Zombie – A Volta dos Mortos (1979)

Zombie (1979)
“Nós vamos devorar você vivo!”
Zombie - A Volta dos Mortos
Original:Zumbi 2
Ano:1979•País:Itália
Direção:Lucio Fulci
Roteiro:Elisa Briganti
Produção:Ugo Tucci, Fabrizio De Angelis
Elenco:Tisa Farrow, Ian McCulloch, Richard Johnson, Al Cliver, Auretta Gay, Stefania D'Amario, Olga Karlatos, Nick Alexander, Ugo Bologna, Ramón Bravo, Omero Capanna, Giannetto De Rossi, Alberto Dell'Acqua, Lucio Fulci

Num velho cemitério de conquistadores espanhóis, um cadáver putrefato, trazido de volta à vida de forma desconhecida, levanta-se lentamente de sua cova rasa na terra. Seu rosto coberto de carne podre e vermes, saindo das órbitas vazias dos olhos, brilha à luz do sol, como se aquele fosse um momento belíssimo de renascer… E então, o Zumbi recém-ressuscitado se atira para a frente, abocanhando violentamente a garganta da bela Auretta Gay, fazendo jorrar um rio de sangue da ferida.

A cena acima poderia muito bem estar em um filme de George A. Romero, o conhecido criador da mais interessante franquia sobre mortos-vivos já vista no cinema, iniciada em A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968, continuada em Zombie – O Despertar dos Mortos, de 1978,  Dia dos Mortos, de 1985, Terra dos Mortos, de 2005, Diário dos Mortos, de 2007, e finalizada com A Ilha dos Mortos, de 2009. Poderia… mas não está! Os clássicos de Romero têm cemitérios, mas nunca mostraram um cadáver levantando-se do túmulo, ainda mais um cadáver putrefato, apodrecido, coberto de vermes, comprovando que a morte não é nem um pouco bonita. Devemos esta visão chocante a um italiano que tinha sido estudante de Medicina, mas preferiu fazer cinema. Seu nome: Lucio Fulci.

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Chama-se Zombie a obra-prima de Fulci, filmada e lançada em 1979, e que por décadas foi considerada apenas uma imitação barata dO Despertar dos Mortos de Romero, sendo injustamente relegada a um segundo plano. Mais recentemente, adquiriu um status cult e hoje já tem seu lugar garantido entre os grandes clássicos do cinema de horror – embora a crítica continue sentando o pau no filme. A obra de Fulci sofreu, também, com a picaretagem dos produtores, que lançaram a fita na Itália como Zombi 2 (porque O Despertar dos Mortos, de Romero, havia sido batizado Zombi na Itália). Isso deu origem a uma verdadeira dança dos títulos: o filme de Fulci passou a ter um nome diferente em cada país onde era lançado, de Zombie e Zombi 2, a Zumbi 2 (no Brasil) até Zombie Flesh Eaters (na Inglaterra).

O filme de Fulci é revolucionário para o subgênero “mortos-vivos” porque, até então, a maioria dos filmes de Zumbis representava as criaturas como seres humanos normais, que andavam lentamente ou cambaleando, com os braços estendidos (tipo sonâmbulos) e os rostos pintados de branco, azul ou verde. Foi Fulci que lançou a moda dos mortos-vivos decrépitos e apodrecidos, transformados em monstros putrefatos pela ação do tempo, alguns mais decompostos do que os outros, inclusive aqueles que são verdadeiras caveiras cobertos de vermes. Zombie fez escola e, a partir daí, a maquiagem dos zumbis nos filmes de horror ganhou atenção especial, fazendo até Romero “copiar” o novo estilo no posterior Dia dos Mortos, onde, pela primeira vez na trilogia americana, vemos zumbis putrefatos, como os do filme de Fulci.

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É injusto, também, dizer que Zombie é apenas uma cópia caça-níqueis do filme de Romero, tentando faturar em cima do sucesso que O Despertar dos Mortos fez na Itália e em toda a Europa. Diz a lenda que o roteiro do filme – assinado por uma colaboradora habitual de Fulci, Elisa Briganti (e pelo mestre Dardano Sacchetti, sem crédito) – teria sido escrito em 1978, antes de O Despertar dos Mortos ser lançado na Itália pelo diretor Dario Argento (produtor do filme de Romero). Havia a história básica sobre o ataque de mortos-vivos numa ilha do Caribe; mas, após o sucesso de O Despertar dos Mortos, foi criada uma nova sequência de abertura e um novo final, ambos em Nova York, para acentuar a ideia do apocalipse provocado pelos mortos-vivos, que funcionou tão perfeitamente no filme de Romero.

