injusto generalizar assim. Agora, quem gosta de edição estilo videoclipe, rock pesado na trilha e sangue o tempo certamente todo vai achar um porre.

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Mesmo incumbido de fazer uma produção mais comercial, Rollin não se privou de um velho hábito e faz excelente uso das paisagens rurais do interior da França (neste caso, a região montanhosa de Les Saivennes), levando seus protagonistas a centenários casarões de pedra em ruínas, videiras secas e enormes campinas sem qualquer sinal de vida humana, o que ajuda a provocar uma sensação de claustrofobia e de fuga impossível mesmo quando as cenas acontecem a céu aberto!

Os babacas que pensam que ele era um péssimo diretor somente embasados no pior filme de sua carreira (o medonho Zombie Lake), ou no seu passado de filmes pornográficos (Rollin assinou vários, com pseudônimos como “Robert Xavier” e “Michel Gentil“), vão ficar sem palavras diante de imagens belíssimas, que parecem saídas de uma pintura, como a pobre Elisabeth cruzando uma velha ponte de trilhos durante um nevoeiro, ou a garota cega sendo rodeada por uma horda de silenciosos infectados, sem ter a menor noção de que seu destino trágico está assinalado – cenas ressaltadas pela belíssima e atmosférica trilha sonora de Philippe Sissman, que lembra muito a que foi composta pelo Tangerine Dream posteriormente para A Fortaleza Infernal, de Michael Mann.

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Ressalte-se, ainda, que a presença da cega, além de gerar as cenas mais interessantes do filme, ainda lembra clássicos do italiano Lucio Fulci, que adorava filmar em superclose os olhos brancos de suas personagens cegas, em filmes como The Beyond e Manhattan Baby.

Mas talvez o detalhe mais interessante desta pequena pérola francesa seja justamente a caracterização dos “zumbis“: como na verdade não estão mortos, e sim alterados mentalmente e fisicamente por uma substância química, os infectados de Rollin não agem todos de maneira padronizada. Alguns andam cambaleando e lentamente, como os zumbis clássicos, mas a maioria deles usa armas, como garfos-de-feno e machados, para atacar suas vítimas – outro detalhe que seria aproveitado pelo italiano Umberto Lenzi no posterior e divertidíssimo Nightmare City, onde os “zumbis” usam até metralhadora!

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Além disso, alguns infectados falam e se comunicam. E, pior, têm plena consciência dos seus atos, mas não conseguem evitá-los, num toque absolutamente dramático do roteiro. A cena mais marcante é aquela em que um pai contaminado (interpretado por Paul Bisciglia) é forçado a decepar a cabeça da filha e, enquanto comete o ato, chora e grita como se estivesse sofrendo por não conseguir controlar o ímpeto homicida; ao longo do resto do filme, ele caminha levando nas mãos (e alisando e beijando) a cabeça decapitada, arrependido pelo crime hediondo que cometeu. É uma situação muito mais terrível do que a dos zumbis de Romero: se nos filmes do norte-americano o cara morria e virava zumbi sem consciência, movido apenas pelo instinto e pela fome por carne humana, e azar dos vivos, em The Grapes of Death as criaturas são seres humanos normais, vivos (embora deformados e enlouquecidos), levados a matar pela contaminação química, e que têm consciência daquilo que fazem ou irão fazer. Enfim, uma ideia bastante criativa e original, que atinge seu ápice no momento em que um infectado implora para a heroína atropelá-lo, para que assim ele pare de matar e agir como “zumbi“.

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Ter o mérito de primeiro filme “splatter” francês também não é “pouca porcaria“, como se diz no Sul. Tudo bem que o filme envelheceu bastante neste quesito, e hoje a maquiagem dos infectados, com suas nojentas feridas purulentas sempre escorrendo, já não seja mais tão marcante. E verdade seja dita: as cenas de violência não chegam aos pés daquelas que Dawn of the Dead mostrou no mesmo ano, e muito menos das produções italianas de zumbis do mesmo periodo.

Em The Grapes of Death, os franceses Yannick Josse e Raphaël Marongiu assinam maquiagem e efeitos ao lado do italiano Alfredo Tiberi, um especialista que já havia trabalhado no polêmico e escatológico Saló – Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini. A maior parte das cenas de violência parecerá fraca para a geração HOSTEL e JOGOS MORTAIS, já que a câmera se limita a mostrar o “pós-assassinato“: tipo, o garfo-de-feno já enterrado no peito da moça, o olho do homem já arrancado para fora da órbita, o pescoço da velha já cortado, e por aí vai, mas sem mostrar os atos de violência sendo cometidos.

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A salutar exceção é uma cena surpreendentemente sangrenta, ainda mais para a época, e que continua marcante mesmo para o público de hoje: a tal da filha cuja cabeça é decepada a machadadas pelo próprio pai. Confesso até que me espantei ao ver os golpes do machado sendo mostrados explicitamente pela câmera, e seguidos de generosos esguichos de sangue – ainda mais pelo clima tosco e barato que marca todo o restante da produção. Trata-se de um momento muito bem feito, que fica na cabeça (desculpem o trocadilho) dias depois de se ter visto o filme, como o infernauta pode conferir em primeira mão nas fotos abaixo.

