Críticas, Entrevistas

A Curtição do Avacalho (2006)

É o típico filme poderoso, criativo, autoral, único, daqueles que você nunca mais vai ver igual na vida – para o bem ou para o mal!

A Curtição do Avacalho (2006)

A Curtição do Avacalho
Original:A Curtição do Avacalho
Ano:2006•País:Brasil
Direção:Petter Baiestorf
Roteiro:Petter Baiestorf
Produção:Elio Copini
Elenco:Elio Copini, Kika, Everson Schütz, Coffin Souza, Carli Bortolanza, Ivan Pohl, Petter Baiestorf, Jovane Benedetti

Não existe uma forma de descrever A Curtição do Avacalho, a doideira trash (odeio este termo, mas acho que ele cai como uma luva no caso em questão) dirigida (ou não, hahahaha) pelo maluco catarinense Petter Baiestorf. Se você nunca ouviu falar de Petter Baiestorf, é porque morou na Lua nos últimos 15 anos. Perdido numa cidadela de 17 mil habitantes chamada Palmitos, em Santa Catarina, o sujeito faz filmes amadores de horror, gore, experimentalismo e mulher pelada desde o começo dos anos 90. Sua prolífica filmografia inclui curtas, médias e longas-metragens, tudo filmado bagaceiramente e editado idem (a maioria sem auxílio do computador).

A filmografia de Petter Baiestorf inclui preciosidades como Criaturas Hediondas (seu primeiro filme), sobre uma sangrenta invasão marciana à Terra – e que teve até continuação -; O Monstro Legume do Espaço – que tornou-se um sucesso na época do Cine Trash, quando cinema mal-feito virou moda e os bundinhas da classe média alta correram desesperados atrás de um filme trash de estimação -; e Zombio, uma homenagem tupiniquim ao clássico Zombie, de Lucio Fulci.

Todos os filmes do catarinense destacam-se por alguns detalhes bem específicos: a filmagem rústica, normalmente tremida ou mal-iluminada; a edição que vai de regular a ruim; o elenco formado por amigos e amigas, sendo que estas últimas não raras vezes tiram a roupa; críticas ferozes às “sagradas instituições“, Estado, Igreja e Família; orçamento zero e um sentimento de “quanto pior, melhor“. Petter nunca se preocupou em filmar direitinho e já declarou várias vezes que não tem a pretensão de fazer seus filmes melhores. A graça, segundo ele, é fazer mal-feito. Para usar um clichê mais do que desgastado, seus filmes são feios, sujos e malvados. E assim é A Curtição do Avacalho, provavelmente a obra mais bizarra num universo de produções bizarras. Este novo filme, que desta vez foi editado no computador (por Gurcius Gewdner, da Bulhorgia Produções) e ficou com uma “apresentação” melhorzinha, pula brilhantemente de um gênero a outro (o que é terror trash de repente vira making-of da própria produção ou folheto de propaganda subversiva), e promete enlouquecer os espectadores mais tradicionais, que esperam histórias com começo, meio e fim.

Se Petter Baiestorf fosse Zé do Caixão, A Curtição do Avacalho seria seu Delírios de um Anormal: uma sequência de cenas desconexas, algumas perturbadoras, outras perdidas no meio das outras sem muita razão de existir, mas todas capazes de chocar o espectador de alguma forma, positiva ou negativamente. E o diretor considera esta sua nova obra justamente uma homenagem ao cinema marginal brasileiro dos anos 60 e 70 (chamado “cinema udigrudi“, uma corruptela em português do termo em inglês “underground“). No caso, Petter Baiestorf homenageia clássicos alucinados como Matou a Família e Foi ao Cinema, de Júlio Bressane (por favor, não confunda com o remake dirigido por Neville D’Almeida, com o Alexandre Frota e a Cláudia Raia), e O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla – só para citar os filmes mais conhecidos -, tirando deles o estilo fragmentado, caótico, autoral e experimental de filmar e editar. Polivalente, o catarinense assina a direção, a produção, o roteiro, a fotografia e a seleção musical.

