Críticas

Espíritos – A Morte está ao Seu Lado (2004)

É um filme feito para dar medo. Ele mergulha o espectador numa atmosfera tensa, opressiva e sinistra até a aterrorizante cena final!

Espíritos (2004)

Fotos e fantasmas no filme mais assustador do moderno cinema oriental

Espíritos - A Morte está ao Seu Lado
Original:Shutter
Ano:2004•País:Tailândia
Direção:Banjong Pisanthanakun, Parkpoom Wongpoom
Roteiro:Banjong Pisanthanakun, Sopon Sukdapisit,
Produção:Yodphet Sudsawad
Elenco:Ananda Everingham, Natthaweeranuch Thongmee, Achita Sikamana, Unnop Chanpaibool, Titikarn Tongprasearth, Sivagorn Muttamara, Chachchaya Chalemphol, Kachormsak Naruepatr, Apichart Chusakul

A fotografia não reproduz a realidade. Depende de como a imagem é capturada, de como é revelada, de como é concebida“, diz um professor de fotografia à sua classe em determinado momento do filme Espiritos – A Morte está ao seu Lado, ao exibir imagens de um mesmo cenário – uma ponte -, feitas com ângulos e exposições diferentes à luz (mais clara, mais escura), comprovando, assim, que as fotos, mesmo quando feitas de um mesmo lugar na mesma hora, podem sair completamente diferentes. Aí é que está o ponto desta excelente produção tailandesa (e a Tailândia anda dando um show de cinema ultimamente) de 2004: se a fotografia não reproduz a realidade, será que ela pode registrar coisas que não fazem parte da nossa realidade? Como, por exemplo, fantasmas?

Por aí, já para perceber que Espiritos – A Morte está ao seu Lado – cujo título original, bem mais popular, é Shutter, e por isso passará a ser usado a partir de agora até o final do texto – é mais um filme de horror vindo do Oriente onde o sobrenatural ataca utilizando a tecnologia moderna. Ou seja, nada de casas assombradas, a onda agora é incomodar os vivos através da eletricidade. Anteriormente, nós já havíamos visto como os fantasmas agem através de TV e videocassete (na série Ringu), através do telefone celular (em Phone), e através de computadores (em Kairo), entre outros aparelhos domésticos. Agora chega a vez da fotografia, esta ciência fascinante de registrar imagens em filme. Tudo bem que hoje, em pleno século 21, vivemos uma era de bits, bytes e pixels, onde qualquer telefone celular dos mais vagabundos tira fotos. Esquecendo um pouco esta era de fotografia digital, Shutter, mesmo com uma história passada nos dias modernos, enfoca um tipo de fotografia mais romântica , aquela do suspense de ter de esperar as fotos serem reveladas para ver o que elas registram – ao invés de tê-la prontinha na hora, como acontece hoje em dia, graças à tecnologia das máquinas digitais.

Vi Shutter em junho de 2005, na tradicional cópia baixada via Emule. Com legendas em inglês, ainda por cima. Havia lido alguns bons comentários sobre o filme em sites do tipo Bloody Disgusting. Aparentemente, a gringada estava se borrando de medo desta bem-sucedida produção tailandesa. Não esperava nada de muito espetacular quando comecei a ver o filme no computador, numa sala mergulhada no mais completo silêncio e escuridão. Em mais de uma oportunidade, fiquei completamente apavorado, num estado de permanente ansiedade. Shutter é um filme minuciosamente feito para dar medo. Visto sob condições ideais (leia-se: NÃO em cinemas repletos de pirralhos gritando e rindo), ele pega o espectador de jeito, mergulhando-o numa atmosfera tensa, opressiva e sinistra de medo e mistério, que não dá nem um minuto de folga até a aterrorizante (ênfase no aterrorizante) e inesquecível cena final. Fiquei tão impressionado que, momentos após ver o filme, postei minhas impressões na maior comunidade do Orkut sobre filmes de horror, a Trash, Gore e Terror em Geral, incluindo até uma ressalva: “Estou com vontade de dormir de luz acesa“. Meu post atraiu muitos outros curiosos e Shutter acabou se transformando num dos filmes mais baixados, assistidos e comentados daquele período.

