Críticas

Dark Water – Água Negra (2002)

Uma pequena obra-prima que ainda consegue te convencer a ter medo de coisas tão simples como uma mancha de umidade e uma bolsa infantil!

Dark Water (2002)

Um drama sobrenatural como só o cinema oriental pode fazer

Dark Water - Água Negra
Original:Honogurai mizu no soko kara
Ano:2002•País:Japão
Direção:Hideo Nakata
Roteiro:Kôji Suzuki, Ken'ichi Suzuki, Takashige Ichise, Yoshihiro Nakamura, Hideo Nakata
Produção:Takashige Ichise
Elenco:Hitomi Kuroki, Rio Kanno, Mirei Oguchi, Asami Mizukawa, Fumiyo Kohinata, Yu Tokui, Isao Yatsu, Shigemitsu Ogi, Maiko Asano, Yukiko Ikari, Shinji Nomura, Kiriko Shimizu

Uma menininha-fantasma com longos cabelos negros. E que morreu afogada. Água, muita água. Uma mãe divorciada como personagem principal. Cenas de horror que se passam em elevadores e banheiros. Um prédio assombrado por um misterioso enigma do passado, que os personagens precisarão decifrar para quebrar a maldição e salvar suas vidas… Pois é, os detratores do cinema de horror oriental, que adoram dizer que os filmes de terror feitos pelos olhinhos-puxados são todos iguais, vão fazer a festa com Dark Water, produção japonesa assinada pelos mesmos realizadores do estrondoso sucesso Ringu – o diretor e roteirista Hideo Nakata, novamente baseado num livro de Kôji Suzuki, autor de Ringu e apelidado de “Stephen King nipônico“. Tais detratores encontrarão, neste filme de 2002 fortes evidências para dizer que, sim, os terrores feitos no Oriente são muito parecidos entre si, já que Dark Water tem muito em comum, por exemplo, com a série Ringu, com a série Ju-On, com a franquia The Eye, e outros títulos.

Mas quer saber: e daí? Mesmo reciclando alguns elementos que já se tornaram clichê, graças à repetição exaustiva, ainda assim Dark Water (que, no Japão, se chama Honogurai Mizu No Soko Kara) é um filmaço que não pode, nem deve, ser encarado apenas como um “filme de terror“. Na verdade, acredito que está bem mais para um drama sobrenatural, ao estilo O Sexto Sentido e A Espinha do Diabo, do que para um horror pesado como outros feitos no Oriente. Para começar, o roteiro (de Nakata mais Takashige Ichise) dá muito mais destaque à história do que aos efeitos especiais e aos sustos. Para terminar, interessa menos o fantasma da história e mais a forma como os acontecimentos sobrenaturais repercutem na vida dos seus personagens. É uma trama muito mais sobre gente comum, e como estas pessoas respondem à ameaça sobrenatural, do que sobre os fantasmas em si. E aí está o grande trunfo de Dark Water e o porquê de ele ser tão diferente da série Ringu e de outras produções orientais do gênero, mesmo que, aparentemente, sejam parecidos.

Brilha em Dark Water a técnica do cineasta Hideo Nakata, um dos mais talentosos diretores do moderno cinema de horror. Ele começou no ramo ainda rapaz, trabalhando como assistente de direção durante sete anos em filmes eróticos e produções bagaceiras direto para o mercado de vídeo. Só foi estrear ele mesmo como diretor em 1992, ao realizar uma produção para a TV chamada God´s Hand. Quatro anos depois, Nakata atacou com seu primeiro trabalho realmente cinematográfico, Joyuu-Rei (chamado nos EUA de Ghost Actress), que, apesar das boas críticas, foi um fiasco da bilheteria. O jovem Hideo só se tornaria um nome “quente” no ramo em 1998, quando dirigiu o célebre Ringu, dando origem a uma das mais famosas e imitadas séries do cinema de horror oriental. Foi o sucesso de Ringu que abriu as portas para Hideo Nakata no mercado americano; já seu filme ganhou um remake nos Estados Unidos e iniciou uma corrida em busca das produções orientais. Dark Water foi realizado em algum ponto entre o sucesso estrondoso da série Ringu e a ida de Nakata para os EUA. Pouco depois do seu lançamento nos cinemas mundiais, um estúdio americano já comprava os direitos para refilmá-lo na América.

