Críticas

O Albergue (2005)

Cumpre o prometido sem entregar nada além do esperado – embora algumas imagens fiquem gravadas na mente semanas depois de assistir!

O Albergue (2005)

O Albergue
Original:Hostel
Ano:2005•País:EUA
Direção:Eli Roth
Roteiro:Eli Roth
Produção:Chris Briggs, Mike Fleiss, Eli Roth
Elenco:Jay Hernandez, Derek Richardson, Eythor Gudjonsson, Barbara Nedeljakova, Jana Kaderabkova, Jennifer Lim, Rick Hoffman, Petr Janis, Takashi Miike, Patrik Zigo

Numa das melhores cenas de Oito Milímetros, de Joel Schumacher (um filme apenas razoável com uma trama intrigante), o detetive Tom Wells, interpretado por Nicolas Cage, pergunta a um advogado porque o seu cliente, um velho podre de rico, pagou um milhão de dólares para que um bando de marginais filmasse um snuff movie, com uma adolescente sendo estuprada, torturada e morta. Nos seus pensamentos mais íntimos de um ser humano normal, pacífico e pacato, Wells queria que o advogado lhe desse uma resposta minimamente coerente, que o ajudasse a entender uma barbárie daquelas, para que ele novamente pudesse enxergar o mundo como um lugar bom para se viver e seguro para criar sua filha pequena. Mas o outro estraga todas as suas esperanças e se limita a responder: “Porque ele podia“.

Esta relação íntima entre dinheiro e o “poder” para se fazer o que bem entender – mesmo que aí estejam incluídos tortura e assassinato – são o cerne de uma produção americana bastante badalada desde que surgiram as primeiras notícias sobre seu desenvolvimento. E não é à toa: O Albergue tem uma trama banal, porém aterrorizante, sobre o lado mais negro da mente humana. O filme nos apresenta um local onde pessoas aparentemente comuns podem pagar pelo acesso à depravação, à tortura e ao assassinato, como se estivessem saindo normalmente de férias. Enfim, uma espécie de Disneylândia para dementes e psicopatas – neste caso, ricos homens de negócio com dinheiro para pagar pela “aventura” de serem assassinos torturadores durante algumas horas.

Hostel é uma feliz associação entre dois nomes populares do cinema independente: Eli Roth e Quentin Tarantino. O segundo dispensa apresentações, mas Roth é um jovem cineasta que tem cara e jeito de garotão. Começou a fazer filminhos com uma câmera Super 8 quando tinha apenas oito anos de idade, influenciado pelo filme Alien, de Riddley Scott. Em 1996, estreou no cinemão americano fazendo uma ponta de alguns segundos no drama O Espelho tem Duas Faces; três anos depois, teve uma experiência totalmente contrária: estreou no cinemão trash americano ao participar de Terror Firmer, filme da produtora bagaceira Troma. Por volta de 2001, Roth já tinha uma bagagem tremenda: havia trabalhado com o diretor cult David Lynch na produção de material para seu website e dirigiu e dublou um seriado de animação chamado Chowdheads. Foi quando teve a ideia de renovar o cinema de horror americano, que andava muito bunda-mole (voltado a imitações de Pânico e coisas do gênero). Ele tinha uma ideia envolvendo muito sangue, violência e citações a clássicos como Evil Dead e A Noite dos Mortos-Vivos. Esta ideia era Cabin Fever – no Brasil, Cabana do Inferno.

A obra de estreia de Roth como diretor/roteirista/ator dividiu opiniões, mas mostrou a força e o poder de divulgação daquele sujeito com cara e jeito de adolescente, já que, mesmo antes do filme começar a ser rodado, muitos sites e revistas especializadas em cinema já o apontavam como grande promessa do ano (o mesmo aconteceu com Hostel). Cabana do Inferno foi filmado com 1,5 milhão de dólares obtido junto a familiares e amigos; em 2002, após exibi-lo em um festival de cinema independente, Roth surpreendeu-se com uma proposta da Lionsgate, que queria distribuir o filme. O negócio foi bom para os dois lados, já que a produção tornou-se a maior bilheteria da Lionsgate em 2003. Além, é claro, de lançar Eli Roth como nova promessa do cinema de horror, graças a uma avalanche de críticas positivas em revistas como Rolling Stones e jornais tipo The New York Times, somadas a comentários positivos de mestres como Peter Jackson e Tobe Hooper.

