Jack Frost (1997)

Jack Frost (1997)
Um assassino frio…de verdade!
Jack Frost
Original:Jack Frost
Ano:1997•País:EUA
Direção:Michael Cooney
Roteiro:Michael Cooney, Jeremy Paige
Produção:Jeremy Paige, Vicki Slotnick
Elenco:Scott MacDonald, Christopher Allport, Stephen Mendel, F. William Parker, Eileen Seeley, Rob LaBelle, Zack Eginton, Kelly Jean Peters, Brian Leckner, Shannon Elizabeth, Paul Keith

O cinema de horror já nos apresentou a todo tipo de vilão, de geladeiras diabólicas a piranhas voadoras e camisinhas assassinas. Mas… Barbaridade!… Um boneco de neve assassino? O que será que os roteiristas e diretores de filmes classe B andam fumando? E é justamente esta a grande sacada de Jack Frost, um pequeno filme independente norte-americano de 1997: seus realizadores criaram um monstro assassino que é tão absurdo e imbecil que não tinha como levarem a proposta a sério, preferindo transformar o conceito numa bobagem divertida na linha de Palhaços Assassinos e Hollywood Chainsaw Hookers (no Brasil, O Massacre da Serra Elétrica 3 – O Massacre Final).

Jack Frost é uma daquelas coisas indicadas principalmente aos iniciados em cinema tosco e sem-noção. Neste caso específico, é preciso estar plenamente consciente do tipo de filme que vai ser visto, e de que não se deve levá-lo a sério em momento algum – se é que alguém conseguiria levar a sério um filme sobre um boneco de neve assassino! Não espere tampouco um filme assustador, pois o vilão provoca mais gargalhadas do que arrepios – mesmo sendo um monstro de gelo!

Não há registros sobre o orçamento do filme, mas basta assisti-lo para perceber que não deve ter custado quase nada. Pelo menos a produção é bem criativa, usando diferentes artifícios para conseguir narrar a história contornando a mais do que evidente falta de recursos.

Logo no início, por exemplo, escutamos o diálogo off-camera entre dois personagens fora do quadro da câmera (que, por sua vez, passeia pela decoração de uma árvore de Natal, exibindo os nomes dos atores e equipe técnica do filme nas bolinhas que enfeitam o pinheirinho).

Nesse diálogo em off, um personagem não-identificado conta a uma pobre criancinha a história do assassino Jack Frost. Para o horror da criança, o narrador explica que Frost era um serial killer sádico que adorava furar olhos e cortar dedos, além de cozinhar tortas com pedaços das suas vítimas (!!!).

O matador deixou um rastro de mortes por diferentes cidades até ser finalmente preso, quase que por acaso, e então condenado à morte na cadeira elétrica. A execução aconteceria naquele exato momento, à meia-noite. O filme então corta diretamente para o transporte do serial killer Frost (que, em sua forma humana é interpretado por Scott MacDonald) para a execução.

Jack Frost (1997) (2)

No caminho, em meio a uma terrível tempestade de neve, o veículo que conduz o prisioneiro colide com um caminhão-tanque repleto de substâncias tóxicas vindas de um laboratório secreto do governo que trabalha com pesquisas genéticas – que conveniente!!!

A forma como se representa o acidente é hilariante (lembre-se que a produção não tinha dinheiro suficiente para filmar um acidente de verdade): a câmera filma, em close e em câmera lenta, os pára-choques dos dois carros encostando um no outro, ouve-se um som semelhante a um plim, e então o filme corta diretamente para a cabine dos veículos, com a câmera girando como se eles estivessem capotando! Brilhante!

Frost sobrevive ao acidente sem o menor arranhão, mas tem um destino bem pior do que a cadeira elétrica: um tanque de ácido do tal caminhão do laboratório explode e libera sobre ele uma substância ainda em testes.

Graças ao banho químico, o corpo do serial killer se dissolve dolorosamente.

É claro que este ainda não é o fim do maléfico Jack Frost – até porque o filme acabou de começar! Acontece que o tal ácido, conforme ficaremos sabendo mais tarde, é uma fórmula revolucionária para combinar o DNA humano com objetos inanimados – neste caso, a neve. Assim, a alma de Jack Frost se funde à neve, transformando-o literalmente em um bloco de gelo psicopata!!!