Eu ainda era “virgem” em horror oriental quando conheci Dark Water. Tinha visto os três Ringu oficiais, e olhe lá. Foi Dark Water que me deixou irremediavelmente apaixonado pela forma como o Oriente explora o medo e o horror. É algo completamente oposto ao que fazem, por exemplo, os americanos: não há sustos falsos (como gatos pulando de armários ou pessoas chegando por trás para dar um susto no mocinho), não há uma overdose de efeitos especiais e muito menos uma exploração gratuita e desnecessária de personagens secundários, que estão ali apenas para morrer. Com raras exceções, as histórias de terror orientais têm pouquíssimos personagens centrais, sobre os quais a história se desenvolve. Dark Water é assim: durante praticamente 80% do tempo de projeção, só temos em cena uma mulher e sua filha. E, surpreendentemente, não traz uma única sequência de morte violenta; aliás, nem uma gotícula de sangue sequer. E, mesmo assim, consegue ser mais tenso e assustador do que qualquer porcaria feita nos Estados Unidos e chamada de “filme de horror“.

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Como o anterior Ringu enfocava uma mãe divorciada e seu filho pequeno, Dark Water tem um núcleo de personagens principais semelhante: trata-se de uma outra mãe divorciada e sua filha pequena. A mulher é Yoshimi Matsubara (Hitomi Kuroki), uma jovem mãe cuja vida está, literalmente, desmoronando. Acontece que a moça está desempregada e em processo de separação do marido, Kunio Hamada (Fumiyo Kohinata). E divórcio, para a masculinizada e ainda preconceituosa e machista sociedade japonesa, é algo muito complicado. Quando o filme começa, uma banca está analisando o caso para saber se Ikuko (Rio Kanno), a filha de 6 anos do casal, ficará morando com a mãe ou com o pai. E Yoshimi não tem nenhuma intenção de desistir da guarda da menina, alegando que o ex-marido não dava a mínima para a filha, chegando ao cúmulo de esquecer o dia de seu aniversário. A guerra nos tribunais é cansativa, apelativa e cheia de trocas de acusações, com o ex-marido acusando a ex-mulher de ser psicologicamente instável e uma péssima mãe. Para isso, ele lembra que Yoshimi passou algum tempo internada num sanatório sob profundo stress, após sofrer um colapso mental quando trabalhava como revisora ortográfica para uma editora – obrigada a ler e reler livros extremamente violentos e sádicos, ela teve um ataque e ficou meses internada. O vilanesco Hamada não quer a guarda de Ikuko por amar a filha, mas apenas para machucar profundamente a ex-esposa ao roubar-lhe a guarda da menina, sabendo que Ikuko é a coisa mais preciosa para Yoshimi – mais até do que a sua própria vida.

Com a guarda da filha enquanto o tribunal analisa a questão, Yoshimi resolve “dar a volta por cima” e provar que pode muito bem se virar sem o cruel ex-marido. Assim, ela se muda para um prédio decadente no centro de Tóquio, apenas porque o preço do aluguel é mais baixo e o local fica muito próximo de uma escola de jardim-da-infância, onde Ikuko poderá estudar. O prédio é horrível, com apartamentos apertados e a maioria dos andares completamente abandonados e escuros. O estado de conservação é precário e os poucos hóspedes são velhos malucos que conversam com seus cachorros (!!!). Porém, depois que o corretor de imóveis Ohta (Yu Tokui) faz a maior propaganda, Yoshimi acaba aceitando a proposta. No dia da primeira visita ao imóvel, alguns acontecimentos estranhos alertam o espectador de que há algo esquisito no local. Primeiramente, uma misteriosa mão de criança segura a mão de Yoshimi no elevador – a mulher acredita ser a mão da filha, por isso não se preocupa. No momento seguinte, o zelador do prédio, o velho Kamiya (Isao Yatsu), visualiza um vulto no interior do elevador vazio, pelas câmeras de segurança. Para completar, Ikuko, durante um passeio inocente no terraço do edifício, encontra uma bolsa infantil vermelha, repleta de brinquedos e com a inscrição “Mimiko” na frente. O corretor de imóveis quer dar a bolsa de presente para a menina, mas Yoshimi não aceita, dizendo que a verdadeira dona da bolsa pode estar procurando por ela.