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Em Cabana do Inferno, Roth teve cara e coragem para mostrar coisas que há algum tempo não estávamos acostumados a ver no cinema de horror americano, como efeitos nojentos e sadismo explícito. Ainda que muita gente diga que o filme “não é tudo isso“, é preciso assumir que cenas como a da garota que vai depilar a perna e arranca nacos de pele com o barbeador são coisa que somente um cineasta corajoso e realmente fã de horror seria capaz de conceber e filmar – indo, como eu escrevi anteriormente, na contramão da “bunda-molice” que assolava, e ainda assola, o cinema americano do gênero, que prefere cortes rápidos e desviar a câmera do alvo nas cenas mais chocantes e sangrentas.

Com o sucesso de seu primeiro filme, o cineasta tinha caminho aberto para uma série de projetos que já vinha concebendo há anos, como uma comédia juvenil chamada Scavenger Hun e um terror batizado The Box. Ainda em 2003, juntou forças com Boaz Yakin e Scott Spiegel (sim, aquele amigão de Sam Raimi) para fundar a Raw Nerve, uma pequena produtora de filmes de horror baratos e de baixo orçamento. E então, subitamente, tão rápido como apareceu, Eli Roth desapareceu do mapa. Recolheu-se a um auto-imposto exílio e preferiu apenas produzir o problemático remake 2001 Maniacs ao invés de tocar seus próprios projetos. Neste período de três anos sem filmar, Roth ficou um tanto decepcionado com a indústria do cinema. Afinal, os grandes e médios estúdios só queriam lhe contratar para filmar remakes – o roteiro de Madrugada dos Mortos, que acabou sendo dirigido por Zack Snyder, foi um dos que chegou às mãos de Roth.

Então, certo dia, o diretor teve um feliz encontro com o “rei do cinema independenteQuentin Tarantino. Conversa vai, conversa vem, Tarantino pediu a Roth quais seus próximos projetos – ele é fã declarado de Cabana do Inferno, e chamou Eli Roth de “grande promessa do horror” em uma entrevista na revista Premiere Magazine, em 2004. Roth disse que só recebia roteiros de remakes, mas que tinha um projeto para um pequeno filme sádico e sangrento sobre um local onde pessoas pagavam para torturar e matar vítimas inocentes. O enredo seria inspirado, segundo ele, em um website que havia encontrado na internet, prometendo “férias de matar“, e que até hoje não sabe se era real ou apenas brincadeira. Posteriormente, a trama foi amadurecida em conversas que teve com o crítico de cinema Harry Knowles. Tarantino se interessou pelo projeto assim que ouviu a descrição do amigo e resolveu ser produtor executivo daquilo que se transformaria em Hostel. Não só produziu como ainda acompanhou algumas estreias oficiais do filme nos EUA, apresentando o trabalho e rasgando seda para Roth. Quer consagração maior que a deste cara?

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Desde que o projeto começou a ser concebido e filmado, em meados de 2005, os sites e revistas especializadas em cinema têm deixado os fãs de horror com água na boca. Em uma entrevista ao site Timeout, por exemplo, Roth disse que Hostel seria tão aterrorizante quanto O Exorcista. Em outra entrevista, agora à famosa revista Fangoria, ele falou que se a Academia criasse uma categoria do Oscar chamada “Maior Combinação de Sexo e Violência em um Único Filme“, ele seria forte candidato à estatueta. Isso, somado a teasers, trailer e até cenas inteiras do filme jogadas propositalmente na internet para atiçar a curiosidade dos fanáticos por horror, transformou Hostel em um dos filmes mais comentados e aguardados de 2006.

Mas e será que valeu a pena esperar? Afinal, O Albergue é tudo isso? Prefiro deixar a resposta no ar: depende da expectativa de cada um. Mas, na minha modesta opinião, o filme se inscreve, sem dúvida, entre os melhores de 2006. E, como Cabana do Inferno fez há três anos, dá uma bem-vinda sacudida na “bunda-molice” do cinema americano de horror. Embora, também a exemplo do seu filme anterior, Eli Roth abuse do humor (escrachado às vezes, mas negro a maior parte do tempo), a história não deixa de pegar pesado, embrulhando o estômago do espectador mais de uma vez. Em poucas palavras: é um filme de terror feito por um fã de filmes de terror para outros fãs de filmes de terror.

