Extrema Unção (2010)

Extrema Unção (2010)

Extrema Unção
Original:Extrema Unção
Ano:2010•País:Brasil
Direção:Felipe M. Guerra
Roteiro:Felipe M. Guerra
Produção:Eliseu Demari, Felipe M. Guerra, Rodrigo Guerra
Elenco:Rodrigo Guerra, Leandro Facchini, Oldina Cerutti Do Monte

por Camila Jardim

A Extrema Unção (ou Unção dos Enfermos) é o último sacramento que um Cristão recebe em vida: o perdão dos pecados quando está às portas da morte, para garantir sua entrada no Reino dos Céus. Antigamente acreditava-se que a alma do falecido ficaria eternamente vagando pelo limbo caso ele morresse sem receber a Extrema Unção.

Depois de escrever sobre A Saga Crepúsculo: Eclipse recebi outra missão não muito mais fácil: escrever sobre o curta Extrema Unção de Felipe M. Guerra, o autor mais amado e odiado do Boca do Inferno, e que também vem a ser meu amigo e ídolo. A tarefa se mostrou extremamente difícil já que Guerra deixou bem claro que era pra citar todos os pontos negativos e não puxar saco em momento algum. A seguir tentarei ser o mais imparcial possível! Vamos lá…

Felipe M. Guerra, como provavelmente todos vocês sabem, além de jornalista e escritor do Boca do Inferno, também é um cineasta independente que, com pouca grana e muita criatividade, cria filmes bagaceira regados de muito sangue e risadas. É considerado um dos novos cineastas independentes mais promissores no Brasil, pois o que falta em dinheiro compensa em talento.

Sempre apaixonado pelo trash e o horror, Guerra já gravou dez filmes, sendo quatro longas (Patrícia Genice, Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado e sua continuação, além de Canibais & Solidão) e seis curtas (A Noite da Punheta Assassina, Ponto de Ebulição, Mistério na Colônia, Extrema Unção, David Blyth’s Damn Laser Vampires e D.R.). Alguns dos títulos foram exibidos em festivais de cinema, onde o cineasta de Carlos Barbosa garantiu fãs fiéis e seguidores que sempre esperavam um terror mais sério do garoto de 30 anos.

Extrema Unção é um curta de 20 minutos, onde Felipe testou sua capacidade de causar medo e tensão em seus fãs acostumados com o humor de seus outros filmes. Sendo uma das primeiras a ver este trabalho pronto em sua primeira versão como parte de um Scream Test pude observar todo o talento desse cara, que, ao me mandar aumentar o som do PC, me fez tomar um grande susto durante a madrugada.

O curta começa com um texto explicativo (o mesmo do começo desta crítica), e uma senhora (Dona Oldina Cerutti do Monte) deitada na cama, rezando repetidamente enquanto segura seu terço. Sob a luz de velas a senhorinha morre sozinha em sua casa sem receber a benção para sua entrada no outro mundo. Assim que dá seu último suspiro a câmera vai ao chão onde o braço da senhora fica estendido com o terço e então começam os créditos.

Extrema Unção (2010) (2)

Esta cena da mão escorregando é muito engraçada. No calor do momento até esqueci-me de comentar com o criador desta pequena obra sobre isso, mas ao escrever me lembrei de ter rido bastante, porque a mão não cai simplesmente, é como se a senhora jogasse o braço pra fora da cama depois de morta. Intencional? Talvez. Engraçado? Certamente.

A trama é simples: um rapaz (Rodrigo M. Guerra) muda-se pra uma nova cidade a trabalho. O corretor de imóveis (Leandro Facchini) contratado logo mostra uma casa que custa a metade do que um apartamento boca de fumo. Impressionado com o valor, o rapaz pergunta ao corretor a razão deste preço, e lhe é informado que a senhora dona da casa veio a falecer há alguns dias, e como não recebeu a extrema unção, os próximos moradores relataram ter visto o espírito vagando pela casa.

Visivelmente sem acreditar em uma palavra, e pelo preço convidativo, o rapaz fecha contrato e se muda imediatamente para a casa assombrada. Como a velha não tinha parentes toda sua mobília foi alugada com o imóvel, o que deixa o rapaz meio cismado, pois boa parte dos objetos é de origem religiosa. É certo que você, leitor, já ficou cismado com algum quadro bizarro na casa da sua avó, fotos de Santos e estátuas – eu definitivamente não gosto de nada me olhando. Imagina uma Monalisa no seu quarto, te seguindo com aqueles olhos tristes? Deveras assustador por si só, Guerra explora este elemento, jogando na tela imagens perturbadoras o tempo todo.