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Mãe e filha mudam-se rapidamente para o novo apartamento, e é somente então que Yoshimi percebe uma mancha escura de infiltração de água se formando no teto, bem sobre o seu quarto. Ela comenta o acontecido com o zelador, sugerindo que talvez exista um vazamento no apartamento de cima, mas o velho faz pouco caso e apenas responde que o apartamento acima do dela está vazio há muitos meses. O mesmo tratamento ela recebe quando tenta contato com o corretor Ohta, que demonstra o mínimo interesse em ajudá-la a resolver o problema. Yoshimi ainda começa a desconfiar que há algo de errado com a água do edifício, pois, além do líquido ter um gosto esquisito, às vezes longos fios de cabelo preto descem pela torneira junto com a água! Yoshimi, porém, não dá a mínima para estes detalhes, preocupada que está com a tentativa de colocar sua nova vida em ordem: busca um emprego, novamente como revisora ortográfica de textos numa pequena editora, e matricula Ikuko no jardim-da-infância. Tudo parece entrar nos eixos, e Yoshimi poderá mostrar ao tribunal que está mais do que apta para ter a guarda da filha…

Mas os acontecimentos estranhos não cessam. Ikuko começa a falar sozinha durante muito tempo, em casa e na escola, referindo-se a uma “nova amiga” que adora a água, pois passa muito tempo dentro dela (quem já viu Ringu ou O Chamado de cara deve ter pensado em Sadako/Samara). E a tal bolsa vermelha cheia de trecos aparece e reaparece de maneira fantasmagórica, mesmo tendo sido várias vezes jogada no lixo pela própria Yoshimi. Não bastasse isso, a maldita mancha de infiltração começa a ficar cada vez maior, e à medida que cresce vai transformando a vida de mãe e filha num inferno. Tudo parece estar ligado a uma misteriosa menina que aparece e desaparece nos corredores do prédio, vista sempre circulando com uma capa de chuva amarela e os cabelos pretos escondendo o rosto. Será que ela é Mitsuko Kawai, uma menina desaparecida há mais de dois anos e que morava no apartamento bem acima do de Yoshimi e Ikuko? Sem conseguir decifrar os mistérios à sua volta, Yoshimi começa a pensar se aquilo não seria tudo uma armação do seu ex-marido para demonstrar ao júri que ela é mentalmente instável. Ou será que a solução para os fenômenos é sobrenatural? Sozinha no mundo, contando apenas com a companhia da filha, Yoshimi encontra ajuda no seu jovem advogado, Kishida (Shigemitsu Ogi), determinado a provar-lhe que não há nada de fantasmagórico naquilo, e sim uma tentativa de lhe tirarem a guarda da filha. Será? Enquanto busca a solução para estas dúvidas, Yoshimi vê desmoronar implacavelmente a tentativa de reconstruir sua vida – e também a sua própria sanidade.

Num universo de filmes apelativos, que não poupam imagens e cenas de forte impacto na tentativa de assustar o espectador de qualquer jeito, Dark Water é algo no mínimo fantástico: durante a primeira uma hora de projeção, o filme consegue criar um clima de tensão e horror convincente usando apenas uma simples e comum mancha de infiltração no teto do apartamento de Yoshimi e a também simples e comum bolsa vermelha que insiste em desaparecer e reaparecer – acredite, quanto mais a dita cuja reaparece, mais tenso você acaba ficando! É somente depois dos 60 minutos iniciais que finalmente vemos a materialização da menina-fantasma que assombra o prédio, e também ficamos conhecendo seu objetivo ao assombrar Yoshimi e Ikuko. Prepare-se: é algo muito, mas muito diferente das motivações de Sadako e de outras vilãs comuns no gênero. Imaginar que um filme de terror consiga manter a atenção do público, em pleno século 21 (o século dos efeitos digitais), usando subterfúgios tão simples (mancha no teto e bolsa infantil), parece até um grande exagero de minha parte. Mas é só isso, mesmo. E o roteiro é tão bem-sucedido na sua forma de criar o clima de medo que você não vai sentir a menor falta de efeitos especiais ou de fantasmas pulando pela tela. Nada disso: vai acabar tenso e roendo as unhas nas cenas que mostram, por exemplo, as personagens virando o rosto lentamente para ver alguma coisa… e a câmera demorando um tempão indescritível focando apenas a expressão assustada da atriz, sem revelar o que, afinal, ela está vendo!