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Como todo mundo já deve estar careca de saber, ainda mais depois da exaustiva divulgação via internet, Hostel conta a história de um trio de mochileiros que se aventura pela Europa, fazendo farra e dormindo em albergues. Dois deles são os americanos patetas típicos desse tipo de produção, o gente-boa Paxton (Jay Hernandez, que, como bem observou o webmaster Marcelo Milici, é a cara do Zezé di Camargo!!!) e seu amigo tímido Josh (Derek Richardson, que pagou mico em Debi e Lóide 2); o terceiro integrante é Oli (Eythor Gudjonsson), um islândês bêbado e tarado. Não pense que os três rapazes recém-formados estão passeando pela Europa em busca de museus e da cultura do Velho Continente; na verdade, o que eles querem é transar o máximo possível, encher a cara e fumar toneladas de maconha.

O início da jornada do trio debiloide é a liberal cidade de Amsterdã, onde eles fazem a festa em casas de prostituição e bares com maconha liberada para consumo. Depois, acabam a noite em uma boate, onde arrumam confusão, é claro. Embora o comportamento dos personagens possa parecer deplorável, o diretor/roteirista Roth disse, numa entrevista, que quis representar, de propósito, a mediocridade dos jovens americanos – o que fica bem evidente na cena em que Josh é expulso de uma boate por se meter numa briga e começa a gritar o tradicional discurso: “Eu sou um cidadão americano, tenho meus direitos!“. Voltando aO Albergue onde estão instalados, os três turistas encontram Alex (Lubomir Bukovy), um jovem mochileiro russo que lhes conta um segredo: no coração da Eslováquia, numa cidadezinha chamada Bratislava, existe um albergue (Hostel) repleto de mulheres maravilhosas que transam com qualquer um, mas principalmente com americanos.

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Fascinados pelas fotos que Alex lhes mostra em seu celular, de deslumbrantes gatas seminuas, os três amigos não pensam duas vezes e pegam o primeiro trem para Bratislava, mesmo sem conhecer patavinas do local. Mas e não é que o tal albergue dos sonhos existe? Paxton, Josh e Oli são recepcionados por mulheres belíssimas, daquelas de capa de revista de sacanagem; descobrem que as garotas andam seminuas livremente (!!!), e ainda há uma sauna repleta de mulheres peladas. E, sim, elas se jogam em cima de qualquer estrangeiro, principalmente americanos. É mole ou quer mais? Então começa a festa: Oli sai com uma japinha (Keiko Seiko) e a dupla de americanos conhece duas gatas deslumbrantes, Natalya (Barbara Nedeljakova) e Svetlana (Jana Kaderabkova). As gostosonas apresentam aos amigos um mundo de prazer e sexo selvagem. Mas é claro que quando a esmola é muita, até o santo desconfia. Principalmente num filme de horror…

Assim, no dia seguinte, quando Paxton e Josh acordam, Oli não está mais nO Albergue. Na recepção, lhe dizem que o amigo pegou sua bagagem e foi embora com a japa da noite anterior. Mesmo não acreditando muito na história, os dois americanos não estranham tanto o desaparecimento do amigo (sabe como é, são americanos burros que só querem saber de farra), e voltam a sair com Natalya e Svetlana. Logo, porém, a dupla descobrirá o que aconteceu ao amigo, quando são arrastados a uma escura masmorra e descobrem na carne a maneira como alguns ricos homens de negócios do mundo inteiro gostam de se divertir…

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De certa maneira, Hostel se desenvolve como Um Drink no Inferno, roteiro de Quentin Tarantino magnificamente filmado por Robert Rodriguez: o espectador é “enganado” com um início calmo, leve e até engraçado, e de repente jogado num inferno tenso e sangrento sem maiores explicações – como se você estivesse assistindo Eurotrip, aquela divertida e debiloide comédia sobre jovens americanos na Europa, e na metade do filme algum colocasse Wolf Creek no seu DVD sem você perceber. Os 45 primeiros minutos de Hostel são lentos, concentrando-se mais nas farras e aventuras do trio de amigos e transbordando um senso de humor bobalhão; mas no momento em que os personagens vão parar na masmorra, aí o bicho pega. Furadeiras, bisturis afiados, broquinhas de dentista e serras elétricas, entre outras ferramentas não menos ameaçadoras, começam a aparecer e mudam completamente o tom do filme.

