Críticas

O Albergue 2 (2007)

Um filmaço, com toda tensão, sadismo e sangue que um fã de horror pode esperar de uma obra produzida por um grande estúdio!

O Albergue 2 (2007)

O Albergue 2
Original:Hostel: Part II
Ano:2007•País:EUA
Direção:Eli Roth
Roteiro:Eli Roth
Produção:Chris Briggs, Mike Fleiss, Eli Roth
Elenco:Lauren German, Heather Matarazzo, Bijou Phillips, Roger Bart, Richard Burgi, Vera Jordanova, Jay Hernandez, Jordan Ladd, Edwige Fenech, Stanislav Ianevski, Patrik Zigo, Zuzana Geislerová

Nos anos 80, o trabalho mais fácil para roteiristas e diretores era fazer uma continuação de Sexta-Feira 13 ou A Hora do Pesadelo. Afinal, os elementos já tinham sido apresentados nos primeiros filmes, bastava colocar o maior número possível de sangue em cena, deixar tudo na mão da equipe dos efeitos especiais e embolsar o cheque no final do mês, com a certeza de que a sequência, por pior que fosse, já teria bilheteria assegurada nos cinemas, graças à grande quantidade de fãs destas franquias. Mais recentemente, fácil é fazer sequências das séries Premonição e Jogos Mortais: é só criar umas mortes bem criativas e umas cenas gráficas de morte e tortura e correr pro abraço.

Quando Eli Roth, uma das grandes promessas do moderno cinema de horror, anunciou que lançaria uma continuação do seu melhor trabalho até o momento, Hostel – O Albergue, fiquei com medo de que teríamos um “mais do mesmo”. Hostel foi o melhor filme do gênero que vi em 2006. E, para Eli, o mais fácil e lucrativo no caso de uma sequência seria criar um novo grupo de personagens para morrer mortes horríveis e depois contar a grana entrando na caixa registradora.

Não sei quanto a você, leitor ou leitora, mas eu, pelo menos, quando vou ver uma continuação, espero ser surpreendido. Alguns esperam um repeteco do que viram anteriormente, outros esperam mais violência, outros ainda esperam o retorno dos personagens do primeiro filme… Eu não. Eu só quero que os responsáveis pela sequência consigam manter a qualidade do original e, se possível, superá-lo. Como isso é muito difícil, que pelo menos façam um filme marcante e razoavelmente diferente; que seja divertido, mas ao mesmo tempo fuja da simples reprise do que deu certo no anterior. Confesso que esperava que Roth fizesse de Hostel Part II um repeteco do original. Confesso que me enganei. O segundo filme da série conseguiu me surpreender ao reaproveitar aquilo que deu certo no original, mas seguindo uma linha narrativa mais interessante. E assim, mesmo já conhecendo o destino que espera os personagens desta continuação após o primeiro Hostel, o espectador terá surpresas e reviravoltas suficientes para dizer que esta é, definitivamente, uma sequência à altura do original.

Muita gente não gosta do primeiro, alegando que há violência de menos. Não sei o que se passa na cabeça dessas pessoas, já que ver um rapaz amarrado a uma cadeira vomitando de dor após ter os dedos dilacerados on-screen por uma motosserra é cena suficientemente violenta até para quem, como eu, cresceu vendo filmes italianos sobre zumbis e canibais. Muita gente, também, crítica Hostel por ter uma longa introdução que mais parece uma comédia (a comparação mais frequente é com Eurotrip), e só no final partir para o que interessa, outro detalhe que eu considero interessantíssimo, pois o esquema “dois em um” pega o espectador completamente desprevenido (o clima de comédia juvenil logo é soterrado por uma enchente de sangue e membros decepados).

Bem, estes reclamões provavelmente também não vão gostar de Hostel 2. A continuação continua violentíssima, com direito a um banho de sangue no sentido literal da palavra. Mas os sádicos de plantão, que esperam por torturas e mortes escabrosas a cada cinco minutos, não vão curtir, já que novamente o diretor Roth opta por uma introdução de 60 minutos para construção dos personagens, só então partindo para o “pega pra capar”. Pelo menos a estrutura Eurotrip do original foi deixada de lado, já que Hostel 2 é muito mais sério que o original – embora também invista no humor negro, uma marca registrada de todos os filmes de Eli Roth.