Uma outra curiosidade interessante é que o roteiro de Zombie foi primeiramente oferecido ao diretor Enzo G. Castellari, um mestre italiano do cinema de ação (conhecido por suas longas tomadas em câmera lenta em filme como Keoma e Fuga do Bronx), mas com pouquíssima experiência em terror. Seria curioso ver que tipo de filme sairia sob o comando de Castellari, mas ele recusou o compromisso, deixando o projeto livre para Fulci – que foi contratado porque o produtor de Zombie, Fabrizio De Angelis, havia adorado Sette Note in Nero, também conhecido como The Psychic, feito pelo diretor no ano anterior.

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O próprio Fulci então não era o mestre do terror italiano, como é conhecido hoje. Ao longo dos anos 70, ele tinha feito diversos faroestes (tipo Sela de Prata, com Giuliano Gemma, e Os Quatro do Apocalipse) e violentíssimos filmes de suspense, inclusive o polêmico Don´t Torture a Duckling (1972) – onde a figura de um padre assassino fez com que a Igreja Católica excomungasse o diretor! Zombie é um dos primeiros filmes de terror ultra-violentos feitos pelo mestre. E iniciou uma carreira exemplar. Logo depois viriam outros clássicos, sempre com produção de Fabrizio De Angelis, que parecia farejar os temas que davam dinheiro. Com De Angelis, Fulci rodou praticamente um filme de horror por ano, começando com Pavor na Cidade dos Zumbis (1980), passando por The Beyond (1981), A Casa do Cemitério (1982), e por aí vai.

O trailer de cinema de Zombie já anunciava que o filme não era para todos os gostos. Começava com uma tela preta com o letreiro: “Nós vamos devorar você vivo!“, e em seguida, ao som da música-tema, desfilava algumas cenas-chave (porém sem mostrar nada do gore). No fim, aparecia um aviso dizendo que o espectador poderia pedir, na entrada do cinema, por sacos de vômito, caso considerasse ter o estômago muito fraco para aguentar a obra! Uma excelente jogada de marketing!

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Zombie começa repentinamente, com um close numa mão que segura um revólver, num quarto envolvido pela escuridão. Deitado numa cama, um cadáver embrulhado em lençol branco lentamente começa a se levantar, sendo alvejado com um tiro na cabeça. O autor do disparo, ainda envolvido pela penumbra, diz então uma frase que se tornaria clássica. “The boat can leave now. Tell the crew” (“O barco pode ir agora. Chame a tripulação.”). Começa então o espetáculo, com a brilhante música escrita a oito mãos por Fabio Frizzi, Giorgio Tucci, Adriano Giordanella e Maurizio Guarini (apenas Frizzi e Tucci ganharam crédito).

Corta então para Nova York, onde um barco sem tripulação navega sem rumo, chamando a atenção da guarda costeira. Dois policiais entram no barco e um deles desce ao compartimento da tripulação, onde encontra uma mão decepada e parcialmente devorada, além de vermes e minhocas por toda parte. De repente (mas de repente mesmo!), pegando o policial e o espectador de surpresa, uma porta se abre com um baque e surge um enorme zumbi careca e gordo, todo podre, correndo em direção ao policial e atirando-o ao chão. Horrorizada com aquela visão infernal, a vítima luta para escapar das mãos que a agarram, mas só consegue arrancar pedaços de pele podre do morto-vivo, antes de levar uma mortal dentada no pescoço. O triunfante zumbi, coberto do sangue de sua nova vítima, sai então do barco e caminha com a luz do sol e os prédios de Nova York ao fundo (numa cena brilhante), sendo alvejado várias vezes pelo segundo policial e caindo na água – sem morrer, já que nenhum dos tiros pegou na cabeça.

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Peter West (Ian McCulloch) é um repórter abelhudo de um jornal nova-iorquino, enviado pelo seu editor-chefe (interpretado pelo próprio Lucio Fulci) para conferir a história do policial atacado no barco. Sem permissão da polícia para entrar no navio, West, como todo bom jornalista de filme, resolve dar uma de detetive e voltar ao local à noite. Lá descobre que outra pessoa teve a mesma ideia: Ann Bowles (Tisa Farrow), filha de um certo professor Bowles, que seria o proprietário do barco. Ann diz ao jornalista que está investigando o paradeiro do seu pai. A dupla descobre, através de uma carta do próprio professor encontrada no barco, que sua última parada foi a ilha Matoul, nas Antilhas. Lá, ele teria contraído uma misteriosa doença e achava que nunca mais iria voltar vivo a Nova York. Em busca de respostas, Peter e Ann resolvem ir para a ilha imediatamente – porque, nos filmes, os jornalistas sempre têm tempo para fazer essas coisas, e aparentemente só precisam fazer uma reportagem por mês!