Roth traz de volta, neste seu segundo filme, vários elementos que já apareciam em seu debut Cabana do Inferno. O mais notável é o senso de humor doentio, com piadas de humor negro e duplo sentido. Quem gostou daquela tirada da “arma para os crioulos” em Cabana do Inferno vai ir ao delírio com o novo trocadilho que Roth colocou em Hostel, desta vez envolvendo um bando de garotos de rua de Bratislava que, supostamente, poderiam matar alguém por um punhado de chicletes. Outro elemento que aproxima Hostel de Cabana do Inferno é a variedade de citações a outros filmes. Embora Roth tenha declarado que quis fazer um roteiro original, sem citações, é inegável que o figuraça é uma espécie de liquidificador de cultura pop terrorífica, mais ou menos como Tarantino é do cinema obscuro em geral. Durante o tempo de projeção, é possível pescar todo tipo de citação ou homenagem a outros filmes, do atropelamento de Marcelus Wallace em Pulp Fiction até a famosa cena final de O Massacre da Serra Elétrica original (envolvendo um escorregão e uma motosserra ligada), passando ainda por uma grata homenagem à sangrenta “cena do metrô” do filme oriental Suicide Club.

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Para quem ainda não viu, uma pergunta deve estar até agora martelando na cabeça, depois de tantos boatos, fotos e comentários divulgados na internet: afinal, Hostel é tão sádico e sangrento quanto parece? Bem, a resposta, neste caso, é mais complicada do que parece. Que Hostel é sádico, isso não há dúvidas. Afinal, que outro adjetivo poderia ser usado para um filme que mostra pessoas sendo torturadas em detalhes gráficos? (Em determinado momento, o pavor e a dor fazem com que uma vítima amarrada vomite de tanto horror!!!). E como não poderia ser sangrento um filme que usou mais de 150 galões de sangue falso (três vezes mais que em Cabana do Inferno, segundo o IMDB), e não tem o menor pudor de mostrar nervos, dedos e olhos arrancados, cortados ou furados???

O problema é o seguinte: depois de tantos comentários de que Hostel seria “o mais sangrento” e “o mais violento” filme da história, e de todos os cartazes mostrando cenas absurdamente gráficas (aquele da furadeira enfiada na boca é genial, mas tal cena não existe no filme), muita gente acabou se preparando para o pior, para um açougue humano, para uma visita a um matadouro. E não é bem assim. Roth mostra, várias vezes, coisas grotescas em cena; mas, em diversas outras oportunidades, prefere fazer uso apenas de sons, ou de cortes criativos, para deixar parte do horror na cabeça do espectador, sem explicitá-lo. Em um momento brilhante, que lembra os bons tempos “anos 70” de O Massacre da Serra Elétrica e Last House on the Left, um jovem amarrado a uma cadeira tem um encontro nada agradável com um empresário alemão (Jan Vlasák), que lhe confidencia: “Eu sempre sonhei em ser um cirurgião…“. Isso enquanto afia, ameaçadoramente, um brilhante bisturi! O espectador já espera pelo pior; a vítima, indefesa e completamente desamparada, começa a chorar e pedir para ir embora (numa interpretação tão realista que o ator parece realmente estar com medo e sofrendo). Subitamente, o “cirurgião” começa a realizar cortes que a câmera não mostra – o espectador apenas escuta o arrepiante som da carne sendo cortada e os gritos de dor da vítima. É o tipo de tortura psicológica que os efeitos especiais costumam destruir. E a extensão do desastre só será conhecida momentos depois, quando o torturado levantar da cadeira. Brrrrr… Prepare-se para os arrepios!

