Críticas

A Centopeia Humana (2009)

Revolta o espectador e brinca com suas expectativas, entrando no terreno da crueldade, com a tensão atingindo um nível quase insuportável!

A Centopeia Humana (2009)

A Centopéia Humana
Original:The Human Centipede - First Sequence
Ano:2009•País:Holanda
Direção:Tom Six
Roteiro:Tom Six
Produção:Ilona Six, Tom Six
Elenco:Dieter Laser, Ashley C. Williams, Ashlynn Yennie, Akihiro Kitamura, Andreas Leupold, Peter Blankenstein, Bernd Kostrau, Rene de Wit, Sylvia Zidek

No estranho mundo do cinema, nem sempre você precisa de milhões de dólares ou de astros famosos para chamar a atenção. Às vezes, basta uma ideia escrota e um título bizarro para conseguir o que os grandes estúdios de Hollywood não conseguem mesmo quando torram toneladas de dinheiro em marketing.

Em 2009, por exemplo, blogs do mundo inteiro começaram a divulgar as primeiras informações sobre uma esquisitice chamada The Human Centipede (em bom português, A Centopeia Humana). Parecia até piada de mau gosto, mas era para valer: um sujeito estava realmente fazendo um filme sobre um cientista louco cujo sonho (ou pesadelo?) era criar uma nova forma de vida ligando três pessoas para gerar uma única criatura!

Com base nestas esparsas primeiras informações, divulgadas de forma maciça também no Brasil, eu já imaginava que The Human Centipede seria um daqueles filmes de horror extremos produzidos por diretores orientais malucos, no estilo da franquia Guinnea Pig, com toneladas de nojeira, sangue e escatologia. Enfim, aquele tipo de produção sem história, calcada apenas no sadismo, uma coisa que não me atrai.

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Mas à medida que novos dados iam sendo divulgados, e um primeiro trailer ganhava a rede, todo mundo percebeu que por trás dessa loucura não estava um oriental demente, como imaginávamos, e sim um ocidental demente – um holandês chamado Tom Six (algumas fontes indicam que é alemão), cineasta desconhecido que entre 2004 e 2008 dirigiu três longas na Holanda, todos de pouca ou nenhuma expressão.

Aos poucos, aquela obra que inicialmente prometia ser um asqueroso horror extremo logo se revelava um terror sério e convencional – e sem apelar, como fariam certos cineastas lá da terra do Sol Nascente…

Fato é que se falou tanto em The Human Centipede nos meses que antecederam o seu lançamento que ele se tornou aquele filme que todo mundo estava louco para ver. Ninguém parecia saber muito bem o que esperar, mas o argumento era tão maluco que já valia por si só. Tanto que a obra foi carinhosamente apelidada de “THC“, as iniciais do título, mas também a sigla de Tetrahydrocannabinol, a substância química presente na maconha – porque somente alguém sob efeito de drogas filmaria uma ideia dessas!

Com sua fama alicerçada pela boataria, pelo título bizarro e pela ideia escrota, qualquer porcaria que chegasse aos festivais de cinema (ou você acha que um filme chamado A Centopeia Humana ganharia lançamento comercial?) provavelmente já satisfaria a legião de curiosos. Desde que o título não fosse aquele caso clássico de propaganda enganosa, é claro!

Nos meses que antecederam a estreia, era até engraçado acompanhar os desesperados apelos de usuários de comunidades sobre horror por links onde pudessem baixar o filme ANTES mesmo que ele fosse oficialmente lançado! Só para dar uma ideia de como a “centopeia humana” estava conhecida na web.

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Agora, The Human Centipede finalmente chegou ao mundo dos torrents e da pirataria internética (e aos festivais SP Terror e Fantaspoa 2010). E o resultado faz aquele estilo “ver para crer“, que já está dividindo opiniões entre os que adoraram e entre os que ficaram frustrados pela enorme expectativa alimentada por aquela boataria maciça. Mas uma coisa é certa: o título, pelo menos, não é propaganda enganosa.

Afora a “centopeia humana“, única ideia realmente original do filme de Tom Six, The Human Centipede é exatamente igual a dezenas, talvez centenas de outras obras do gênero. Principalmente aquelas histórias sobre cientistas loucos tentando dar vida a novas criaturas. Lembra daqueles velhos filmes sobre médicos malucos que aprisionavam vítimas indefesas para tentar fazer transplante de cérebro ou de cabeça (tipo O Monstro de Duas Cabeças, de 1972)? Pois The Human Centipede não foge desse estilo, e muito menos dos maiores clichês do gênero.