Para o espectador ter uma ideia da doideira, A Curtição do Avacalho começa com supercloses de uma churrasqueira cheia de carvão em brasa – o que não poderia faltar numa produção filmada na região sul do Brasil – e de um churrasco no espeto, praticamente carbonizado de tão tostado. Com uma cuia de chimarrão numa mão e o roteiro na outra, Coffin Souza, vestido como gaúcho aveadado, destila frases subversivas durante 1min20s. Isso não tem absolutamente nada a ver com a “trama principal“. Ironicamente, no final do filme, o personagem reaparece e comenta, aliviado: “Achei que esse filme não ia terminar nunca!“. hahahaha. Do gaudério o filme corta para o padre Carcass (Elio Copini), parado no meio de um galinheiro e cercado por galinhas. “Canibais em pleno século 21?“, questiona ele em voz alta, citando a produtora de Petter Baiestorf (chamada Canibal Filmes), e de certa forma sintetizando a ironia de a equipe mambembe ainda estar fazendo filmes com orçamento mínimo e de forma tão improvisada. Em seguida, o sacerdote começa uma interminável sessão de gargalhadas satânicas, e entram os créditos iniciais, entremeando fotos dos bastidores da produção.

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Somos então apresentados ao nosso personagem principal, ou quase isso: o castelhano Juanito, que é apenas Coffin Souza em um novo papel, falando com um pavoroso sotaque castelhano. O sujeito, sem mais nem menos, resolve subir numa cadeira e bater com o facão na parede da sua casa, tentando “matar” as vozes que lhe incomodam (!!!). Detalhe: em uma mão ele segura o facão, e na outra uma torta de creme! Num acidente bizarro, Juanito cai da cadeira e leva uma tortada na cara. Já o facão, como nos desenhos animados, demora uma eternidade para cair, e quando atinge o solo acaba decepando uma das mãos do pobre castelhano. Ele levanta o braço cortado e, neste momento, vemos a mangueirinha de onde esguicha o sangue do toco da mão cortada – e isso é proposital, já que Petter Baiestorf está literalmente brincando com o universo do cinema amador.

Outros personagens são rapidamente apresentados, como um casal que namora nas proximidades. Sardu, o cara (interpretado por Everson Schütz), veste uma camisa do Grêmio, e a moça, Bela (interpretada por Kika), é uma ninfetinha peituda de aparelho nos dentes. Eles caminham até um matagal próximo, onde o rapaz tenta convencer a moça a transar usando um argumento no mínimo curioso: “Você sabe que o mundo está acabando mesmo…“. hahahaha. Ela se rende e começa a fazer um boquete no namorado – um boquete implícito, é claro, e Petter Baiestorf, no cúmulo da cara-de-pau, corta para um take em close da atriz chupando um picolé!!! hahahahaha. Enquanto isso, perto dali, o padre Carcass (aquele que estava no galinheiro, lembra?) chega à casa de Juanito, que está enfaixando a mão decepada. Os dois conversam rapidamente, descobrimos que Juan é chamado, pelos moradores da região, de “Santeria“, e o sacerdote lembra que ele deve começar sua missão sagrada. “Se eu cumprir minha missão, vou ao céu?“, pergunta Juanito/Santeria, com seu horrível sotaque castelhano. “Não, se cumprir sua missão, o paraíso virá a você!“, responde o padre.

Nós logo descobrimos qual é a “missão sagrada” do sujeito: minutos depois, Juanito aparece no local onde Sardu e Bela estão transando, com uma prótese mecânica (hahaha, espere só para ver) no lugar da mão cortada e vestindo uma máscara, tipo os assassinos dos batidos slasher movies americanos. Com uma lança acoplada à prótese na mão decepada, Juanito apunhala o rapaz, que cai ensanguentado. A moça grita e corre na chuva. Vemos takes com a prótese do vilão em primeiro plano, como se estivéssemos numa obra de Dario Argento. E logo, numa cena engraçada, o vilão avança em direção à câmera, que enquadra parte do guarda-chuva que cobre a lente! Começa uma longa perseguição no estilo dos filmes de horror, até que Juanito agarra Bela. Quando vai matá-la, surge o padre Carcass, que o impede: “Ela é uma cadela pecadora, mas lembre-se de nossa missão sagrada! O tempo dos camponeses rezarem a Ave-Maria está de volta!“, grita o sacerdote. Genial.

