Zombi 3 (1988)

Zombi 3 (1988)
O filme que Lucio Fulci e Bruno Mattei fizeram em conjunto!
Zombi 3
Original:Zombi 3
Ano:1988•País:Itália
Direção:Lucio Fulci, Claudio Fragasso, Bruno Mattei
Roteiro:Claudio Fragasso, Rossella Drudi
Produção:Franco Gaudenzi
Elenco:Deran Sarafian, Beatrice Ring, Ottaviano Dell'Acqua, Massimo Vanni, Ulli Reinthaler, Marina Loi, Deborah Bergamini, Luciano Pigozzi, Mike Monty, Rene Abadeza, Mari Catotiengo, Roberto Dell'Acqua

O que esperar do encontro de Lucio Fulci, um dos mais renomados e ilustres diretores do cinema italiano de horror, com Claudio Fragasso, um dos PIORES roteiristas do cinema italiano de horror? Bem, vamos ser otimistas e dizer que haveria, assim por cima, uns 50% de chance de sair um filme razoável, certo? Afinal, roteiros nunca foram o ponto forte das produções dirigidas por Fulci, e normalmente ele sacrificava detalhes essenciais de um bom roteiro, como lógica e bom senso, em favor do choque e da violência explícita… Agora, o que esperar quando Fulci larga o projeto já iniciado, manda todo mundo às favas e é substituído na direção pelo próprio Fragasso e por seu colega Bruno Mattei, que sem sombra de dúvidas é o PIOR cineasta italiano em QUALQUER GÊNERO, e não só o horror? Bem, meus amigos e minhas amigas, o resultado de tão insólito encontro de “talentos” só poderia ser uma bomba atômica como Zombi 3, uma “coisa” que jamais deveria ter sido feita – mas já que foi, vamos assistir e dar umas boas risadas, não é mesmo?

Zombi 3 é a bomba atômica que Fulci não precisava em seu currículo já decadente, e um trash no pior sentido da palavra até mesmo para os padrões normalmente baixos de Mattei e Fragasso. Resumindo: é uma porcaria engraçadíssima, desde que você assista com o devido senso de humor… E o mais irônico é que os fãs de Fulci ficaram salivando de satisfação quando souberam que ele ia fazer o tão sonhado Zombi 3.

Zombi 3 (1988) (1)

Para quem não sabe, ou nunca conseguiu entender, o cineasta dirigiu, em 1979, um clássico de mortos-vivos chamado Zombie, que é presença garantida em qualquer lista dos 5 melhores filmes de zumbis da história. Zombie, na Itália, foi lançado comercialmente com o título Zombi 2 – e em alguns outros países também; no Brasil, por exemplo, o título nos cinemas ficou Zumbi 2 – A Volta dos Mortos. Mas nunca existiu um “Zombi 1”: este era, simplesmente, o título em italiano de Dawn of the Dead, o clássico dirigido pelo americano George A. Romero em 1978 – êêêê confusão!!! Assim, o filme original de Fulci, embora sem qualquer relação com a trama de Romero, acabou sendo lançado em alguns países como se fosse sequência direta de Dawn of the Dead, o que nunca foi!

Apesar do sucesso estrondoso de Zombie/Zombi 2, Lucio nunca quis voltar ao universo do seu clássico, que terminava com os zumbis invadindo Nova York. Pelo contrário: preferiu fazer outras histórias onde mortos-vivos eram apenas coadjuvantes, tipo Pavor na Cidade dos Zumbis e The Beyond, sem relação direta com sua famosa obra de 1979. Porém eis que o pobre Lucio entra numa fase de decadência de dar dó, a partir da metade dos anos 80. O próprio cinema italiano ia mal das pernas, com as produtoras fechando as portas, investindo menos e começando a filmar em outros países para baratear custos. O último projeto autoral e de sucesso do diretor tinha sido The New York Ripper, em 1982, e nos anos seguintes ele se perderia em produções menores e nada memoráveis, como Manhattan Baby, Murder Rock e Enigma do Pesadelo.

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Em 1988, depois de rodar duas produções de baixíssimo orçamento e nada memoráveis para a Alpha Cinematografica, dos produtores Antonio Lucidi e Luigi Nannerini (os filmes foram Touch of Death e Sodoma´s Ghost, ambos de 1988), Fulci cedeu e resolveu tentar um retorno aos bons tempos. A Flora Film, do produtor Franco Gaudenzi, vinha anunciando há anos sua intenção de filmar Zombi 3 e conseguiu fechar o contrato com Lucio para que ele comandasse o projeto. Gaudenzi, na época, estava financiando projetos rápidos e baratos rodados nas Filipinas, onde havia facilidade para construir cenários e arranjar figurantes por uma fração do preço – também conseguiam transar bastante com as figurantes filipinas, prometendo transformá-las em grandes estrelas de cinema… hehehehe. Não por acaso, Bruno Mattei era um dos cineastas de carteirinha da Flora Film. Gaudenzi produziu vários filmes do “Ed Wood italiano”, como Robowar, Strike Command e Cop Game, todos eles rodados nas Filipinas.

Apesar das limitações orçamentárias decorrentes da associação com picaretas como Gaudenzi, até haveria alguma chance de Zombi 3 ter sido um bom filme e o retorno glorioso de Fulci às suas origens, não fosse um pequeno problema: ao invés de chamar de volta Dardano Sacchetti e Elisa Briganti, os roteiristas de Zombie/Zombi 2, o produtor queria porque queria que Fulci trabalhasse com o roteiro escrito por Claudio Fragasso, colaborador habitual de Mattei, conhecido por criar tramas e situações sem pé nem cabeça e diálogos ridículos. E mais: Fulci não poderia alterar uma linha do script de Fragasso, já aprovado por Gaudenzi. Não haveria problema algum se o roteiro em questão não fosse TÃO RUIM. Sem respeitar um detalhe sequer do filme anterior (para pelo menos justificar o número 3 no título), Fragasso preferiu construir sua própria cópia de toda e qualquer história de zumbis filmada nos últimos anos, de A Volta dos Mortos-Vivos, de Dan O’Bannon, a O Exército do Extermínio, de George A. Romero (que nem ao menos tem mortos-vivos!). Apelou, ainda, para uma ridícula mensagem ecológica.

