A Curtição do Avacalho (2006)

“O filme foi feito para pessoas inteligentes!”

Apesar de seus filmes serem extremamente sacanas, sangrentos e sádicos (sim, três “S”s), Petter Baiestorf é um sujeito gente fina, que entende tudo de cinema (especialmente de cinema não-convencional). Se você falar com o cineasta catarinense, por e-mail ou no Facebook do cara, nem vai imaginar que ele é o responsável por obras dementes como Eles Comem Sua Carne e Boi Bom. Não vou perder meu tempo fazendo uma biografia dele, pois a internet serve para isso (procurem no Google). Mas, “por trás do mito” (hahahaha), Petter Baiestorf é um cara simpático e super-acessível, como vocês podem conferir nesta “pseudo-entrevista” que fiz por e-mail com o diretor de A Curtição do Avacalho. Foi uma tentativa de elucidar algumas coisas sobre esta enigmático novo filme do Petter, e vocês poderão perceber que ele não só entende de cinema, como é um cara inteligente mesmo. Confiram a entrevista e comprem A Curtição do Avacalho logo em seguida!

A Curtição do Avacalho (2006) (1)

Boca do Inferno: Como nasceu A Curtição do Avacalho? A capinha diz que passou de remake do Incredible Melting Man (lançado no Brasil como O Incrível Homem que Derreteu) para um trash chamado Meleca, e no processo Avacalhou-se tudo. E por que sua opção por um filme tão fragmentado e experimental ao invés de uma história mais convencional?

Petter Baiestorf: Olha só, eu e o [Coffin] Souza até que tínhamos escrito uma versão sacana do Melting Man, mas pouco antes das filmagens eu resolvi produzir um filme 100% da Canibal Filmes, por isso desconstruí a ideia central do filme americano pra algo nosso, ou seja, o deboche avacalhado de sempre da Canibal. Eu, como realizador e cinéfilo, adoro filmes fragmentados, sou colecionador de filmes experimentais, um estudioso do assunto. Tava dando seqüência às nossas teorias apresentadas no livro “Manifesto Canibal” (2004, ed. Achiamé), tanto que os verdadeiros fãs da produtora estão adorando, já que o A Curtição do Avacalho atesta nossas teorias e dá seqüência a experiências que fizemos em médias-metragens como Não Há Encenação Hoje e Palhaço Triste. Claro que alguém acostumado com cinemão americano ou europeu vai odiar isso e não entender nada, porque vai lhe faltar referências a clássicos obscuros do cinema experimental (e aqui estou falando de filmes feitos por caras como Jack Smith, George Kuchar, Tony Conrad, Ken Jacobs, Shuji Terayama e Ron Rice). A Curtição do Avacalho já está programado para ser exibido em várias mostras Independentes de cinema-vídeo experimental e outros locais onde se celebra as produções diferentes daquelas feitas ao grande público. Tudo que é pop é burro…

Boca do Inferno: Quanto do filme foi improvisado pelos atores? Aqueles diálogos do “cientista” com a cabeça decepada, soa tudo como improviso puro e simples…

Petter Baiestorf: Falando especificamente do Ivan Pohl, que é o ator que interpreta o Cientista, todas as falas dele sempre são improvisadas porque ele é melhor assim, ele soa mais natural, é o meu Klaus Kinski, hahhehe… Essa cena da cabeça decepada conversando com o cientista a gente filmou às quatro da manhã pós uma noitada de filmagens. A principio filmamos para colocar nos extras do DVD, mas quando eu estava editando o filme, com o Gurcius Gewdner, a gente percebeu que aquele diálogo encaixaria de maneira soberba na estrutura narrativa do filme, e resolvi coloca-lo. É um momento que diverte bastante quem está assistindo pelo nonsense total que é o Ivan Pohl. Acho que é impossível eu me manter fiel a um roteiro, acho que um filme está sempre em processo de criação, até que não esteja totalmente editado tudo pode acontecer, as possibilidade são infinitas demais pra ficar preso a fórmulas.

Boca do Inferno: Alguns atores têm mais de um papel?

Petter Baiestorf: Impressão sua, cada papel é feito por um ator diferente. Somente o Ivan Pohl que aparece em quatro papéis: além do cientista, ele também interpreta o revolucionário, Jesus Cristo zumbi e o diretor de fotografia da equipe de filmagem que aparece. Ivan Pohl é genial, este filme não seria o que é sem o Pohl nesses papéis.

Boca do Inferno: Sua opção de aparecer várias vezes no filme foi uma brincadeira de metalinguagem ou “acidente“?

