Críticas

Assassinato por Decreto (1979)

Uma das melhores caracterizações do personagem para o cinema, mesmo não tendo um dos melhores Holmes!

Assassinato por Decreto (1979)

Assassinato por Decreto
Original:Murder by Decree
Ano:1979•País:UK, Canadá
Direção:Bob Clark
Roteiro:Arthur Conan Doyle, John Hopkins, Elwyn Jones, John Lloyd
Produção:Bob Clark, René Dupont, Robert A. Goldston
Elenco:Christopher Plummer, James Mason, David Hemmings, Susan Clark, Anthony Quayle, John Gielgud, Frank Finlay, Donald Sutherland, Geneviève Bujold, Tedde Moore

Antes de o cinema aderir à moda dos crossovers tipo Jason X Freddy ou Alien X Predador, já tinham feito um embate entre o maior detetive da literatura mundial e o mais célebre serial killer da história: sim, estou me referindo ao duelo de Sherlock Holmes versus Jack, o Estripador. Talvez os dois maiores ícones pop da Era Vitoriana (para quem enforcou as aulas de história é o período em que a Rainha Vitória reinou na Inglaterra entre 1837 e 1901). Fora um game recente e algumas tentativas literárias, no cinema ambas as figuras já tiveram seus caminhos cruzados três vezes: a primeira vez no igualmente ótimo Névoas do Terror (A Study in Terror, 1965) de James Hill e a terceira vez na comédia brasileira O Xangô de Baker Street (2001) de Miguel Faria Jr. Bem, vou analisar agora o segundo encontro de Holmes com o Estripador, a co-produção entre Inglaterra e Canadá chamada Murder by Decree, um dos filmes da minha infância quando assisti algumas vezes na Bandeirantes, e depois no Vhs lançado pela Globo Vídeo.

O velho Jack está metendo o terror no pobre bairro londrino de Whitechapel, enquanto Holmes (Christopher Plummer) e seu fiel parceiro Dr. Watson (James Mason) acompanham os assassinatos pelos jornais e estranham o fato da Scotland Yard ainda não tê-los contatados (procedimento comum nos casos considerados intrincados), até que um grupo de moradores do bairro supracitado pede ajuda ao notório detetive. Envolvido no caso, nosso herói acaba descobrindo uma estranha conspiração que envolve componentes da Casa real e a Maçonaria por trás da série de assassinatos, ou seja, algo muito maior que o simples ato de um louco.

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A obra trabalha em cima da famosa hipótese da conspiração maçônica, ideia que veio à luz pela primeira vez numa série de programas para a TV britânica em 1973, mas foi cristalizado mesmo no livro “Jack the Ripper: The Final Solution”, de Stephen Knight publicado em 1976 (ou seja, três anos antes desse filme). Não por acaso, com algumas pequenas variações, a conclusão é praticamente a mesma de Do Inferno (From Hell, 2001) dos irmãos Hugues (assim como dos quadrinhos que deu origem ao filme com roteiro do mítico Alan Mooore e arte de Eddie Campbell). Ao afirmar a semelhança entre as conclusões pode-se dizer para aqueles que viram o filme estrelado por Johnny Depp, mas não viram esse aqui que estou quase fazendo um spoiler.

O filme ainda mescla personagens reais como o vidente Robert Lees (Donald Sutherland, mais esquisitão do que nunca), que afirmava conhecer a identidade do Estripador através de suas visões mediúnicas, e o chefe da Scotland Yard, o reacionário e autoritário Sir Charles Warren (Anthony Quayle), com personagens do universo sherlockiano como o Inspetor Lestrade (Frank Finlay), além de personagens chaves criado exclusivamente para o filme como o ambíguo Inspetor Foxborough (David Hemmings). O roteiro de John Hopkins é fiel em descrever alguns fatos reais, embora se limite apenas às cinco vítimas oficiais de Jack (as chamadas vítimas canônicas segundo a Scotland Yard, alguns pesquisadores alegam que ele é suspeito de pelo menos outros três assassinatos não admitidos pela polícia), ou seja, as cinco prostitutas brutalmente assassinadas em 1888, no período que ficou conhecido como o Outono do Terror, enquanto a identidade do assassino na realidade, como todo mundo sabe, não foi descoberta até hoje. Quanto a ambientação de Whitechapel, historiadores costumam afirmar que era um dos lugares mais populosos, imundos e miseráveis de Londres na época, no entanto aqui aparece deserta e muito mais limpa do que costumam descrever, embora a névoa constante dê o clima exato para a ambientação sinistra.