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Reza a lenda que Fulci, que já andava meio doente, ficou mal de vez com o clima esquisito nas Filipinas (o país é famoso pelo seu calor insuportável e clima úmido). Na época, para piorar a coisa, ainda havia estourado uma guerra civil por lá. Por esses e outros detalhes, o diretor afastou-se da produção deixando uma montagem com 1h10min que, para ele, era o filme completo. A verdade é que Fulci simplesmente odiava o script original de Fragasso e, já que estava proibido de alterá-lo, simplesmente se recusou a filmar as cenas que considerava muito ruins. Lá pelas tantas, a pressão foi tanta que Fulci simplesmente largou o projeto e voltou para a Itália.

Gaudenzi assistiu os 70 minutos filmados por Fulci e se apavorou: o resultado era ruim demais, até para os padrões da Flora Film. Como não estava nem um pouco feliz com o projeto, Lucio simplesmente filmou tudo de maneira burocrática, e ainda estendeu algumas cenas onde nada acontecia (personagens caminhando, dirigindo, investigando lugares escuros…), tudo para fechar a duração mínima para uma longa-metragem (70 minutos). E se mandou, deixando os rolos de filme para o produtor fazer o que quisesse. Este resolveu passar o pepino primeiro para Fragasso; quando o roteirista viu que poderia salvar pouco do material, Bruno Mattei (que na época filmava Strike Commando 2 para a Flora Film nas Filipinas) foi chamado para gravar mais uns 40 minutos de cenas adicionais e fechar o tempo de duração de 1h30min. O resultado é um híbrido do trabalho de um bom cineasta (Fulci) dirigindo sem empenho com as cenas filmadas “de favor” pelo habitualmente ruim Mattei. Mas, nos créditos iniciais e nos cartazes do filme, apenas o nome de Lucio Fulci aparece.

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Zombi 3 começa em um centro de pesquisas científicas do exército americano, localizado nas Filipinas (óbvio!), onde o doutor Holder (Robert Marius, de Cop Game, misteriosamente não-creditado) realiza a experiência de reanimação de um cadáver, utilizando uma toxina que supostamente “funcionou bem em animais” – e sabe-se lá o que isso quer dizer. O negócio é injetado na cabeça de um cadáver careca (que parece o Jet Li na sua fase de “filmes shaolin”!), e, quando parece que nada acontece, o morto volta à vida, começa a cuspir sangue e sofrer uma nojenta mutação, onde feridas repletas de pus pulsam e explodem no seu rosto. Totalmente deformado (e lembrando o monstro de Toxic Avenger!!!), o zumbi levanta da cápsula onde está confinado, quebrando a redoma de vidro que o prendia, e pronto, desaparece da trama sem dizer a que veio! Você não sabe se ele foi destruído, se fugiu correndo, se bateu um papo com os cientistas, nada!

Na cena seguinte, depois do desaparecimento do Toxic Avenger, Holder telefona para os milicos informando sobre os resultados do projeto da toxina, apropriadamente chamada “Death One” (Morte 1), porque criatividade, aparentemente, não é o forte dos militares de Zombi 3. Holder explica que a toxina é muito perigosa e que seus resultados não podem ser controlados; logo, o material precisa ser levado a um outro laboratório, onde, teoricamente, poderá ser destruído da maneira apropriada. Entram os créditos iniciais e, no momento seguinte, quando Holder e sua assistente são escoltados por figurantes filipinos até um helicóptero do exército, aparece uma van repleta de terroristas e começa um tiroteio dos diabos.

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A cena, que só pode ter sido filmada pelo péssimo Mattei, é uma aula de como NÃO fazer cinema: o dr. Holder leva a perigosa toxina em uma maletinha de mão que até parece uma daquelas lancheiras que as crianças levavam para a aula, ou mesmo uma marmita de peão de obra, enquanto os figurantes que fazem a escolta nem ao menos sabem como segurar suas metralhadoras. E quando terroristas e militares trocam tiros, os “atores” apenas se jogam no chão “mortos”, sem que apareçam buracos de bala ou pelo menos sangue nas suas camisas (aparentemente, são tiros invisíveis, ou então os personagens morrem de susto ao ouvir o som dos tiros). Para encerrar o festival de burradas, não bastasse o fato dos terroristas terem entrado em uma base militar super secreta e super segura sem qualquer problema, um deles ainda consegue fugir A PÉ levando a maletinha com a toxina roubada! E quando chegam vários soldados para tentar controlar a situação, eles preferem perder tempo correndo até um helicóptero nas proximidades ao invés de perseguir o terrorista fugitivo a pé, já que ele estava apenas alguns poucos metros distante!!! hahahahahaha. Se você resistir à tentação de parar de ver o filme, ainda terá muitas cenas imbecis pela frente para dar risadas…

O terrorista maratonista foge sem problemas pelo meio do mato. Um helicóptero persegue o dito cujo, mas, apesar de o vilão estar correndo em uma área descampada, sem árvores ou obstáculos, os milicos no ar simplesmente não conseguem atingi-lo com seus tiros! Pior: a única bala que acertam é na pequena marmita… ou melhor, na pequena maleta onde está a toxina. O troço esverdeado escapa e queima a mão do terrorista, que, com uma expressão de dor, consegue simplesmente desaparecer, deixando a maleta para trás. Tomado pela dor, o contaminado corre até um hotel nas proximidades, onde se hospeda sem problemas (e sem despertar suspeitas, apesar da aparência fragilizada e da mão carcomida por um composto químico).

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Enquanto isso, de volta à base militar, o dr. Holder conversa com o militar responsável pelo projeto, o comandante Bryant (Mike Monty, morto em 2006 após aparecer em vários dos novos filmes de Bruno Mattei, como The Jail – A Women´s Hell e The Tomb). O cientista choraminga que é preciso encontrar o terrorista contaminado, pois ele pode espalhar a toxina pela cidade e, na pior das hipóteses, pelo mundo inteiro; diz, ainda, que seus efeitos colaterais são imprevisíveis e que a contaminação pode se propagar pelo sangue, saliva, respiração e outros “fluidos corporais”, se é que você me entende…

Em seu quarto de hotel, o pobre terrorista começa a sofrer na pele, literalmente, os efeitos colaterais da toxina Death One. Sua mão queimada fica totalmente apodrecida, e feridas purulentas e esverdeadas começam a se espalhar por seu rosto. Trancado no banheiro do quarto, segurando um facão enorme que não se sabe de onde saiu, ele toma a decisão brilhante de decepar a mão contaminada, talvez esquecendo que seu rosto também está coberto de feridas, e por isso ele posteriormente precisaria também decepar a própria cabeça! Numa das únicas cenas relativamente violentas do filme, o homem corta a mão em close, o sangue escuro jorra generosamente na pia do banheiro e pronto, temos o primeiro zumbi de Zombi 3. Finalmente!