Petter Baiestorf: Bem, não existem acidentes nesse filme. Não sei se tu percebeu, mas a equipe de filmagens é parte da narrativa do filme, eles estão ali para discutir a possibilidade de se fazer cinema no Brasil. Na verdade a equipe de filmagem é mais importante que o filme em si, já que o filme acaba sendo apenas um produto pronto para ser consumido. A equipe de filmagem trabalhado neste sistema de “camaradagem” e vontade de fazer cinema é o que move a verdadeira razão de existência do filme, entende? Sem a equipe de filmagem ele não seria assim avacalhado, porque perderia a sua essência. Uma coisa que tu nunca vai ver nos meus filmes é tudo explicadinho, mastigadinho… Bem, na hora que eu resolver ganhar grana com os filmes, talvez eu faça tudo bem explicadinho, hehehehe…

Boca do Inferno: Como você definiria A Curtição do Avacalho?

Petter Baiestorf: Como diria o crítico e cineasta Jairo Ferreira, é cinema de invenção. Consegui atingir meus objetivos com este longa e está sendo gratificante a quantidade de comentários positivos que temos recebido com ele, muita gente que está vendo tem entendido a crítica que colocamos em discussão e compartilham de nossa visão.

Boca do Inferno: É verdade que é o filme que você mais se divertiu fazendo?

Petter Baiestorf: Sim, este é o filme que mais me diverti filmando, com ele eu consegui fazer o que tentei no Suoer Chacrinha e Seu Amigo Ultra-shit em Crise Versus Deus e o Diabo na Terra de Glauber Rocha, e não tinha conseguido.

Boca do Inferno: Você acha que seu público mais fanático por gore incessante vai curtir o Avacalho?

Petter Baiestorf: Quanto ao público, como já falei antes, o público habitual da Canibal Filmes está adorando, e com essa produção era isso que me interessava. O pessoal que gosta de gore burro não vai curtir, recomendo que não comprem este filme. A Curtição do Avacalho foi feito para pessoas inteligentes e que conheçam o cinema a fundo para pegar as inúmeras homenagens que colocamos na tela.

Boca do Inferno: Numa entrevista você disse que não gosta de filmar “direitinho“, o que me leva a pensar que vários erros do filme (sombras aparecendo, intermináveis cenas de derretimento com longos takes) são propositais. Ou não?

Petter Baiestorf: É, não gosto de filmar as coisas direito, não tô aqui pra imitar cineastas profissionais, sou apenas um cara rindo à toa, feliz com minha próprias limitações. Se um dia eu melhorar é um problema só meu, até lá vão ter que agüentar minhas drogas desse jeito desleixado mesmo. A vida é muito curta pra fazer tudo direito, hehehehe. Agora, acho que tu não entendeu o filme direito, essas sombras e tal que vão aparecendo no decorrer do filme são um aviso de que está sendo feito um filme, entende? A primeira coisa que aparece, já na primeira cena, é um flash de uma câmera fotográfica, depois tem a mangueirinha que espirra sangue na cena do cara que perde a mão e logo em seguida tem a cena que começa num cenário e depois de um close está terminando em outro cenário completamente diferente… Sabe, são brincadeiras com quem está assistindo o filme e aí, de repente, elas são parte da trama, com o surgimento, na narrativa, da equipe de filmagens. Bem, não vou ficar explicando as coisas numa entrevista. Como já falei antes, não gosto de dar tudo explicadinho. O pessoal que curte homenagens ao cinema vai encontrar homenagens e citações ao Argento, Dusan Makavejev, Emir Kusturica, Glauber Rocha, Tonacci, Candeias, Sganzerla, Bressane, Jodorowski, Phil Tucker, George Kuchar, Jack Smith, John Waters e muitos outros fazedores de filmes interessantes. Quem conhece cinema de todos os tipos está curtindo demais a produção. Infelizmente, é um filme para pessoas com uma vasta bagagem cinéfila, quem não tem o cinema como algo importante na vida não vai entender direito as coisas. Mas meu novo longa é linear e fácil de entender, é O Monstro Legume do Espaço 2, trashão engraçado como alguns filmes mais antigos meus, vai ser daqueles filmes pra ver num monte de gente bebendo cerveja e comendo pizza, ou seja, fast food, como o mundo atual.

(Visited 198 times, 1 visits today)
Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

Um comentário em “A Curtição do Avacalho (2006)

  • 12/04/2014 em 00:40
    Permalink

    esse fime fenomenos paranormal 2 acomteçeu realmente esse hospital existe ??

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien