Críticas

A Casa dos 1000 Corpos (2003)

Se Assassinos por Natureza era uma viagem lisérgica, A Casa dos Mil Corpos certamente é uma bad trip!

A Casa dos 1000 Corpos (2003)

Uma bad trip saída da cabeça do roqueiro macabro Rob Zombie

A Casa dos 1000 Corpos
Original:House of 1000 Corpses
Ano:2003•País:EUA
Direção:Rob Zombie
Roteiro:Rob Zombie
Produção:Andy Gould
Elenco:Sid Haig, Karen Black, Bill Moseley, Erin Daniels, Chad Bannon, William Bassett, Judith Drake, Dennis Fimple, Walton Goggins, Chris Hardwick, Jennifer Jostyn, Irwin Keyes, Matthew McGrory

Em 1994, fui ver um dos filmes mais badalados e comentados do ano, um tal Natural Born Killers, intitulado Assassinos por Natureza no Brasil. Dirigido por Oliver Stone de forma frenética e quase lisérgica, baseado em uma história de Quentin Tarantino, o filme é um soco na boca do estômago, não só pela história amoral (sobre dois psicopatas apaixonados que saem matando indiscriminadamente), mas também pelo visual berrante. Stone pegou praticamente todas as técnicas cinematográficas existentes e usou para contar o filme da forma mais “viajante” possível: cortes rápidos, câmera lenta, cenas em 16mm, vídeo, cor, preto-e-branco, filme velado, mensagens subliminares, cenas de outros filmes invadindo a trama principal, alucinações, etc. etc.

Ao final, o que parece é que você acabou de passar por uma experiência alucinógena, e que os produtores do filme o fizeram sob o efeito de drogas pesadas.

Onze anos depois, a história se repete. No começo de 2005, finalmente coloquei minhas mãos no aguardadíssimo A Casa dos Mil Corpos, o filme de estreia do roqueiro Rob Zombie como diretor/roteirista. Para quem não sabe (mas acho que todo mundo sabe), Rob é líder de uma das grandes bandas de hard rock americanas, a White Zombie, que nunca escondeu sua inspiração em filmes de horror bagaceiros (as músicas e álbuns têm títulos como “La Sexorcista” e desenhos berrantes de demônios e loucuras diversas saídas da cabeça de Zombie). Como o filme de Oliver Stone, A Casa dos Mil Corpos também parece ter uma fascinação por usar de forma absurda todos os efeitos visuais possíveis e imagináveis: lentes, filtros, imagens granuladas, filmagens amadoras, colorido e preto-e-branco alternados, tela dividida em duas e até três partes, cenas de filmes invadindo a narrativa, câmera lenta, etc etc.

A Casa dos 1000 Corpos (2003) (1)

A diferença é que tudo que funcionava em Assassinos por Natureza é simplesmente insuportável em A Casa dos Mil Corpos. Tudo é maluco demais, mas simplesmente não se encaixa dentro da proposta e da trama. A história é fragmentada, confusa e, ainda por cima, entrecortada por todo tipo de bobagens e cenas dispensáveis. Se Assassinos por Natureza era uma viagem lisérgica, A Casa dos Mil Corpos certamente é uma bad trip, ou seja, uma viagem ruim, aquelas que só fazem mal e deixam o cara até tonto no final.

Neste ano de 2005, quando A Casa dos Mil Corpos estreou nas locadoras brasileiras sem passar pelos cinemas (nem merecia), encerrou-se uma novela de praticamente cinco anos. Tudo começou no ano 2000, quando o roqueiro Rob Zombie foi contratado pela Universal, um importante e famoso estúdio cinematográfico americano, para levar às telas seu primeiro roteiro, House of 1000 Corpses. A experiência anterior do músico tinha sido a direção de uma cena de viagem lisérgica (olha ali) dos personagens-título do desenho animado Beavis and Butthead do America. Assinando o contrato com a Universal, Rob conseguiu acesso aos estúdios da dita cuja, podendo filmar diversas cenas em cenários famosos. A tal “Casa dos Mil Corpos“, por exemplo, é a mesma velha casa que serviu de bordel no filme A Melhor Casa Suspeita do Texas, de 1982, estrelado por Burt Reynolds. Como a tal casa faz parte do “tourUniversal (onde os turistas visitam os vários cenários montados, incluindo um que imita cena do filme Tubarão, de Steven Spielberg), Rob e sua equipe só podiam filmar em determinadas horas, para não serem atrapalhados pelos gritos e barulho dos turistas que faziam o tour. Bizarro…

O problema é que a interferência de um grande estúdio em um filme de terror – ainda mais um que pretende ser chocante e sanguinolento ao extremo -, sempre é maléfica. A Universal obrigou Zombie a filmar algumas cenas em duas versões, uma sangrenta e outra mais contida (como fez Ruggero Deodato em Cut and Run), para poder editar uma versão mais “leve” destinada aos cinemas. Lá pelas tantas, chocada pelo filme que tinha em mãos (ou preocupada com a bomba que era), a Universal resolveu distribuir A Casa dos Mil Corpos direto em vídeo, isso já em 2001, quando a produção estava sendo finalizada. Zombie bateu pé e a Universal fechou um contrato com outro grande estúdio, a MGM, vendendo os direitos sobre a obra. Foi mais um ano de enrolação até que, por volta de julho de 2002, a MGM também desistiu de mandar A Casa dos Mil Corpos para os cinemas, preferindo o lançamento direto nas locadoras. Novamente, Rob Zombie brigou com tudo e todos e foi a MGM que passou a bomba para a frente, desta vez vendendo os direitos de exibição para a pequena LionsGate. Com menos pressão, a Lions Gate resolveu finalmente mandar a polêmica produção para os cinemas.

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A estreia oficial do badalado filme foi no Festival de Cinema de Mar del Plata, na vizinha Argentina (!!!), quando foi exibido o primeiro corte, com 105 minutos (e isso que o diretor já tinha limado diversas cenas e alterado outras). A exibição dividiu o público e colecionou críticas negativas e positivas. Para a estreia nos Estados Unidos, a LionsGate pediu encarecidamente que Rob Zombie eliminasse algumas cenas mais fortes, caso contrário A Casa dos Mil Corpos ganharia certificação NC-17 e seria visto por uma minoria, tornando-se um fracasso de bilheteria. O roqueiro concedeu e mutilou a própria obra, eliminando praticamente 20 minutos do filme, que ficou com 88 minutos de duração e muita coisa fragmentada ou inexplicável – o que evidencia que certas cenas não deveriam ter ficado no chão da sala de edição. Graças a isso, o filme foi apelidado de A Casa dos Mil “Cortes”.

Graças a esta versão mais “soft“, A Casa dos Mil Corpos pôde estrear em 595 cinemas dos Estados Unidos, em 11 de abril de 2003, três anos depois que começou a ser filmado. Longe de ser um sucesso (a produção custou 7 milhões de dólares e arrecadou pouco mais de 12 milhões), a obra de Rob Zombie foi lançada em VHS e DVD algum tempo depois, quando foi celebrada como nova maravilha do cinema de horror por alguns e como a maior bomba e mico do milênio por outros. Trata-se de um caso clássico de “amar ou odiar“. Tanto que os fóruns sobre filmes de horror na Internet estão coalhados de brigas violentas entre fãs de detratores do filme.

Enquanto isso, alguns sites especializados em filmes de horror rasgaram a maior seda para Rob Zombie, como um dos meus sites preferidos, o americano Bloody Disgusting, que escreveu que A Casa dos Mil Corposera uma obra de arte” – o que me fez procurar imediatamente por um novo site preferido. Outros sites tocaram pau, com um crítico mais exaltado declarando, sem medo de ser feliz: “As únicas pessoas que irão gostar deste filme são os usuários de drogas, ou seus modelos de conduta, aqueles indivíduos solitários, doentes e tristes“. No Brasil, após muita lenga-lenga, o polêmico terror roqueiro chegou com quase dois anos de atraso, no início de 2005, direto nas locadoras. Infelizmente, em todo o mundo, foi lançada apenas a versão altamente censurada de 88 minutos, e nada da “director’s cut” de 105 minutos.

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Depois de tanto ler sobre o filme e acompanhar esta novela de polêmica, cortes e mal-entendidos, minha expectativa foi às alturas. Imaginava que A Casa dos Mil Corpos seria o filme mais chocante, sangrento, bizarro, brutal, marcante, forte, psicótico, selvagem dos últimos tempos – ainda mais com Rob Zombie declarando aos quatro ventos que tinha se inspirado em clássicos como O Massacre da Serra Elétrica e Last House on the Left. Por isso, finalmente ver A Casa dos Mil Corpos foi uma verdadeira ducha de água fria. O que eu esperava ser a nova maravilha do cinema de horror me pareceu mais uma palhaçada, uma brincadeira demente e sem graça entre meia dúzia de, como disse aquele crítico que pegou pesado, “indivíduos solitários, doentes e tristes“. Achei o filme completamente sem pé nem cabeça, debilóide, sem graça, ridículo, burro, fedorento, imbecil, confuso, chato, mal filmado, mal dirigido, mal escrito, enfim, um fiasco completo.