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E em breve teremos também a primeira vítima: quando a camareira entra no quarto para trocar a roupa de cama, ela comete a burrada de entrar no banheiro e se depara com a mãozinha de borracha decepada dentro da pia. Antes que possa fazer qualquer coisa, porém, o zumbi ataca por trás e, com a mão que lhe resta, esmaga a cabeça da pobre camareira contra o espelho, fazendo jorrar um montão de sangue – mas, infelizmente, não temos nada do tipo “vidro entrando no olho“, para que o espectador pelo menos pudesse se lembrar de como era bom o Zombie original de Fulci…

Os militares, por sua vez, finalmente descobrem que o terrorista fugitivo está escondido no hotel (apesar de ser o único prédio nos arredores, os coiós demoraram várias horas para chegar ao local!). Bryant toma uma decisão típica de milico de filme de horror: despacha um batalhão de soldados com aquelas roupas brancas anti-contaminação e máscaras contra gás (plágio descarado de O Exército do Extermínio) para exterminar todos os hóspedes e funcionários do hotel, além do próprio terrorista, que, naquele momento, está completamente esverdeado, como se tivesse sido contaminado com CLOROFILA! O comandante instrui seus homens para enterrarem todas as vítimas numa vala comum, mas levarem o cadáver do terrorista zumbificado de volta para a base.

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Certo de que todas as provas do trágico episódio serão apagadas, Bryant ordena que dois soldados (“interpretados” por Mattei e pelo roteirista Fragasso, em participação especial!) cremem o corpo contaminado. Sim, eles aparentemente não viram A Volta dos Mortos-Vivos, de onde Fragasso chupou a ideia do vírus se espalhar pelo ar – usam até um take semelhante da fumaça saindo pela chaminé do crematório! E é justamente agora que o filme começa a ficar REALMENTE ridículo! A toxina espalhada na atmosfera contamina um bando de pássaros que voava ali por perto, transformando-os em “pássaros zumbis”!!! Sim, acredite se quiser!

Pode parar de rir agora. Porque, neste momento, somos finalmente apresentados aos “heróis”: três soldados americanos que estão nas Filipinas curtindo um final de semana de folga. Eles são Ken (Deran Sarafian, um cineasta americano, aqui num de seus raros trabalhos como ator), Roger (Richard Raymond, ou melhor, o italiano Ottaviano Dell’Acqua, que estrelou o “clássicoRatos, dirigido por Mattei) e Bo (Alex McBride, ou melhor, o italiano Massimo Vanni, que também apareceu em Ratos e em outros filmes de Mattei!). Quando vemos os três soldados pela primeira vez, eles estão dando um rolê de jipe e caçando garotas. E logo o trio passa por um trailer repleto de garotas gostosas que ficam se exibindo pelas janelas: Nancy (Ulli Reinthaler, de Enigma do Pesadelo), Carole (Marina Loi, de Demons 2), Lia (Deborah Bergamini) e Suzanna (Mari Catotiengo), acompanhadas por dois amigos/namorados cujos nomes nem ao menos são citados, no filme ou nos créditos finais.

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Perto dali, o casal Glen (nome do ator não-creditado) e Patricia (a francesa Beatrice Ring, que apareceu em Roleta Macabra, de Lamberto Bava) está passeando de carro e ouvindo o discurso ecológico feito pelo DJ Bluehart pelo rádio. Algo do tipo “nós sabemos que os aerosóis estão destruindo a camada de ozônio, e mesmo assim continuamos usando“. O blablabla do DJ incentiva uma discussão entre o próprio casal, que brinda o espectador com frases ridículas como “De vez em quando eu gosto de mijar num arbusto, será que vou para o inferno por causa disso?“. Felizmente, a conversa cretina é interrompida pelo ataque dos pássaros-zumbis (hahahaha, lembra deles?), que ferem Glen no rosto.

Os mesmos pássaros também entram no trailer e atacam uma das moças. O trio de heróicos soldados intervém, resgatando os demais e espantando os pássaros-zumbis (pronto, agora eles também desaparecem do filme sem maiores explicações, tipo o Toxic Avenger no começo). Como a moça atacada fica doente e fragilizada, o grupo todo resolve ir até um hotel nas proximidades, onde podem cuidar da enferma e buscar ajuda médica. Ao mesmo tempo, Patricia também dirige até um posto de gasolina atrás de ajuda para seu namorado. No local, entretanto, ela só encontra um zumbi decomposto e acorrentado a uma parede (???), e outro cheio de energia que sai correndo atrás dela com um facão (???). Felizmente, a transformação em zumbi parece comprometer a visão do zumbificado, e o monstro atinge um faconaço numa bomba de gasolina ao invés de na cabeça da garota, explodindo o posto inteiro enquanto Patricia pica a mula de carro com Glen.

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Paralelamente, os soldados e o pessoal do trailer chegam até o tal hotel, que está vazio e completamente destruído. Sim, é o mesmo hotel onde todos foram exterminados pelos militares no início da história. Apesar da operação ter sido realizada no dia anterior (ou no mesmo dia, pois o roteiro não se preocupa em esclarecer a questão temporal), o hotel parece estar abandonado há anos, inclusive com folhagens e mato crescendo no interior do prédio!!! A atriz Beatrice Ring disse, numa entrevista, que o cenário ficou assim depois que um furacão que atingiu as Filipinas devastou também o hotel, mas a equipe achou o máximo e resolveu filmar daquele jeito mesmo, por mais absurdo que pareça!

Enquanto isso, por motivos nunca explicados, a praga já se espalhou por toda a cidade, transformando a maior parte dos filipinos em mortos-vivos. E apesar de as pessoas estarem contaminadas há apenas 24 horas, quando muito, todas já aparecem com os corpos decompostos, embora em alguns casos a maquiagem só exista no rosto (enquanto mãos e pés estão normais!).

