Críticas

Demons – Filhos das Trevas (1985)

Trata-se de uma verdadeira brincadeira com o cinema do horror, em que Bava usa de metalinguagem para criar uma orgia de sangue e mutilações!

Demons (1985)

Demons - Filhos das Trevas
Original:Demons / Demoni
Ano:1985•País:Itália
Direção:Lamberto Bava
Roteiro:Dardano Sacchetti, Dario Argento, Franco Ferrini, Lamberto Bava
Produção:Dario Argento
Elenco:Bettina Ciampolini, Bobby Rhodes, Fabiola Toledo, Fiore Argento, Geretta Geretta, Guido Baldi, Jasmine Maimone, Karl Zinny, Lamberto Bava, Marcello Modugno, Michele Soavi, Natasha Hovey, Nicole Tessier, Nicoletta Elmi, Paola Cozzo, Sally Day, Stelio Candelli, Urbano Barberini

Eles farão dos cemitério as suas catedrais, e das cidades os seus túmulos. – Nostradamus

Quem se diz fã de filmes de horror e nunca viu Demons, bom sujeito não é…

Dirigido por Lamberto Bava em 1985, Demons é um dos mais famosos filmes de horror italianos de todos os tempos, além de um dos clássicos dos splatter movies, em alta no período com suas mortes e efeitos exageradamente sangrentos – que hoje foram atenuados em produções descartáveis como Pânico e Lenda Urbana. Já vi centenas, talvez milhares de filmes de horror, mas alguns são tão bons, tão bem bolados, que podem ser vistos e revistos muitas vezes sem jamais perder sua força, sua criatividade e intensidade. São filmes como Evil Dead, O Massacre da Serra Elétrica, Zombie, de Lucio Fulci, e este Demons, que eu não canso de rever e parece melhor a cada vez que se assiste.

Mesmo visto várias vezes, Demons mantém suas surpresas. Trata-se, na verdade, de uma verdadeira brincadeira com o cinema do horror, em que Bava usa de metalinguagem (filme dentro de filme) para criar uma verdadeira orgia de sangue e mutilações. O roteiro excelente foi escrito pela gema do horror italiano: Bava, Dario Argento, Franco Ferrini e Dardano Sacchetti (autor da ideia).

Tudo começa numa estação de metrô, ao som de uma clássica (para adoradores de horror) trilha sonora de Claudio Simonetti, que tornou-se tão famosa quanto o filme. Para quem não sabe, Simonetti era integrante do grupo Goblin, especializado em trilhas sonoras para filmes de horror – fizeram, por exemplo, a música sinistra de Dawn of the Dead, de George A. Romero.

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No prólogo, Cheryl (Natasha Hovey) desembarca em um ponto deserto da estação de metrô e se assusta com a presença de uma figura ameaçadora, vestida de negro e usando uma arrepiante máscara prateada. Ao perceber que o desconhecido está lhe seguindo, ela corre… mas o homem a alcança quando ela menos espera!

Não, não é um serial killer. Na verdade, o misterioso personagem (interpretado por Michele Soavi, diretor de segunda unidade do filme que estrearia como cineasta em 1987, com o O Pássaro Sangrento) está distribuindo convites para a reinauguração de um velho cinema, o Metropol. Cheryl consegue convencer uma amiga, Kathy (Paola Cozzo), a lhe acompanhar até o cinema, onde um variado grupo de pessoas já está esperando pelo início da sessão.

No saguão, somos apresentados aos personagens principais: os amigos George (Urbano Barberini, que depois apareceria em Terror na Ópera, de Dario Argento) e Ken (Karl Zinny); o cafetão Tony (Bobby Rhodes, de Apocalypse 2, divertidíssimo em seu tradicional papel de macho man) acompanhado de duas prostitutas, casais de namorados e até um senhor cego (foi fazer o quê no cinema, caramba????), acompanhado pela infiel esposa – que lhe trai no primeiro momento, no escurinho do cinema.

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No mesmo saguão há a escultura de uma figura oriental, sobre uma motocicleta, com um sabre ninja em uma das mãos e uma misteriosa máscara metálica na outra. O cego sente estranhas vibrações vindas da máscara, mas é tarde demais: uma das prostitutas já a pegou para assustar a amiga. Ao retirá-la, porém, arranha o rosto.