Justamente por ser um filme sem exageros e pirotecnias, eu já imaginei o pior quando surgiu a notícia de que Dark Water estava sendo refilmado nos Estados Unidos. Os americanos são muito exagerados, não têm esta noção de fazerem uma coisa mais contida, sem exagerar nos efeitos especiais e sonoros (sempre explodindo nos momentos de susto). Nem mesmo a notícia de que o brasileiro Walter Salles seria o responsável pela refilmagem me deixou otimista, até porque Salles não tem qualquer experiência no gênero. Um diretor como M. Night Shyamalan, mais atencioso aos pequenos detalhes e aos seus personagens, certamente seria a melhor escolha para o remake. Aliás, numa daquelas maluquices que às vezes acontecem em Hollywood, o estúdio responsável pelo remake escalou um fantástico elenco, repleto de nomes conhecidos e ótimos atores (Jennifer Connely, John C. Reilly, Tim Roth, Pete Postlethwait e Dougray Scott) para uma história onde só há dois personagens principais, e os outros todos têm meia dúzia de falas cada – isso quando tem alguma fala!

A versão americana de Dark Water, batizada Água Negra no Brasil, estreou no país justamente no dia em que estas linhas são publicadas no Boca do Inferno (12 de agosto de 2005). Ainda não vi o remake, mas pelo trailer já deu uma ideia do que esperar: um festival de todos aqueles efeitos digitais que Hideo Nakata preferiu não usar no original, com direito à mancha de infiltração crescendo fantasmagoricamente e até uma horrenda água digital escorrendo pelas paredes – coisa de americano, apesar do diretor ser brasileiro. Mas o filme tem recebido algumas boas críticas, e Salles parece ter feito um trabalho no mínimo convencional. O “porém” é que sabe-se que o diretor não ficou muito animado com a obra, pois sua edição original sofreu a interferência do estúdio. Em entrevistas, ele sempre se mostra aborrecido ao falar sobre o filme. “O corte final foi do produtor, não do Walter. Mas tiramos sustos e efeitos desnecessários. Conseguimos manter boa parte do que propusemos para ‘desamericanizar’ o filme“, disse o editor de Água Negra, o também brasileiro Daniel Rezende, à revista Bravo deste mês. Logo, resta uma esperança de vermos um filme pelo menos interessante.

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Um detalhe a observar, quando se fala sobre o original, é que aqueles que acham que os filmes japoneses são complicados e deixam muitas pontas soltas e coisas sem explicação não poderão reclamar de Dark Water. Este, talvez, seja um dos mais simples horrores produzidos no Oriente, com uma trama sem complicações e um final bem resolvido, solucionando todas as charadas apresentadas anteriormente. Aliás, quem já viu Ringu ou O Chamado vai matar a “charada” do filme logo nos primeiros 15 minutos (que conclusão você tira de uma menina desaparecida, uma caixa d’água com água suja e cheia de cabelos e um fantasma que gosta de água?). Mas o grande mistério de Dark Water talvez não seja a origem da menina-fantasma, e sim o que, afinal, ela quer: por que seu espírito não repousa depois de morta? O que ela busca para poder descansar em paz? A solução não é das mais simples e vai na contramão dos filmes de assombração tradicionais. Na verdade, a conclusão fará qualquer pessoa ficar sensibilizada com a fantasma ao invés de temê-la, algo que o cinema oriental adora fazer (também aconteceu nos recentes Visões e Shutter). Em comparação a Ringu, não há os vários detalhes obscuros e enigmas para resolver; o desenvolvimento da trama é lento e sem enrolação, concentrando-se no crescimento progressivo do clima de tensão, e não na quantidade de informações passadas ao espectador e de reviravoltas e surpresas.