Fiquei tão revoltado que saí pela Internet em busca de outros reviews, para ver se eu era o único que tinha odiado tanto A Casa dos Mil Corpos. Felizmente, não era. Mas li algo interessante em comentários elogiosos sobre o filme: os críticos diziam que tinham odiado na primeira vez que viram, justamente porque tinham muitas expectativas, mas que ele ficaria melhor e melhor a cada vez que se revia. Motivado por esta informação, resolvi rever A Casa dos Mil Corpos, desta vez substituindo o som original pelos comentários em áudio do diretor Rob Zombie (felizmente, legendados em português pela distribuidora – BOM TRABALHO!!!). Ouvindo o próprio Zombie falar sobre as dificuldades para fazer o filme, sobre os cortes e a pressão que sofreu e, principalmente, ouvi-lo falar com entusiasmo sobre o processo de filmagem e sobre o roteiro realmente muda um pouco a sua concepção sobre as coisas. Não achei mais que o filme era o pior dos últimos tempos, nem feio, nem fedorento. Mas continua um filme ruim. Tudo bem que Rob Zombie tinha boas intenções, mas todos sabemos que o inferno está cheio de bem-intencionados – aposto que o Uwe Boll também tinha boas intenções quando fez House of the Dead

O curioso é que os comentários do diretor explicam muita coisa que não faz o menor sentido no filme, provavelmente porque as cenas essenciais foram cortadas no polêmico processo de burlar o rígido órgão de censura dos Estados Unidos. Ou seja: A Casa dos Mil Corpos precisa ser visto com manual de instruções, no caso, a explicação do próprio diretor, para fazer mais sentido. É que nem quando um amigo seu vai mostrar um filme amador que fez em casa e fica te dizendo: “Olha, isso aí era para ser assim, isso aí era para ser assado“. E, mesmo com as explicações do pai da criança, A Casa dos Mil Corpos continua sem pé nem cabeça, o que comprova que, como roteirista e diretor, Rob Zombie é um EXCELENTE roqueiro. Será que nos 20 minutos cortados estariam a suposta “genialidade” do filme???

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A melhor forma de definir A Casa dos Mil Corpos é como uma completa baderna. A história começa engraçadinha, como uma paródia/homenagem ao gênero terror semelhante ao que Kill Bill foi aos filmes de samurai e western. Porém, da metade em diante, o foco muda: o que antes era engraçado e satírico fica sério, e aí o espectador acaba totalmente perdido. Você simplesmente não sabe mais o que o diretor quer: se é para rir ou para chorar! Para piorar, os 88 minutos são coalhados de cenas sem qualquer razão de existir, que parecem estar ali apenas para confundir o espectador, ou para permitir que amigos e ídolos de Zombie pudessem aparecer no filme.

Uma destas cenas dispensáveis é o início. Após uma rápida introdução onde um apresentador de filmes na TV apresenta a próxima atração, é exibido um comercial de TV onde um bizarro homem vestido de palhaço anuncia: “Vocês querem sangue? Violência? Freaks? Então venham para o Museu de Monstros e Loucura do Capitão Spaulding“. O tal palhaço é, claro, o Capitão Spaulding (interpretado por Sid Haig), que na introdução aparece conversando com um amigo retardado (Michael J. Pollard, em participação especial desnecessária) sobre pessoas que enfiam bonecos de O Planeta dos Macacos no ânus, entre outras amenidades. Logo, entram no local dois assaltantes bocós, que Spaulding enfrenta de forma irônica e valentona. A introdução acaba com os dois bandidos sendo mortos, um a machadada e outro a tiros, no que parece o início de um filme de Quentin Tarantino, não de um filme de horror.

Corta então para a abertura, repleta de cenas dementes filmadas pelo próprio Rob Zombie no porão da sua casa, com uma câmera de 16 milímetros (num belo trabalho de montagem), e os letreiros informam que estamos na noite de 30 de outubro de 1977, véspera de Halloween. Logo somos apresentados aos personagens principais “nem tão principais assim“. São quatro jovens que viajam de carro pelo interior dos Estados Unidos, documentando paradas e locais exóticos. O motorista é Bill Hudley (o péssimo Rainn Wilson), tendo ao lado o amigo Jerry Goldsmith (sim, mesmo nome do famoso compositor de trilhas sonoras cinematográficas), interpretado por Chris Hardwick. No banco traseiro estão as namoradas de ambos, Denise (Erin Daniels ) e Mary (Jennifer Jostyn).