O padre então levanta uma bazuca (!!!), feita com dois canos de alumínio soldados um em cima do outro, e que surgiu literalmente do nada; com a arma, dispara um raio na “pecadora” amarrada. O mais engraçado é que não vemos raio algum, e o efeito sonoro, “bzzzz“, é feito pelo próprio ator com a Boca do Inferno!!! hahahaha. Atingida pelo “raio invisível” (hahaha), a garota se debate amarrada pelos braços e começa, literalmente, a derreter. A cena é grotesca, como todas as cenas de gore nos filmes de Petter Baiestorf. Para começar, é filmada em longos, intermináveis e repetidos takes (leva uns 3 minutos para o derretimento total da atriz), intercalados com closes de Souza lambendo os beiços e do padre comendo um figo (!!!). Enquanto isso, a atriz se debate com o rosto se liquefazendo, uma massa (que parece massa de pão) escorrendo pelas mãos e pela cara da garota, misturada com sangue falso. A cena termina mostrando que sobraram apenas um crânio carcomido e um braço pendurado numa das cordas.

E o namorado de camisa do Grêmio atingido por Juanito, lembra? Pois é, o cara não morreu e se levanta (quando o enquadramento deixa aparecer o microfone, também propositalmente), indo em busca da sua namorada tarada, que a estas alturas já está derretida. A dupla de vilões recolhe uma amostra da carne dissolvida quando Sardu aparece e se desespera com a cena. Sem titubear, o padre Carcass levanta novamente sua bazuca de raios invisíveis e dispara mais uma vez – “bzzzzzzz”. hahahaha. Dessa vez, entretanto, o tiro pega de raspão, na orelha do sujeito. E é a partir dessa cena que A Curtição do Avacalho deixa de lado o universo ficcional, e a tentativa de contar uma história redondinha, e passa a ser uma brincadeira com o universo do cinema amador em si. Isso porque, no take seguinte, o padre Carcass e Juanito estão olhando as páginas do roteiro do filme (!!!), de onde lêem suas falas!

A partir de então, aos 23 minutos de duração, tudo vira uma doideira sem pé nem cabeça. Começa, por exemplo, uma trama secundária onde dois caras pretendem explodir uma revolução – neste caso, uma revolução de duas pessoas contra o mundo! Um deles, totalmente pelado (Carli Bortolanza, que encara até umas cenas de nudez frontal), pinta uma bandeira com tinta guache. O outro (Ivan Pohl), que usa chapéu e uma máscara ridícula – daquelas com óculos, nariz e bigodão falso -, declara diretamente para a câmera. “Assim, com nossa bandeira em punho, podemos reunir nosso exército revolucionário a favor dos ateus. E da mesma maneira que estou tomando este café, tomaremos o poder!“. hahahaha. Pohl, que tem quatro papéis no filme (!!!), é considerado um ator-fetiche do diretor Petter Baiestorf – que chega a compará-lo ao ator malucão Klaus Kinski.

E o filme segue degringolando: mortos-vivos (“interpretados” por Schütz, Pohl, Camila, Sil e Jovane Benedetti) invadem o cenário, caminhando cambaleantes, enquanto um cientista louco e seminu (Ivan Pohl novamente), que vive num castelo (desenhado no PaintBrush!!!), conversa com uma cabeça decepada (cuja voz é de Coffin Souza), desfilando diálogos sem sentido, que em determinado momento se misturam à ação do filme. O “exército de dois homens sós” se vê às voltas com os inexplicáveis zumbis, que são rapidamente exterminados com faconaços e pauladas. Numa cena, os humanos decepam a cabeça de uma das mortas-vivas, e a atriz que interpreta a zumbi ri de forma escancarada enquanto olha para a câmera! Bem no meio do ataque (nunca justificado) dos zumbis, o cara com camisa do Grêmio, cuja orelha já escorreu da cabeça, é definitivamente derretido pelo padre Carcass. A partir deste momento em diante, qualquer tentativa de tentar assimilar a história ou o roteiro vai literalmente para as cucuias. Tudo se transforma numa brincadeira de bastidores, aparecendo em cena até o próprio Petter Baiestorf, como se alguém estivesse filmando o diretor enquanto ele faz o filme! Enfim, um toque bizarro e muito criativo de metalinguagem (filme dentro do filme), que, se fosse feito nos Estados Unidos ou na Europa, provavelmente seria consagrado como obra de gênio.