Fã assumido de filmes de horror ocidentais, Hideo Nakata costuma prestar homenagens às suas produções preferidas nos próprios filmes. Em Ringu, a citação mais evidente era ao clássico Videodrome, de David Cronenberg, na famosa cena envolvendo Sadako e um aparelho de TV. Já em Dark Water temos um fantástico momento que cita O Iluminado, de Stanley Kubrick, quando as portas do elevador do prédio se abrem para liberar uma cachoeira – desta vez de água suja, e não de sangue, como na obra-prima de Kubrick. A homenagem é muito bem-vinda e acaba se tornando uma das melhores cenas de Dark Water, que, até agora, é certamente o trabalho mais inspirado de Nakata como diretor: sem a pressão de utilizar efeitos especiais (que aniquilou sua direção do remake americano O Chamado 2), Hideo pôde se dedicar a buscar os melhores ângulos e movimentos de câmera. Repare, por exemplo, como os personagens quase sempre são mostrados em longos corredores escuros, acentuando a sensação de abandono e solidão naquele velho edifício – um cenário apropriadíssimo para uma trama moderna de assombração…

E repare como Nakata revela-se um verdadeiro “aquólatra“, ou sabe-se lá como é o nome de quem tem verdadeira tara por água. O líquido jorra indiscriminadamente durante o filme inteiro. É a chuva, que praticamente nunca pára dia após dia; é a água que sai das torneiras; é a água escura que pinga da mancha de infiltração no teto do apartamento; é a água da caixa d’água; é a água que escorre pelas paredes do apartamento abandonado sobre o de Yoshimi… Enfim, é tanta, mas tanta água que as pessoas com problemas de bexiga certamente terão que “pausar” o filme a cada 20 minutos para ir correndo fazer xixi! Os personagens principais, inclusive, estão permanentemente ensopados. A coisa vai a tal ponto que o próprio espectador chega a se sentir desconfortavelmente molhado. Vale lembrar que o tema (uso da água para dar medo) não é novo na obra de Hideo Nakata: ele já havia utilizado baldes e baldes de água em Ringu 1 e 2 e, também no americano O Chamado 2. Em entrevistas, o cineasta já revelou que gosta de usar água nos seus filmes pelo fato do líquido ser um condutor universal e, por isso, estar intimamente ligado também à atração de espíritos. Já pensou?

Falando em O Chamado 2, é interessante constatar que este filme americano dirigido por Nakata se parece mais com Dark Water do que com o próprio Ringu 2. Tanto que quem já viu O Chamado 2 poderá ficar até decepcionado com Dark Water. Talvez inconscientemente, Nakata recriou cenas inteiras de Dark Water em O Chamado 2, como, por exemplo, a água escorrendo pelas paredes do banheiro e a cena de tensão na banheira, além de dar à vilã-mirim Samara (a versão ocidental de Sadako) uma motivação bem parecida com a da fantasminha de Dark Water. O que parece é que Nakata estava refilmando o filme errado. Mas Dark Water ainda está anos-luz à frente do prolixo O Chamado 2. E pelo menos até agora, é disparado o melhor filme de Hideo Nakata.