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O roteiro trata os quatro jovens com o maior desprezo, de forma que jamais nos importamos com o que vai acontecer com eles – o maior pecado em um filme de terror. Não é segredo para ninguém que o roteiro de Rob Zombie preferiu dar o foco nos vilões, e não nas vítimas. Tanto que na sua faixa de comentário, o roteirista/diretor vive falando mal dos seus personagens-vítimas, dizendo coisas como: “Olha só, essas vagabundas (Mary e Denise) não merecem mesmo morrer?“, ou “Ninguém se importa com eles“, etc. Que roteirista… Ah sim: você logo vai esquecer que o filme “supostamente” se passa nos anos 70, pois a data não faz a menor diferença dentro da trama, apenas nos ridículos cortes de cabelos, com longas costeletas.

É claro que os quatro adolescentes vão parar no Museu de Monstros e Loucura do Capitão Spaulding. Mas, ao contrário do que o espectador pode pensar pelo prólogo, Spaulding, apesar de ser o personagem mais interessante, não é o principal do filme, nem seu museu é a tal “casa dos mil corpos“. Logo, qual a razão de tanto espaço para ele? Ora, perguntem ao Rob Zombie! No museu, os jovens fazem um passeio num trem-fantasma chamado Carro da Morte, onde os bonecos de cera contam a história de serial-killers famosos, como Albert Fish, o vovô canibal que adorava enfiar agulhas no ânus (uma radiografia real de Fish chega a ser mostrada), Lizzie Borden e, claro, Ed Gein. O final do passeio é, como diz Spaulding, uma “celebridade local“: o Dr. Satan, um médico maluco que adorava fazer cirurgias cerebrais em suas vítimas. O serial-killer foi agarrado pela população revoltada e enforcado em uma árvore. Porém, seu cadáver desapareceu e a árvore se transformou em ponto de peregrinação de malucos de todo o país. É claro que os jovens logo resolvem ir até a tal árvore. Muito a contragosto, o Capitão Spaulding faz um mapa para o grupo, que sai de carro na noite chuvosa rumo a uma árvore (!!!). Quando o veículo sai do museu, o filme perde sua alma e o Capitão Spaulding é esquecido – infelizmente. A melhor parte do filme acabou, e começa o pesadelo, ou a bad trip – no mal sentido.

Enquanto passam por uma estrada deserta, Bill avista uma sexy caroneira loura na chuva e resolve dar carona. O que, como todos nós sabemos depois de filmes como O Massacre da Serra Elétrica e A Morte pede Carona, é um péssimo negócio. A gata é a fogosa Baby Firefly, interpretada pela loira Sheri Moon (que é esposa de Rob Zombie na vida real e também participou de Toolbox Murders, de Tobe Hooper). O espectador não demora cinco segundos para perceber que ela é maluquinha, mas os jovens não notam este pequeno detalhe… Até que, passando por outra estrada deserta, um dos pneus do carro é alvejado por um maluco vestindo uma pele de urso. Então, Baby diz aos adolescentes que a casa da sua família fica próxima e que lá eles poderão obter ajuda… Péssima ideia, claro! Acontece que os Firefly são um bando de psicopatas que adoram torturar e matar suas vítimas – e a casa da família é a tal “Casa dos Mil Corpos“.

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O filme então vai apresentando pouco a pouco seus personagens principais, verdadeira atração do roteiro de Zombie, que são os malucos integrantes do clã Firefly. Eles são apresentados com imagens desconexas filmadas em 16mm, em preto-e-branco e granuladas, mostrando, por exemplo, Baby masturbando-se ao lado de um cadáver ou Ottis, outro freak da família, torturando cinco cheerleaders desaparecidas (num outro detalhe gratuito que nunca é bem explorado pelo roteiro). Ottis é interpretado por Bill Moseley, que encarnou todo tipo de malucos no cinema: do Chop Top de O Massacre da Serra Elétrica 2 ao psicopata Ricky Caldwell na terceira parte da série Natal Sangrento, além de um possuído pelo demônio em Evil Dead 3. A família Firefly também é composta por Rufus, o tal caçador vestido de urso (Robert Allan Mukes), pela Mãe (Karen Black), pelo gigante deformado Tiny (Matthew McGrory, que realmente tem 2 metros de altura!) e pelo Vovô. Este último é interpretado por Dennis Fimple, uma verdadeira cópia xerox do ator M. Emmet Walsh (tanto que eu sempre pensei ser Walsh o ator até ver o nome de Fimple nos créditos). Ironicamente, Fimple morreu em 2002, sem ver o filme pronto e lançado. A Casa dos Mil Corpos é dedicado à sua memória.

