Críticas

A Comunidade (2000)

Tudo é muito mais funcional na perspectiva da sutileza e da concepção de momentos cômicos, mas que são extremamente tensos e sufocantes.

A Comunidade (2000)

A Comunidade
Original:La comunidad
Ano:2000•País:Espanha
Direção:Álex de la Iglesia
Roteiro:Jorge Guerricaechevarría, Álex de la Iglesia
Produção:Andrés Vicente Gómez
Elenco:Carmen Maura, Eduardo Antuña, María Asquerino, Jesús Bonilla, Marta Fernández Muro, Paca Gabaldón, Ane Gabarain, Sancho Gracia, Enrique Villén

Em um dos melhores diálogos do ótimo O Novo Pesadelo (Wes Craven´s New Nightmare, 1994), Robert Englund, o eterno Freddy Krueger, explica para a atriz Heather Langenkamp que não teria nenhum problema em participar de uma comédia romântica ao lado dela, já que até um filme de amor pode ter uma ou duas decapitações. E verdade seja dita, Robert estava mais do que certo.

Existem alguns gêneros cinematográficos que podem ser comparados com gases nobres, aqueles que não se misturam com outros. E de todos os segmentos da sétima arte, as películas de terror são as que mais apresentam barreiras estéticas para possíveis uniões. Desta forma, fica difícil imaginar uma fusão de qualidade entre estilo e linguagem cinematográfica de comédias e romances com obras de terror.

Mas como para toda regra existem exceções, alguns cineastas conseguem misturar estilos e linguagens de gêneros bem opostos e criar resultados positivos. É o caso do filme espanhol A Comunidade (La Comunidad), do cineasta Álex de la Iglesia. A trama é uma deliciosa comédia com alguns elementos tipicamente comuns de filmes de suspense. Tudo embalado por um forte clima de tensão, humor negro e, como diria Robert Englund, algumas decapitações.

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O filme acompanha a corretora de imóveis Julia (Carmen Maura) em mais um dia de trabalho. Ela chega a um prédio antigo localizado no centro de Madrid para mostrar o local para possíveis interessados em comprá-lo. Apesar do edifício ser bastante decadente, o apartamento é muito bonito e bem mobiliado. Julia então decide chamar o marido e ambos passam a noite por lá mesmo.

Vai ser logo nessa primeira noite que Julia vai descobrir que o vizinho do apartamento de cima está morto há várias semanas. A sorte parecia sorrir para a corretora de imóveis quando ela também encontrou 300 milhões de pesetas escondidas na cozinha do defunto. O que mais ela poderia querer? Bastava colocar todo o dinheiro em uma mala para se tornar a mais nova milionária espanhola. Mas para isso, ela precisaria fazer apenas mais uma coisa: sair do prédio. Uma tarefa que os vizinhos vão fazer de tudo para impedir… de tudo mesmo.

MISSÃO IMPOSSIVEL

A Comunidade é descrito pelo Internet Movie Data Base como um filme de “comédia-crime-horror-mistério-thriller” e esta definição não poderia ser mais apropriada. Antes de qualquer coisa, estamos diante de uma comédia, embora o filme seja repleto de situações tão comuns ao gênero terror. No entanto, não vá esperando por um massacre entre os moradores ou sequências sanguinolentas. Em A Comunidade, tudo é muito mais funcional na perspectiva da sutileza e da concepção de momentos cômicos, mas que são, ao mesmo tempo, extremamente tensos e sufocantes.

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Álex de la Iglesia nos coloca quase como um companheiro de apartamento de Julia nas inúmeras tentativas dela em sair do prédio. Claro que nada é feito de forma explícita. Logo que chega, a nossa protagonista conhece os vizinhos. Estes são, a primeira vista, até simpáticos. Existe um certo clima de desconforto, já que Julia é uma nova moradora, enquanto alguns dos mais velhos nasceram naquele edifício.