A sessão começa: o filme, claro, é de horror. Imagens do filme que está sendo exibido se misturam com as do filme que nós, espectadores reais, estamos assistindo. No roteiro exibido na telinha do cinema, um grupo de amigos visita as ruínas de um castelo e encontra o túmulo do profeta Nostradamus. Detalhe: um dos amigos é interpretado por Michele Soavi, em seu segundo papel no filme!

No túmulo de Nostradamus, os rapazes encontram o fragmento de uma profecia: Eles farão dos cemitério as suas catedrais, e das cidades os seus túmulos (a frase virou tagline do filme e foi parar no cartaz). Um dos amigos encontra também uma misteriosa máscara e, ao colocá-la, também se fere no rosto, como tinha acontecido com a prostituta no saguão!

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Enquanto no filme projetado o rapaz ferido se transforma em demônio, a moça ferida na plateia também começa a se sentir mal. No banheiro, começam os efeitos melequentos de Sergio Stivaletti: ao se olhar no espelho, a ferida no rosto incha e explode, liberando um jorro de sangue e pus. Em segundos, a garota se transforma no primeiro demônio (demon) do cinema, mas certamente não o único: arranhões ou mordidas vão espalhando o contágio (como acontece nos filmes de zumbis), e em breve um grupo de poucos sobreviventes terá que buscar uma fuga e combater o número crescente de demônios. Mas portas do cinema estão misteriosamente trancadas e parece não haver fuga…

Se a situação em si já é macabra, Bava ainda consegue levar o espectador ao puro suspense, com os heróis ficando confinados em espaços cada vez mais fechados (como John Carpenter fez em Halloween), de onde parece não haver escapatória, deixando a chance de uma salvação cada vez mais distante.

Demons, no fundo, é uma revitalização dos filmes sobre mortos-vivos, que faziam sucesso nos anos 70, mas estavam em declínio na década de 80. Até então, George A. Romero tinha filmado o fim de sua trilogia sobre zumbis, O Dia dos Mortos, e Dan O’Bannon dirigido seu clássico terrir A Volta dos Mortos-Vivos. Mas o gênero estava em decadência, principalmente pelo grande número de títulos feitos na Itália por Lucio Fulci, Bruno Mattei, Umberto Lenzi e outros malucos. Portanto, ao invés de simplesmente fazer mais um filme com mortos cambaleantes levando tiros na testa, Bava resolveu optar por demônios que, ao contrário dos mortos-vivos tradicionais, têm enorme velocidade e agilidade, tornando a fuga ainda mais difícil. É quando os poucos sobreviventes do filme resolvem arregaçar as mangas e lutar, com as armas que têm à mão. Mas a resistência é inútil, pois a praga já se espalhou por toda a cidade. O final, obviamente, deixa pouca esperança, tanto ao espectador quanto aos personagens.

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Os efeitos especiais são excelentes: há uma famosa cena onde os demônios caminham por um dos corredores escuros do cinema, com os olhos iluminados – de tão boa, a cena foi parar no cartaz do filme. A transformação de pessoas em demônios é o ponto alto, com ótima maquiagem e cenas de nojo explícito. Stivaletti faz uma ponta como uma das vítimas do cinema. O splatter também corre solto, com muito sangue jorrando e membros decepados, ao som do hard rock de Billy Idol, Mötley Crue e outras bandas famosas dos anos 80. Um dos melhores momentos é quando George sai pilotando uma motocicleta em alta velocidade pelo interior do cinema enquanto decepa cabeças e braços dos demônios com uma espada samurai – cena que seria repetida depois, de forma bem mais exagerada, no final de Fome Animal, quando o herói combate zumbis com um cortador de grama, também cortando cabeças e braços.

O filme é simplesmente o melhor da filmografia de Bava (repare na sua aparição relâmpago à la Hitchcock, na cena do metrô). Nascido em 1944, ele é filho do lendário diretor Mario Bava, um dos mestres do cinema de horror italiano – Banho de Sangue, feito nos anos 60, influenciou os slasher movies americanos, como Sexta-feira 13. Lamberto dirigiu 32 filmes, contando as bobagens feitas para a TV, e estreou na direção na metade dos anos 70. Antes, porém, fez uma espécie de estágio, trabalhando como diretor de segunda unidade em alguns clássicos do horror italiano, como Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato, e Inferno de Dario Argento. Foi trabalhando em Inferno que começou a amizade entre os dois, amizade esta que gerou Demons – não se sabe se foi Bava ou Argento que mais influenciou o filme, mas vale ressaltar que, sem contar os dois Demons, a filmografia de Lamberto é muito pobre, com bobagens como Banquete com o Vampiro e O Terror Não Tira Férias.