Além desse monte de parafernália assustadora que eu provavelmente jogaria fora assim que colocasse o pé na casa, uma maldita boneca fica lá no sofá vendo televisão o filme todo. Confesso que além de palhaços, tenho certa aflição a bonecos e pessoas vestidas de bicho, ou seja, esta boneca endiabrada me deu calafrios. O inquilino também sente aversão durante o filme e cobre a cara da boneca que insistia em se descobrir. Só uma coisa: o que ela tava fazendo lá? A velha brincava de casinha? Papai e Mamãe? Ou apenas era doida mesmo?

Logo no primeiro dia de sua estadia, o rapaz sofre com algumas perturbações do espírito da senhora fantasma, como batidas na porta que fazem qualquer um cagar nas calças quando os ouve. Mas o inquilino não se convence, acha que o corretor o está sacaneando e continua como se nada tivesse acontecido. Ao longo dos próximos três dias, o rapaz sofre outros ataques do fantasma, e ainda sim custa a acreditar no que os olhos presenciam, até ser tarde demais.

Se o objetivo inicial de Guerra era obter êxito com um terror mais sério, ele conseguiu. O espectador mais desprevenido toma muitos sustos e fica tenso durante toda a exibição do filme. Inevitavelmente nesta altura, o humor ainda se faz presente, com diálogos hilários, e expressões faciais engraçadíssimas de Rodrigo M. Guerra (O inquilino e irmão de Felipe). Esta mistura foi certeira já que o curta é basicamente um monólogo do inquilino. O roteiro é quase todo improvisado o que gera alguns diálogos repetitivos, mas nada que incomode.

Extrema Unção foi filmado em uma tarde e uma noite, custando apenas 40 reais. Este preço ainda foi em razão das fitas que teve que comprar, pois seus atores são amigos e não recebem cachê; o figurino também não teve gastos e o cenário veio a ser a casa de sua avó.

Falando na avó de Guerra, Dona Oldina provavelmente não conhecerá muitos amigos dele depois deste filme, já que a senhorinha está assustadora com aquele algodão no nariz e voz de fantasma sofredora. E vale ressaltar que a avó de Guerra fez um excelente trabalho. A velha sempre que aparece dá um tremendo mal estar, com a voz do além e o andar característico dos espíritos.

Aliás, até agora bato a cabeça pra entender o porquê do algodão no nariz. Conversando com o diretor, ele explica que é pra salientar que esta é um cadáver. Mas se for assim, porque em espírito, ela esta com a camisola do momento de seu óbito? O algodão só veio a ser posto em seu nariz quando ela estava no caixão, então não faz sentido estar nela como fantasma. Logo concluo que a coitada foi enterrada com a mesma roupa com que morreu. Triste hein?

Bom, releituras não me incomodam, pelo contrário, gosto de ver temas antigos com características novas, até por que não me lembro de outros filmes de fantasma, onde os mesmos usavam algodão nas narinas. Este detalhe ajuda no quesito terror, pois sem isso a senhorinha seria apenas uma doida com voz sofrida.

Pedi pra uma amiga do escritório assistir comigo a conclusão foi: algumas risadas e diversos pulos da cadeira. Ela ressaltou que adorou o filme, sendo extremamente bem feito, mas que a sonoplastia incomodou e não agradou nada.

Creio que algumas músicas deram um toque bem sombrio a trama, mesmo que repetidas incontáveis vezes. Guerra fez uso de músicas clássicas para preencher a trilha em função dos direitos autorais, para não ter qualquer problema com isso.

Com um roteiro simples e um orçamento quase inexistente, o final ficou aberto a um milhão de interpretações e porquês, mas ainda é tenso e faz muita gente soltar um grito de pavor nos últimos minutos.

Com uma trama simples Extrema Unção não falha no que se propõe e ainda marca a escalada de Felipe M. Guerra ao mundo do terror mais sério. Deixando de lado o sangue, as armas e as piadas mais extremas, este terceiro curta metragem do diretor é uma ótima pedida pra quem quer diversão rápida e garantida. Por essas e outras, mesmo não querendo puxar o saco, é impossível não dizer que sou fã do Felipe. E agora só nos resta torcer para que enxerguem este talentoso diretor e invistam em seu trabalho.

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Autor Convidado

Autor Convidado

Um infernauta com talentos sobrenaturais convidado a ter seu texto publicado no Boca do Inferno!

Um comentário em “Extrema Unção (2010)

  • 04/12/2014 em 01:20
    Permalink

    Olha, eu gostei do curta, gostei sim, tem uma premissa boa, realmente ser observado por imagens é algo perturbador, quando sozinho.
    Só acho que o espirito da velha podia ter sido maquiado um pouco , tipo uma palidez e tal, pra dar mais um ar sombrio.
    Mas eu curti, parabéns ao idealizador!

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