A princípio, Julia acredita que os vizinhos apenas vão tentar segurá-la pelo braço. Mas os moradores do local são capazes de tudo, até de matarem, não importa quem seja. Mas não são apenas as mortes, com destaque para a do elevador, que fazem com que este filme agrade aos fãs do gênero terror.

É todo o clima de inquietação e claustrofobia que vai tomando conta de Julia no desenrolar da trama. A constante ideia inicial de que “algo estranho está acontecendo” é magistralmente bem conduzida pelo diretor. Nas primeiras cenas entre Julia e os vizinhos, é possível se lembrar dos filmes de suspense inglês das décadas de 1950 e 1960, nos quais as tramas mostram situações onde existe um esforço de um grupo para enganar uma pessoa, em uma série de ações previamente ensaiadas.

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Um dos momentos mais tensos do filme é quando, após uma das trágicas mortes, a polícia chega ao edifício e todos, que antes brigavam, agora agem como amigos com o objetivo de não levantarem suspeitas sobre o que realmente estaria acontecendo naquele prédio. A cena é uma das mais angustiantes para todos os personagens que procuram, cada um a sua forma, proteger o que lhes é de interesse. O resultado é cômico e tenso ao mesmo tempo.

VÁRIOS GATOS E UMA RATA

Mas não vai demorar muito para Julia entender que o grupo vai utilizar todas as armas possíveis para colocar as mãos nos 300 milhões de pesetas. É nesse momento que passamos a acompanhar uma verdadeira caça de gato e rato. Na verdade de vários gatos contra uma única rata. E será justamente quando esse jogo direto começar que a trama vai fluir, de forma quase orgânica, entre o humor e o horror. As situações são claramente pertencentes a ambos os gêneros, mas funcionam como uma peça única dentro desta proposta.

Os moradores do prédio são muito bem concebidos e ajudam a criar um ambiente que passa longe da normalidade. Basta dizer que até o vilão especial Darth Vader é um dos vizinhos de Julia. Os demais habitantes dividem-se em mulheres mal cuidadas e seus maridos com subempregos. Destaque para uma velha chamada Ramona (Terele Pávez) capaz de colocar medo até na Sra Voorhees. Aliás, quando você achar que o filme não tem mais como te surpreender, não vai acreditar no que esta senhora é capaz de fazer.

Mas o melhor de todos os personagens é o próprio prédio. Velho e mal-cuidado, a construção é semelhante ao decadente edifício que vimos em REC, com um pátio principal e corredores sujos. Visivelmente precisando de uma reforma, a construção é repleta de problemas, como o elevador que vive quebrando. A utilização deste espaço é muito bem aproveitada pois, com exceção de algumas cenas do começo e do final do filme, toda a ação acontece naquele interior. Além do mais, o clima de claustrofobia vai se intensificar perto da conclusão da trama quando os corredores vão parecer pequenos demais para tantos personagens juntos.

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E o final de A Comunidade é mais uma agradável surpresa nessa produção espanhola. Na verdade, fazer qualquer crítica desta conclusão seria como estragar a mesma, mas vale o comentário de que o diretor realmente conseguiu criar uma obra baseada na ideia de que “tudo pode acontecer” no fim. E ele nos faz acreditar nisso.

Talvez a única questão negativa de A Comunidade seja referente a sua fraca divulgação no cenário nacional. Tanto que muitas pessoas simplesmente desconhecem a obra, o que é um grande desperdício de mais um bom filme do mercado europeu. Fica então aqui a dica para procurar por esta pérola espanhola que vai fazer você rir e ficar tenso ao mesmo tempo. E na melhor das hipóteses, você pode até encontrar algumas semelhanças entre os moradores do prédio de Julia e os do seu próprio edifício.

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2 Comentários

  1. se nao me engano esse diretor q fez o dia da besta.. sem comentarios mto fodss

  2. vanessa vasconcelos

    agora fiquei doida pra ver isso.

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