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Com a notícia de que ele seria lançado nos cinemas brasileiros renomeado Espiritos – A Morte está ao seu Lado, o webmaster Marcelo Milici pediu o que eu achava de republicar o artigo sobre Shutter que já estava disponível aqui na Boca do Inferno desde julho de 2005. Achei que era pertinente, mas resolvi fazer algumas correções e mudanças, para não decepcionar meus cinco únicos leitores com um texto repetido. Fica, desde já, a recomendação: não perca essa oportunidade única de ver Shutter no cinema, com um potente sistema de som e numa sala escura. Mas, e isso é muito importante, faça tudo que for possível para pegar uma sessão com menos público, sem enchedores de saco na sala, ou então soque bem forte os pirralhos arruaceiros assim que eles começarem com a bagunça, para que nada, mas nada mesmo, possa estragar a experiência fascinante – e assustadora – que é ver Shutter pela primeira vez.

Uma das primeiras coisas que me atraíram quando li comentários sobre o filme era o fato de o roteiro envolver fotografia. Eu mesmo sou um apaixonado por fotografia e adoro aquela paciência e experimentação que as máquinas convencionais exigem. Tanto que minha máquina fotográfica não é digital. Com uma digital você pode tirar 300 fotos de uma paisagem, enquanto com a convencional, até para economizar filme, torna-se necessário estudar o ângulo, estudar a entrada de luz para captar melhor as sombras e a profundidade… E nada é mais interessante que aquele suspense de esperar as fotos serem reveladas para ver o que saiu – mesmo que isso inclua, às vezes, a decepção de uma imagem tremida ou de alguém ter piscado naquela pose que nunca mais irá se repetir… A fotografia convencional é muito mais romântica; a digital, fria e sem graça.

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Aliás, você já parou para pensar como uma imagem é registrada numa foto? É algo quase sobrenatural: a luz penetra através de uma abertura na máquina fotográfica e “sensibiliza” o filme, registrando então a imagem. Tudo funciona com elementos químicos e não é tão fácil assim de explicar. Mas o principal é o seguinte: mais ou menos luz entrando pela câmera irá gerar uma imagem mais ou menos escura – e é por isso que duas fotos feitas do mesmíssimo ângulo podem ficar com tons completamente diferentes, dependendo da exposição à luz que foi dada pelo fotógrafo. Agora, entrando no terreno de Shutter, imagine se, além da luz, um “fantasma” incidisse sobre o filme fotográfico, gravando sua imagem nas fotos tiradas… Pois muitas pessoas acham que isso não é tão impossível. Quem nunca recebeu pela Internet aquelas supostas fotos de fantasmas, onde uma família posa alegre em primeiro plano e, no fundo, aparece uma sombra ou pessoa desfocada, borrada – que, acredita-se, seja o espírito de alguém que morreu naquele local?

Existem centenas, talvez milhares de fotografias do gênero no mundo. O fenômeno é popular e estudado com seriedade por alguns técnicos, que tentam separar o que é montagem grosseira e o que é “Arquivo X” – ou seja, fenômeno inexplicável. Com a popularização da internet, muitas destas imagens ganharam fama rodando em e-mails e sites sobre assuntos assustadores. Algumas são bem conhecidas, e cada vez que a foto é passada alguém vai inventando uma história mais assustadora para justificar a aparição daquele “fantasma” na imagem. O próprio trailer de Shutter explora muito bem o medo que a maioria das pessoas têm do assunto, sem mostrar nenhuma cena do filme, apenas algumas destas tais fotos reais, circulando as supostas aparições fantasmagóricas no cenário. Tudo com uma musiquinha tétrica de fundo, é claro. Brrrr!