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O que atrapalha, às vezes, é justamente a enorme simplicidade do roteiro. Parece que falta um objetivo à busca de Elisabeth, e por mais que ela queira chegar ao vinhedo para reencontrar o noivo, as preocupações de alguém na mesma situação deveriam ser bem diferentes (tentar chegar a um local civilizado para buscar a ajuda da polícia, por exemplo). Um dos pontos fracos do filme (ou altos, dependendo do tipo de espectador que você é) envolve a personagem da ninfomaníaca, que só está no filme porque é interpretada pela musa do diretor, Brigitte Lahaie – que Rollin já havia dirigido anos antes em cenas mais explícitas, se é que vocês me entendem… Pois com menos de cinco minutos em cena, a moça aparece com uns quatro figurinos diferentes (!!!), e isso magicamente, de um segundo para o outro. Pior: lá pelas tantas, ainda surge inexplicavelmente acompanhada por dois cachorros e com uma tocha numa das mãos, como Barbara Steele em A Máscara do Demônio, de Mario Bava. Acontece que Rollin dizia que Brigitte era a “suaBarbara Steele! Ah tá…

Pelo menos Brigitte protagoniza a obrigatória cena de nudez gratuita (embora desta vez com uma explicação lógica no contexto do roteiro), quando tira o vestido até os tornozelos para provar aos dois caçadores matutos que não tem no corpo (e que corpão!) nenhuma das feridas que denunciam os infectados. Mas nenhum destes detalhes estraga o filme, pelo contrário: são besteiras tradicionais para quem está acostumado com o cinema de Rollin, Jess Franco, Joe D’Amato e outros tarados acostumados a filmar sexo e violência sem muito olho para verossimilhança ou lógica.

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E como The Grapes of Death foi um razoável sucesso comercial no mercado internacional, Jean Rollin deixou mais um pouco de lado seus vampiros tarados para fazer outros dois filmes com mortos-vivos (completando uma trilogia, a exemplo de Romero). Como no caso da trilogia norte-americana, nenhum dos filmes têm relação entre si. O segundo da série foi o já citado e pavoroso Zombie Lake (no original, Le Lac Des Morts Vivants), de 1981. Gabriel Paixão já fez um esforço hercúleo para escrever um artigo sobre esta bomba, então não vou me deter aos detalhes, apenas citar que era para o filme ter sido dirigido por Jess Franco (!!!), mas até ele, acostumado a rodar todo tipo de porcarias, achou que ia dar merda e pulou fora, deixando a bomba para Rollin (que, envergonhado, assinou com o pseudônimo J.A. Laser).

Finalmente, Jean encerrou a primeira (e única) trilogia francesa de mortos-vivos com The Living Dead Girl (título original: La Morte Vivante), que é de 1982 e um pouco melhorzinho que Zombie Lake, mas bem pior que The Grapes of Death. O diferencial desta produção é que a tal morta-viva do título se alimenta de sangue, e não de carne humana, puxando mais para o vampirismo (fetiche de Rollin) do que para o “zumbisismo“. Ironicamente, nenhum deles foi produzido por Jean-Marc Ghanassia, que deve ter ficado cabreiro de trabalhar novamente com o diretor e preferiu fechar a conta da colaboração entre ambos com The Grapes of Death!

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Para quem gosta de curiosidades de bastidores, vale destacar que a bela Marie-Georges Pascal, que interpreta a “heroína” Elisabeth, fez mais alguns filmes de pouca ou nenhuma expressão, normalmente em papel secundário, até que, em 1985, deu um fim à carreira e à própria vida, cometendo suicídio em Paris. Tinha apenas 39 anos.

A estrelinha pornô Brigitte Lahaie continuou fazendo sacanagem até a metade da década de 80, e depois começou a aparecer direto em filmes de suspense-horror, tornando-se protagonista de Faceless (dirigido por Jess Franco em 1987) e, mais recentemente, do horror francês Calvaire (dirigido por Fabrice Du Welz em 2004).

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Já Rollin, como dito anteriormente, faleceu aos 72 anos, na data em que este artigo é republicado no Boca do Inferno. Em seus últimos filmes, inclusive voltou ao seu tema preferido, o vampirismo, em La Fiancée de Dracula, de 2002. Tanto ele quanto seu irmão, Olivier Rollin, e o co-roteirista Jean-Pierre Bouyxou fazem pontas em The Grapes of Death como infectados.

Infelizmente, The Grapes of Death continua inédito no Brasil, onde não chegou às nossas videolocadoras, nem em VHS nem em DVD, embora há algum tempo tenha sido exibido pelo cineasta Carlos Reichenbach em suas antológicas Sessões do Comodoro. A bem da verdade, fazendo um esforço de memória agora, simplesmente não lembro de ter visto algum dos filmes de Rollin lançado comercialmente no país (talvez os pornôs dos anos 70-80), o que nem me surpreende. Agora, em tempos de Lei Seca, seria um bom momento para corrigir esta injustiça: o Governo Federal deveria exibir o filme do Rollin como alerta para os perigos do consumo excessivo do álcool!

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Já para os fãs de filmes de zumbis, especialmente aqueles que pensam que já viram de tudo no gênero, recomendo The Grapes of Death sem pensar duas vezes. De preferência, para conferir acompanhado de uma boa taça de vinho!

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga “Entrei em Pânico…”, entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

4 comentários em “The Grapes of Death (1978)

  • 22/04/2015 em 19:04
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    Tem um ar de filme italiano… Gosto das obras do Rollin, mas essa e o Living Dead girl são as obras máximas deles…

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  • 11/04/2014 em 13:16
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    Realmente, um ótimo filme de horror francês.
    Tudo aqui funciona perfeitamente, a fotografia, a direção, elenco, direção de arte, e principalmente, os efeitos especiais.
    A cena da decapitação é a minha favorita. Porque acontece do nada, sem você se prevenir.
    O melhor desse filme, é que a gente se esquece que é francês, ou seja, em vários momentos, pensamos que estamos assistindo a um filme italiano.
    Altamente recomendável.

    Resposta
  • 26/08/2013 em 13:02
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    Legal.
    Preciso ver esse filme!

    Resposta

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