E o alvo prioritário de Frost em sua nova e interessante condição é Sam, o xerife de uma pequena cidade fictícia chamada Snowmonton, a Capital dos Bonecos de Neve dos Estados Unidos – novamente, que conveniente! Acontece que o xerife Sam foi o homem da lei responsável pela captura do serial killer, quando ele estava de passagem pela cidadezinha.

Ainda humano, Frost fez várias ameaças (verbais e por bilhetes ameaçadores) prometendo voltar para se vingar do xerife, de sua família e de sua cidade. Portanto, nada mais justo do que cumprir sua promessa, ainda mais agora, que pode moldar seu novo corpo de gelo na forma de um discreto boneco de neve!

Mas estamos num filme de terror classe B, e, ao invés de atacar diretamente o seu inimigo xerife, Frost chega a Snowmonton uma semana antes do Natal (e às vésperas de uma competição de bonecos de neve!!!) e começa a detonar todos os outros habitantes, chamando a atenção de um agente do FBI, Manners (Stephen Mendel), e do cientista que involuntariamente criou o homem de neve assassino, Stone (Rob La Belle, que foi morto por Freddy Krueger em O Novo Pesadelo).

E como nada está tão ruim que não possa piorar, a cidadezinha acaba ficando isolada devido à forte tempestade de neve, impossibilitando que uma força-tarefa do Exército apareça para ajudar e também impedindo a fuga dos moradores.

Aí o boneco de neve assassino faz a festa, matando mais de meia cidade antes que o xerife Sam finalmente descubra o que está acontecendo e resolva dar um fim no assassino pela segunda vez para proteger sua esposa (Eileen Seeley) e filho (Zack Eginton).

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Jack Frost foi escrito e dirigido pelo inglês Michael Cooney, que, à época da produção, tinha 29 anos, muito senso de humor e nenhum crédito cinematográfico expressivo. O sucesso alternativo da sua fábula sobre um boneco de neve assassino abriu algumas portas, e depois Cooney escreveu os roteiros de algumas produções classe A, como Identidade (2003), de James Mangold, e O Terceiro Olho (2004), de Roland Suso Richter. Mais recentemente, ele foi o roteirista de Identidade Paranormal (2010), de Måns Mårlind e Björn Stein.

O mais legal no trabalho de Cooney em Jack Frost é que ele tem plena consciência da estupidez do seu argumento e da pobreza da sua produção; assim, não se envergonha de criar momentos que ficam no limite entre o idiota e o genial, como a cena em que uma pobre vítima de Frost é transformada numa árvore de Natal humana pelo vilão (com direito a bolinha de vidro quebrada dentro da boca!). Pode-se dizer que o diretor foi muito esperto para não levar a sério o material que tinha nas mãos, dirigindo uma comédia de terror assumida.

Esforçado, Cooney escreveu algumas tiradas sarcásticas e infames para o seu vilão (dublado pelo mesmo Scott MacDonald), transformando-o numa espécie de primo pobre de Freddy Krueger e Chucky. E buscou ângulos de câmera inusitados, como quando a lente parece estar dentro de uma poça d’água que é observada pelos personagens, ou dentro de objetos diversos.

Como contraste ao clima geral de avacalhação, o xerife caipirão que se torna herói meio sem querer é interpretado por um ator de verdade, Christopher Allport (geralmente visto em filmes sérios, como Invasores de Marte e Os Mortos-vivos). E o sujeito realmente tenta interpretar, ao contrário de seus colegas de elenco, que estão visivelmente levando a coisa na brincadeira. São ótimas as cenas do xerife com o agente do FBI, principalmente quando este segundo usa termos técnicos (MVs para murder victims, por exemplo) e nosso herói interiorano fica boiando.

Sem a menor vergonha na cara, Cooney ainda concebeu uma daquelas cenas que se tornam inesquecíveis pelo mau gosto, no mesmo nível da cabeça decepada seduzindo uma garota em Reanimator. Trata-se do fantástico e inesquecível momento em que uma pobre garota tomando banho é estuprada pelo boneco de neve assassino (barbaridade!), e a cenoura que representa o nariz da criatura subitamente desaparece para algum outro lugar…

O mais engraçado de tudo é que a pobre coitada da vítima é interpretada por Shannon Elizabeth (creditada como Shannon Elizabeth Fadal), que depois ficaria famosinha como a Nadia da série American Pie.