A partir da chegada à casa, o filme se dedica a um festival de viagens envolvendo os quatro jovens e os Firefly. Primeiro eles participam de um bizarro jantar com os psicopatas, onde todos usam máscaras na hora da sobremesa. “Porque nós não podemos comer a sobremesa com nossa cara de todos os dias, certo?“, justifica a mamãe Firefly. Apesar da família ser tantã e da casa estar repleta de detalhes macabros, como bonecas decapitadas pregadas na entrada e documentos das vítimas anteriores espalhados pelas paredes, em nenhum momento os quatro jovens tentam fugir dali, participando até de um ridículo “show de calouros” (!!!), onde os Firefly se apresentam num palco para a plateia formada pelo quarteto e um montão de manequins – Rob Zombie deve ter tomado muito LSD para imaginar estas cenas sem pé nem cabeça.

Em meio à apresentação, os jovens decidem ir embora, e Rufus conserta seu carro. Mas eles só chegam até o portão da casa, onde Bill é atacado por dois espantalhos, que na verdade são Ottis e Tiny. Só uma perguntinha: se os psicopatas queriam aprisionar os jovens desde o começo, por que deixaram que eles fossem embora para depois agarrá-los? Não era mais fácil ter prendido todos de uma vez quando ainda estavam dentro da casa? E se Bill, por exemplo, tivesse pisado no acelerador ao invés de parar para abrir o portão, não teria arruinado os planos dos psicopatas? Coisas de Rob Zombie.

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Quando as quatro vítimas caem nas garras da família, começa uma sequência de cenas bizarras de tortura nem um pouco psicológica. E qualquer sinal de “normalidade” do filme ou do roteiro vai para o espaço a partir de então. Um a um eles vão sendo esquartejados e mortos, e lá pelas tantas o espectador começa a se perguntar: “Mas que diabos o Capitão Spaulding tem a ver com tudo isso? E o tal Dr. Satan???“. Tudo faz sentido, ou melhor, NÃO faz, no final, quando os sobreviventes terão um derradeiro encontro com a câmara de horrores do Dr. Satan. A partir de então, o filme degringola de vez. O que parecia uma história de psicopatas vira uma trama sobrenatural, com demônios, aberrações e até um monstrão enorme que baba gosma verde e leva um machado numa das mãos, e parece ter saído de Resident Evil: Apocalypse. No fim, o espectador chega a rir da sua própria cara de babaca pela zona em que a trama se transforma. Realmente, o que parece é que todas as drogas que Rob tomou nas turnês do White Zombie bateram na hora de escrever o roteiro e dirigir o filme!

Até mesmo os atos de violência contra as vítimas não escapam de uma análise mais profunda, revelando-se uma completa inutilidade. Um dos jovens, por exemplo, é mostrado sendo esquartejado em uma cena que lembra um snuff movie – e na verdade mostra bem pouco, com muitos cortes. Momentos depois, a mesma vítima aparece transformada em uma aberração chamada “Garoto-Peixe“, com as pernas decepadas e um rabo de peixe feito de madeira anexado ao que sobrou do tórax!!! Fico imaginando qual a finalidade de mostrar uma bobagem dessas – antes exibisse o cadáver esquartejado, se a intenção era provocar repulsa. Lá pelas tantas, ainda, os sobreviventes são vestidos com roupas de coelho (!!!) e levados para um cemitério com mil sepulturas nos fundos da casa (que nunca foi localizado pelas autoridades, apesar do tamanho), para um ritual esquisito envolvendo o laboratório subterrâneo do Dr. Satan.

A Casa dos Mil Corpos tem muitos problemas, mas um dos principais é que em nenhum momento o espectador é levado a ter esperança pelos personagens principais. É como se você soubesse, desde o início, que todos vão morrer. Não há uma subtrama envolvendo tentativas de fuga, perseguições ou algo do gênero, os jovens ficam todo o tempo presos, sendo torturados e mortos, sem meio-termo. Há um rápido intervalo onde policiais investigam o sumiço do quarteto e chegam à casa da família, mas são rapidamente despachados antes que possam fazer qualquer coisa de útil. E assim o filme termina como uma espécie de O Massacre da Serra Elétrica 2, com efeitos exagerados, gritaria, piadinhas fora de lugar, corredores repletos de esqueletos, tripas e cérebros expostos. A chupação é tão escancarada que aqui, como em O Massacre da Serra Elétrica 2, um dos assassinos também arranca a pele de uma vítima para colocar sobre o seu próprio rosto, numa cena grotesca, talvez uma das únicas mais marcantes deste projeto equivocado.

