Críticas

O Anticristo (1974)

Uma cópia assumidamente barata do filme americano, mas que pode ser vista com suas próprias qualidades e virtudes!

O Anticristo (1974)

O Anticristo
Original:L'anticristo
Ano:1974•País:Itália
Direção:Alberto De Martino
Roteiro:Gianfranco Clerici, Alberto De Martino, Vincenzo Mannino
Produção:Edmondo Amati
Elenco:Carla Gravina, Mel Ferrer, Arthur Kennedy, George Coulouris, Alida Valli, Mario Scaccia, Umberto Orsini, Anita Strindberg, Remo Girone, Ernesto Colli, Bruno Tocci, Beatrice De Bono, Vittorio Fanfoni, Luigi Antonio Guerra

Uma jovem muda violentamente de comportamento, tornando-se agressiva, ao mesmo tempo em que estranhos fenômenos sobrenaturais passam a acontecer na sua casa. Quando a medicina convencional não encontra nenhuma resposta para o caso, conclui-se que a garota está possuída pelo demônio, e apenas um velho exorcista poderá libertá-la dos terríveis poderes do Mal.

Você já viu este filme, certo? Mas, ao contrário do que parece, não estamos falando de O Exorcista, a produção americana lançada em 1973 que tornou-se um dos maiores clássicos do cinema de horror, levando multidões ao cinema em todo mundo. O roteiro em questão também se encaixa a uma produção de baixo orçamento feita em Roma um ano depois, justamente para aproveitar a alta bilheteria mundial de O Exorcista. O filme italiano se chama L´Anticristo, ou, no Brasil, O Anticristo, uma cópia assumidamente barata do filme americano, mas que pode ser vista com suas próprias qualidades e virtudes – embora seja prejudicada pelos péssimos efeitos especiais.

O Anticristo só existe porque existe O Exorcista. Inspirado no livro homônimo de William Peter Blatty (que por sua vez se inspirou no registro verídico de um exorcismo realizado em 1949, no Estado americano de Maryland), O Exorcista chama a atenção por uma série de fatores. O principal deles é que, na época, grandes estúdios não se envolviam com filmes de horror – que eram bancados por produtoras independentes, e geralmente eram filmes de baixo orçamento. No caso de O Exorcista, a Warner envolveu-se na produção, pagando 600 mil dólares pelos direitos sobre o livro de Blatty. A produção, que tinha um elenco “sério” e composto por grandes nomes, como Ellen Burstyn e Max Von Sydow, custou em torno de 11 milhões de dólares. Foi um sucesso estrondoso, com pessoas esperando horas nas filas de cinema para se apavorar com o filme. Entrou para a história como uma das maiores bilheterias de todos os tempos. No Brasil, foi o quinto filme mais assistido até hoje, levando 8 milhões de espectadores ao cinema (atrás de sucessos como Tubarão, com 13 milhões, e ET – O Extraterrestre, com 8,1 milhões de ingressos vendidos).

Sempre que um filme fazia sucesso naquela época, pequenos estúdios italianos corriam para aproveitar o fenômeno, lançando filmes semelhantes, com orçamento bem menor e equipe técnica escondida atrás de pseudônimos em inglês. A ideia era dar uma cara de “filme americano” a qualquer tralha que lançassem e depois jogar nos cinemas europeus e americanos, para aproveitar uma fatia da bilheteria. Foi assim com os filmes de zumbis, com os filmes no futuro pós-apocalíptico, com os filmes na linha “Rambo” e também com O Exorcista.

Estamos em Roma, no final de 1973. Um pequeno estúdio chamado A-Erre Cinematografica, dirigido pelo produtor picareta Ovidio Assonitis e por Giorgio Rossi, se espanta com os números de O Exorcista e resolve fazer uma história barata sobre possessão demoníaca. Na Itália, o filme americano só seria lançado em setembro de 1974, por isso havia tempo de fazer uma cópia com o mesmo tema e lançar algumas semanas depois do original, faturando alto. Surgia assim o roteiro de Chi Sei?, rebatizado Beyond the Door nos Estados Unidos e lançado no Brasil como Espírito Maligno.