Analisando mais a fundo, a maior parte dessas fotos fantasmagóricas são falsas. Hoje em dia, graças a toda aquela modernidade que eu descrevi anteriormente, qualquer zé mané com câmera digital e um computador consegue criar fantasmas em fotografias. O efeito pode ser obtido até na própria revelação do filme, mas no caso de fotos digitais, graças aos programas de edição de imagens (tipo Photoshop), é ainda mais fácil gerar todo tipo de efeito nas fotos, incluir pessoas borradas, sombras e até o próprio diabo, se você preferir! Porém, se muita foto de fantasma é falsa, sempre convém lembrar daquele velho ditado: “Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem“. Já pensou no horror que seria você revelar uma fotografia prosaica da sua família ou da sua namorada e descobrir um vulto ou sombra gravada num local onde não havia ninguém no momento em que você fotografou?

Pois Shutter brinca justamente com este medo. E acredite: mesmo sem utilizar efeitos especiais, mesmo sem mostrar assassinatos sangrentos, Shutter é um dos filmes mais assustadores a vir do Oriente nos últimos tempos. Até eu, que achava já ter visto tudo em matéria de cinema de horror, levei – e confesso – vários sustos ao longo da trama. Dois deles me fizeram literalmente pular da cadeira! Sem exagero! E ainda tem aquela conclusão de arrepiar os cabelos… A última vez que me senti tão abobado com um final de filme de horror foi ao ver o excelente Ringu pela primeira vez – em sua versão japonesa, claro!

Mas sobre o que é este filme tão assustador, afinal? Bem, como eu escrevi anteriormente, é sobre fotografia – e nem precisa entender muito da coisa para curtir. Shutter significa “obturador“. Não, mané, não tem nada a ver com obturação de dentista. O obturador é o sistema que controla o tempo de exposição do filme fotográfico à luz. Quem usa câmeras sempre no automático provavelmente nem sabe que ele existe. Mas quem costuma fazer fotos no modo manual sabe da importância do obturador. O obturador é usado em combinação com o diafragma. Enquanto este último ajusta a abertura do “espelho” (o mecanismo que deixa entrar a luz no filme), o obturador vai determinar o tempo desta abertura e da entrada da luz. Dependendo da combinação obturador-diafragma, vai entrar mais luz na câmera (e a foto vai ficar mais clara), ou o contrário (mais escura). Luz demais torra o filme, como a maioria dos fotógrafos deveria saber; luz de menos, deixa a foto preta.

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Aulas de fotografia à parte, chegamos à questão inevitável: será que um filme de horror oriental ainda tem alguma coisa para mostrar de diferente, agora que uma boa parte do público já está saturada de ver atores de olhinhos puxados enfrentando fantasmas femininos, com longos cabelos compridos, que andam de um jeito engraçado? Convenhamos: depois de Ringu, Ju-On e seus remakes – mais Dark Water, os The Eye e tantos outros que só estão disponíveis pela Internet -, muitas das estratégias usadas pelos cineastas orientais para provocar medo no espectador já viraram clichê. Especialmente aquelas cenas que incluem água, seja em poços, banheiras ou pias – e, pior, há uma cena dessas também em Shutter! Porém, e aí é que está a boa notícia, esta produção tailandesa vai na contramão do clichê. Tem a fantasma de cabelos longos? Sim, tem! Mas esta é a única semelhança que você vai ver entre Shutter e tudo que veio antes. Logo, não precisa ficar com o pé atrás…

A trama é centrada em Tun (Ananda Everingham), um jovem fotógrafo de Bangcok que nada tem de artístico, que está acostumado àqueles trabalhos burocráticos – tipo casamentos, aniversários de crianças e formaturas. Sua namorada, Jane (Natthaweeranuch Thongmee), é uma estudante de jornalismo. Mas a história não se preocupa com tempos mortos, vai apresentando os personagens em meio à ação e já começa indo direto ao ponto: logo nos cinco minutos iniciais, Tun e Jane estão bebendo na festa de casamento de um amigo do rapaz, Tonn (Unnop Chanpaibool). Eles saem de carro pela estrada escura, meio “altos” e “alegrinhos“, e, durante um momento de desatenção de Jane ao volante, uma garota atravessa a pista, sendo colhida em cheio pelo automóvel. Após a violenta batida, o carro vai parar em uma valeta, batendo em cheio numa placa. Tun machuca a cabeça no vidro da porta do passageiro e fica atordoado. Então Jane olha apavorada pelo retrovisor e enxerga o corpo da pedestre esticado no meio da estrada. Com medo, Tun se desespera ao ver que um carro se aproxima. E faz o pior que poderia fazer naquela situação: obriga a namorada a fugir correndo dali, deixando para trás a pedestre atropelada, sem prestar socorro.