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Na tradição dos bons filmes de horror vindos do Oriente, Dark Water também brinca de assustar evocando os medos da nossa infância. O tema mais recorrente, neste filme, é o medo que temos, quando crianças, de ficarmos sozinhos. Em diversos momentos ao longo da trama, Nakata mostra uma mesma cena acontecida com os três personagens centrais: Ikuko, Mitsuko e Yoshimi (quando ela ainda era criança, em flashback). Elas sempre aparecem sentadas na porta da frente de sua escola, em uma tarde de chuva, esperando que os pais cheguem para buscá-las – mas estes, por um motivo ou outro, nunca aparecem. No caso de Yoshimi, ela foi “esquecida” na escola porque seus pais também estavam em processo de divórcio e ela acabou abandonada por ambos; por isso sua busca de ser, para Ikuko, uma mãe melhor do que sua própria mãe havia sido para ela. Mas Ikuko acaba “esquecida” na escola numa tarde em que a mãe vai procurar emprego; já Mitsuko é “abandonada” na escola porque seus pais se atrasam para ir buscá-la – e é este atraso que acaba resultando no “desaparecimento” misterioso da menina, mostrado em flashback na conclusão da história. Para as três personagens, Nakata adota uma mesma cena muito semelhante: as crianças sentadas em frente à escola, numa tarde chuvosa, olhando para os pais dos outros alunos indo buscar seus filhos. É uma sensação de solidão e esquecimento tenebrosa: quem nunca ficou com medo de ser “esquecido” pelos pais em algum lugar? Eu mesmo, lá pelos meus 6 anos de idade, acabei me perdendo da minha mãe dentro de um supermercado enorme, quando estávamos de férias em outra cidade completamente desconhecida. Pelos pouco mais de três minutos em que estive longe de meus pais, cercado por desconhecidos num lugar enorme e também desconhecido, senti as sensações mais aterrorizantes de que ficaria sozinho para sempre, algo muito assustador quando ainda somos crianças frágeis e desorientadas. É mais ou menos este horror que Nakata busca em Dark Water: o de como é ruim, para uma criança, ver-se sozinha no mundo. E é por isso que a conclusão da história é mais triste do que propriamente assustadora.

Dark Water também é interessante por estabelecer uma situação que não permite que seus personagens principais simplesmente fujam do amaldiçoado prédio, mesmo que queiram muito fazê-lo. Como o advogado Kishida orienta, em determinado momento do filme, caso Yoshimi resolva mudar-se do local, isso poderá ser considerado um sinal de fraqueza pela banca que estuda a guarda de Ikuko. Por isso, Yoshimi deve manter-se forte e permanecer no local como se nada de estranho estivesse acontecendo, assim demonstrando que está conseguindo reconstruir sua vida e que tem todas as condições de ser uma boa mãe para Ikuko. Estabelecendo um bem-vindo “anti-clichê” ao que costumamos ver nos filmes americanos, a figura de Kishida é meramente decorativa: embora ele tente ajudar Yoshimi sempre que solicitado, ele não é de forma alguma aquele cavaleiro heroico como vemos nos filmes americanos, que sempre aparecem na hora H para salvar a donzela de algum perigo iminente. Na verdade, Kishida é omisso e não está lá para ajudar justamente no momento em que Yoshimi mais precisa de sua ajuda. E, também ao contrário dos filmes americanos, Yoshimi e o advogado NÃO se apaixonam nem vivem um fugaz caso de amor. Em Dark Water, a “mocinha” está completamente sozinha e desamparada, sem poder contar com algum interesse romântico que vá ajudá-la a enfrentar o sobrenatural. A única coisa que Yoshimi tem é sua filha, e ela fará tudo para que ambas acabem juntas. Porque, como a própria Yoshimi diz para Ikuko: “Eu posso enfrentar qualquer coisa enquanto tiver você! Eu não preciso de mais nada!“.

Algo curioso a observar é a forma como a mancha de infiltração, que vai crescendo no teto do apartamento da dupla, parece uma metáfora do descontrole na vida da própria mãe divorciada. Quando Yoshimi e Ikuko mudam-se para o aparamento, há apenas uma pequena mancha escura no teto. À medida que os acontecimentos sobrenaturais começam a se manifestar, confundindo Yoshimi, a mancha dobra de tamanho e começa a pingar, obrigando a mãe divorciada a colocar uma bacia debaixo da goteira para conter a água (como se quisesse, assim, “conter” os seus problemas, isolá-los). À medida que ela começa a dar um rumo à sua nova vida, com um novo emprego e convivendo mais ao lado da filha, a mancha estanca e fica temporariamente esquecida. Porém, quando as coisas voltam a sair do controle, graças às aparições fantasmagóricas intensificadas, Yoshimi tem um colapso, começa a desmoronar e não tem mais noção de certo e errado, chegando ao ponto de agredir o ex-marido, achando que ele é o culpado por tudo. Deste momento em diante, quando o novo mundo até então perfeito da mãe desaba impiedosamente, a infiltração cresce de maneira progressiva, tomando a maior parte do teto e com várias goteiras pingando e ensopando o quarto. Logo em seguida, em outro momento crucial da trama, Yoshimi é convencida de que não há nada de sobrenatural nos fenômenos que vivencia. Então, ela começa a ver as coisas com otimismo mais uma vez, o apartamento é todo redecorado e a mancha de umidade acaba sendo coberta por um novo e limpinho papel de parede, como se aquilo fosse uma tentativa de Yoshimi de esconder seus problemas debaixo do tapete, ou esconder a mancha e esquecer os fenômenos que não entende, achando que sua vida vai melhorar. Mas não vai, como logo o espectador irá perceber…