Enquanto Assonitis iniciava o seu filme (inclusive assumindo a direção, com o pseudônimo Oliver Hellman), com Juliet Mills e Richard Johson no elenco e um orçamento “milionário” de um milhão de dólares (dez milhões a menos que o orçamento de O Exorcista), outras produtoras italianas ficaram sabendo do sucesso do filme de William Friedkin e também de que já havia gente na Itália tentando faturar em cima do fenômeno. Por isso, o produtor Edmondo Amati não pensou duas vezes e saiu correndo em busca de um roteiro e de um diretor para fazer a “sua” versão barata de O Exorcista.

Amati tinha acabado de ver um filme policial italiano com direção de Alberto De Martino, Il Consigliori, feito em 1973, e que copiava O Poderoso Chefão. O que espantou o produtor foi a rapidez e praticidade do cineasta, além de sua técnica para contornar os orçamentos irrisórios e mesmo assim fazer bons filmes. Dizia-se, na época, que os filmes feitos por De Martino não tinham a cara do orçamento irrisório que ele usava. Amati resolveu, então, contratá-lo para fazer “um filme de horror sobre possessão demoníaca“. De Martino nunca tinha feito um filme de terror antes, então aliou-se a Gianfranco Clerici (que mais tarde escreveria o roteiro de Cannibal Holocaust) e a Vincenzo Mannino (roteirista do posterior Os Predadores de Atlântida), para juntos escreverem um roteiro chamado L´Anticristo.

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Quatro meses antes do lançamento de O Exorcista nos cinemas italianos, enquanto Assonitis tinha a maior parte de Espírito Maligno pronta – e filmava algumas cenas de exteriores nos Estados Unidos, em San Francisco -, De Martino começava a filmar O Anticristo em Roma. O produtor Amati, tentando dar uma rasteira em Assonitis, liberou algumas liras a mais na produção para que fosse contratado um elenco de nomes com mais destaque. Assim, O Anticristo contaria com Mel Ferrer (que fez vários filmes italianos e americanos na época, como Os Vivos Serão Devorados, de Umberto Lenzi, e Eaten Alive/Horror Hotel, de Tobe Hooper), Arthur Kennedy (do clássico filme de zumbis Let Sleeping Corpses Lie, feito no mesmo ano e também produzido por Edmondo Amati), Alida Valli (que depois faria Suspiria, com Dario Argento) e George Coulouris (que apareceu em filmaços como Cidadão Kane e Papillon), além de contratar o famoso Ennio Morricone para compor a trilha sonora.

Em setembro de 1974, finalmente, O Exorcista entrou em cartaz na Itália, quebrando o recorde de bilheteria que pertencia ao polêmico O Último Tango em Paris. Amati farejou cheiro de ouro, acreditando que O Anticristo seria o filme do ano no país. Infelizmente, acabou apanhando da outra produção picareta feita na mesma época, o Espírito Maligno de Assonitis. Isso porque o filme de Assonitis estreou antes, em novembro, faturando 3 milhões de dólares nas bilheterias – restando apenas migalhas para O Anticristo, que foi lançado um mês depois, em dezembro de 1974.

É uma pena, porque na comparação entre as duas produções italianas, O Anticristo é muito superior a Espírito Maligno. Percebe-se claramente a intenção de Amati e De Martino em fazer não apenas uma cópia de O Exorcista, mas um filme com história semelhante e suas próprias qualidades. A produção de Assonitis, por outro lado, é chata, enrolada e totalmente chupada do filme americano, em seus vômitos e levitações classe B. Em entrevista na época, o produtor/diretor de Espírito Maligno chegou a comentar, sem constrangimento: “Nós não estamos aqui para fazer filmes autorais, mas para dar entretenimento ao público. Estamos no negócio apenas para ganhar dinheiro“. Do outro lado, De Martino dava entrevistas comentando as qualidades da sua obra e as diferenças em comparação com O Exorcista.