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Se Hostel era claramente uma homenagem ao perverso cinema extremo oriental, com gráficas cenas de tortura, bastante sacanagem e mulher pelada e até uma participação bem humorada do diretor cult Takashi Miike, Hostel 2 é definitivamente uma homenagem ao cinema italiano dos anos 70 e 80. Há referências explícitas aos subgêneros típicos da época, como os “giallo”, os filmes sobre canibalismo e os “exploitation movies”, além de participações ilustres de personagens ilustres daquele período: o diretor Ruggero Deodato e os atores Luc Merenda e Edwige Fenich.

O roteiro de Eli não perde tempo e recomeça a trama de onde o primeiro Hostel encerrou, com o mochileiro Paxton (Jay Hernandez, mais conhecido como “Zezé di Camargo americano”) desmaiado no trem que fez a rota Eslováquia-Itália. Ele é levado ao hospital pela polícia e, depois que se recupera dos ferimentos sofridos no original, recebe a visita do detetive italiano interpretado por Luc Merenda, que foi policial durão em vários “giallo” dos anos 70, como La Città Sconvolta, de Fernando DiLeo, e Napoli Si Ribella/A Man Called Magnum, de Michelle Massimo Tarantini. O detetive, que só fala italiano, utiliza uma intérprete para saber de Paxton o que ele tem a ver com um cadáver encontrado no banheiro da estação de Praga. A moça é interpretada por Susanna Bequer, vista anteriormente em O Retorno do Extraterrestre, trash inacreditável do espanhol Juan Píquer Simon.

Paxton então explica aos policiais o que vimos em Hostel: ele e mais dois amigos mochileiros, Josh e Oli, cruzavam a Europa e foram atraídos para uma pequena cidadezinha eslovaca chamada Bratislava, onde existia um albergue com belíssimas mulheres. O local, na verdade, era a fachada de uma organização que sequestrava turistas e os fornecia como mercadoria para que ricos e sádicos homens de negócio do mundo todo pudessem se “divertir” com a tortura e morte dos prisioneiros. Seus dois amigos foram mortos e apenas ele conseguiu escapar, matando, no processo, o empresário que havia torturado e assassinado seu amigo – o tal cadáver no banheiro de Praga.

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Quando Paxton diz que todos os participantes da organização tinham a tatuagem de um cachorro no antebraço, o detetive levanta a manga da sua camisa e mostra que tem exatamente a mesma tatuagem, e então estripa o rapaz na própria cama do hospital!!! Mas calma: era apenas um pesadelo. Paxton acorda sobressaltado ao lado da namorada Stephanie (Jordan Ladd, que Roth dirigiu em Cabana do Inferno). Ao que parece, ele voltou da Europa há algumas semanas e está se recuperando da traumatizante experiência. Mas, com medo de ser descoberto pela organização, vive escondido na casa da avó da namorada. “Quando você vai contar à mãe de Josh o que aconteceu? Ela ainda pensa que o filho está na Europa…”, pergunta Stephanie, referindo-se ao amigo de Paxton que foi morto em Bratislava. Mas o único sobrevivente do primeiro filme está assustado demais para procurar a polícia e contar a verdade sobre tudo que viu (e sofreu) na Europa. E, em menos de 10 minutos, encerrará sua participação nesta sequência, com um destino que provavelmente desagradará diversos fãs do original – estilo Sexta-Feira 13 Parte 2.

Quando Paxton sai de cena, Hostel 2 volta para a Europa, mais precisamente para a Itália, onde somos apresentados a três americanas que estudam arte numa rica escola veneziana. A professora de pintura é Edwige Fenich, que, como o colega Merenda, foi musa de vários “giallo” da década de 70, como Tutti I Colori Del Buio/All the Colors of the Dark, de Sergio Martino, e The Case of the Bloody Iris, de Giuliano Carnimeo. As mocinhas são a rica e independente Beth (Lauren German, que fez uma pequena participação no remake de O Massacre da Serra Elétrica), a atirada loirinha Whitney (Bijou Phillips, de Venom) e a feiosa, CDF e virgem Lorna (Heather Matarazzo, de Pânico 3). Na aula em questão, elas conhecem uma nova modelo, a bela Axelle (Vera Jordanova), que se emociona com o desenho que Beth faz dela.