No dia seguinte, Tun vai cumprir um de seus compromissos profissionais, fazendo fotos da formatura de uma turma na faculdade. Enquanto percorre as fileiras de formandos com sua câmera, ele tem a impressão de ver um vulto pálido em meio aos estudantes, que logo desaparece, num passe de mágica. Sem se abalar, achando que tudo é coisa da sua imaginação, o jovem volta para sua casa/estúdio e inicia o processo de revelação dos filmes. Mas ao mesmo tempo em que Tun leva a coisa na boa, Jane não consegue esquecer do que aconteceu na madrugada, muito menos do fato de terem deixado a moça atropelada no meio da estrada – provavelmente abandonando-a à morte.

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Sem dar ouvidos às preocupações de Jane, Tun vai ao laboratório de um velho amigo para pegar as fotos reveladas da formatura. É então que ele descobre, surpreso, que seu filme está “velado“. Ou seja: de alguma forma, entrou luz no filme e “manchou” as fotos com grandes riscos luminosos, brancos. Sem uma explicação para o fenômeno, Tun volta para seu estúdio e começa a examinar atentamente as fotografias. Descobre, então, que o mesmo vulto pálido aparece de perfil em uma das fotos. E, no primeiro grande susto do filme, o vulto na fotografia se vira e encara o fotógrafo com uma expressão assustadora, fazendo qualquer ser humano normal pular da cadeira – a cena é realmente apavorante e pega de surpresa. Enquanto isso, Jane também está vivendo seus próprios problemas, sofrendo com pesadelos e alucinações onde vê a moça ensanguentada que eles atropelaram. Movido pelos apelos insistentes da namorada, Tun investiga o que aconteceu com a vítima; porém, não descobre nenhuma informação plausível na delegacia ou nos hospitais da cidade – é como se a atropelada tivesse literalmente desaparecido!

Não demora muito para o casal desconfiar que há algo de sobrenatural nas fotografias. Eles vão até a redação de uma revista que trabalha com a publicação das chamadas “fotos espíritas“, aquelas que supostamente registram fantasmas e espíritos. Porém, logo se frustram ao verem um diagramador manipulando algumas fotografias, sem a menor vergonha na cara, criando, num programa de edição, “fantasmas” falsos para enganar os leitores. Mas o editor da revista (Abhijati Jusakul, que foi assistente de direção na superprodução americana Alexandre, de Oliver Stone) aparece para dizer que nem todas as fotos do gênero são falsas. Neste momento, o jornalista mostra a Tun e Jane algumas fotos “reais“, daquelas que circulam pela Internet, contendo toda uma variedade de espíritos e fenômenos esquisitos registrados em fotos (você certamente já recebeu alguma delas por e-mail). E explica: “Às vezes, os espíritos ficam ao lado de suas pessoas queridas. Estas fotos representam mais que lendas urbanas macabras. São sinais. Por que os mortos regressam ao mundo dos vivos? Eu acredito que estas sombras estão relacionadas com alguém que aparece na foto. Um pai, uma mãe, um amante… Ou alguém que cometeu alguma maldade àquela pessoa quando ela estava viva“. Sentiu o drama?