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Quando você acha que o pior do filme já passou, Fulci e Mattei continuam surpreendendo. Primeiro, a galera no hotel descobre que os soldados que exterminaram todo mundo no começo “esqueceram” por lá uma caixa repleta de fuzis e munição suficiente para começar a Terceira Guerra Mundial – uma bobagem típica do preguiçoso roteirista Fragasso, que usou situação semelhante em seu próprio filme de zumbis, A Terceira Porta do Inferno, onde os personagens também encontravam uma caixa repleta de armas e munições dando sopa!

Ao perceberem que o estado da garota atacada pelos pássaros-zumbis (hehehe) piora a cada momento, Bo e Carole saem de jipe em busca de um médico. Eles nem estranham o fato de a cidade estar deserta, já que todo mundo virou zumbi, mas logo o jipe pifa no meio da estrada – por falta de água no radiador. Carole se oferece para buscar água numa casa próxima, mas é empurrada dentro da piscina por um zumbi brincalhão e tem suas pernas devoradas por outros que brincam de mergulhar na piscina. Quando Bo vai resgatá-la, tira apenas o toquinho da moça de dentro da água… Atacado ele próprio por zumbis, que preferem dar sopapos e chutes a morder, o soldado sai dando porradas nos mortos-vivos e encontra Patricia e Glen (lembra deles?), com quem pega uma carona.

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Só que o namorado não demora a também virar zumbi. E daqueles que falam! Copiando uma cena de A Volta dos Mortos-Vivos, Glen diz: “Estou melhor agora, Patricia. Mas estou com sede… Sede do seu sangue!!!“, e tenta agarrar a moça, sendo impedido por Bo, com quem, mais uma vez, sai na porrada. Patricia consegue escapar correndo, mas o soldado é atacado e devorado por uma multidão de mortos-vivos. E eis que, sem o menor esforço, a moça consegue chegar até o hotel onde todos os outros personagens estão escondidos…

Está ficando cada vez melhor, certo? Mas calma que eu nem cheguei no pior ainda!

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Plagiando uma cena do próprio Zombie/Zombi 2, o grupo faz uma barricada no hotel e aguarda pelo ataque iminente dos mortos. E, quando os zumbis atacam, o filme realmente começa a ficar TRASH, assim, em maiúsculas! Apesar de os mortos-vivos serem cidadãos comuns que foram contaminados por uma toxina, praticamente todos eles estão vestidos da mesma forma, com roupas cinzas ou azuis que mais parecem sacos de batata! E os figurantes não se decidem: alguns andam devagarzinho, no estilo zumbi tradicional; outros são extremamente ágeis, correm e ainda dão porrada nos heróis, no estilo Extermínio e Nightmare City; há ainda os zumbis “inteligentes”, que falam, raciocinam, usam armas e se escondem para fazer emboscadas. Os mortos-vivos também podem ser divididos entre “famintos” (os que atacam com a única intenção de comer) e os “lutadores” (que preferem agarrar as vítimas pelo pescoço ou sair na porrada).

O ataque dos mortos-vivos ao hotel é algo inacreditável. Aqueles que andam devagarzinho chegam sempre acompanhados por uma sinistra neblina (que desaparece na cena seguinte), como se um deles viesse caminhando atrás com uma daquelas máquinas de fazer gelo-seco. Os zumbis caminham enfileirados até a frente do hotel e, misteriosamente e sem explicação, PARAM, como se estivessem refletindo, avaliando a situação ou esperando pelas ordens de algum general-zumbi. Isso dá aos personagens todo o tempo do mundo para conseguirem se organizar e preparar as armas – inclusive um lança-chamas, que apareceu sabe-se lá de onde!!! Argh!

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Após muitos tiroteios, explosões e cenas de ação bagaceiras (que nos fazem lembrar uma versão zumbi de Rambo), os 30 minutos finais de Zombi 3 mostram os poucos sobreviventes correndo para lá e para cá, atirando nos zumbis ou trocando porradas com eles, enquanto um pelotão do exército (aqueles vestidos de branco, ao estilo O Exército do Extermínio) circula pela cidade atirando em qualquer coisa que se mova, sejam zumbis ou humanos normais. O confronto entre eles e os heróis será inevitável, embora muito mal-explorado pelo roteiro…

Zombi 3 é, do início ao fim, extremamente amador e mal realizado. Chega a ser difícil acreditar que um artesão hábil como Lucio Fulci (que mesmo nos seus piores filmes mantinha uma certa qualidade narrativa) pudesse descer tão baixo! Tanto que, nas primeiras vezes que vi o filme, pensei que muito pouco tivesse sido filmado por Fulci e a maioria por Mattei. Infelizmente, conforme fui descobrir depois, pelo menos 40 minutos de Zombi 3 são coisa do famoso Lucio, inclusive algumas cenas bem cretinas. No geral, entretanto, só podemos chutar quem fez o quê, já que nem o recentemente falecido Mattei lembrava quais cenas havia filmado (leia mais sobre este mistério no texto complementar deste artigo).

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Num roteiro ruim e tosco, que foi reescrito várias vezes após a saída de Fulci para que as coisas fizessem sentido (inclusive com a colaboração não-creditada de Rosella Drudi, esposa de Fragasso), o que mais chama a atenção é o comportamento completamente ridículo dos zumbis, que se escondem para pegar os humanos de surpresa. Em uma cena, Roger entra num quiosque e um zumbi está pendurado no teto, de onde agarra a cabeça da vítima. Quer dizer, imagine há quanto tempo aquele pobre zumbi ficou pendurado lá em cima esperando que algum desavisado entrasse no quiosque para ele agarrar! Caramba, não é mais fácil para um zumbi ficar caminhando sem rumo em busca de uma vítima? O mesmo vale para todos aqueles que se escondem em armários, atrás de portas e no meio de arbustos – há quanto tempo eles estarão lá, só esperando para pegar os heróis de surpresa???