Beth e Whitney combinaram de aproveitar as férias do curso para passar uns dias farreando em Praga. A primeira aproveita e convida Lorna para acompanhá-las. E no trem, a caminho de seu destino, elas reencontram Axelle, após uma frustrada compra de drogas. A modelo fala sobre um maravilhoso spa com águas termais que fica na pequena cidade eslovaca de Bratislava, e o trio resolve segui-la para relaxar durante alguns dias. Assim, Axelle atrai três novas vítimas em potencial para o tenebrosO Albergue que vimos anteriormente…

Tudo continua igual no “Hostel” após a passagem de Paxton, Josh e Oli por lá: o local ainda está repleto de gostosas, a TV local continua passando Pulp Fiction dublado em eslovaco e o rapaz da recepção é o mesmo (interpretado por Milda Jedi Havlas), com sua aparente cara de inocência. Ele entrega as chaves às garotas e pede que deixem seus passaportes no balcão. Tão logo o trio vai até seus quartos, o rapaz desce ao porão dO Albergue, escaneia as fotos dos passaportes e joga na internet, iniciando o leilão virtual para as três novas vítimas da organização conhecida como “Elite Hunting”.

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Esta cena é fantástica e uma das melhores coisas de Hostel 2: ricos empresários do mundo inteiro acompanham o leilão virtual das garotas em seus telefones celulares ou computadores conectados à internet, no meio de reuniões de trabalho, almoços com a família ou passeios com os filhos, como se estivessem participando de um leilão comum no Mercado Livre. À medida que os sádicos ricaços vão aumentando os lances, a tela fica dividida para mostrar como eles competem e sobem o preço para torturar e matar as garotas. No fim, um americano chamado Todd (Richard Burgi, de Tropas Estelares 2) consegue “arrematar” duas das garotas, Beth e Whitney, enquanto está jogando uma partida de golfe com alguns executivos japoneses. Ele telefona para seu amigo e sócio Stuart (Roger Bart) e avisa que ambos irão viajar para Bratislava. O curioso é que os atores Richard Burgi e Roger Bart já haviam contracenado juntos em diversos episódios do seriado Desperate Housewives. E, apesar da cena do leilão ser uma das melhores do filme, tem um erro grosseiro: enquanto os lances rolam, vemos cenas de executivos do mundo todo participando, mas em todas estas cenas é dia ensolarado, embora, pelo fuso horário, deveria ser noite em alguns locais!!!

A partir de então, Hostel 2 se divide em duas linhas narrativas: a das três pobres vítimas, que nem imaginam o que vem pela frente e aproveitam ativamente suas últimas horas de vida, inclusive participando de um festival tradicional de Bratislava, e a dos dois executores, Todd e Stuart, que se preparam para o “grande dia” em que se transformarão de seres humanos comuns em predadores. Todd está fascinado com a ideia de poder machucar e matar uma pessoa com as próprias mãos (“O que faremos hoje vai valer pelo resto da porra das nossas vidas! As pessoas vão te temer, Stuart! Sua esposa vai te temer!“), enquanto o amedrontado Stuart não está bem certo de que realmente quer fazer aquilo. Principalmente depois que ele conhece Beth, sua futura vítima, por acaso, durante o tal festival.

Quando os dois grupos de personagens entrarem em rota de colisão, a partir dos 60 minutos do filme, Hostel 2 mostra a que veio, atirando sobre o espectador mais uma dose generosa de sangue, crueldade e mutilações, incluindo a cena de castração mais gráfica já mostrada pelo cinema – pau a pau (sem trocadilho) com aquelas mostradas nos filmes italianos sobre canibalismo.

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Este segundo filme tem algumas semelhanças e bem-vindas diferenças em relação ao original. A estrutura básica (viajantes inocentes sendo atraídos até O Albergue e posteriormente aprisionados) continua a mesma. As vítimas, entretanto, não são mais rapazes drogados e sedentos por sexo, mas sim garotas românticas e indefesas – numa entrevista, Roth declarou que optou por três personagens femininas acreditando que seria mais difícil, para o espectador, encarar o terrível destino delas. Se no original Roth perdia um tempão mostrando as confusões à la American Pie dos três rapazes em busca de sacanagem, com muita mulher pelada no processo, agora a coisa é mais casta, sem cenas de nudez ou de sexo, embora as meninas sejam tão boca-sujas quanto os rapazes do anterior – na cena da aula de arte, Whitney pergunta a Beth se Lorna já havia visto um pau antes de fazer o curso (já que há modelos masculinos nus nas aulas); Beth responde: “Talvez num Boticelli“. hahahaha.