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Mas é claro que alguns espectadores vão dizer que “esperavam mais“, que “nem é tão sangrento“, ou é “propaganda enganosa“. Sinceramente, não consigo imaginar algo mais sádico do que pessoas aparentemente comuns mostrando seu “lado negro” ao torturar e matar vítimas indefesas com requintes de crueldade – e pagando caro por isso! Não consigo imaginar algo mais sádico que ver as vítimas implorando, gritando, chorando de medo e de dor (em interpretações, volto a salientar, bastante realistas). Entretanto, Hostel está na mesma categoria de filmes como Cannibal Holocaust e Last House on the Left: fala-se tanto do sadismo e violência explícita destas produções que, quando alguns espectadores finalmente vêem, acabam se decepcionando porque criaram um quadro extremamente gráfico e sanguinolento em sua mente. Se o filme de Eli Roth perde feio para algumas produções orientais do mesmo calibre, que são infinitamente mais sádicas e doentias, por outro lado não se sabe a extensão dos cortes exigidos pelo órgão que regula a censura nos Estados Unidos. É possível que muitas cenas mais sangrentas tenham sido reduzidas ou limadas!

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Isso quer dizer que Hostel nega fogo? Pelo contrário: une o melhor da violência implícita (sons e gritos de desespero) com efeitos muito bem realizados dentro da mais pura violência explícita (prepare-se para ver uma serra elétrica em ação “on-screen“, coisa que nem o remake de O Massacre da Serra Elétrica mostrou como deveria!). E Hostel cumpre exatamente o que promete: 1h30min de violência e tensão, nem mais, nem menos do que isso. O filme não tem a pretensão de ser genial, incluir reviravoltas ou final-surpresa; é apenas uma boa história de horror, que mantém o espectador com o estômago embrulhado e em permanente suspense do início ao fim. Se dá para reclamar de propaganda enganosa, é do fato de Hostel não ser nem um pouco assustador – e Eli Roth dizia que queria algo no nível de O Exorcista. Porém, aí também é injusto avaliar, porque o quanto um filme é assustador varia muito de um espectador para outro… E a geração Pânico, certamente, vai ter faniquitos com a verdadeira descida ao inferno que Hostel proporciona. Isso porque o filme é sujo, escuro, sinistro e cruel como poucos.

Já li, em várias críticas de sites gringos, reclamações quanto à lentidão da primeira parte do filme e quanto ao reduzido número de personagens, já que assim são menos pessoas em cena para morrer. Ora bolas, esta é a típica mentalidade de quem cresceu vendo Sexta-Feira 13 e suas 300 mortes por episódio. Felizmente, percebo que os filmes de terror da nova geração estão voltando a um estilo “anos 70” de muito clima e poucas vítimas. É só analisar os últimos destaques do gênero, como Wolf Creek (apenas 3 personagens + um maníaco), Mal-e-Violência (5 personagens + um maníaco) e Alta Tensão (2 personagens na maior parte do tempo + um maníaco). Em Hostel, basicamente, só temos dois personagens centrais – já que o terceiro, Oli, desaparece rapidinho. Pois com apenas dois personagens em cena, e um bom tempo gasto mostrando as farras e aventuras deles, o espectador começa a se acostumar com a presença dos jovens como se fossem velhos amigos – e se importa quando algo acontece a eles, diferente do que acontecia com as 300 descartáveis vítimas de um Sexta-Feira 13, por exemplo.

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Hostel também trabalha com uma sensação de isolamento que torna toda a situação mais tensa e desesperadora. Os três jovens estão muito longe de casa, em uma cidade desconhecida de um país sobre o qual pouco ou nada sabem. Mal conhecem o idioma local, não sabem para quem pedir ajuda e nem para onde ir em caso de emergência – pior: ninguém sabe que eles estão ali para poder ajudá-los. E na hora que o bicho pega, como saber em quem confiar? Será que a polícia não faz parte do esquema? E se todos os cidadãos de Bratislava estão juntos no terrível negócio de venda de vidas humanas?

É claro que o filme não é uma obra-prima, nem mesmo uma história genial. Convenhamos: não há nada tão brilhante em 90 minutos de sangue e tortura. A própria história não tem nada de extraordinário – chega a lembrar aquela velha lenda urbana da gostosa que te dá um sonífero na cama para lhe roubar um rim. E embora o filme cumpra seu objetivo básico, que é o de agarrar o espectador pelos cabelos e mantê-lo vidrado até o último minuto, há alguns problemas bem evidentes de estrutura e roteiro. O principal deles é a forma como, a partir de certo momento, tudo que acontece passa a depender da sorte – de um feliz escorregão, de um encontro numa alameda, de identificar a voz de alguém num trem lotado, e por aí vai… Enfim, coisas que, na vida real, dificilmente aconteceriam, embora até pareçam legais no universo cinematográfico. Este tom “cinema classe B” faz com que Hostel perca o clima de filme sério e realista, perdendo feio na comparação com um clássico como O Massacre da Serra Elétrica, por exemplo.