O que mais chama a atenção quando aparece o “The End?” na conclusão é que NADA faz sentido. A maioria das coisas fica sem explicação. Por exemplo: qual a relação dos Firefly com o Dr. Satan e qual a relação do Capitão Spaulding com ambos. O que é, afinal, o Dr. Satan: um demônio, um psicopata de carne e osso ou um zumbi? Por que os Firefly aprisionam vítimas inocentes, para torturar ou para que o Dr. Satan faça seus experimentos cerebrais bizarros? Isso entre tantas outras dúvidas. Para dizer o mínimo, A Casa dos Mil Corpos é uma completa bagunça. A impressão que fica é que Zombie se deslumbrou com a linguagem cinematográfica e começou a usar tudo o que tinha à mão em matéria de efeitos de câmera e filtros, talvez pensando estar criando um videoclipe, e sem ligar muito para a lógica.

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Vendo o filme com os comentários de Rob Zombie, algumas coisas até ficam melhor explicadas. Por exemplo, o tal monstro gigante com o machado que auxilia o Dr. Satan seria Earl Firefly, patriarca da família psicótica. Como ele virou monstro e como aliou-se ao Dr. Satan, o roteiro nunca explica. Aliás, o espectador nem saberia a identidade da criatura sem ouvir os comentários de Rob Zombie. Outra cena explicada pelo diretor/roteirista é aquela em que aparece, subitamente, um velho negro segurando uma espingarda e gritando: “O inferno é aqui! O inferno é aqui!“. A cena dura 30 segundos e não entendi por que razão ela está no filme. Com a palavra, Rob Zombie: “Este é Lewis Dover, que teve uma visão do Dr. Satan e ficou louco“, explica o roteirista e diretor. Bem, antes tivesse explicado no PRÓPRIO FILME, não nos comentários, porque do jeito que a coisa está, parece sem qualquer fundamento. Entre dezenas de outras cenas sem qualquer finalidade para o bem-estar da trama, destaco ainda um momento onde Baby vai a uma loja comprar bebidas e tem um diálogo idiota com o atendente. Simplesmente não existe razão para esta cena estar no filme que não seja aumentar sua duração. E o atendente nem mesmo é morto por Baby, como todos imaginam!

Para completar a bagunça, o filme está repleto de centenas de referências que a maior parte do público não vai “pegar“, logo, perdem completamente sua função. É o caso, por exemplo, de desenhos e poemas do satanista Aleister Crowley (não vou entrar em detalhes sobre a figura, procurem na Internet!), inclusive usando repetitivamente uma gravação na voz do próprio bruxo dizendo: “Me enterrem numa sepultura sem nome” (quem já viu o filme sabe em que contexto a gravação é utilizada). Mas há muitas outras citações, com pôsteres e bonecos de filmes antigos (tipo O Monstro da Lagoa Negra), cenas de filmes B entrecortando a narrativa (aparece a introdução de House of Frankenstein e alguns momentos de O Lobisomem, com Bela Lugosi, e do antigo seriado Os Monstros), fotos das seguidoras do psicopata Charles Manson e bobagens como um cereal chamado Agatha Crispies, numa referência à autora de livros de mistério Agatha Christie. Referências estas que não farão nenhum sentido para quem não for escolado em todos estes detalhes macabros.

Existe uma explicação para o estilo fragmentado, confuso e delirante com que A Casa dos Mil Corpos é apresentado, além de todos os cortes que sofreu: acontece que Rob explica, nos seus comentários, ter feito várias alterações vitais no roteiro enquanto as filmagens eram realizadas!!! Aí não tem como a coisa ficar coerente. Para o leitor ter uma ideia, as filmagens começaram com o Dr. Satan sendo um mito, e não um personagem real. Em certo momento do jantar dos quatro jovens com os Firefly, o Vovô confessaria ser ele o Dr. Satan. Em meio à produção, Rob decidiu mudar tudo e transformar o Dr. Satan no tal demônio das profundezas. Muitas cenas complementares ainda foram filmadas por Zombie no porão da sua casa. E a conclusão seria totalmente diferente: ao invés de encontrar o Dr. Satan nas catacumbas, os sobreviventes se deparariam com o resultado de seus experimentos, criaturas canibais e deformadas. A última cena mostraria a polícia chegando à casa da família e especialistas vestidos em trajes anti-contaminação exumando os “mil corpos” do cemitério nos fundos da casa (um rápido take desta cena é mostrado no making-of que acompanha o DVD do filme).