Mas a intenção do cineasta-roteirista se concretiza: realmente, é muito mais difícil acompanhar a viagem ao inferno das três moças do que dos três rapazes taradões do original. Especialmente porque Roth mais uma vez subverte a ordem das mortes esperada pelo espectador, e despacha antes de todas a nerd e virgem do grupo, morta na cena mais chocante e brutal desta sequência, e que cita abertamente a lenda da condessa Elizabeth Bathory – aquela que se banhava no sangue de virgens numa tentativa de rejuvenescer e viver para sempre. Cruelmente, a pobre moça é pendurada de ponta-cabeça sobre uma banheira, onde uma coroa pelada (Monika Malacova) abre talhos em suas costas e na garganta para lavar-se com o sangue que escorre como se fosse um chuveiro!!!

Um detalhe curioso é que o espectador se vê incomodado com a tortura e morte das protagonistas mesmo que as três personagens sejam bem menos desenvolvidas que o trio de mochileiros do original – na verdade, acho que este é o principal defeito de Hostel 2, a construção primária das personagens, com mais ênfase nos dois carrascos do que nas três garotas. Pior: a mocinha Lauren German é muito fraca, e sua interpretação raras vezes convence, principalmente quando ela passa de menina indefesa a mulher corajosa e agressiva num piscar de olhos.

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Fugindo da possibilidade de simplesmente repetir a história do original, já que o “segredo” dO Albergue não é segredo para mais ninguém, o roteiro de Roth prefere dar mais destaque à organização que atua por trás da fachada “Elite Hunting“. Após ganharem o leilão virtual, os dois executivos americanos passam por todas as partes do processo da “companhia“, recebendo a misteriosa tatuagem do cachorrinho no antebraço, assinando o contrato que os obriga a matar suas vítimas e recebendo uma espécie de “bip“, que os avisará sobre a hora da “diversão“. Em outra cena muito bem orquestrada, ao som de uma música lírica, Roth filma, ao mesmo tempo, as moças sendo preparadas para a tortura e Todd e Stuart vestindo as roupas de carrascos, idênticas àquelas usadas pelos vilões do primeiro Hostel.

Eu lembro de ter saído do cinema dizendo ‘Este é melhor que o original!’ apenas algumas vezes, em Aliens, Mad Max 2, O Império Contra-Ataca e, mais recentemente, em Rejeitados pelo Diabo e Jogos Mortais 2. Mas apenas 2% das sequências são melhores do que os originais”, disse Eli, numa entrevista sobre esta continuação. Para ele, era uma questão de honra fazer Hostel 2 tão bom ou melhor que o original: “Eu assisti Hostel com audiências do mundo inteiro, pelo menos umas 100 vezes. Eu vi o filme na França, na Itália, e percebi quais são os momentos que funcionam, quando os espectadores ficaram na ponta da poltrona e quando começaram a olhar para os relógios. Então, peguei os elementos que melhor funcionaram no primeiro para fazer a sequência.”

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Há uma visível preocupação do roteirista e diretor em tentar tornar as coisas bastante realistas. Tanto que a estrutura da fábrica onde os turistas são torturados sofreu mudanças, com muito mais homens armados e segurança (circuito interno de TV, portas fechadas por senha eletrônica), para prevenir uma fuga “fácil” como a de Paxton no original. Além disso, também descobrimos que os prisioneiros são maquiados e vestidos com roupas conforme a preferência do “freguês“! E o roteiro ainda nos apresenta Sasha (Milan Knazko), um dos homens que lidera a organização Elite Hunting, e que é ao mesmo tempo temido e respeitado na cidade – um homem que tem o bizarro hobby de colecionar as cabeças decepadas de seus desafetos!!! hehehehe.

Hostel 2 também diverte ao trazer várias referências ao original. Temos, por exemplo, o retorno da “Bubblegum Gang“, aquela quadrilha de malvadas crianças de Bratislava, capazes de matar por um simples chiclete – conforme visto no original. Mais ameaçadoras do que nunca, as crianças retornam para mais uma sessão de malvadezas. Outro detalhe interessante está no quarto da modelo Axella, onde Beth encontra um porta-retrato com a foto da garota ao lado de Natalya e Svetlana, as duas gostosas que atraíam os desavisados Paxton e Josh para a fábrica no primeiro filme, e que foram mortas por Paxton na sua fuga do local. E se em Hostel tínhamos a espertíssima participação de Takashi Miike como ele mesmo, aqui a grande estrela do espetáculo é o italiano Ruggero Deodato, também interpretando ele mesmo, numa participação mais do que especial, fazendo o que se espera do sujeito que filmou o clássico Cannibal Holocaust (e, depois dessa, vai ser ainda mais difícil para ele se livrar do apelido “Monsieur Cannibal“, que Ruggero tanto odeia…).