Tun, apesar de estar presenciando ele próprio alguns fenômenos macabros, não dá ouvidos ao editor e acredita que todas aquelas fotos fantasmagóricas são, na verdade, montagens. Então o editor da revista mostra uma pasta repleta de fotos Polaroid – aquelas câmeras instantâneas, que tiram fotos na hora, sem usar filme fotográfico. “Como você vai fazer montagem nestas?“, questiona o jornalista, deixando claro que aquelas fotos registram o momento e não poderiam ser alteradas. Pois aquilo mexe tantao com Jane que, à noite, analisando as estranhas fotos da formatura feitas pelo namorado, ela descobre que as sombras parecem sair da janela de um prédio da universidade, que aparece no fundo das imagens. Jane então consegue uma câmera Polaroid e vai até a tal sala – um laboratório de ciências. Ela está sozinha na sala e começa a fazer fotos instantâneas dos corredores desertos. A cada flash, a foto sai prontinha na frente da câmera, registrando a sala vazia. Porém, numa delas, aparece um vulto parado junto a uma prateleira! Essa era a gota d’água: Jane começa a relacionar os fenômenos fotográficos com a garota atropelada, descobrindo que ela era uma tímida estudante chamada Natre (Achita Sikamana).

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Qual a relação de Natre com Tun e Jane? O que aconteceu na noite do atropelamento? Será que Natre está morta e quer infernizar a vida do casal por ter lhe negado socorro? Ou está viva e aqueles fenômenos fazem parte de um plano maior, tipo Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado? É isso que Tun e a namorada tentam descobrir, já que os amigos do fotógrafo começam a morrer como moscas, em supostos “suicídios“. Tudo parece estar ligado a algum fato obscuro no passado de Tun, e logo o casal de heróis se entrega a uma investigação que rende diversos sustos, aparições fantasmagóricas e reviravoltas surpreendentes – quando você acha que já “captou” tudo sobre a trama, um novo detalhe surge para mudar o que você já tinha como certo! E, conforme citei anteriormente, a sucessão de fatos macabros vai se encaminhando à chocante conclusão, numa daquelas imagens que dificilmente vai sair da sua cabeça por um bom tempo – mais ou menos como a visão de Sadako atravessando a tela da TV para o mundo dos vivos no já clássico Ringu. Prepare-se para ficar com os nervos literalmente à flor da pele!!!

Shutter é uma verdadeira aula de cinema de horror. Efeitos especiais, quase não há – e eles não fazem a menor falta! A maior parte dos sustos está ligada aos efeitos sonoros. Sabe quando algo vai acontecer e a música vai subindo, subindo, subindo… até aquele TCHAN! que te faz pular da cadeira? Pois é, os americanos também aprontam dessas de vez em quando, mas a diferença é que eles são uns enganadores, que adoram usar o artifício em sustos falsos – por exemplo, o TCHAN! é seguido de um gato pulando do armário ou de um amigo da mocinha que veio por trás e lhe deu um susto. Aqui não: toda vez que a música começa a ficar sinistra, pode se preparar que o susto vem, e não é susto falso, sempre vem coisa feia pela frente! O máximo de “efeito especial” no filme é fazer a imagem em uma foto se mover. Ora, quantas vezes isso já foi mostrado pelo cinema antes? E mesmo assim o “clichê” não tira o impacto da cena. Outro “efeito especial” é a fantasma andando como aranha, outra coisa que não é lá muito novidade, mas que continua assustando…

E o que dizer da figura da fantasma que inferniza a vida de Tun e Jane? Ora, não pense naqueles fantasmas feitos em computação gráfica no cinema americano, ou mesmo nas bizarrias compostas por Stan Winston, Tom Savini e outros especialistas de efeitos especiais. Na verdade, o fantasma de Shutter é bem parecido com aquele da série Ju-On: trata-se de uma garota com o rosto branco e umas lentes de contato sinistras, eventualmente com algum sanguinho no rosto, mas normalmente apenas pálida. Sem graça, você acha? Pois prepare-se para morrer de medo da dita cuja! Em alguns momentos, acredite, ela consegue colocar no chinelo até a famosa Sadako! E já que citei Ju-On, é interessante comprovar que tanto neste quanto em Shutter existem cenas onde o protagonista é assombrado em sua própria cama, normalmente o local onde pensamos estar mais seguros e protegidos. No caso, em Shutter, a fantasma lentamente puxa o cobertor de Tun enquanto ele tenta dormir. Caramba, quantas vezes, na infância, a sua mãe lhe disse que um fantasma iria lhe puxar o cobertor caso não se comportasse? Pois o filme evoca não só os “medos modernos“, ligados à tecnologia, mas também estes medos da infância, como o pavor de não estarmos protegidos nem mesmo debaixo das cobertas de nossa própria cama!