Sua originalidade está justamente no título e na “criatura“. Se você é daqueles alienígenas que nunca leram nada sobre The Human Centipede, apesar do bombardeio de informações via internet, segue uma explicação sobre a proposta do vilão do filme. Ele pretende criar uma “centopeia humana” a partir de três seres humanos, seguindo esta ordem lógica:

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1-) Operar os tendões dos joelhos das vítimas para que elas nunca mais possam andar sobre duas pernas, forçando-as a se locomover de quatro.

2-) Arrancar os dentes e os lábios da segunda pessoa e costurar o que restar da sua boca ao ânus (!!!) da primeira pessoa da fila. A mesma operação será realizada na terceira vítima, cuja boca será costurada no fiofó da segunda.

3-) Conectar os intestinos e órgãos digestivos das três vítimas para que as duas partes inferiores da “centopeia“, com suas bocas ligadas ao ânus, sejam alimentadas pelas fezes da primeira parte da criatura!

E se isso parece revoltante no papel, imagine até ver a “centopeia humana” no filme, certamente uma das coisas mais doentias já mostradas pelo cinema fantástico desde a invenção do cinematógrafo lá no século 19!

O diretor-roteirista Tom Six conta que a ideia bizarra surgiu de uma piada de humor negro que ele fez certa vez com os amigos, defendendo que certos criminosos, como os pedófilos e assassinos de crianças, deveriam ser condenados a ter a boca costurada no fiofó de um caminhoneiro gordão. Eis que a piada marcou tanto o cineasta que ele resolveu transformá-la em filme sério.

Dizem as lendas que circulam pela internet que um médico “de verdade” teria orientado o desenvolvimento do argumento, e que a operação para criar a “centopeia humana” seria 100% verossímil – se é que algum médico maluco realmente queira testar isso na prática…

Agora, quando você tem um filme chamado The Human Centipede, o maior problema que irá enfrentar é justamente as expectativas criadas pelo título (e pela proposta). É como Serpentes a Bordo: o sujeito que for ver ao cinema ou a locadora sabe exatamente o que quer e espera ver baseado no título, e você corre o risco de ser acusado de propaganda enganosa caso não cumpra com o prometido.

(A partir de agora, esta análise trará alguns pequenos SPOILERS, nada de muito grave, e algumas informações já são apresentadas até no trailer do filme. Mesmo assim, continue por sua conta e risco!)

E essa expectativa que cria no público é justamente o grande problema da obra de Tom Six: é um filme de uma ideia só, que demora a deslanchar. Os primeiros 45 minutos, por exemplo, são de pura enrolação, corre-corre e um suspense amador e repleto de clichês. Eu imaginava estar diante de mais um caso de propaganda enganosa até que a “centopeia” se concretiza, e o filme finalmente vai se tornando mais doentio e tenso.

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Isso poderá chatear muitos espectadores dependendo do que eles estão esperando, pois a primeira metade de The Human Centipede dedica-se unicamente a apresentar o vilão e seu experimento. Aliás, que vilão! Podem colocar o Dr. Heiter, interpretado por Dieter Lasser, na galeria dos grandes caras malvados do cinema moderno. Ele já é sinistro por si só: com um rosto quadrado e um queixo enorme, Lasser parece até irmão do Robert Z’Dar, o grandalhão da série Maniac Cop. Apenas com o olhar e a voz grossa, e mantendo uma atitude calma e serena na maior parte do tempo, o ator consegue criar aquele tipo de vilão manipulador e cruel que você fica louco para pular na tela e esganar.

O Dr. Heiter é um médico especialista na separação de gêmeos siameses, mas também um sociopata que vive sozinho num casarão no meio do bosque, e que criou uma cirurgia revolucionária para unir os seres humanos ao invés de separá-los. Ele já a testou com sucesso unindo três cães para criar sua bizarra “centopeia“, e, quando o filme começa, sonha fazer o mesmo com gente, sequestrando vítimas inocentes para se tornarem seus “pacientes“.

Seguindo as convenções dos filmes de terror, duas turistas nova-iorquinas, Lindsay (Ashley C. Williams) e Jenny (Ashlynn Yennie), se perdem a caminho de uma noitada, têm problemas no carro (pneu furado) e descobrem estar numa daquelas raras regiões sem cobertura de celular (óbvio). Acabam na casa do médico-psicopata e transformam-se em candidatas em potencial para duas partes da centopeia; a terceira parte é um jovem turista japonês, Katsuro (Akihiro Kitamura).