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Como podemos ver, são dois filmes com intenções distintas, embora os produtores de ambos estivessem, sim, de olho na grana fácil. “Naturalmente, com o sucesso de O Exorcista, eu não tive dúvidas em fazer O Anticristo. Mas eu o considero um filme diferente. Há principalmente diferenças culturais, O Anticristo se passa em Roma, onde temos o Papa, a Praça de São Pedro e toda a hierarquia eclesiástica“, explicou De Martino, em entrevista feita em 2002, para o DVD americano de O Anticristo.

Analisando friamente, descontando o oportunismo, a chupação de O Exorcista e alguns efeitos especiais muito fracos, o filme italiano tem mais qualidades do que defeitos, e pode ser comparado, sem fazer feio, à famosa produção americana. Enquanto o filme de William Friedkin tem uma história bem simples (a menina fica possuída e o padre vai exorcizá-la), O Anticristo envolve ainda detalhes como regressão, vidas passadas, vodu, repressão sexual, magia negra, um toque de incesto, uma orgia satânica e até a Inquisição. “Eu estava buscando as emoções mais fortes possíveis“, justificou o diretor.

O Anticristo gira em torno de Ippolita Olderise (Carla Gravina), filha de um importante príncipe do Vaticano, Massimo Olderise (Mel Ferrer). Em consequência de um acidente de automóvel acontecido na infância, onde sua mãe morreu, Ippolita tem sérios problemas psicológicos, que estão fazendo com que a moça perca, gradativamente, o movimento das pernas. Mesmo cética quanto à religião, ela começa o filme indo com o pai participar da romaria ao famoso santuário de Lourdes, em Fátima, Portugal, onde, supostamente, Nossa Senhora das Sete Dores teria aparecido a três pastores no início do século 20.

As cenas em Lourdes são bem interessantes. Em um estilo praticamente documental, De Martino filma imagens de procissões, fiéis se martirizando e se humilhando pelas ruas, tendo espasmos corporais como se possuídos, arrastando-se pelo chão e até lambendo o piso sujo em sinal de devoção. No santuário, existe uma imagem da santa, supostamente milagrosa. Uma mãe desesperada leva sua filha, que parece possuída, para tocar a imagem. Ela grita em desaprovação, insultando a santa: “Você quer que eu toque nesta vaca?“. Quando finalmente encosta na estátua, a garota volta ao normal.

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Ippolita emociona-se com a cena e acha que também alcançará uma graça. Quando tenta andar em direção à santa, entretanto, sente as pernas fracas e cai. A cura milagrosa, para ela, não veio. A jovem decide, então, que a solução não está na fé – e esta fica enfraquecida, facilitando a entrada do demônio. Ao mesmo tempo, um outro rapaz, também possuído, é levado para perto da estátua, mas consegue fugir e se suicida, atirando-se de um enorme penhasco.

De volta a Roma, Ippolita reinicia sua rotina de angústia e depressão, confinada ao seu quarto e a uma cadeira-de-rodas. Mas o demônio já começa a dar seus sinais. O primeiro é uma imagem de Cristo bem pouco convencional, que a jovem encontra no seu quarto – e que desaparece num passe de mágica! A imagem mostra Jesus com olhos demoníacos e um enorme pênis ereto! A imagem é tão grotesca e chocante que o próprio diretor arrependeu-se de filmá-la: “Eu incomodei os censores italianos com aquela imagem bem perturbadora de Cristo e tive que reduzir a cena para apenas três frames. Mas me senti um pouco culpado por ter filmado aquilo“, disse, na entrevista de 2002. Uma cena corajosa.

Se no filme O Exorcista o demônio escolhe uma família desestruturada para “se estabelecer” – pais separados, filha sem grande contato com a religião -, em O Anticristo todos os fatores contribuem para uma possessão demoníaca: além de psicologicamente doente, Ippolita renega a fé católica, considerando que Deus nunca a ajudou (primeiro lhe tirou o movimento das pernas, depois recusou-se a devolver a mobilidade por meio de um milagre), e ainda nutre uma relação de amor e ódio por seu pai (amor de atração sexual mesmo, e ódio porque foi ele o responsável pelo acidente onde a garota perdeu as pernas e a mãe). Mesmo vivendo em um ambiente regido pela religião, Ippolita está perfeitamente suscetível às investidas do demônio, que se aproveita da sua fragilidade e da sua falta de fé para possuí-la.