Jack Frost foi a estreia da moça como atriz, e são poucas pessoas que podem dizer Minha estreia no cinema foi sendo estuprada por um boneco de neve assassino! (engraçado que nenhum repórter tem coragem de perguntar sobre isso nas entrevistas feitas com a atriz!). A coisa é tão inesperada e sem-noção que o filme todo valeria só por esta cena!

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A obra também evoca, o tempo todo, aquele tipo de cinema sem recursos feito por Ed Wood. Lembra da luta entre Bela Lugosi e um polvo de borracha imóvel no final de A Noiva do Monstro, de Wood? Pois o filme de Cooney é nesse nível: o boneco de neve assassino quase não tem movimentos nem expressões, é apenas um bonecão feito de plástico (você não achou que era gelo mesmo, pensou?).

Todas as cenas em que o vilão aparece realizando ações, como agarrar vítimas ou falar, são filmadas em closes, para que não possamos ver as pessoas da equipe técnica operando sua cabeça e braços nos bastidores, como se fossem marionetes. Não há nenhum efeito muito elaborado, tanto que qualquer pessoa poderia fazer um bonecão parecido para filmar seu próprio Jack Frost em casa!

Para dar uma ideia da simplicidade da coisa, no filme Frost tem o poder de se auto-derreter, virando água para entrar em casas por baixo da porta, e depois se reagrupar na forma de boneco de neve. Só que o diretor nunca mostra esse efeito na íntegra (o boneco de neve derretendo diante da câmera, ou se solidificando novamente, por exemplo).

Tudo que vemos é a água esguichando pela porta e o bonecão aparecendo de repente do outro lado, mas o espectador entende perfeitamente a mensagem sem a necessidade de ver toda a transformação na íntegra.

Se fosse produzido hoje, não duvide que isso tudo seria mostrado on-screen com tosquíssimos efeitos em computação gráfica, estragando a melhor parte da brincadeira – e exigindo menos criatividade dos realizadores.

É claro que quem não entrar no espírito da brincadeira desde o começo não vai curtir, mas há outros pequenos momentos geniais em Jack Frost que transformam o filme numa diversão bem acima da média.

Repare, por exemplo, numa cena pré-sexo que revela como é complicado transar no inverno: os personagens gastam um tempão tirando a infinidade de roupas de inverno (ceroulas, meias grossas, camisas, camisetas, blusões, casacos…).

Ou no momento hilário em que os heróis enfrentam Jack Frost usando… secadores de cabelo?!? Claro, porque o calor derrete o gelo, então os inofensivos secadores de cabelo são muito mais mortíferos do que armas de fogo, quando você enfrenta um boneco de neve assassino!

Ainda há muitos detalhes para pegar no plano de fundo, revelando que o diretor-roteirista Cooney é um sujeito que gosta de uma boa piada. É impossível você perceber algumas coisas na primeira assistida, mas, revendo o filme, note como a direção de arte inspirada espalhou imagens de bonecos de neve por toda parte, tornando a criatura onipresente.

Eles aparecem na forma de decorações natalinas variadas, impressos em xícaras, nos desenhos de crianças na parede de uma escola e até no formato de um pacote de balas consumidas por um dos policiais! Teve um site gringo que se deu ao trabalho de contar todas as aparições de bonequinhos no filme, e garante que são 89 no total!

Outra brincadeira curiosa é a presença de Brett Boydstun, um dos caras da equipe técnica, interpretando um sujeito com chapéu laranja que aparece fazendo idiotices no fundo de algumas cenas.

Quando a delegacia da cidadezinha é explodida, por exemplo, todo mundo assiste ao incêndio horrorizado, mas lá no fundo da cena está Boydstun caminhando em direção ao fogo com um espeto de marshmallow nas mãos! Em outro momento, enquanto o xerife conversa com alguém, lá está o sujeito passando no fundo da cena com um enfeite de Natal gigante nas mãos!