Apesar do tema e apesar de ser um filme de zumbis, não há cenas de grande violência. Além da mão decepada no começo, há uns poucos ataques onde os mortos-vivos arrancam nacos de pele das vítimas, uma ou duas cabeças explodidas e a barriga de uma gestante rasgada por uma garra que sai do seu interior. Isso teoricamente atesta o fato de não estarmos diante de uma legítima obra de Lucio Fulci, conhecido por extrapolar nas doses de violência e sangue. Os efeitos toscos de maquiagem e violência foram feitos por Franco di Girolamo, colaborador habitual de Bruno Mattei que, ironicamente, foi responsável pelas violentíssimas cenas de assassinato de The New York Ripper, o último filme bom de Fulci antes da sua decadência. Mas faz falta um mestre como Gianetto de Rossi, responsável pelo Zombie/Zombi 2 original…

Afinal, Zombi 3 é tão ruim assim???

Bem, pode ter certeza que é AINDA PIOR! Para comprovar esta minha afirmação, vamos analisar algumas barbaridades:

Acho que a melhor forma de descrever a ruindade de Zombi 3 é narrar aquela que, com certeza, é uma das PIORES CENAS que lembro de ter visto num filme de horror na minha vida toda: trata-se do momento inesquecível em que um desavisado, procurando por comida, abre a geladeira do hotel onde o grupo está abrigado e encontra uma cabeça decepada no seu interior. Acredite se quiser, mas a cabeça ABRE OS OLHOS e literalmente VOA em direção ao pescoço da vítima!!!

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Duas coisas: número 1, como é que a cabeça foi parar dentro da geladeira? Já pensaram um zumbi arrancando a própria cabeça e deixando na geladeira como uma “armadilha” para os incautos, enquanto o resto do corpo fica dando uma volta por aí sem cabeça? Número 2: como é que uma cabeça voa? Se tivesse qualquer coisa que desse propulsão, vá lá… Mas é uma cabeça decepada, caramba! Não tem como ela se mexer, rolar, sacudir, quem dirá voar!!! Apesar disso, a dita cuja voa não uma única vez na jugular do infeliz, mas duas – pois, quando o sujeito cai ensanguentado, a cabeça voadora pula novamente sobre ele para dar mais uma mordida!!!

Outra cena ridícula é aquela em que Carole entra numa casa em busca de água para o radiador do jipe. Um zumbi segue a garota lentamente até o segundo andar da casa e, ao invés de agarrá-la pelas costas e devorá-la (no mau sentido), ele simplesmente dá um empurrão, fazendo-a cair da janela até a piscina repleta de mortos-vivos lá embaixo! Ou seja, ou o zumbi é burro (porque seus colegas lá de baixo é que fizeram o lanchinho no lugar dele), ou então é vegetariano!

E o que dizer da cena em que os heróis chegam até um hospital deserto e encontram uma gestante, vivinha da silva, deitada na mesa de operações da enfermaria? Ela milagrosamente não foi devorada pelos zumbis que infestam o recinto, e o roteiro também não se preocupa em explicar como, afinal, foi parar ali. De todo jeito, uma das moças do grupo tenta ajudá-la, também esquecendo dos zumbis que estão rodeando o lugar, e é atacada por um dos mortos-vivos. No mesmo momento, o que quer que está nascendo da gestante simplesmente rasga a sua barriga por dentro e agarra a cabeça da moça que tentou fazer o parto! hahahahaha

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Mas não pense que a lista de imbecilidades termina por aqui: no finalzinho, os poucos sobreviventes chegam até um helicóptero e levantam voo. Um dos rapazes fica para trás e explode uma dúzia de zumbis com uma granada que, miraculosamente, encontrou dando sopa embaixo de um caminhão. Quando vai se agarrar ao helicóptero, que já está decolando, três zumbis saem DO NADA e agarram seus pés!!! Acredite: os zumbis saem do chão, levantando debaixo de um monte de capoeira, como se estivessem tirando uma soneca ou mesmo escondidos ali durante horas para pegar alguém desprevenido – embora não tenham atacado nenhum dos outros humanos!!!!!!! hahahahaha. É por essas e por outras que não existe qualquer possibilidade de encarar Zombi 3 como um filme sério.

Para quem procura uma comédia, entretanto, vale para contar a quantidade de furos no roteiro. Logo no início, por exemplo, o dr. Holder explica que a contaminação se espalha pelo ar, pela mordida, pelo sangue, etc. Porém, na metade da história, o grupo de heróis fica ao redor da garota contaminada pelos pássaros-zumbis no ataque ao trailer, respirando o ar que a moribunda expele, mas nenhum deles acaba contaminado (e o mesmo vale para Patricia, dirigindo ao lado do contaminado Glen)… Em determinados momentos, ainda, os zumbis são mortos com tiros em qualquer local do corpo, nas costas ou no peito, eliminando aquele velho clichê de que zumbi só morre com balaços na cabeça. Porém, em outra cena, uma moça atravessa a garganta de um dos mortos-vivos com uma estaca de madeira e ele continua andando, sem morrer até ter a cabeça explodida! E por aí vai. É inútil tentar enumerar os rombos na lógica e os buracos no roteiro…

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Já o elenco é um caso à parte e só aumenta a sensação de estarmos assistindo uma comédia involuntária. Deran Sarafian e Beatrice Ring são os únicos atores mais razoáveis, mas, devido a todos os problemas na produção, não foi possível filmar closes de ambos. Logo, em todas as cenas, vemos os atores de longe ou em grupo, e por isso não é possível simpatizar com nenhum deles ou reconhecê-los. Dell’Aqua e Vanni não são atores, e sim dublês, portanto convencem mais dando tiros e sopapos do que atuando (e frases como “Essa música me dá tesão” não ajudam nada…). Além disso, a construção dos personagens é inexistente: os três soldados são três soldados, as mocinhas se comportam como garotas assustadas e sempre fugindo, as vítimas são vítimas, etc etc. Não há qualquer profundidade ou diálogo que pelo menos dê uma base sobre os personagens e suas ações.

O roteiro prefere dar mais ênfase a figuras secundárias, como o dr. Holder e o comandante Bryant, estes sim bem definidos, principalmente o cientista, que se sente culpado por ter “começado o apocalipse“. Pena que o ator Robert Marius seja uma nulidade: em todas as cenas em que discute com o militar, ele aparece com o dedinho apontado, em riste, como se fosse a única forma que o ator encontra para mostrar que está revoltado… Quanto aos figurantes, nunca vi zumbis tão mal interpretados, se é que isso é possível… Alguns são hilários, tipo o filipino que “interpreta” um morto-vivo como se fosse o corcunda de Notre Dame, andando todo curvado e com as mãos dobradas na frente do corpo! hahahaha.