Aparentemente sem saber exatamente o que queria mostrar, Rob Zombie fez de A Casa dos Mil Corpos uma verdadeira colcha de retalhos, que tem mais cara de um videoclipe com 1h30min de duração do que de um filme. O fato de jamais se sensibilizar com as vítimas ou simpatizar com os vilões (o que é impossível para qualquer pessoa normal) leva o espectador a acompanhar com desdém a maior parte da trama, torcendo para que o Capitão Spaulding volte a aparecer em cena – o que só acontece no final.

Na verdade, o palhaço malvado é a alma do filme, e por trás da maquiagem escrota está um ator que finalmente recebe a merecida atenção: o grandalhão Sid Haig. Para a maior parte da humanidade, este nome não quer dizer nada. A bem da verdade, a época de ouro de Sid Haig foi nos anos 70, no auge da blackexploitation (filmes feitos por e para negros), quando apareceu em produções baratas como Coffy e Foxy Brown. Também teve a sorte de participar de diversos cult-movies, como THX-1138 (a estreia cinematográfica de George Lucas, feita em 1971), o filme de mulheres na prisão Bamboo Dolls House e o clássico filme B Galáxia do Terror, produzido por Roger Corman. Nos últimos anos, Sid estava perdido em pequenas participações em produções classe Z, dirigidas por Fred Olen Ray, até que foi resgatado pelo seu fã Quentin Tarantino – o ator teve pequenas participações em Jackie Brown, como um juiz, e em Kill Bill: Volume 2, como o barman do bordel onde Budd (Michael Madsen) trabalhava. Sid brilha em A Casa dos Mil Corpos, talvez um de seus melhores papéis de todos os tempos.

O restante do elenco não tem o mesmo destaque. Embora todas as críticas exaltem a participação de Bill Moseley, simplesmente não consigo entender o que viram de interessante no seu sádico Ottis, um personagem sem graça e xerox de outros psicopatas muito mais assustadores – perde até mesmo para o Chop Top, que o próprio Moseley interpretou no equivocado O Massacre da Serra Elétrica 2. Mesmo assim, o que não falta é gente dizendo que “Moseley abrilhanta o filme“, ou que “a interpretação de Moseley é genial“, e por aí vai. Ora, tudo que o ator faz é ficar com a mesma cara enquanto grita diálogos absurdos tentando parecer ameaçador. E as falas de Ottis são o que de pior existe no filme. Eu achei que o momento mais bizarro da história dos roteiros cinematográficos tinha sido a fala de Bela Lugosi em Glen ou Glenda, de Ed Wood, quando o veterano ator diz: “Cuidado! Cuidado com o grande dragão verde sentado na beira da sua porta. Ele devora garotinhos, caudas de cachorrinhos e lesmas gordas e grandes. Cuidado! Tome cuidado!“. Mas o roteiro de A Casa dos Mil Corpos tem uma frase ainda pior, dita para parecer séria e ameaçadora, quando Ottis/Moseley dispara: “Se você enfiar sua cabeça dentro de uma fogueira vai poder ver o inferno, e ao mesmo tempo você será tão idiota para perceber que tem um demônio enfiado no traseiro cantando ‘Holy Miss Moley‘”. Este é o roteiro de Rob Zombie… E o diretor/roteirista ainda mostra ser um grande fã de Bill Moseley, já que colocou o ator em TRÊS PAPÉIS no filme: além de Ottis, Bill faz pontas como Ed Gein (em cenas de flashback durante o passeio no Carro da Morte) e também como o apresentador do telejornal das sete, Lance Brockwill, que noticia o desaparecimento das cinco cheerleaders sequestradas por Ottis.

Já os atores que interpretam os quatro jovens/vítimas são ridículos e fazem o espectador torcer para que morram mesmo, como o próprio Zombie incentiva na faixa de comentário. Karen Black está ridícula como mamãe Firefly e já escapou de aparecer na continuação, talvez ciente do mico que pagou neste primeiro filme (sua personagem nada mais faz do que ficar vesga, gritar e pular o tempo inteiro, vestida em velhas roupas de cabaré). E tem até uma curiosa participação rápida de Harrison Young (o “soldado Ryan velho” em O Resgate do Soldado Ryan), interpretando o pai de uma das vítimas, mas com pouquíssimo tempo em cena. Um dos destaques, além de Sid Haig, é a bela Sheri Moon, a esposa de Rob Zombie, que aparece seminua e se dá bem como psicopata sedutora, com uma risada irritante e cínica.