Enquanto o gremista se debate derretendo, por exemplo, aparece a equipe filmando a cena toda. Petter Baiestorf, com a câmera no ombro, grita suas orientações malucas para o ator que derrete, e seu forte sotaque catarinense torna tudo muito mais engraçado: “Tu tá com dor! Schütz, isso te queima de dentro pra fora, é pior que dar o cu e não estar curtindo. E tu, Élio, tu tá olhando e tá se divertindo. Vai lá, gargalhadas de dominar o mundo!!!“. A cena rola, alguém da equipe joga a meleca no rosto do ator para simular o derretimento, Petter Baiestorf filma, Elio ri. Insatisfeito com a “atuação” do derretido, o diretor grita: “Sofre, infeliz, sofre!!!“, ao que Schütz responde: “Vai pra puta que pariu!“. É quando o próprio Petter dispara uma das melhores frases do filme todo (e uma das maiores verdades que eu já ouvi na vida): “Puta que o pariu? Quem faz cinema sem dinheiro tem mais é que ir pra puta que o pariu mesmo!!!“.

E daí em diante não tem mais como tentar definir A Curtição do Avacalho. Se existia um roteiro até então, a partir deste ponto ele desaparece. Personagens de alguns segmentos (como Juanito e o padre Carcass) “invadem” as situações alheias e se encontram frente a frente com os dois revolucionários e com o cientista louco, aquele que conversava com a cabeça decepada. De uma hora para a outra, o padre e o cientista resolvem fazer um clone de Jesus Cristo, usando DNA do “Messias” e a carne derretida do casal de pecadores; também de uma hora para a outra, a “múmia de Cristo” cria vida, escapa do laboratório (na verdade uma oficina mecânica) e passa a perambular com trejeitos efeminados. A balbúrdia termina não com uma conclusão onde possamos ver o destino dos personagens da meia hora inicial, mas sim com mais cenas dos bastidores das filmagens, os atores brigando com o diretor, reclamando que não querem mais fazer o filme, etc etc. E Petter Baiestorf, na conclusão, dirigindo um cortejo fúnebre onde sepulta o próprio cinema – o convencional e acéfalo cinema comercial, neste caso.

A falta de história é compensada com imagens ora fortes, ora gratuitas – bobas, até. Milhares de frases poderiam ser escritas só para tentar justificar a cena em que Juanito, após um combate com um dos revolucionários do exército de dois, toma um tiro no peito e arranca, do ferimento, fita magnética de VHS (!!!), enquanto choraminga: “Mi vida es una farsa, una mentira! Jo soy una invencion!“. Da mesma forma, ao abrir um buraco no próprio peito à faca, o padre Carcass faz sair uma chuva de moedas, num disparo certeiro contra a cobiça e a avareza da Igreja Católica. Entre os momentos bizarros e inexplicáveis, a cena em que Elio, despido do personagem do padre após uma “briga” com a equipe, fica brincando com a gema de um ovo, que passa de uma mão para a outra num take interminável. E os discursos anti-Estado de Petter Baiestorf, que não poucas vezes invade a cena, deixando seu lugar atrás da câmera, para declamar textos como “Todo governo é indesejável e desnecessário!“.

Não bastasse toda esta balbúrdia, o filme ainda é permeado de citações e mensagens subliminares. Enquanto os personagens perambulam pelo cenário, por exemplo, aparecem cartazes com frases como “Experimente a diferença“. Durante a projeção, em takes de milésimo de segundo, foram inseridos textos e imagens pornográficas e anti-católicas, que só podem ser vistas passando o filme quadro a quadro. É por isso que a capinha do DVD já alerta: “As mensagens subliminares não estão aqui por acaso“.

Enfim, A Curtição do Avacalho são 73 minutos de total desconstrução dessa coisa chamada cinema. Tirando o padre, que realmente tem figurino de padre, os outros atores circulam com roupas normais, e nós é que temos que imaginá-los como personagens de um filme – caso, por exemplo, do cientista louco, que ao invés do tradicional jaleco veste apenas um calçãozinho. Esta desconstrução chega a um ponto em que os próprios monstros do filme tiram suas máscaras, exibindo para a câmera que existem atores, pessoas de carne e osso, por baixo da vestimenta de monstro, acabando com a magia cinematográfica que leva o espectador a encará-los como múmias e zumbis verdadeiros!