Assim, os primeiros 45 minutos de The Human Centipede resumem-se a isso: o aprisionamento e as sucessivas tentativas de fuga dos três candidatos a virar “centopeia“. Mas é um suspense vazio e estúpido: primeiro porque o roteiro dá mais destaque ao vilão do que às vítimas mal-desenvolvidas (com quem o espectador não simpatiza e nem se importa); segundo porque é o chamado “suspense-enrolação“, já que todo mundo desconfia desde o início que aquelas três vítimas não têm nenhuma chance de escapar, caso contrário o título do filme seria uma enganação.

Por isso, o tempo excessivo dado às tentativas de fuga e ao corre-corre no interior da casa do Dr. Heiter soa como embromação e tempo perdido – a não ser que você seja muito ingênuo e realmente pense que alguém tem a menor chance de escapar do experimento…

É na segunda metade que o filme realmente mostra a que veio e justifica seu título. O diretor não abusa do gore nem da nojeira explícita, elementos que prefere usar em doses homeopáticas. Six investe no clima de horror psicológico e na insanidade da ideia para revoltar o estômago do espectador, concebendo algo na linha do “body horror” ou “biological horror” (filmes sobre mutações e/ou experiências médicas) produzido por cineastas respeitados como David Cronenberg e Shinya Tsukamoto (da série Tetsuo). E é bem diferente do que se esperaria caso o mesmo roteiro fosse filmado por um cineasta demente como Takashi Miike, por exemplo.

Filme encerra a trilogia que começou em 2009.

Na prática, a “centopeia humana” deve gerar emoções conflitantes no espectador. À noite, depois de ver o filme e esperando o sono vir, eu pensava ora na idiotice da proposta (convenhamos, uma centopéia humana?), ora no sadismo e na crueldade da coisa, ao lembrar das duas partes inferiores da criatura, com suas bocas costuradas nos ânus das outras pessoas e sendo alimentadas à força com as fezes da primeira… Argh! O cara realmente tem que ser doente para ter uma ideia dessas – e me refiro tanto ao Dr. Heiter quanto ao diretor-roteirista Tom Six!

Só por isso, creio que The Human Centipede já cumpre o que promete: revolta o espectador e brinca com suas expectativas, mesmo que isso aconteça apenas na metade final, quando a coisa realmente entra no terreno da crueldade, e a tensão atinge um nível quase insuportável. Ressalto: sem abusar da violência nem da escatologia, embora ambas também sejam utilizadas no filme. Qualquer sequência da série Jogos Mortais é mais sangrenta e escatológica, embora não consiga afetar o público da mesma forma.

E mesmo que, como eu, você comece a pensar na idiotice da coisa toda, é inegável que a ideia bizarra da “centopeia humana” afeta o espectador. Antes dessa criatura maluca, o último filme que tinha me feito pensar tanto no lado doentio da humanidade foi o francês Martyrs.

The Human Centipede não chega aos pés de Martyrs, creio eu, mas atinge sua proposta como filme de terror: choca e revolta. Mesmo quando você quer achar graça do bicho pela estupidez da proposta, é inevitável pensar no triste destino daquelas pobres vítimas e ficar de estômago embrulhado… (Não por acaso, o asqueroso Saló – Os 120 Dias em Sodoma, de Pier Paolo Pasolini, é um dos filmes preferidos do diretor Six!)

Uma curiosidade que vale a pena destacar: além da sua piada de humor negro sobre os pedófilos e o fiofó dos caminhoneiros, Tom Six declarou que o roteiro do filme também foi baseado nos tétricos experimentos médicos feitos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. E vamos concordar que uma “centopeia humana” realmente parece coisa do célebre Dr. Josef Mengele, carniceiro da vida real que executou algumas cirurgias tão bizarras quanto.

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Não por acaso, o médico louco do filme é alemão, e a nacionalidade das vítimas envolvidas no nascimento da centopéia (duas norte-americanas e um japonês) “homenageiam” outros dois países envolvidos na Segunda Guerra Mundial.

Também é interessante registrar a dificuldade de Six para conseguir tirar do papel o seu mirabolante projeto. Afinal, o que você responderia a um sujeito desconhecido que vai te pedir dinheiro para produzir um filme sobre pessoas que têm a boca costurada no ânus das outras? Depois de ouvir algumas negativas, ele resolveu esconder os “detalhes” mais, digamos, delicados do roteiro, tanto na hora de procurar financiadores quanto ao escalar o elenco – aposto que os agentes dos atores que se transformam em partes da centopeia iriam a-do-rar a proposta. As pobres Ashley e Ashlynn, estreantes como atrizes em longa-metragem, só descobriram os pormenores do que iria acontecer às suas personagens depois de assinar o contrato!