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Se há um defeito em Dark Water, este é a sua conclusão dispensável. Não falo da resolução da trama e do “confronto” com a fantasma do edifício, pois até esta parte o filme se concluía satisfatoriamente. O que está sobrando é um epílogo dos 10 minutos finais, mostrando o destino dos personagens (principalmente uma agora adolescente Ikuko) e do próprio edifício, exatos dez anos depois dos eventos mostrados anteriormente. Ainda que envolva um emocionante reencontro entre duas personagens, a cena está sobrando e ficaria muito mais interessante se o filme tivesse acabado antes. Pelo menos, fica a oportunidade de ver rapidamente algumas adolescentes japonesas em suas antológicas e fetichistas roupinhas de colegial, com saia curta e meias três-quartos! Mas tirando este deslize do final (que é do tipo “amar ou odiar“, já que há muitos que elogiam a conclusão), todo o resto funciona como um relógio suíço: a interação entre os atores, principalmente Hitomi (Yoshimi) e Rio (Ikuko), é fantástica. Quase acreditamos que as duas são realmente mãe e filha, tal a simpatia e o envolvimento entre ambas – e olha que atores infantis normalmente são um pé no saco, mas a interpretação de Rio Kanno é uma grata surpresa. A música e os efeitos sonoros também são uma beleza, intensificando os momentos de emoção e de tensão, telegrafando ao espectador quando vem um susto pela frente, deixando-o sempre na ponta da cadeira e esperando pelo pior!

Dark Water pode até não ser o melhor filme de horror de todos os tempos, nem mesmo o mais assustador. Mas, com certeza absoluta, é cinema da melhor qualidade, do tipo que não se faz mais nestes tempos interesseiros, onde só o que parece importante são os números da bilheteria… E brilhantemente dirigido por um cineasta que sabe o que faz e o que quer, sem se render aos truques baratos do gênero. Enfim, uma pequena obra-prima que ainda consegue te convencer a ter medo de coisas tão simples como uma mancha de umidade e uma pequena bolsa infantil. Assista e se apaixone!

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3 Comentários

  1. Carlos Valente Valente

    Excelente e longo, mas, ao mesmo tempo, bem explicado o seu texto, amigo!! Você falou e disse tudo e um pouco mais, Felipe M. Guerra!! Realmente, os filmes de terror orientais (Japoneses, Sul-Coreanos e Tailandeses), para mim, são os melhores filmes do gênero de Terror do cinema atual no mundo!! Ah, eu tenho certeza que o remake americano (ainda não vi) é bom, porém, superar esta obra-prima (palavras suas que faço as minhas também), do original japonês (que é excelente), na minha opinião, é impossível!! Nota 10 ao original japonês!! Enfim, para encerrar este meu comentário, que pos filmes oritais conquistaram os EUA, citarei um ÓTIMO exemplo, temos o diretor nascido na Malásia chamado James Wan que estão arrebentando no mundo todo como os seus filmes de Terror americanos” todos os anos no cinema: Invocação do Mal 1 e 2, Annabelle, Sobrenatural 1,2 e 3, entres outros títulos!! Viva os filmes orientais, as “novas” novidades do atual cinema de terror, também, conquistando o seu espaço (e que espaço!!!) em Hollywood!! Boa tarde, Felipe M. Guerra!!

  2. Vinnícius

    Não sei porquê, mas toda crítica do Guerra desperta em mim um desejo de assistir aos filmes analisados. Ótimo trabalho, bem informativo e bacana. Quanto ao filme, só assisti o remake e gostei do mesmo, mas vou procurar essa obra para comparar.

    • Fabio Rodriguez

      Em mim também! Só achei o texto um pouco longo demais.

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