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Além dos efeitos sonoros e da maquiagem da fantasma, Shutter conta ainda com uma arrepiante trilha sonora, que realça os momentos mais sinistros. A cena em que Tun e Jane olham as fotografias espíritas é macabra, em grande parte, por causa da música de Chartchai Pongprapapan – até porque muitas das fotos mostradas são evidentemente montagens. Porém, com a trilha que embala a cena, você quase começa a acreditar em fantasmas. E é a música também que ressalta a – lá vamos nós de novo – chocante imagem final.

Não bastassem tantas qualidades, o filme ainda se desenvolve com rapidez, empilhando os sustos um atrás do outro, sem tempo para deixar o espectador respirar. A maior parte dos sustos explora lugares comuns, principalmente salas escuras. Este, por sinal, é mais um pavor da infância evocado pelo roteiro: o medo do escuro. Para completar, quase todos os sustos funcionam, e vários são completamente imprevisíveis. Shutter também acerta ao mostrar o mínimo, preferindo assustar o espectador ao esconder o que os personagens vêem – muitos, por exemplo, terão um ataque de ansiedade na cena em que Tun fica preso numa sala escura, iluminada apenas por repentinos flashes das câmeras fotográficas! Por estes fatores citados – efeitos sonoros, maquiagem simples, trilha macabra e ritmo -, é que eu recomendo que Shutter seja visto com todo aquele “clima” necessário para a imersão total na assustadora trama. Não com adolescentes lambões gritando e conversando ao redor.

Por estes fatores citados – efeitos sonoros, maquiagem simples, trilha macabra e ritmo -, uma coisa deve ficar clara desde logo: Shutter é um filme para você ver sozinho, no escuro, com as portas fechadas e sem nenhum ruído que o distraia. Somente assim se consegue a imersão total na assustadora trama, e o clima de medo irá funcionar de maneira bem mais eficiente. Pelo menos comigo funcionou direitinho: em certos momentos, além de pular da cadeira, cheguei a ficar com vontade de acender a luz! Este, definitivamente, não é um filme para você ver no cinema cheio de adolescentes berrando e celulares tocando, ou então na sala de casa durante uma festa, ao lado dos amigos bêbados. Nada disso: para valer realmente a pena, dedique 1h37min para curtir Shutter a sós, no máximo com a namorada ou namorado ao lado, mas sem muita conversa para não quebrar o clima. E prepare-se para ficar literalmente apavorado!

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No final, como é comum nas produções orientais, algumas coisas ficam sem explicação. Acontece que os filmes vindos do Oriente privilegiam mais o medo e menos as justificativas, ao contrário do que fazem as produções ocidentais. Uma coisa que nunca fica bem clara é o porquê do acidente de carro no começo (quem viu o filme sabe do que estou falando). Falta ainda também uma justificativa para o tempo que a fantasma esperou para iniciar sua “vingança” (outra dúvida que só vai fazer sentido para quem já viu). Se o roteiro não se preocupa em explicar estes detalhes, por outro lado não faz a menor diferença: a trama é tão bem bolada (e simples!) que você aceita com naturalidade os acontecimentos, e só vai se questionar sobre alguns detalhes bem depois que o filme terminou. Para arrematar: Shutter é um filme que você provavelmente vai ter que ver duas vezes, para pinçar algumas coisas que ficam meio “no escuro” na primeira vez. Só vou deixar uma pista: um dos elementos aparentemente mais importantes da trama na verdade NÃO tem nada a ver com o que acontece!