Lentamente, os sinais de que Ippolita está sendo tomada pelo demônio vão aparecendo. Como no filme americano, um dos primeiros sinais é o vandalismo em uma igreja, quando o tio de Ippolita (interpretado por Arthur Kennedy), que é bispo do Vaticano, vai celebrar uma missa e encontra um sapo decapitado sobre as hóstias sagradas. Preocupado com a saúde mental da filha, que por ciúmes não concorda com o seu namoro com a jovem intercambista alemã Gretel (a bela Anita Strindberg), Massimo resolve chamar um psiquiatra, o dr. Marcello Sinibaldi (Umberto Orsini), para tentar descobrir o motivo da mudança de humor da jovem.

Em uma sessão de hipnose assistida por Felippo (Remo Girone), irmão de Ippolita, o médico descobre que a jovem, em uma vida anterior, era uma bruxa, também chamada Ippolita, uma moça que largou o convento para juntar-se a uma seita de adoradores do demônio, sendo prometida ao diabo e engravidando dele em um ritual satânico. Este filho seria o futurO Anticristo (e daí o título original). A cena que mostra o ritual é de longe a melhor do filme, com uma orgia sendo realizada em uma floresta escura e o celebrante arrancando a cabeça de um sapo para a bruxa comer, como se fosse uma hóstia sagrada. O ritual finaliza com Ippolita lambendo o ânus de uma cabra – simbolizando o demônio.

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Após algumas sessões com o psiquiatra, fazendo regressão inclusive à época da infância, Ippolita recupera o movimento das pernas, e acredita que faz parte do tratamento – na verdade, é o demônio mais uma vez se manifestando. E, feliz com o fato de sua vida estar começando a entrar nos eixos, ela vai abrindo a guarda para que o demônio fique ainda mais forte em seu corpo e possa cometer maldades. Ao contrário do demônio de O Exorcista, que possui a menininha e cai de cama, questionando a fé dos outros e forçando um duelo com seu rival, o padre Merrin, em O Anticristo o demônio no corpo de Ippolita quer mesmo é aprontar, ou seja, matar, destruir, arrasar com as instituições – seja a igreja ou a família.

Certa tarde, por exemplo, Ippolita sai para uma visita às catacumbas de Roma, onde seduz e mata, sob a influência demoníaca, um jovem estudante, virando sua cabeça ao contrário (como em O Exorcista). Algum tempo depois, começa a destruir sua própria família, primeiro seduzindo o próprio irmão Felippo (que corresponde ao seu amor, e os dois transam, ignorando a relação familiar); depois, força o pai Massimo a acabar a relação com sua amante Greta, apenas para agredi-lo logo, tentando matá-lo por sufocamento. Mais e mais, o demônio vai se mostrando uma força destruidora e má, deslocando móveis, arrancando quadros das paredes e até rachando o teto.

A empregada da casa apela primeiro a um curandeiro, na tentativa de tirar o diabo do corpo da moça. O pobre homem leva uma surra da possuída Ippolita, sendo obrigado a devorar o vômito verde que ela cospe na mão. Em seguida, Massimo convence seu irmão, o bispo, a tentar um exorcismo. Mas o religioso também leva a pior, tendo sua Bíblia incendiada e quase sendo morto pela própria sobrinha. Entra em cena então o padre Mittner (George Coulouris), versão italiana do padre Merrin de O Exorcista, um velho sacerdote que parece ser o único com poder para vencer o demônio.

Diferente de O Exorcista, O Anticristo dá mais ênfase à cerimônia do exorcismo. Se no filme americano o padre Karras tem que sair no braço com a menina possuída, para que o diabo abandone seu corpo, no filme italiano a situação é resolvida pela fé do padre Mittner, sem a famosa cena do “saia dela, entre em mim, entre em mim!“. O exorcismo é demorado, incômodo, barulhento, com o demônio rasgando o teto da mansão (como fazia também em O Exorcista) e ateando fogo na sala, além de vomitar sua tradicional gosma verde e blasfemar o tempo todo. Segundo De Martino, “o exorcismo do filme foi feito de acordo com as regras dos 30 capítulos do livro O Ritual Romano (Nota do autor: livro que também é mostrado pelos padres em O Exorcista). Eu não tomei nenhuma liberdade quanto a isso, e tinha um consultor eclesiástico que me dizia tudo que era preciso fazer para termos um verdadeiro exorcismo“.