Por isso, e por mais uma série de coisas, torna-se difícil analisar a nova obra de Petter Baiestorf como um filme “normal“. Os “atores“, se é que podemos chamar assim os amadores e amigos do diretor que tentam interpretar, não estão atuando, mas sim participando de um projeto pessoalíssimo do cineasta. O melhor em cena é Elio Copini, que consegue transformar seu padre Carcass numa figura exagerada e vilanesca – pelo menos no curto espaço de tempo em que há uma história para contar. Os demais se limitam a improvisar ou falar seus diálogos decorados, sem presenças memoráveis em cena. Pohl, como o cientista, me deixou com os nervos em frangalhos na longa cena em que começa a imitar, berrando, sons de animais!!! hahahaha

Também não há um cuidado com os cenários: todo o filme foi rodado num sítio e numa garagem; os carros da equipe aparecem o tempo todo no fundo dos takes, assim como os próprios integrantes da equipe técnica e o equipamento de iluminação. Há um descaso total com estes aspectos (figurino, cenário…), mas tudo é proposital, dentro da brincadeira cinematográfica de Petter Baiestorf. Mesmo assim, assumindo-se que tudo é uma brincadeira, um escárnio e uma avacalhação (como o próprio nome já diz), em alguns momentos a loucura cansa. Não consegui ver o filme numa tocada só, mas sim em três etapas. Talvez o meu cérebro esteja muito acostumado a assimilar produções com começo, meio e fim. Aliás, é bom deixar claro que espectadores convencionais, acostumados à clicheria reinante do cinema americano, devem passar longe de A Curtição do Avacalho. Petter Baiestorf, neste momento, deve estar se mijando de rir da minha tentativa de tentar analisar sua obra como um filme convencional – aliás, a história termina justamente com o cineasta e parte da sua equipe olhando para a câmera e rindo alucinadamente!!!

Há muitos anos, o jornalista e cineasta Carlos Reichenbach escreveu uma crítica soberba para o igualmente soberbo O Despertar da Besta, de José Mojica Marins. Vou tomar emprestada uma frase do Reichenbach para descrever a experiência de assistir A Curtição do Avacalho: “Ou faremos filmes mais corajosos, ou abandonemos definitivamente o cinema! (…) Os gênios, virando bestas, hão de comer capim depois de assisti-lo“. Embora eu não tenha gostado de algumas coisas no filme de Petter Baiestorf (como os longos takes finais dos monstros perambulando pelo campo e os igualmente longos takes de um pênis em close por mais de um minuto, enquanto a única mulher em cena nunca tira a roupa!!!), é inegável a ambição e a criatividade do diretor, que em determinada cena, em frente à câmera, chega a comer DVDs de filmes gringos, como Minority Report e O Pequeno Stuart Little, enquanto se justifica: “Já que isso não mata minha fome por cultura, que mate minha fome por comida!”.

Ficou interessado? Quer comprar o DVD de A Curtição do Avacalho? Além da preciosidade que é o filme em si, o disquinho tem uma capinha super-ultra bacana (parece até “filme profissional“), e vem com um montão de extras (coisa que a maioria dos DVDs nacionais do gênero não tem). Entre eles, galeria de fotos com trocentas imagens de bastidores, cenas deletadas, trailer de produções independentes (não só dos filmes de Petter Baiestorf, mas também de outros realizadores…) e, a cereja do bolo, o documentário Petter Baiestorf: Filmes de Sangueira e Mulher Pelada, dirigido por Christian Caselli, que em vinte e poucos minutos desnuda o processo criativo do cineasta catarinense e de sua carreira que já chega aos 100 filmes independentes. Muito divertido e informativo, já vale o DVD por si só. O preço é popular (R$ 20,00) e o contato pode ser feito com o próprio Petter, pelo e-mail Petter Baiestorf@yahoo.com.br (aproveita e pede um autógrafo pra ele, ô mané!)

A Curtição do Avacalho é o típico filme poderoso (ou seria “foderoso“?), criativo, autoral, único, daqueles que você nunca mais vai ver igual na vida – para o bem ou para o mal. E ainda tem o mérito de representar com fidelidade, tal qual um Ed Wood tupiniquim, sem dinheiro e sem Tim Burton e Johnny Depp, como é fazer cinema independente no Brasil, por pura paixão e idealismo. “Não ter condições de se fazer o que se quer não é desculpa para não se fazer o que se quer!“, diz o cineasta amador, na cena em que os atores começam a abandonar o set. Amém, Petter! Seu filme é a maior prova da veracidade dessa afirmação!

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1 Comentário

  1. esse fime fenomenos paranormal 2 acomteçeu realmente esse hospital existe ??

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