Além disso, Roth muitas vezes parece mais preocupado com o sangue rolando do que com a técnica. Ele erra, e feio, ao apresentar um desenvolvimento muito superficial de alguns personagens – como um gordo escroto responsável por se livrar do que os “clientes” deixam na masmorra. Também faz um trabalho preguiçoso em determinados momentos importantíssimos do filme. O principal, na minha opinião, é aquele, logo no início, onde Paxton conta a Josh que negou socorro a uma jovem que se afogava, e ela morreu. A história parece conversa fiada, mas será fundamental mais tarde – quando Paxton terá a chance de se redimir de sua negligência. Por isso, é lastimável que a história seja simplesmente narrada pelo personagem sem qualquer carga dramática, ao invés de filmada em flashback…

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Vale a pena citar algumas curiosidades dos bastidores. Hostel foi filmado em Praga, na República Tcheca, bem longe de Bratislava e da Eslováquia. Desnecessário dizer que os “bratislavenses” (ou como quer que se chamem os nativos de lá…) andam muito decepcionados com o cinema americano, considerando que em Hostel eles são mostrados como sádicos assassinos, e na comédia Eurotrip a cidade foi representada como um verdadeiro buraco, onde alguns centavos de dólar podem comprar um hotel cinco estrelas! A masmorra onde se desenvolvem as torturas e “diversões” é, na verdade, um velho manicômio de Praga, construído em 1910 e fechado há pelo menos 50 anos – tão depressivo quanto aparece no filme.

Hostel também tem uma estreita ligação com a Islândia: Roth adora passar as férias no país e fez com que a estreia internacional do filme acontecesse lá, no Iceland Film Festival de 2005. Durante a estreia, o diretor e o produtor executivo Tarantino foram nomeados “vikings honorários“. É bom lembrar que Eythor Gudjonsson, que interpreta o islandês Oli, não é, na verdade, um ator. Eythor trabalhou tão arduamente na divulgação de Cabana do Inferno na Islândia que ele e Roth tornaram-se bons amigos, e o diretor prometeu colocá-lo em papel de destaque no seu próximo filme.

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Como promessa é dívida, o cara aparece em Hostel deixando uma imagem bem negativa do povo islandês – o que fez com que o diretor/roteirista, de maneira bem humorada, enviasse um pedido de desculpas oficial ao presidente da Islândia, pedindo perdão por qualquer má impressão que o personagem Oli pudesse provocar dos islandeses em geral! Por fim, em uma cena que mostra cortes no tendão-de-Aquiles (ouch!) de uma vítima, foi usado o mesmo modelo construído, mas não utilizado, para cena semelhante de Kill Bill Volume 1, de Tarantino.

Se conseguir desgrudar os olhos do sangue rolando e das belas mulheres seminuas, repare ainda em duas participações especialíssimas. A primeira é do próprio Eli Roth, que aparece como um dos jovens chapados num bar de haxixe em Amsterdã, logo no início do filme – e como o sujeito também interpretou um maconheirão em Cabana do Inferno, fica claro que ele está querendo se transformar numa espécie de “Marcelo D2” do mundo do cinema. A outra participação é do cultuado diretor japonês Takashi Miike – sim, “O” Takashi Miike de Ichi the Killer e One Missed Call -, como um dos clientes de carteirinha do povo de Bratislava.

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Então você já sabe: se for conferir Hostel, esteja preparado para um filme violento e sinistro, mas não para “O” filme violento e sinistro. Ele cumpre o prometido sem entregar nada além do esperado – embora algumas imagens fiquem gravadas na mente semanas depois de assistir. E nas suas próximas férias, que tal uma passadinha por Bratislava? Os moradores de lá garantem que a cidade não tem sádicos assassinos, mas talvez tenha umas gostosas como Natalya e Svetlana, vai saber… Se tiver coragem, acesse o site www.bratislavahotels.com e reserve seu quarto. Mas atenção: convém ter cuidado, ainda mais se as gatas nO Albergue forem muito fáceis. O seguro morreu de velho!