Outra diferença entre os dois filmes é que O Anticristo é mais contido ao retratar a possessão da jovem. Enquanto em O Exorcista o rosto da menina vai progressivamente apodrecendo e ficando deformado (o que torna risível a cena em que o padre Karras vai encontrá-la pela primeira vez e nem se abala ao ver uma garota com aquele rosto demoníaco), na produção italiana não há muita ênfase na maquiagem, mas sim na interpretação. Quanto pior fica o estado de Ippolita, seu cabelo vai arrepiando e sua expressão facial torna-se mais malvada. No final, algumas gostas de água benta deixam o seu rosto marcado, mas nada tão grotesco quanto a maquiagem de O Exorcista – o responsável pelo filme italiano é Euclide Santoli.

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Logo, o filme pertence à atriz Carla Gravina, mesmo que sua voz demoníaca seja dublada. “Eu adoro a performance de Carla, não em uma única cena, mas no filme inteiro. Nós tínhamos feito o teste para o papel com várias atrizes, mas foi ela que aceitou como uma espécie de desafio de interpretação, pois é um papel muito difícil“, elogiou De Martino. Carla tinha 33 anos (número cabalístico, pois era a idade de Cristo ao ser crucificado) quando fez o filme, e hoje em dia continua trabalhando em produções da TV italiana, embora nunca mais tenha conseguido uma atuação de tanto destaque quanto aquela de O Anticristo.

Infelizmente, enquanto o filme americano contava com uma boa produção e um excelente técnico em efeitos especiais (Dick Smith), De Martino, em O Anticristo, teve que se virar como podia. O resultado é que as cenas onde a Ippolita possuída mostra seus poderes são risíveis, especialmente a cena de levitação, onde usa-se o mesmo efeito da “tela azul” usado na série “Chapolim” (uma imagem “recortada” colada sobre o restante do frame). Não tem como não dar risada ao ver uma Ippolita totalmente imóvel (a tal imagem “recortada“) se afastando, levitando, e o tamanho dela diminuindo numa perspectiva totalmente improvável.

No documentário presente no DVD americano do filme, o diretor assume as dificuldades: “Recentemente, eu traduzi e adaptei um documentário sobre os filmes de George Lucas, e eu quase chorei vendo aquilo! Porque você não tem ideia do quanto eu sofri para fazer a Carla Gravina voar no meu filme! Há 27 anos, nossos efeitos especiais eram projeção e tela azul. Hoje em dia, se você quiser fazer a Carla voar, é só apertar um botão que ela voa!“. E realmente, isso é verdade. Fico pensando como seria O Anticristo feito hoje…

Mesmo fazendo claramente uma cópia de O Exorcista, De Martino tentou imprimir um toque pessoal ao filme. “Se você for olhar a minha filmografia, eu não posso me considerar um diretor de filmes de horror. Eu fiz uns 30 filmes, em todos os gêneros. Eu não queria um rótulo do tipo: ‘Ele faz filmes de horror’. Sempre gostei de romances e melodramas, e todos os meus filmes trabalham com isso, com emoção, com valores sentimentais, os personagens revelam seus sentimentos e seus conflitos. Acho que este é o ‘estilo De Martino’, a capacidade de criar drama com sentimento“, disse ele, em 2002. O Anticristo realmente trabalha com diferentes tipos de dramas, que não existiam em O Exorcista: o drama de Ippolita de não conseguir caminhar e, por isso, não poder viver uma vida normal – inclusive amorosa e sexual -; o drama da perda da fé; e até o drama do pai de Ippolita, cujo amor não é aceito pela filha.