De um modo ou de outro, Tom Six conseguiu o que queria: ganhou seus 15 minutos (ou mais) de fama só com a ideia mirabolante do filme. Após a estreia de The Human Centipede em festivais ao redor do mundo, as opiniões igualmente se dividiram.

Aqueles que foram com muita sede ao pote reclamaram justamente que ele não apresenta nada de novo além da criatura (e é EXATAMENTE isso!), enfocando pela milésima vez aqueles clichês como garotas perdidas sem sinal de celular, médicos loucos e policiais idiotas. Quem, como eu, já sabia mais ou menos o que esperar acabou gostando da maneira séria e discreta como o diretor estreante narrou sua história. E o melhor: sem a insuportável câmera epilética ou os nauseantes cortes rápidos que lamentavelmente caracterizam os novos filmes do gênero.

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O que não te serve alimenta!

Mesmo com a polêmica e as opiniões divergentes, The Human Centipede levou para casa vários prêmios de Melhor Filme em festivais conceituados, como o Screamfest Horror Film Festival, de Los Angeles, ou o Fantastic Fest, realizado no Texas. Também teve participação celebrada em eventos concorridos, como o London FrightFest Film Festival, na Inglaterra, e o tradicionalíssimo Festival de Sitges, na Espanha.

Curioso é que o filme chegou aos cinemas (lá fora, claro) com um esquisito subtítulo entre parênteses, “First Sequence” (Primeira Sequência). Isso porque o diretor-roteirista Six fez uma continuação em 2011, chamada The Human Centipede (Full Sequence), ou seja, Sequência Completa, que traz uma nova centopeia humana, desta vez ligando 12 pessoas (!!!).

O próprio Six confirmou que o primeiro filme foi feito para mostrar aos fãs de horror qual era o seu estilo e a sua proposta, mas que não poderia fazer algo mais elaborado com os recursos e o orçamento reduzido que tinha.

De qualquer jeito, com novas e maiores centopeias, o que importa é que este (até então) desconhecido e demente diretor já conseguiu pelo menos uma façanha digna de nota: a de transformar uma absurda e amalucada ideia original em fenômeno de “marketing internético“, criando uma legião de fãs entusiasmados muitos meses antes de o filme estrear, seguindo os passos de outros sucessos independentes criados pela internet, mas muito mais convencionais – como Serpentes a Bordo, A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal.

Ainda que The Human Centipede caia em uma série de armadilhas provocadas pela própria super-exposição antecipada do filme e da proposta (algo que também aconteceu com Hostel / O Albergue, de Eli Roth), o resultado é digno de nota e deve movimentar os fóruns de discussão por um bom tempo, tanto com elogios apaixonados quanto com críticas furiosas.

Mas uma coisa é certa: por mais inverossímil (e idiota) que pareça a ideia original de Tom Six, você vai ficar pensando na imagem da tenebrosa “centopeia humana” por um bom tempo depois de ver o filme. Bons pesadelos!

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4 Comentários

  1. Paulinha

    Mto bom esse filme. Estava na hora de lançarem um filme diferente sobre experiências bizarras!!!

  2. Rafael Gomes

    Blza até então… Daí veio o 2 onde tem um maluco q qr fazer a msma coisa, a atriz do primeiro filme q interpreta Jenny está no elenco do segundo e as vítimas dizem q Centopéia Humana é um filme e tals.Agora diz q vai ter o terceiro ou a sequência final com 500 pessoas.Pesquisando vi q os dois vilões o do primeiro e do segundo vão estar no filme.Agra me diz cmo q uma pessoa leva um tiro na cabeça e não morre?? E no segundo eles sabem q o primeiro é um filme? Sério o diretor vai ter q dar uma boa pensada para q isso não vire piada.

  3. Uma idéia diferente e doentia , o ponto positivo .
    Sem abusar da extrema violência e escatologia , o ponto negativo .
    Bom filme , mais eu esperava mais por sua polêmica !

  4. vanessa vasconcelos

    gostei desse filme,pois adoro coisas trashs,sem falar no japa que faz o médico louco que tá demais,muito bom ator,dá um medo da porra dele.

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