Não por acaso, seu personagem é creditado como Idiot (idiota) no final, e identificar suas várias participações ao longo do filme se transforma num desafio estilo Onde está Wally? (As aparições de bonecos de neve e do Idiota podem ser utilizadas como desculpa para drinking games com os amigos. Do tipo: todo mundo bebe uma dose quando um boneco de neve aparecer no cenário, ou quando alguém enxergar o Idiota no fundo da cena!)

Vale ressaltar a presença, na equipe de maquiagem e efeitos especiais, do famoso Screaming Mad George, que trabalhou tanto em blockbusters (O Predador, O Segredo do Abismo) quanto em divertidas produções classe B (entre elas, Sociedade dos Amigos do Diabo e A Noiva do Reanimator).

E, até pela presença de Mad George, a única reclamação que tenho é a falta de mais sangue e violência. Entre as poucas mortes, algumas até são exageradas (como a da árvore de Natal humana), mas não tão gorezentas como poderiam ser. E Jack Frost é o tipo de produção que apenas se beneficiaria com mais sangue e mutilações exageradas, no estilo de – chutando alto – Fome Animal.

Cooney corrigiria essa bola fora três anos depois, quando lançou a inacreditável sequência Jack Frost 2: Revenge of the Mutant Killer Snowman (2000). Ao contrário do original, a continuação não chegou ao Brasil. Além de resgatar personagens do primeiro filme, como o xerife Sam, a Parte 2 é muito mais exagerada, com peitos de fora e mortes extremamente sangrentas, mas sempre mantendo aquele clima cômico e absurdo – até porque, dessa vez, o boneco de neve assassino ataca… numa ilha tropical!!!

Se você quiser aproveitar a época de Natal e reunir seus amigos em casa para ver algum filme de horror natalino no embalo de altas doses de cerveja, minha dica é deixar de lado títulos óbvios como Natal Sangrento e Black Christmas e optar por Jack Frost.

É tanta abobrinha, tanta interpretação ruim, tanto efeito tosco, tanta cena inacreditável e tanto diálogo ridículo que não tem como segurar o riso – já tive a oportunidade de exibir o filme para um grupo de amigos e a experiência foi inesquecível.

É até uma pena que, atualmente, Jack Frost esteja completamente esquecido, já que foi lançado no país apenas em vídeo, e nunca ganhou relançamento em DVD, muito menos blu-ray. Quem é frequentador de locadora das antigas deve lembrar que a capinha da fita trazia um divertido holograma mostrando a cara simpática de Jack Frost, mas, virando a caixinha de lado, ela se transformava numa cara mais monstruosa!

Curiosamente, no ano seguinte (1998), saiu um filme com o mesmo título original nos Estados Unidos, lançado no Brasil como Uma Noite Mágica. Produção muito mais caprichada (custou 50 milhões de dólares), esse outro Jack Frost conta a história de um músico (interpretado por Michael Keaton) que morre durante uma nevasca e reencarna num boneco de neve para divertir seu filho pequeno – ou seja, praticamente o mesmo argumento de Jack Frost, só que com um boneco de neve bonzinho e digital no lugar do boneco de neve assassino e toscão.

Quer apostar qual dos dois é mais divertido? Vou dar só uma pista: digamos que o Michael Keaton de neve não estupra nenhuma gostosona com seu nariz de cenoura…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

5 comentários em “Jack Frost (1997)

  • 10/09/2017 em 21:49
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    Eu tenho o primeiro e o segundo filme em DVD. Muito tosco, mas gosto muito!

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  • 12/01/2014 em 13:18
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    Lembro de ter assistido em vhs , a capa dele tinha um efeito 3D bem interessante.

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  • 26/12/2013 em 22:57
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    já gosto desse filme mesmo sem assistir…quem sabe um dia alguma distribuidora brasileira lance esse filmaço..

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  • 24/12/2013 em 14:32
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    queria ver,deve ser muito divertido.

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  • 22/12/2013 em 17:15
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    Lembro de ter assistido esse filme em 1997 na casa dos meus primos… aluguei ele depois mais umas 5 vezes, pena que nunca mais achei em lugar nenhum.

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