Por sinal, o cineasta gosta de dizer que é a frustração sexual da personagem principal o grande fator para a possessão. “O meu filme tem uma leitura não-religiosa, que é a história da protagonista, onde o demônio nasce da sua frustração sexual, e assim vem a possessão. Acho que O Anticristo não é um filme para ficar gritando o tempo inteiro, ele passa um nervosismo e faz o espectador ficar pensando nisso, mas ele não fica gritando, como em outros filmes“.

Um outro mérito de O Anticristo é beber na fonte de um outro clássico do cinema de horror – O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski – para criar uma subtrama envolvendo o possível nascimento dO Anticristo, o filho do demônio. O tema é abordado em 1974, por isso dois anos antes do mais famoso filme sobre “anticristos“, que seria realizado em 1976: A Profecia, de Richard Donner.

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Além disso, De Martino utilizou cores para simbolizar as forças do bem e do mal, o que pode passar desapercebido na primeira vez em que se vê o filme (até em função da péssima qualidade da imagem da cópia nacional, lançada em VHS pela DIV Vídeo no final dos anos 80). “O vermelho e o azul são as duas cores que representam o demonismo e a libertação, por isso estas duas cores aparecem no filme inteiro“, detalhou o cineasta. É por isso que na cena em que o bispo encontra o sapo decapitado sobre as hóstias, na igreja, todos ali estão vestidos com roupas vermelhas. É por isso que as paredes da casa da família Oderise são vermelhas, e até o carro é vermelho na cena em que Ippolita, já possuída, mata o estudante nas catacumbas. Por outro lado, em cenas como a procissão em Lourdes, a fotografia tem um forte tom azulado. No final, uma chuva misturada a uma luz azul dá o tom de “libertação” que De Martino queria. O diretor de fotografia, responsável pelos excelentes efeitos, foi Aristide Massaccesi (mais conhecido posteriormente pelo seu pseudônimo Joe D´Amato, com o qual fez filmes de todos os gêneros, inclusive pornôs, até morrer em 1999).

Sem ser tão marcante quanto a música de O Exorcista, a trilha sonora de O Anticristo tem alguns excelentes momentos. Assinada por Ennio Morricone (como uma espécie de favor aos produtores, conforme ele destacou em uma entrevista recente), em parceria com o falecido Bruno Nicolai, tem trechos assustadores com solos de violinos, além de um arrepiante tema de abertura, usado nos créditos iniciais, repleto de sussurros e gemidos infernais.

Diferente de O Exorcista, a produção não foi complicada e ninguém morreu durante as filmagens, embora hoje em dia diversos dos atores principais já tenham batido as botas. Arthur Kennedy, o bispo, morreu em 1990, vitimado por tumor cerebral; já o padre Mittner, George Coulouris, morreu em 1989 de ataque do coração. Já o diretor De Martino continua vivo, mas sua carreira desabou desde O Anticristo. Fez apenas mais um filme de destaque (embora trash total), Pumaman, de 1980, uma cópia constrangedora de Superman. Parou de dirigir filmes em 1985 e hoje vive de bicos. Já Edmondo Amati parou de produzir filmes em 1980, após Apocalypse Domani (também conhecido como Cannibal Apocalypse).

O que mais complica o fato de analisar O Anticristo é a sua semelhança com O Exorcista. Mesmo que tenha tentado fazer um filme diferente, De Martino roubou cenas inteiras da produção americana (talvez orientado pelo produtor, que precisava atrair o público de qualquer jeito). O vômito esverdeado, por exemplo, poderia ter sido evitado para não suscitar comparações com O Exorcista, assim como a cena da cabeça girando em 180 graus e o teto rachando na cena do exorcismo – o filme até copia o fato de um dos personagens principais rolar por uma enorme escada, como acontecia com o padre Karras no final de O Exorcista!

Depois da exibição nos cinemas italianos, tanto O Anticristo quanto seu rival Espírito Maligno foram “preparados” para o lançamento internacional. Beyond the Door foi distribuído pela Film Ventures International nos Estados Unidos, sendo lançado nos cinemas americanos em maio de 1975. A dublagem para inglês passou por um processo especial de stéreo, lançado, na época, com o nome “Possess-O-Sound“. A distribuidora cortou 10 minutos de filme e incluiu uma sequência inicial diferente. O resultado: o filme italiano mais lucrativo de todos os tempos na América, com uma bilheteria de 22 milhões de dólares (21 milhões a mais do que custou!!!!).