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Christopher Plummer como Holmes está correto, embora longe de ser um dos melhores intérpretes do personagem, tais como Basil Rathbone, Jeremy Brett e o Peter Cushing na versão da Hammer para O Cão dos Baskervilles de Terence Fischer (Cushing voltaria para o papel em um dos seus últimos trabalhos, o telefilme de 1984 Máscaras da Morte de Roy Ward Baker, mas sem o mesmo brilho nos olhos do tempo da Hammer). Curioso é o fato de que o Holmes de Plummer talvez seja o mais emotivo da história, não me lembro de outra oportunidade de ver o frio detetive chorar. Sem falar que aqui o notório detetive não chega a abusar de seus poderes dedutivos quase mediúnicos. Quanto ao Dr. Watson de James Mason, aqui temos um cara energético e de ação, que realmente ajuda Holmes, e não um palerma que serve de alívio cômico como o caracterizado pelo Nigel Bruce nos filmes com o Basil Rathbone, por exemplo. Na verdade o personagem foi todo reescrito a pedido do próprio Mason, que não queria representar o personagem como um tolo como estava no script original. O mais curioso é que originalmente foram cotados para interpretar a dupla os atores Peter O’Toole e Sir Laurence Olivier, como Holmes e Watson respectivamente, como ambos já tinham trabalhados juntos e não se suportavam o encontro deles acabou não ocorrendo. De qualquer forma a química entre Plummer e Mason funciona que é uma beleza o que é um mérito e tanto. Sem falar no elenco de apoio de luxo, que além dos citados Sutherland, Hemmings, temos ainda gente do calibre de John Guielgud e Geneviève Bujold. Curioso é o fato de Frank Finlay, que interpreta Lestrade, também ter feito o mesmo papel em Névoas do Terror, assim como Anthony Quayle, com papéis secundários nas duas obras!

A direção correta é do estadunidense radicado no Canadá Bob Clark, um diretor com uma carreira curiosa: nos anos setenta foi responsável por alguns filmes de terror e suspense como Children Shouldn’t Play with Dead Things, Dead of Night  a.k.a. Deathdream e o clássico precursor dos slashers Black Christmas, mas acabou dando uma guinada no começo dos anos 80, após o sucesso da comédia Porky’s ele acabou se dedicando ao filão, deixando de lado o cinema fantástico – uma pena. Em Murder by Decree, inclusive nas cenas de ataque do vilão, há um belo uso de câmera subjetiva como em Black Christmas (vale lembrar que o responsável pela fotografia de ambos os filmes é o mesmo individuo, Reginald H. Morris). Quanto ao ritmo pausado pode irritar jovens impacientes mas acho que é a cadência certa para esse tipo de história.

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No frigir dos ovos Murder by Decree acaba sendo uma das melhores caracterizações do personagem para o cinema, mesmo não tendo um dos melhores Holmes. Levando em conta o número de vezes que o detetive foi levado as telas, isso não é pouco.

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5 Comentários

  1. Anselmo Luiz

    Eu gosto desta versão de Sherlock Holmes feita por Plummer ,este filme passou muitas vezes na Rede Globo principalmente nas madrugadas dessa emissora ,hoje o filme já não é mais exibido ha anos por nenhuma emissora,foi lançado em VHS pela extinta Globo Video.

  2. José Pedro

    Cara, parabens, que bela crítica pra este ótimo filme! Assisti lá por 87 ou 88, quando loquei na Espaço Video de Porto Alegre. Infelizmente nunca encontrei pra alugar ou vender em dvd, parece ter ficado esquecido num cemiterio vhs…

  3. junior

    Realmente é um otimo filme, me lembro de assistir em Vhs

  4. Augusto Ganzert

    Bela sugestão!

  5. vanessa vasconcelos

    me interessei 🙂

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