Mesmo que seu projeto de estreia tenha sido tão polêmico e problemático, Rob Zombie não desistiu e depois fez The Devil´s Rejects, uma sequência direta de A Casa dos Mil Corpos, mostrando o dia seguinte aos eventos do primeiro filme, quando os remanescentes da família Firefly (sem Karen Black, que pulou fora, e sem Dennis Fimple, que morreu) viajam pelos Estados Unidos, fugindo da polícia e dedicando-se a uma nova carreira de crimes. O mais marcante desta sequência, se o enredo não é lá muito brilhante, é o elenco, que só tem nomes conhecidos: Ken Foree (Dawn of the Dead), Michael Berryman (Quadrilha de Sádicos), William Forsythe, Steve Railsback, Duane Whitaker (o estuprador de Ving Rhames em Pulp Fiction), Danny Trejo (da trilogia Um Drink no Inferno), a estrela pornô Ginger Lynn Allen, Mary Woronov, Natasha Lyonne, Rosario Dawson e P.J. Soles (Halloween), entre outras figurinhas carimbadas. Ou seja, mesmo o filme sendo tão ruim quanto o primeiro, pelo menos resta o consolo de vermos tanta gente famosa reunida.

No fim, eu lamento que A Casa dos Mil Corpos tenha saído o equívoco que saiu, porque eu realmente tinha expectativas de ver um novo clássico do horror. Infelizmente, o filme é tão ruim que eu teria que escrever o triplo de tudo que já escrevi para salientar todos os seus problemas e defeitos. Os fãs da produção e o próprio Rob Zombie alegam que A Casa dos Mil Corpos não deve ser levado tão a sério porque, no fundo, é uma grande homenagem aos filmes apelativos e sanguinários de horror feitos nos anos 70, para exibição nos drive-ins. Ora, Quentin Tarantino também fez de seu Kill Bill uma homenagem “de brincadeira” aos velhos, apelativos e sanguinários filmes de kung-fu e samurais dos anos 70. A diferença entre Tarantino e Zombie é uma só: talento. Enquanto o primeiro fez de Kill Bill uma homenagem apaixonada, com personagens e cenas marcantes mesmo quando chupa muita coisa (inclusive a trilha sonora) de outros filmes, Zombie só conseguiu fazer um espetáculo berrante e apelativo, de mau gosto e nem um pouco divertido.

Ainda está para sair a grande homenagem aos filmes de horror dos anos 70…

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12 Comentários

  1. Christian

    Só vou discordar sobre Devil’s Reject, que esse sim o Zombie conseguiu acertar a mão. É um bom filme.

  2. O FILME É MUITO BOM SIM ISSO P QUEM GOSTA DE TRASH QUEM NAO CURTE NAO ASSISTA SIMPLES, E A CONTINUAÇÃO É MUITO BOA TBM

    • Rhami

      O filme não é ruim tipo pessimo, a melhor cena é quando por fim o tal Doutor Satã está vivo, spoiler. Mas o filme todo me parece confuso é uma história de psicopatas, simples assim. E meio sem nexo.

  3. marcelocetico

    Não passa de uma fracassada tentativa de ser Texas Chainsaw. Esse tal Rob zombie é uma fraude total.

  4. Paulinha

    Eu nunca assití um filme de Rob Zombí que seja bom! Ele é péssimo diretor!

  5. É um bom filme. Como um passatempo para ser assistido de madrugada é uma ótima pedida. A continuação que é fraca.

  6. Fabio R

    Um dos piores filmes que já assisti…
    Todos os filmes de Rob Zombie são muito ruins.

  7. vanessa vasconcelos

    porra,será que é tão ruim assim?

  8. Giovani

    Eu ainda não assisti, mas muita gente ja falou bem desse filme, porem essa mesma gente falou bem do Halloween do zombie então tenho minha sinceras duvidas se não e uma ***** parecida hehehe.

  9. Martinelli

    Poh viajou, esse filme é bom. Quem gosta de trash não daria nota inferior a 3!

    • Concordo com você Martinelli , é uma injustiça receber uma só caveira , gosto muito desse filme e tenho ele original em minha coleção !

  10. gu

    até que é bomzinho , eu daria 2 caveiras :3

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