Já o filme de Amati/De Martino não teve tanta sorte. Comprado pelo distribuidor Joseph E. Levine, passou por uma verdadeira mutilação. Levine achava o filme muito pesado e arrastado. Assim, cortou 15 minutos (inclusive a sequência inicial, no santuário de Lourdes) e reeditou a obra totalmente, colocando as cenas da possessão demoníaca todas “juntas“, fazendo com que parte do filme perdesse o sentido. O próprio Levine ficou tão frustrado com o resultado final que resolveu lançar nos cinemas americanos apenas três anos depois, em 1978, com outro nome: The Tempter.

Se nos anos 70 O Anticristo perdeu a batalha para Espírito Maligno como a melhor “cópia” de O Exorcista na estreia nos cinemas, pelo menos hoje, 30 anos depois, a justiça foi feita: enquanto o filme de Ovidio Assonitis desapareceu do mapa (nos EUA nem foi lançado em DVD ainda), O Anticristo continua cada vez mais visto e falado. O DVD foi lançado nos Estados Unidos em 2002 e proporcionou uma retomada de outros filmes obscuros feitos na Itália da época, e que estavam inéditos nos States.

No Brasil, ainda precisamos nos contentar com a péssima (e raríssima) cópia em VHS da DIV Vídeo, com a tradicional fotocopiagem criminosa arruinando o widescreen (o filme acaba sendo dirigido por um tal “Berto De Martin“, graças aos cortes nos lados da imagem), e à péssima tradução das legendas. Os nomes dos personagens foram traduzidos “de ouvido“, e por isso temos barbaridades como “dr. Si di Baldi” (Sinibaldi) e “padre Micna” (Mittner). Sem contar frases como “ela é uma verdadeira psiquiatra” – quando o termo em inglês era “psychic“, ou seja, clarividente, paranormal. Para não perder o trocadilho, uma tradução ruim como o diabo gosta!

Em tempo: os americanos nem podem reclamar muito se O Anticristo, uma produção italiana, chupou muito de O Exorcista, uma produção made in USA. Acontece que o pessoal da Itália reclama que o filme de William Friedkin plagiou cenas inteiras de Il Demonio, um filme de horror obscuro feito na Itália em 1963, em preto-e-branco, com direção de Brunello Rondi, contando a história de uma mulher possuída pelo capeta que é exorcizada. Nunca vi o filme e parece que ele nem foi lançado comercialmente fora da Itália. Existe uma teoria da conspiração dizendo que isso é obra da Warner, com medo que o mundo saiba que existem constrangedoras semelhanças entre o clássico americano e o filme italiano. Sabe-se lá qual é a verdade, mas alguém deve estar dando muita risada do caso: o próprio demônio, rodeado pelas chamas do inferno, satisfeito por ser tão retratado no cinema nos últimos 50 anos…

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4 Comentários

  1. Plínio Marques Júnior

    Bem, tanto este filme quanto “Beyond the Door”, os quais assisti a ambos, são de péssima qualidade. Porém, acho que o “Anticristo” é um filme melhor se comparado ao “Beyond…….”. Também assisti ao filme “O Demônio”, e realmente o “Exorcista” chupinha este filme, pois ele copia o “spider walk”, que é originário do filme italiano. Mas, entre mortos e feridos, o melhor de todos estes 4 filmes ainda e sempre será “O Exorcista”.

  2. MORCEGO

    Pode ser uma cópia de O EXORCISTA, mas, ainda assim, é um filme interessante.
    Meu momento favorito é a tomada do rosto de Ippolita, com os olhos vazios e a gosma escorrendo de sua boca – usada como ilustradora dessa postagem.

  3. Fabio Rodriguez

    Tosco as hell!

  4. vanessa vasconcelos

    parece bem cópia do exorcista mesmo.

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