Críticas

A Casa do Espanto III (1989)

Apesar de alguns momentos divertidos, A Casa do Espanto 3 é clichê demais para os fãs do gênero e ainda demora muito para chegar na matança!

A Casa do Espanto 3 (1989)

A Casa do Espanto III
Original:The Horror Show
Ano:1989•País:EUA
Direção:James Isaac, David Blyth
Roteiro:Allyn Warner, Leslie Bohem
Produção:Sean S. Cunningham
Elenco:Lance Henriksen, Brion James, Rita Taggart, Dedee Pfeiffer, Aron Eisenberg, Thom Bray, Matt Clark, Terry Alexander, Lewis Arquette, Lawrence Tierney

Era uma vez uma pequena produção chamada The Horror Show, que surgiu no final dos anos 80 com a ambição de lançar uma nova franquia de filmes de terror, tipo A Hora do Pesadelo e Sexta-feira 13. As citações não são mera coincidência, já que Max Henke, o vilão em The Horror Show (magistralmente interpretado pelo falecido Brion James, vale destacar), tinha um pouco de Jason Voorhees (a crueldade e criatividade para matar suas vítimas com um enorme cutelo) e muito de Freddy Krueger (assassino executado que volta dos mortos e ataca em pesadelos, sempre fazendo piadinhas infames antes de matar alguém).

Mas, por uma série de problemas durante a sua realização, The Horror Show foi um fiasco de bilheteria, lançou o pobre Max Henke no limbo e, numa daquelas picaretagens que volta-e-meia acontecem, acabou sendo lançado no mercado fora dos Estados Unidos com o enganoso título House 3 para tentar faturar uns trocados e ao menos bancar o prejuízo.

E assim aconteceu também no Brasil, onde o filme acabou chegando com o título A Casa do Espanto 3, com direito à tradicional mão descarnada na capinha e tudo mais, embora a trama não tenha nada a ver com casas assombradas (veja os cartazes originais com o título The Horror Show, mostrando o vilão Henke em destaque).

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Na verdade, assombrado é o herói do filme, o policial Lucas McCarthy (um dos raros papéis principais do eterno coadjuvante de luxo Lance Henriksen), que acaba sendo perseguido pelo vilão em qualquer lugar, e não só dentro da sua casa, o que arruina qualquer possibilidade de esta ser uma típica história de casa assombrada para figurar na franquia House, como quer fazer acreditar o título mentiroso. Mas o pior mesmo é que tal título acabou bagunçando a numeração oficial da franquia, já que o terceiro filme “oficial” da série teve que ser lançado como House 4 nos Estados Unidos, mesmo que não existisse um House 3 oficial!!! E você achando que só as distribuidoras brasileiras faziam lambança com os títulos, né?

A trama de The Horror Show/House 3 começa com o policial Lucas sendo atormentado por pesadelos da noite em que ele e o parceiro capturaram o serial killer Max Henke, após um massacre (e bota massacre!) numa lanchonete. O parceiro se deu mal e acabou também esquartejado pelo vilão, que ainda decapitou uma garotinha com seu cutelo antes de ser finalmente capturado por Lucas. Desde então, ele é assombrado pelos terríveis pesadelos com o assassino, e acredita que estes sonhos só irão passar quando Henke fritar na cadeira elétrica, já que foi condenado à morte pelos seus cento e poucos assassinatos. Mas é claro que, a partir da execução, as coisas só irão piorar.

Acontece que Max insiste em não morrer na cadeira elétrica, mesmo tomando uma corrente de 50 mil volts que chega a assar seu rosto. Em chamas, todo chamuscado, o vilão levanta da cadeira elétrica e corre em direção a Lucas; antes de cair morto, amaldiçoa seu algoz: “Vou voltar para assombrar você!“. A partir de então, cumpre o prometido e os pesadelos de Lucas começam a ficar cada vez piores – e mais realistas. Mais ou menos como um Freddy Krueger dos pobres, Henke aparece por toda parte: vestido como a esposa do pobre policial, como um peru assado possuído (na cena mais impagável do filme!) e até como comediante na TV, fazendo piadas infames do tipo: “Meu psiquiatra disse que eu era um louco assassino. Pedi uma segunda opinião e ele disse: ‘Tudo bem, você também é muito feio!‘”.