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13 Comentários

  1. Jaerlington Paulo

    Quando assisti este filme pela primeira vez, me surpreendi com as sensações que ele me proporcionou. Ele incomoda pela atmosfera, pelo clima de você estar em um lugar desconhecido e não saber o que fazer. Por vezes achei que não haveria um final feliz, e de certa forma, não há. Fiquei desconfortável até mesmo quando terminei de assistir só por presenciar as “aventuras” que os personagens passaram e pela maldade humana super em evidência no filme, além de outras situações que você não se sentiria à vontade em seu cotidiano. Gostei muito e realmente fiquei pensando, meditando sobre as cenas que vi e pensei “dificilmente quero viajar para este lado do mundo” kk’

  2. Lucas

    ”embora algumas imagens fiquem gravadas na mente semanas depois de assistir” No caso, ficaram/estao gravadas por anos e assisti esse filme apenas uma vez. Sempre gostei de filmes de terror/horror, mas fico um pouco relutante em rever este, todo o sadismo/crueldade nunca saíram da minha cabeça, mais especificamente a cena do tendao de aquiles e da japonesa com o olho pendurado/cortado por uma tesoura.

  3. Robert

    Além de todo o gore, a violência gratuita e a extrema tensão psicológica, eu percebi outra coisa no filme co-dirigido por Tarantino: parece que o fetiche por pés que Tarantino tem vai além dos pés das moças; os pés dos rapazes parecem atraí-lo também. Na cena em que Josh é torturado, os pés dele ficam várias vezes em close na câmera e, inclusive, são objetos de tortura do sádico. E quanto ao Paxton, os pés descalços dele aparecem em zoom maior na hora em que uma das pernas é serrada até a amputação. Em outros filmes, eu vi um enfoque em pés masculinos também, como em Kill Bill e até em Pulp Fiction, onde Bruce Wyllys aparece descalço deitado na cama. Enfim, sendo eu mesmo um podólatra aficcionado por pés masculinos, estes detalhes não me passam desapercebidos. Quentin gosta de pés, não apenas de pés femininos – como ficou evidente quando ele bebeu champagne no sapato da Uma Turman. Soube que algumas ex-parceiras dele já deram com a língua nos dentes de que ele lambia os pés delas na hora do sexo. Pergunto-me se algum dia aparecerá algum cara falando que Tarantino lambeu as solas dos pés dele ou chupou os seus dedos dos pés. Ah, claro, nem preciso dizer o quanto Tarantino adora um sexo sado, né? A cena do Paxton com a mordaça na boca e choramingando por meio dela remete àquela em que Bruce Wyllys e Ving Rhames, na pele de seus personagens, são amarrados e amordaçados com o mesmo tipo de mordaça oval antes de serem estuprados – no caso, só o personagem de Rhames é que sofreu isto. Isto me excita, devo ser sádico em algum grau, mas, claro, não ao ponto de fazer as atrocidades que eles fazem no filme com os rapazes.

    • Lucas

      Me excito com BDSM (ficar amarrado, amordaçado, ser chicoteado, etc. enfim, ser submisso), mas nao curto pés. Já Quentin tem um fetiche extremo por eles haha

  4. Paulinha

    Mto ruim!!!!!

  5. Apesar de surreal, garante boas doses de puro gore.

  6. MORCEGO

    Horrível. Nojento. Repugnante. Um péssimo filme.

  7. Jay

    eu assistir todos,cara tem q ser muito “psicopata” pra escrever um roteiro desse ta doido, o 1º filme é o mais bizarro.

  8. Guilherme

    Eu só tive coragem de assistir o segundo, ele sempre ficava piscando pra mim na locadora até que eu resolvi alugar certo dia, mesmo sabendo que teria mais sadismo do que eu gostaria… Eu não sei porque, mas sempre imaginei o primeiro filme como algo mais sangrento e sinistro, por isso nem sei se verei um dia.

    • Jay

      realmente o 1º é mais “terrivel”

  9. Um pouco lento , mas cruel e violento ! Eli Roth mostra que não veio pro convencional , é isso que o diferencia de muito diretor .

  10. vanessa vasconcelos

    clássico moderno mesmo,tenho esse e o 2 aqui,só q

    • vanessa vasconcelos

      que merda,o comentário incompleto saiu sem querer hahaha. queria ter dito que tenho esse e o segundo filme piratas

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