E Roth aproveita para corrigir uma piada que pouca gente entendeu no original: ele foi acusado de mostrar uma versão extremamente negativa de Bratislava e da própria Eslováquia, principalmente quando os personagens dos turistas americanos falam que a cidade tem mulheres sobrando porque os maridos supostamente morreram nas guerras que ainda aconteciam no país (na verdade, a Eslováquia não tem guerras há décadas). Segundo o cineasta, o objetivo era justamente mostrar como os jovens americanos são extremamente burros e desconhecem a cultura de qualquer outro país fora dos Estados Unidos. E ele repete a dose na cena em que Axella revela às três garotas que está indo para a Eslováquia. Whitney, tão burra quanto os americanos do original, pergunta, assustada, se não há guerras no país, e Axella responde que a última delas aconteceu há 50 anos. Ao contrário de Hostel, que foi totalmente gravado em Praga, na República Checa, esta sequência teve algumas cenas realmente rodadas na Eslováquia.

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Hostel 2 ainda tem o mérito de corrigir o final moralista do original (a “vingança” de Paxton contra o homem que torturou e matou seu amigo, dando ao público a sensação de final feliz, de que tudo estaria bem a partir daquele ato). Mais cínica e – por que não? – politicamente incorreta, a conclusão desta sequência traz uma nova reviravolta no comportamento dos personagens. E ainda inclui uma última cena macabra envolvendo novamente as crianças da Bubblegum Gang. Quem achar esta cena um exagero de Roth, com certeza não lembra da foto feita por um fotógrafo brasileiro em 1992, numa favela carioca, mostrando crianças jogando uma pelada alegremente, alheias a uma cabeça decepada bem no meio do campinho! Às vezes, como bem sabemos nós, brasileiros, a vida real pode ser muito mais assustadora e absurda que os filmes de horror…

Embora não seja assustador no literal sentido da palavra, e embora muitos chatos de plantão certamente irão reclamar da “falta de violência“, Hostel 2 continua tão chocante e brutal quanto o primeiro. Sinceramente, não creio que possa haver algo mais maléfico do que a organização concebida por Eli Roth. Só a ideia de que realmente possam existir pessoas ricas e poderosas interessadas em investir seu dinheiro na tortura e morte de inocentes já é mais tenebrosa do que qualquer Sexta-Feira 13 ou Jogos Mortais, pois não são “psicopatas” como os que o cinema costuma mostrar, mas sim pessoas normais, pais de família, grandes empresários, netos e maridos dedicados, sem traumas de infância, problemas de pele ou poderes sobrenaturais para justificar suas intenções sádicas. Cenas como a da “oferta especial“, dos pertences das vítimas mortas sendo incinerados (numa imagem que remete aos nazistas e ao Holocausto) e a maneira como os associados da Elite Hunting encaram aquilo como um simples negócio fazem de Hostel 2 uma história arrepiante e cruel ao extremo. Provavelmente, no cinema de horror moderno, nada seja tão assustador quanto os engravatados homens de negócio mostrados nos dois filmes dirigidos por Eli Roth, muito mais malvados e ferozes que Leatherface, Jigsaw, Jason, Freddy Krueger e o raio que o parta!

Hostel 2 é um filmaço, com toda tensão, sadismo e sangue que um fã de horror pode esperar de uma obra produzida por um grande estúdio. Mas, notadamente, falta alguma coisa no resultado final, talvez aquele gostinho de novidade que existia no original e que agora não é mais possível reconstruir – o espectador já sabe o que espera pelas moças em Bratislava, já sabe mais ou menos como funciona a organização e já sabe que a maioria dos personagens terá um triste fim. O roteiro de Roth, por mais intrigante que seja, tem certas passagens demasiadamente preguiçosas, principalmente o desfecho prematuro da participação da Paxton na trama (o cara comeu o pão que o diabo amassou em Hostel para ser descartado sem mais nem menos?), e o momento em que um cidadão de Bratislava tenta alertar Beth para seu triste fim (o que nos deixa com uma dúvida: será que toda a cidade está mancomunada com o esquema da Elite Hunting ou alguns condenam o pérfido negócio?).