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Finalmente, o vilão se materializa no mundo real e começa uma onda de crimes com seu cutelo, iniciando por Cosmo, o pobre gato da família McCarthy, e depois passando pelo namorado da filha de Lucas, Vinnie (David Oliver, morto por AIDS em 1992). Finalmente, o fantasma de Henke começa a ameaçar a esposa e os filhos do seu desafeto. Mas, embora tenha o poder de aparecer onde bem quiser, por algum motivo inexplicável o psicopata parece estar sempre no porão dos McCarthy, e o roteiro então inventa mil-e-um motivos idiotas para que os personagens fiquem descendo até aquele local escuro, numa tentativa frustrada de criar suspense.

Produzido em 1989, The Horror Show/House 3 é um daqueles filmes que parecem amaldiçoados: não tinha como dar errado, mas mesmo assim uma série de infortúnios atingiu os realizadores. E olha que só tinha gente boa envolvida no projeto: além dos atores principais, Henriksen e James (figurinhas carimbadas do cinemão classe B), o filme tem a gostosinha Dedee Pfeiffer (Acampamento Sinistro 2) numa rápida cena de nudez e uma ponta do veterano Lawrence Tierney (Cães de Aluguel), direção do neozelandês David Blyth (do sangrento cult movie Guerra para a Morte, de 1985), produção de Sean S. Cunningham (diretor do primeiro Sexta-Feira 13), música de Harry Manfredini (também saído da franquia Sexta-Feira 13), efeitos especiais do trio de experts Howard Berger, Robert Kurtzman e Gregory Nicotero (a turma que faz as mutilações da série O Albergue) e até o eterno “Jason VoorheesKane Hodder como dublê.

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Aí alguém fez alguma macumba contra a turma, e os problemas não pararam mais. Primeiro foi o diretor Blyth quem deixou o projeto, demitido pelos produtores, e no fim nem ganhou crédito pelas cenas que filmou (elas foram mantidas na edição). Em seu lugar assumiu o técnico de efeitos especiais James Isaac, que no mesmo ano havia trabalhado no desenvolvimento da criatura de Abismo do Terror, dirigido por Sean Cunningham. Isaac fazia parte da equipe do mestre Chris Wallas, tendo atuado nos efeitos de filmes como A Mosca e Inimigo Meu. Depois, quem se desligou do projeto foi um dos roteiristas, Allyn Warner, que, insatisfeito com o desenvolvimento do filme, exigiu ter seu nome trocado para “Alan Smithee” (pseudônimo utilizado quando um diretor ou roteirista não quer ganhar crédito pelo seu trabalho). O roteiro foi parcialmente reescrito por Leslie Bohem, que posteriormente escreveu A Hora do Pesadelo 5 e episódios do seriado Taken.

Parece pouco? Pois eis que, para finalizar a “maldição“, a MPAA – aquele órgão de censura norte-americano que passa a tesourinha nas cenas mais “chocantes” dos filmes – encasquetou com a produção e, para não lhe dar um certificado X (somente para maiores de 18 anos, igual ao dos pornôs), exigiu mais cortes do que aqueles feitos pelo vilão Max Henke no filme inteiro. Resultado: quase todas as “partes boas” ficaram no chão da sala de edição. Para você ter uma ideia, uma edição da revista Fangoria da época dizia que, se The Horror Show passasse pela MPAA, seria “o filme mais sangrento da década“. Infelizmente, não foi o que aconteceu.

Entre as cenas cortadas está uma em que Henke saía pela barriga da filha de Lucas, e também outra em que o policial abria um corte no seu peito, deixando exposto o próprio coração batendo (uma foto desta cena pode ser vista na capinha do DVD nacional, mas NÃO aparece no filme). A MPAA também podou cenas como aquelas que mostravam o cadáver de Vinnie partido no meio (uma foto também aparece na capinha, desta vez na do VHS brasileiro, mas também NÃO está no filme!!!). Outra má notícia, esta para quem só tem o DVD: a versão do filme lançada no Brasil está censurada e, entre outras coisas, não contém a cena de uma vítima sendo esquartejada num enorme moedor de carne, que aparece no VHS lançado no Brasil na década de 90!