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As filmagens foram um inferno também para os atores. Numa entrevista, Beatrice Ring lembrou que Fulci esbravejava e xingava o tempo inteiro. Na cena do posto de gasolina, o diretor queria que ela fizesse cara de assustada quando cai no chão, empurrada pelo zumbi. Insatisfeito com a representação da atriz, Fulci repetiu o take seis vezes e, na última, berrava: “Morra, sua vagabunda, MORRA! Você não pode simplesmente morrer???“. Já os pobres figurantes filipinos sofreram o pão que o diabo amassou: as espoletas sob a roupa, colocadas para simular os buracos de tiros, não receberam a necessária proteção, e por isso as pequenas explosões provocavam sérias queimaduras na pele dos infelizes!!! O único que Fulci respeitava no set era o ator Deran Sarafian, porque ele também era um cineasta (dirigiu a ficção científica bagaceira Interzone em 1987 e hoje faz episódios de C.S.I. e House); além disso, Deran é filho do diretor cult Richard C. Sarafian.

Resumindo a novela: depois que Fragasso e Mattei “consertaram” o furo deixado por Fulci, filmando as tais cenas adicionais para complementar o tempo de projeção (veja mais no texto abaixo), Zombi 3 ficou pronto e estreou em Roma, durante o renomado festival de cinema fantástico FantasFilm. Desnecessário dizer que uma obra chamada Zombi 3, com um enorme “directed by Lucio Fulci” em destaque, chamou a atenção dos fãs do cineasta e do filme original. Já na primeira sessão, o produtor Gaudenzi percebeu o pepino que tinha nas mãos: o público primeiro ficava sem ar de tanto dar risada, e depois começava a xingar toda a equipe técnica em voz alta, quase num ímpeto de fúria. Numa entrevista, a atriz Beatrice Ring lembra que estava com a coadjuvante Marina Loi na sessão de estreia de Zombi 3; após aguentar alguns minutos de risadas e palavrões, as duas preferiram deixar o cinema escondidas com medo de apanhar!

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No fim das contas, Fulci sempre negou que Zombi 3 fosse um “filho seu“. Numa de suas últimas entrevistas, antes de morrer em 1996, o maestro disse que nunca repudiou nenhum dos seus filmes, mesmo os piores (como Murder Rock), exceto no caso de Zombi 3. “Mas este filme não é meu!“, defendeu-se o cineasta, completando: “É a mais tola das minhas produções. Foi feita por um grupo de idiotas: Claudio Fragasso, o cretino de nascença Bruno Mattei, que antes de virar ‘diretor’ era um pintor de casas, e um cara chamado Mimmo Scavia, diretor de produção, que só foi às Filipinas com a intenção de comer algumas garotas orientais“.

O próprio Mattei, quando ainda estava vivo, aparece falando sobre o filme nos extras do DVD americano, lançado pela Shriek Show. Bem humorado, ele ri muito ao comentar a infame produção: “Eu filmei todo o início, a cena do homem fugindo com a maleta, e todas as cenas com os soldados vestidos com roupa anti-contaminação. Deran Sarafian e as garotas não estavam mais ali, por isso tive que trabalhar com Dell’Acqua e Massimo Vanni. Então, eu fiz uns 40% do filme. Não me lembro de todas as cenas exatamente, mas sei que Fulci filmou aquela do posto de gasolina explodindo. O resto não lembro…“. Mattei vai mais além: “No fim, Claudio e eu corrigimos as coisas. Se algo faltava, nós escrevíamos uma nova cena para substituir a antiga. É difícil dizer de quem é o filme… A alma é de Fulci, é seu trabalho, e não meu. Eu só entrei na produção depois que ela estava encerrada. Então, vamos dizer que dei uma mão a ele. Nem posso julgar o filme, porque, juro, nunca vi ele pronto“.

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Já o roteirista e co-diretor Fragasso defende Zombi 3 com unhas e dentes. Numa entrevista à revista americana Fangoria, ele explicou a situação: “O produtor queria fazer o filme com um orçamento muito, muito pequeno. Lucio estava doente e falou que não poderia fazer algo assim, com tantas cenas de ação. Por isso, pediu ao produtor para mudar o roteiro. Mas a história estava boa como eu tinha concebido“. Já na entrevista que acompanha o DVD da Shriek Show, o roteirista foi mais adiante: “É um filme de Lucio Fulci, o filme é de quem o dirigiu. Se depois alguém precisa consertá-lo, o nome deste alguém não interessa“. Fragasso lembrou que o corte original de Lucio tinha uma hora e dez minutos. Era curto, mas ao mesmo tempo muito longo por causa das cenas esticadas. Do material filmado por Fulci, apenas 20 minutos foram cortados. “A história com os soldados vestidos de branco andando pela cidade e atirando nos zumbis foi escrita especialmente para aumentar o tempo. É como se fosse um outro filme, porque nós não queríamos mexer no que Fulci tinha feito. Por isso tivemos que criar estas cenas de ação para fechar o que já estava pronto, é uma segunda história dentro da primeira“.

Seja ruim, muito ruim ou horroroso, a verdade é que Zombi 3 pelo menos é divertido. Eu dei mais risadas assistindo a esta gigantesca porcaria do que vendo muitas supostas comédias recentes. E também tem muitos filmes de zumbis piores e que nem ao menos são engraçados, como Dia dos Mortos 2 – O Contágio.

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Nem precisa dizer que Zombi 3 nunca foi comercialmente lançado no Brasil, embora outras produções da Flora Film dirigidas por Mattei, tipo a série Strike Commando e os tenebrosos Shocking Dark e Robowar, tenham saído em vídeo por aqui. Na Argentina há um DVD de Zombi 3 com legendas em espanhol e em PORTUGUÊS. Mas não fique muito feliz: a versão que os hermanos comercializam foi severamente censurada, não tem a cena pré-créditos (do cadáver careca que se transforma em Toxic Avenger), e praticamente todas as cenas de violência foram limadas ou encurtadas, da mão decepada jorrando sangue à barriga da grávida sendo rasgada pelo lado de dentro… Enfim, não vale a pena.