Shutter é o primeiro filme de uma dupla de diretores tailandeses que logo deverá estar sendo contratada para trabalhar em Hollywood. Seus nomes são complicados e não muito fáceis de lembrar: Banjong Pisanthanakum e Parkpoom Wongpoom. O roteiro foi escrito pela dupla com a ajuda de um terceiro homem, Sopon Sukdapisit. Nenhum dos três têm lá muita experiência no cinema – e a maior parte do elenco está aqui trabalhando em seu primeiro filme. Mas os diretores já demostram ter um grande conhecimento, principalmente ao reaproveitar clichês já manjados do gênero. A forma como eles trabalham o suspense é primorosa, e Shutter ainda tem alguns momentos incríveis. Um deles é o take único em que Tun vê um amigo se atirando da sacada de um prédio; ele então corre até a sacada, SEM CORTES, e vê o corpo estatelado sobre um carro, no térreo!!!

O filme de Banjong e Parkpoom estreou nos Estados Unidos num pequeno festival de cinema, sem grandes divulgações (até porque muitos pensavam que era apenas mais um terror oriental). Mas logo acabou gerando uma fantástica propaganda boca-a-boca. Alguns espectadores saíam verdadeiramente aterrorizados do cinema, pálidos e tremendo, chamando a atenção de outros que queriam ver o que havia ali de tão aterrador. Surpreendentemente, as críticas negativas eram mínimas, e normalmente feitas por aqueles chatonildos de plantão. Por isso, antes que você possa dizer “remake“, o blá-blá-blá chamou a atenção dos olheiros dos grandes estúdios americanos. Estes executivos ianques não perdem tempo, não é mesmo? Eu até pensei que o original só iria chegar no Brasil quando lançassem o futuro remake americano, mas felizmente desta vez nossas distribuidoras foram mais ágeis (mas nem tanto). Só não foram tão espertas no título nacional.

Na minha análise anterior, publicada em 2005, eu até tinha escrito que não era espantoso se Shutter ganhasse um título nacional imbecil, como Fotografias Mortais, O Fotógrafo Assombrado ou Pânico na Fotografia. E não é que a distribuidora se superou e mandou um Espíritos (já existem pelo menos três filmes com este título nacional, incluindo aquele do Peter Jackson), com um subtítulo dos mais nefastos, A Morte está ao Seu Lado? Até Pânico na Fotografia ficaria melhor… Pelo menos, a distribuidora criou uma divertida forma de marketing, colocando no ar um blog com considerações de um suposto fotógrafo que estaria fazendo imgens de fantasmas – e que, claro, vem a ser Thun, o personagem principal de Shutter. A brincadeira deu certo, atraindo vários curiosos em fotografia espírita. Bem, já finalizando, se você, como muitos chatonildos por aí, acha que o terror vindo do Oriente já deu o que tinha que dar, Shutter é o filme ideal para fazê-lo mudar de ideia. Sem sombra de dúvida, uma das melhores e mais bem-boladas histórias de fantasmas em muitos anos – além de verdadeiramente assustadora. Claro, sempre tem aqueles que pensam que os filmes japoneses, chineses, tailandeses, coreanos, etc. são todos iguais, com suas meninas-fantasmas de cabelo comprido que aparecem e desaparecem de repente. Agora, se você também pensa assim… Meu amigo, você está cometendo uma injustiça sem tamanho!

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A Morte em cada flash!

Talvez até você pense, depois de ler esta análise, que Shutter é mais uma cópia de O Chamado e de O Grito – até porque algumas cenas envolvem água e cabelos compridos, e até porque os fantasmas de Shutter e O Grito são bem parecidos. Porém as semelhanças param por aí: Shutter é uma história original – apesar de simples. E se você não tem o discernimento de perceber a diferença entre todas estas produções, e continua achando que filme oriental é tudo igual, acho que o negócio é você continuar de quatro para o cinema americano, onde os filmes são bem diferentes uns dos outros e os roteiros são originalíssimos – quantas vezes os filmes made in EUA mostraram assassinos mascarados correndo atrás de adolescentes, mesmo? E para quem não gosta do cinema oriental, sempre existirá a produtora Dark Castle e seus “filmaços de horror” cheios de efeitos especiais e garotas peitudas, como 13 Fantasmas e A Casa de Cera