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O diretor também poderia ter utilizado mais apropriadamente tanto Luc Merenda quanto Edwige Fenich, dois atores que tirou da aposentadoria para as participações especiais no filme. Roth, grande fã de Edwige, encontrou-a em Roma durante o lançamento oficial de Hostel e perguntou se ela não gostaria de voltar a atuar. A atriz estava aposentada desde 1988, quando fez o giallo A Face, de Ruggero Deodato, e desde então só ganhou pequenos papéis na TV italiana, vivendo como produtora e distribuidora de filmes. Pois ela não só aceitou fazer uma participação em Hostel 2, como ainda ajudou o cineasta a convencer Merenda, que também estava aposentado, a retornar para a frente das câmeras. Do jeito que está, a participação de ambos é apenas um pequeno bônus para os fãs de cinema italiano (já que a nova geração com certeza nunca ouviu falar deles nem se importa com quem são). Mas os dois atores com certeza poderiam ter papéis mais interessantes, como a memorável participação de Deodato.

No fim, Roth consegue preencher algumas lacunas, criar situações inesperadas e prender a atenção do espectador, mesmo de quem já decorou o primeiro Hostel. Com certeza Eli tem muita coisa diferente e mais interessante para filmar, fugindo da seara “continuações/remakes“. Enquanto várias promessas do moderno cinema de horror ficaram pelo caminho e desapareceram sem deixar vestígios (como os caras que fizeram A Bruxa de Blair e o roteirista Kevin Williamson, de Pânico), Eli segue firme como uma das melhores surpresas surgidas recentemente. O negócio, agora, é deixar sequencias e remakes para os videoclipeiros e partir para algo diferente e original. Pois, de repetitivo, já bastam as franquias Jogos Mortais e Premonição

PS: Como fez em todos estes filmes, Roth tem uma participação especial em Hostel 2. Se você não encontrá-lo na primeira vez, tente reassistir e olhar com mais atenção para as cabeças decepadas na coleção de Sasha (sim, Eli “reaproveitou” sua cabeça falsa utilizada em Thanksgiving, o trailer falso que ele filmou para Grindhouse).

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12 Comentários

  1. Pedro

    Eu acho o filme albergue super maneiro, mostra o lado macabro das pessoas em um lugar em que elas podem fazer tudo que querem, diferente da vida “real” né? Onde existem leis que proíbem esses psicopatas de fazerem esse tipo de coisas. Paralelamente a isso, é triste ver que tem que existe leis que proíbem um ser humano matar o outro, coisa que deveria vir da própria pessoa, triste!

  2. Isaac

    So quero saber se la eles torturam mesmo as pessoas na eslovaquia

    • Pedro

      Eu acredito que tenha em algum lugar por ai, só que ainda não foi descoberto, ou foi, só que pagaram pra ninguém falar nada, sei lá….esse mundo o dinheiro compra tudo né??

  3. roberto cardoso

    Esse tipo de filme é perfeito para satisfazer as necessidades sado-masoquistas de alguns expectadores, mas -na boa- é muito doentio.

  4. Guilherme

    Muita gente deve torcer o nariz para a frase que o Eli Roth disse sobre querer fazer algo tão assustador quanto O Exorcista, pois eu tenho de dizer que ele conseguiu. Mesmo que o que seja mostrado na tela não assuste tanto, a premissa sobre essas pessoas pagarem para matar é bem assustadora, já que pode estar acontecendo nesse momento em algum lugar do mundo…
    E não dá pra acreditar que alguém possa achar que nesse filme faltou sangue, pq não faltou não.

  5. Morecgo

    Por incrível que pareça, consegue ser melhor que o primeiro.
    Continua apelativo, mas NÃO TANTO quanto o anterior, onde nem consegui ver direito que tão repugnante.
    Esse pelo menos, tem seus momentos. A cena da foice é a melhor.
    Regular.

  6. Artax

    Realmente, melhor que o original! A cena do banho de sangue é inesquecível! Sem dúvidas é o meu preferido da trilogia!

  7. Ainda mais foda que o primeiro , a frase na sua capa ” Mais Violento , Intenso e Sanguinário que o Original ” diz tudo !!

    • Isaac

      Eu irei visitar a eslovaquia so qero saber se la eles torturam as pessoas mesmo

      • Silvana Perez Silvana Perez

        Não, Isaac.

  8. tiago

    achei esses dois filmes decepcionantes.
    acho quê seria bem melhor o Eli roth ficar só na produção já quê dirigir filmes tá bem evidente quê não é o forte dele.

  9. vanessa vasconcelos

    filmaço mesmo,tão bom quanto o original.obs: não fala mal de premonição,eu simplesmente ADOROOOOOOO 🙂

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