O pior filme de Fulci e um dos menos ruins da ridícula carreira de Mattei. Assim é Zombi 3, esta preciosidade do cinema trash, que, boa ou ruim, merece ser conhecida pelos fãs de horror italiano, adoradores de zumbis, curiosos que gostam de trash movies ou simplesmente pessoas malucas querendo dar umas boas risadas. Para quem acredita que a história sempre se repete, Zombi 3 foi filmado na mesma região das Filipinas (chamada “Los Banos“) onde Francis Ford Coppola gravou seu clássico Apocalypse Now nos anos 70. Guardadas as devidas proporções, as duas produções tiveram sérios problemas durante as filmagens. Quem diria que um dia um filme de Bruno Mattei fosse comparado a um clássico de Coppola… hehehe.

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Agora só falta Franco Gaudenzi (cuja Flora Film faliu nos anos 90) colocar de volta todas as cenas filmadas por Fulci que ele cortou e lançar um Zombi 3 Redux!!!

MISTÉRIO: QUEM DIRIGIU O QUÊ?

Quando Lucio Fulci abandonou a produção de Zombi 3, deixou para o produtor Franco Gaudenzi uma edição rudimentar com 1h10min. Muita coisa estava lá só para encher linguiça e fechar o tempo mínimo. Ao analisar os rolos de filme, Gaudenzi percebeu que não poderia lançar aquilo nos cinemas de maneira alguma. A solução encontrada foi chamar Bruno Mattei e o roteirista Claudio Fragasso para tentar descascar o abacaxi, filmando novas cenas, mas sem poder refilmar aquelas já feitas por Fulci, pois os atores principais (Deran Sarafian e Beatrice Ring) tinham fechado o contrato e deixado as Filipinas há semanas.

Fica difícil descobrir quem filmou o quê dos 94 minutos de Zombi 3. Quando vi pela primeira vez, jurei que muito pouco do material de Fulci havia sido aproveitado, já que o resultado total é tão ruim que lembra mais o cinema de Mattei do que o trabalho de Lucio. Porém, em várias entrevistas, os atores Beatrice Ring, Ottaviano Dell’Acqua e Massimo Vanni afirmam que trabalharam sob a direção de Fulci. O próprio Lucio se recusava a assumir a autoria da película quando vivo. Dizia que tinha abandonada a produção sem terminá-la, e que apenas uns 15 minutos do que filmou foram aproveitados na edição final, apesar de ser o seu nome com destaque nos créditos iniciais e no cartaz. “Eu me recusei a terminar Zombi 3, peguei um avião e voei de volta para Roma. Você só pode ver uns 15 minutos meus no filme“, garantiu, numa entrevista.

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O certo é que todas as cenas com Deran Sarafian e Beatrice Ring (ou seja, boa parte da trama) foram gravadas por Fulci, mesmo que ele nunca tenha assumido o fato. Pelo menos uns 45 minutos de Zombi 3 são, sim, do maestro… Até mesmo a cena mais bagaceira, a da cabeça voadora que sai da geladeira, coisa que eu jurava que só podia ser coisa do Mattei, foi filmada por Fulci. Pior: ele adorou a ideia e acha isso a melhor coisa do filme!!! “Só tenho orgulho da cena do crânio voador“, confirmou, na mesma entrevista, mostrando que o clima das Filipinas deve ter afetado a sua razão.

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Na entrevista que acompanha o DVD da Shriek Show, Fragasso e Mattei contam como foram convidados para terminar Zombi 3: Mattei estava filmando Strike Commando 2 para Gaudenzi nas Filipinas, quando foi chamado às pressas pelo produtor para tentar corrigir o material deixado por Fulci, em mais 15 dias de gravações adicionais. Parte das cenas originais ficaram no chão da sala de edição. Por exemplo: embora os créditos finais informem a participação do veterano Alan Collins (pseudônimo de Luciano Pigozzi, um popular ator italiano) como “diretor das instalações“, o ator não chega a aparecer na edição final de Zombi 3, e nunca se fala num “diretor das instalações“; Fragasso e Mattei consideraram as cenas filmadas por Fulci com Collins muito ruins, e elas foram simplesmente cortadas, embora não tenha sido possível alterar os créditos finais, onde o nome do ator ainda aparece.

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Como não tinha mais os dois atores principais à disposição (Deran e Beatrice), a dupla dinâmica teve que se virar com os dois atores secundários, Dell’Acqua e Vanni, que ainda estavam nas Filipinas porque integravam o elenco do filme que Mattei estava rodando, Strike Commando 2. Duas cenas com Ottaviano foram estendidas para encher linguiça. Numa delas, os personagens estão caminhando por uma floresta (material filmado por Fulci). Dell’Acqua, que interpreta o soldado Roger, se afasta do grupo, e então começa o enxerto feito por Mattei: o ator diz para os outros “esperarem um pouco” (na verdade, nenhum dos outros atores estava ali naquele momento) e segue sozinho pelo campo, enfrentando alguns zumbis na porrada, numa cena muito bagaceira – ainda mais pelo fato dos “outros” não o ajudarem em momento algum, comprovando que Dell’Acqua estava sozinho na cena!

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Outro enxerto de Mattei foi a morte de Roger, no final: a cena filmada por Fulci terminava com o soldado caindo do helicóptero e vários zumbis se amontoando sobre ele. Mattei continuou a partir daí, mostrando Roger lutando e socando os mortos-vivos, levantando, correndo pelo campo e encontrando os militares com roupas anti-contaminação, que o metralham em câmera lenta, numa cena chupada da morte de Willem Dafoe em Platoon, de Oliver Stone. O que evidencia o enxerto é o fato do cenário ser completamente diferente a partir do momento em que Dell’Acqua levanta do chão (antes estavam numa pista de decolagem, depois num matagal qualquer), e o fato do ator estar com a barba mais comprida que nas cenas anteriores.

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Para completar, Mattei confessou ter filmado todas as cenas envolvendo o dr. Holder e o comandante Bryant, e também o ataque dos terroristas para roubar a toxina (isso eu já imaginava, tal a tosquice do tiroteio). E foi ele quem gravou o ridículo momento em que vários cientistas, liderados por Holder, tentam encontrar um antídoto para a toxina simplesmente sentados ao redor de uma mesa, escrevendo, à mão, em pedaços de papel – aparentemente, a produção não tinha dinheiro nem para construir um laboratório com tubos de ensaio e equipamentos médicos, ou pelo menos colocar alguns computadores em cena para os cientistas “trabalharem“!!!