Agora, se você é um espectador de cabeça aberta, ciente que o horror se faz com histórias assustadoras e sem abusar dos efeitos especiais, então o negócio é render-se a Shutter – e preparar-se para ficar com receio toda vez que for tirar uma fotografia em algum lugar ermo. Quem sabe não sai uma pessoa indesejada – e inexistente! – na imagem??? Você nunca mais vai olhar do mesmo jeito para aquelas manchas e sombras que às vezes aparecem nas fotos…

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10 Comentários

  1. Crítica espetacular, mas infelizmente não pude assistir ao filme de maneira adequada, pois meu irmão ficou no quarto jogando vídeo-game alto e me atrapalhou.
    Cara, eu MATARIA por um pouco de privacidade.

  2. Rafael

    Melhor filme de terror

  3. Carlos Valente Valente

    Eu sou fã dessa cultura oriental desde os tempos de Jaspion e companhia (risos) e, desde então, eu sou um consumidor de assistir filmes, animes, e tudo o que é ligado à cultural oriental!! Pois bem, falando neste filme, que acabei de ver, hoje, sexta-feira (15/07/2016), às 04h16min da madrugada, só posso dizer umas coisas: “Realmente, dá muitos sustos mesmo e, como é tradicional no cinema oriental, segundo as palavras do Felipe: “No final, como é comum nas produções orientais, algumas coisas ficam sem explicação. Acontece que os filmes vindos do Oriente privilegiam mais o medo e menos as justificativas, ao contrário do que fazem as produções ocidentais”. Além disso, o filme é excelente e cheios de reviravoltas, o que é comum em produções orientais, porque falo por experiência, porque, como eu disse anterior, assisti – e continuo assistindo, até os dias de hoje, produções orientais, neste caso, japonesas, tais como, Jaspion e companhia, pois são cheios desse recurso que, por sinal, funciona muito bem!! Por fim, o final, além de ser sinistro e com reviravolta, realmente, não é o que aparenta ser, mais uma vez, segundo as palavras do próprio Felipe: “Só vou deixar uma pista: um dos elementos aparentemente mais importantes da trama na verdade NÃO tem nada a ver com o que acontece! Bem, esse é a minha (grande) opinião sobre esse espetacular filme!! Até mais, pessoal!! [^J^]

  4. Flavi

    Que resenha prolixa! Incontáveis vezes você cita os “chatonildos do cinema”. Mas o filme é, de fato, muito bom. Vi há anos e não esqueço a cena final.

  5. Filmaço, com final surpreendente. Esqueça o remake lixoso americano.

  6. Cristiano

    Muito bom este filme, a cena final é aterrorizante, muito bom.

  7. robert dos santos

    Gente amei adorei esse filme e mt foda ! Gente eu amo filmes orientais e seus remakes….o grito e o chamado tiraram minha noite de sono por 2 semanas……amo esses filmes de mulheres com cabelo na cara ! Mt foda
    ……pra mim nao precisa de sangue e sexo pro filme ser bom…e sim uma historia q te prenda e faca vc ficar a espera de novos acontecimentos coisa q o chamado…o grito….e shutter souberam fazer mt bem…..o procimo filme da lista e A TALE OF TOW SISTERS…..se for bom como os filmes orientais e remakes q eu assisti vai ser otimo !

  8. Fabio Rodriguez

    Vi Shutter pela primeira vez há pouquinho tempo mas infelizmente não foi nas condições mais adequadas. Alguém havia me feito a mesma recomendação – ver o filme sozinho, com todas as luzes apagadas e com o som bem alto – mas eu não dei muita bola.

    Se arrependimento matasse…

  9. Paulinha

    Show de bola um dos melhores que eu já ví!

  10. vanessa vasconcelos

    mesmo eu não sendo muito fã de filmes dessa galerinha dos olhinhos puxados,fiquei com muita vontade de assistir esse filme,crítica muito boa hein rapaz? tá de parabéns 🙂

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