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Todos estes cortes influenciaram no ritmo do filme, pois os bons efeitos que ficaram na edição (como o já citado peru assado possuído e também a cena parcial da “gravidez” da filha de Lucas, pós-tesoura da MPAA) parecem perdidos num roteiro songomongo, onde nada de realmente emocionante acontece. Do começo ao fim, The Horror Show/House 3 parece uma cópia xerox de A Hora do Pesadelo. Não bastasse o “pequeno detalhe” de Henke ficar aparecendo nos pesadelos, ainda tem cantiga infantil tétrica (no estilo “One, two, Freddy is coming for you“), o fantasma da menininha morta por Henke circulando num vestidinho branco (como as vítimas de Freddy), um porão com caldeira (como uma certa casa na Rua Elm…) e até o confronto de herói e vilão numa velha fábrica, que lembra DEMAIS a refinaria onde Freddy aparece na maior parte de A Hora do Pesadelo. Outros detalhes que pelo menos são originais – como um estigma que aparece no peito de Lucas e a explicação “científica” para o retorno do vilão – não têm qualquer desenvolvimento no roteiro, e parecem ter sido atirados ao léu apenas para dar mais personalidade à trama.

Continuando o azar generalizado da película, o próprio Wes Craven, diretor de A Hora do Pesadelo, acabou se vingando acidentalmente do plágio indiscriminado cometido pela equipe do The Horror Show. Isso porque, no mesmo ano de 1989, Craven lançou nos cinemas Shocker, que tem constrangedoras semelhanças com The Horror Show, e também é sobre um assassino serial que sobrevive à execução na cadeira elétrica e usa a eletricidade para se vingar do responsável pela sua prisão. Shocker é uma merda, mas acabou roubando a atenção – afinal, tinha o nomezinho famoso do Wes Craven na capa. Já o filme de James Isaac, por sua vez, foi jogado de vez no limbo do esquecimento – assim como seu diretor, que só voltou à função mais de dez anos depois, quando assumiu um tal de Jason X

Apesar de alguns momentos divertidos, The Horror Show/House 3 é clichê demais para os fãs do gênero. Se houvesse um canal somente para filmes de horror, ele seria exibido na Sessão da Tarde. O roteiro perde tempo demais com inutilidades e demora para chegar na matança. Quando Lucas é acusado de ter matado o namorado da filha, por exemplo, o filme gasta intermináveis minutos com o interrogatório do herói, embora o espectador já saiba que Lucas obviamente não é o culpado pelo crime. Mas nada é pior do que a enrolação envolvendo o cientista que tenta explicar racionalmente a volta de Max Henke ao mundo dos vivos, com uma ridícula teoria sobre como o Mal pode se propagar pela eletricidade (argh!!!). E nem vale a pena citar o final feliz ridículo, estilo “tudo está bem“, que é o cúmulo da covardia – ia ser muito bom ver Max Henke voltar num The Horror Show 2 para poder corrigir esta conclusão imbecil.

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No fim, o mais apavorante de tudo é o garoto Aron Eisenberg, interpretando o filho metaleiro do herói, com um corte de cabelo ridículo e uma camiseta cortada em cima do umbigo. O guri, que também está em Amityville 4, é a própria encarnação do demônio. Acredito que Eisenberg, hoje na faixa dos 30 anos, deve estar torrando milhares de dólares com terapia, principalmente quando pega alguma reprise de The Horror Show/House 3 e se vê com aquele cabelo e camiseta ridículos.

Resumindo: o único “Show de Horrores” deste filme foi a sua própria produção. Todo o resto é rotina.

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5 Comentários

  1. Elise Maia

    Bom , não tem nada haver com o 1º e o 2º da série , mas eu gosto desse filme, são filmes que marcaram minha infância sei lá.

  2. Augusto

    Discordo da crítica. Se esse filme for fraco, toda uma leva de filmes de terror dos anos 80 também serão, afinal de contas Horror Show segue o padrão que tinham os filmes naquela década. O filme tem alguns momentos clichês? Tem, mas quantos feitos antes desse filme e até depois não tiveram? No mais o filme é movimentado, a dupla de atores centrais é boa (não dá pra exigir que todos os atores , nesse tipo de produção também sejam bons) e possui os divertidos e bem feitos efeitos de maquiagem da década de 80 (que aliás, são bem mais convincentes que os efeitos de computação de hoje em dia). Não é uma obra-prima, mas se todo filme a gente assistir com esse pensamento que será um marco, nos decepcionaremos com 90% do que foi feito até hoje… no mais, na minha humilde opinão, pra quem curte esse divertidos filmes de terror dos anos 80, Horror Show é mais do que recomendado.

    • Gilson Bloch

      boa mano Também concordo , pra década de 80 não deixa nada a desejar..falou tudo..

  3. Gilson Bloch

    eu assisti e achei o filme excelente , juntamente com a casa do espanto 1 , me perdoe os críticos..Filmes que marcaram a minha infância nos anos 80..

  4. vanessa vasconcelos

    nunca assisti então não posso dizer nada,mas parece legalzinho.

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