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Outro detalhe fundamental: Demons também tem suas sequências esquisitas ou mal-explicadas, aliás, como a maioria dos filmes de horror italianos. O roteiro deixa algumas pontas soltas – também, foi escrito por quatro pessoas! Por exemplo: desde o início fica claro que o cinema é, na verdade, uma armadilha para os espectadores. Mas nunca fica claro quem está por trás disso e por quê. Enquanto o rapaz que distribui ingressos (Soavi) se revela um dos vilões, inclusive atacando os heróis no final, uma misteriosa funcionária do cinema, que parece a par da trama – ela olha de forma sinistra para a prostituta quando esta se machuca com a máscara que dá origem à toda confusão -, se torna uma das vítimas dos demônios.

Mas são detalhes que não desmerecem em nenhum momento a diversão de assistir a este excelente espetáculo, obrigatório para fãs do gênero e simplesmente um dos melhores filmes de horror italianos do período. Infelizmente, depois deste sucesso, Lamberto Bava nunca mais fez um filme que prestasse: ele praticamente copiou o enredo na sequência picareta, Demons 2, lançada no ano seguinte (com roteiro escrito novamente pelo quarteto Bava, Argento, Ferrini e Sacchetti), e em seguida se perdeu fazendo filmes menores, acabando a carreira na direção de filmes infantis e as tais produções para a TV. Um fim inglório para um mestre, que ainda tentou uma virada no final dos anos 80, refilmando, sem melhores resultados, um clássico dirigido por seu pai na década de 60, A Máscara do Demônio. Não fez diferença: ninguém viu e ninguém quis ver.

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6 Comentários

  1. Daniel

    Depois de Ver um Filme desses Anos 80 me digam uma coisa da vontade de olhar outro? ainda mais lixos da modernidade vou dizer a coisa mais rara é ver um filme de terror/horror com intensidade medo de deixar você com as pernas duras isso não é apenas filme de terror é uma obra na Qual merecia um Oscar por tudo que o filme nos passa Historia,Cenário coisas que acontecem do nada deixando o filme tenso e assustador ou seja um Gênio não precisa mutilar Animais,não precisa invocar Espíritos,muito menos Torturar pessoas ou mortes Desenfreadas ele apenas colocou um Cenário com uma Historia sensacional e seus personagens com mudanças Repentinas Assustadoras só que pra não ser algo repetitivo ele em vez de colocar Zumbis colocou o coisa Ruim eta filme Espetacular se eu ficar falando de todas as cenas ficarei até amanhã falando mas o que eu achei mais Fantástico foi que o Negocio se alastrou em toda a Cidade Simplesmente Incrível!!!!!

  2. Rodrigo

    Amigo, a cena da moto no cinema tem como trilha musical , nada mais, nada menos, que a música “fast as a shark” do Accept. Não precisa dizer mais nada. É um dos meus filmes preferidos, e coloquei meu filho pra ver, com 12 anos, se bem que pra geração dele isso é café com leite. Pra mim já não foi… kkk.

  3. filmes asim e bem asustador mas quem gosta igual eu que temn 9 anos gosta mas filmes puros igual este eu nao gosto

  4. Morecgo

    Sem duvida a combinação perfeita de Sangue+Matança+Mutilação+Gore+Rock-n-Roll.
    Juntos, DARIO ARGENTO, LAMBERTO BAVA e MICHELE SOAVI criaram um verdadeiro clássico do Terror Italiano, com tudo que tem direito!
    Ainda não assisti a continuação, mas acredito que deve ser muito bom!
    Cinco anos depois, os três se juntaram novamente para a conclusão da Trilogia Demons, em “A Catedral”, dirigido por Soavi, e escrito por ele, em parceira com Argento e Bava.
    Os três Mestres do Terror Italiano Moderno nos ensinaram como fazer uma verdadeira orgia gore.

  5. wanderson

    Nossa assisti esse filme quando era criança e foi ele que me fez gostar de filmes de terror, muito bom

  6. vanessa vasconcelos

    quero ver tbm 🙂

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