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Não é possível saber se o que acontece no hotel (homem contaminado decepando a mão, exército invadindo e matando todo mundo) é coisa de Fulci ou de Mattei, mas a sequência em que o cadáver do terrorista zumbificado aparece sendo cremado com certeza foi filmada por Bruno – até porque ele e Fragasso aparecem como figurantes, interpretando os dois soldados no crematório.

O roteirista Fragasso também adicionou as cenas com os soldados vestidos ao estilo O Exército do Extermínio circulando pela cidade e atirando em zumbis; estas cenas não existiam no roteiro original, e só foram enxertadas para aumentar o tempo de duração – o que é perceptível, considerando que estes soldados raramente interagem com os personagens principais nas cenas filmadas por Fulci. Também é pura encheção de linguiça o trecho em que militares (figurantes filipinos, no caso) sobrevoam a cidade de helicóptero e metralham um grupo de zumbis, outra parte que com certeza foi filmada por Mattei.

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Finalmente, não é possível descobrir quais cenas de ataques de zumbis foram filmadas por qual diretor, mas o fato de Fulci estar doente e preferir filmagens em interiores pode ajudar: a da cabeça voadora o próprio admitiu que fez; o cerco dos mortos-vivos ao hotel deve ser coisa dele, assim como as cenas finais no hospital, incluindo a barriga da gestante sendo arrebentada. A cena em que Marina Loi é empurrada na piscina, tem as pernas arrancadas e, transformada em zumbi, tenta morder Massimo Vanni também foi gravada por Fulci, já que a própria atriz lembra de ter sido dirigida por ele. E, por pior que pareça, o ataque de Beatrice Ring por um morto-vivo armado com facão no posto de gasolina tem o dedo de Lucio, fato confirmado pela atriz e por Mattei.

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Ainda restam algumas dúvidas: qual dos dois foi o arigó que filmou o ataque dos pássaros-zumbis? Será que Mattei é o responsável pela longa sequência em que Vanni escapa dos zumbis que devoraram Marina Loi? E quem gravou o prólogo, envolvendo o dr. Holder e o zumbi careca? A resposta, infelizmente, ambos (Fulci e Mattei) levaram para o túmulo.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga “Entrei em Pânico…”, entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

5 comentários em “Zombi 3 (1988)

  • 16/01/2017 em 03:05
    Permalink

    Filmão Trash que merece ser visto.

    Cenas toscas, zumbis capengas, maquiagens mal feitas, cenas de ação péssimas e uma cabeça voadora.

    Recomendado para os fortes!!

    Resposta
  • 29/04/2014 em 21:04
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    Vale a pena ser visto sim , um ótimo trash italiano com muitas cenas memoráveis e feito em conjunto com o mestre Fulci . Zombi 3 faz parte da minha coleção .

    Resposta
  • 23/04/2014 em 17:51
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    Bom, devo dizer que não concordo totalmente com o artigo.
    “ZOMBI 3” é, de fato, um filme Trash assumido, mas, tem seus atrativos, e nem tudo são falhas. Por exemplo, a cena em que o médico corta a mão, pode-se presumir que ele pegou a faca na cozinha e a levou para o banheiro… Agora, realmente não tinha sentido para ele decepar a mão, uma vez que o vírus já havia se alastrado em seu rosto.
    Os zumbis do final também são misteriosos – em parte, poderiam ser outros soldados que investigaram o lugar, não sei… Os personagens não tinham como saber que o lugar estava infectado…
    Fora isso, acho que “ZOMBI 3” merece ser visto não como sequencia do grande clássico de Fulci, mas como um filme de Bruno Mattei, um dos maiores mestres do Cinema Trash Italiano. Se pensarmos bem, o filme até que é divertido, simplesmente por ser Trash, algo que os italianos sabiam fazer muito bem naquele período e que muitos cineastas americanos daquele período também sabiam fazer.
    As falhas técnicas são tantas, que nem pensamos nisso a medida que o filme corre, só queremos mesmo nos divertir assistindo-o.
    A aparência dos zumbis ainda é um dos atrativos da fita, principalmente o zumbi oriental; nem ligamos se é maquiagem ou outra coisa, o que importa é que ele e os outros são nojentos, bem como imaginamos que vitimas de armas biológicas seriam.
    Se existe algo de errado com o filme, acho que está nos créditos – não é um filme de Lucio Fulci, e sim, Um Filme de Bruno Mattei! Pessoalmente, mesmo tendo visto apenas um de seus filmes – dois, contando com esse – não considero Mattei uma espécie de Ed Wood Italiano, porque tanto um quanto o outro, tinham gosto pelo que faziam… Ed Wood tinha um pouco mais, vamos ser sinceros… E também acho que os Anos 80 foram os Anos Dourados de Mattei, pois sem duvida, ele dirigiu os filmes mais divertidos do Cinema Italiano Trash, sem se preocupar se estava plagiando os americanos ou não…
    Enfim… “ZOMBI 3” é TRASH, sem duvida, mas não é o TRASH que merece ser espancado como um saco de bosta velho; é o TRASH que merece ser visto com tal, que não tem medo nem vergonha de se assumir TRASH, quase como os filmes de Roger Corman ou o já mencionado Ed Wood.
    E um detalhe, no final da carreira, mais precisamente em 1995, Bruno Mattei dirigiu um filme chamado “TUBARÃO CRUEL”, sob o pseudônimo de William Synder, e falando francamente, é o verdadeiro declínio de sua carreira, porque 85% do filme é composto de clipes de “TUBARÃO” (1975), “TUBARÃO 2” (1978), “TUBARÃO 3” (1983), “O ÚLTIMO TUBARÃO” (1981) e “DEEP BLOOD” (1989).
    Para concluir, o pequeno filme de Mattei é o exemplo de como Filmes Trash Italianos são feitos; um prato cheio para quem adora FILMES B, como o autor desse comentário.

    Resposta
    • 15/12/2017 em 19:49
      Permalink

      Quem entende filmes trash são poucos, e o público mainstream absorve esses filmes da mesma forma que o escritor deste artigo.
      O artigo, entretanto, é bem informativo.

      Resposta

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