Peter e Ann pegam carona com um casal que viaja de barco na região, Brian Hull (Al Cliver) e Susan Barrett (Auretta Gay). Enquanto a viagem segue sem incidentes (por enquanto), o espectador acompanha o que acontece na ilha. Ali, o cenário é de certa desolação e mistério. Um médico americano, o dr. David Menard (o excelente Richard Johnson), está obcecado em descobrir porque cadáveres mortos recentemente – e também os já enterrados – estão voltando à vida como zumbis. Os nativos da ilha falam em vodu, mas como “homem da ciência“, Menard acha impossível que feitiçaria e pajelança possam ser as responsáveis pelo fenômeno, e se dedica a pesquisar amostras de sangue e tratar os doentes na igreja do local, transformada em hospital e laboratório. Ah sim: ele também se dedica a matar, com um tiro na cabeça, todos os mortos recentes, para que eles não virem novos zumbis. Foi o que ele fez no início do filme, lembram?

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É quando acontece uma das cenas mais fantásticas de Zombie, que demonstra a alta periculosidade dos mortos-vivos no filme. No barco onde os casais viajam, Susan resolve mergulhar um pouco. Tira a roupa com a maior tranquilidade, ficando de topless e biquíni minúsculo (uma das cenas de nudez gratuitas do filme), coloca seu equipamento e mergulha. No fundo do oceano, entre tubarões, peixes e corais, encontra um zumbi decomposto! Isso mesmo! O zumbi está lá dando uma nadadinha e a agarra pelas pernas!!! Ele nem fica sem ar, levando em conta que não precisa se dar ao luxo de respirar!!! Susan consegue fugir e um dos tubarões ataca o morto-vivo. Mas esse não deixa por menos: começa a lutar contra o terrível predador debaixo da água, inclusive devorando pedaços do tubarão! E nem se importa quando este lhe arranca um dos braços com uma dentada! Uma cena antológica, que só podia sair da cabeça desvairada dos cineastas e roteiristas italianos – e coreografada sem som, apenas com a sinistra música-tema do filme. Não acrescenta absolutamente nada à história, mas certamente é uma das melhores do filme.

Quando o quarteto finalmente chega à ilha, descobre que os zumbis tomaram conta. O dr. Menard explica a eles sobre suas pesquisas e a tentativa de descobrir o motivo por trás da ressurreição dos mortos. Explica também que o pai de Ann morreu na ilha e voltou como zumbi, necessitando ser abatido por ele (de novo a cena inicial do filme). O grupo combina de fugir da ilha, e o médico pede que Peter e sua turma vão de jipe até sua casa para buscar sua mulher. Entretanto, Paola Menard (a linda Olga Karlatos), a esposa do doutor, que estava em casa tomando banho, a estas alturas já foi morta e devorada pelos mortos-vivos, em outra das cenas clássicas de Zombie – onde um morto-vivo arrebenta a porta e segura a vítima pelos cabelos, puxando-a lentamente até que seu olho seja destruído por uma enorme lasca de madeira. Tudo sem cortes, praticamente em câmera lenta, com sonoplastia exagerada, num momento violentíssimo e poucas vezes superado pelo cinema.

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Atacados pelos zumbis na casa do dr. Menard, os quatro nova-iorquinos tentam uma fuga desesperada, mas o jipe fica avariado e eles se vêem obrigados a voltar ao hospital correndo pelo meio da selva. Aí, é um pulo para encontrarem mais mortos, inclusive os recém-ressuscitados cadáveres de um velho cemitério dos conquistadores espanhóis. O confronto final se dará na igreja/hospital, onde os vivos ficam sitiados apenas aguardando o ataque de um verdadeiro batalhão de mortos-vivos.

Zombie lançou diversos clichês do cinema de zumbis, além de reaproveitar alguns que os filmes de Romero e suas imitações americanas já vinham mostrando. A cena clássica do zumbi decomposto levantando lentamente da terra, por exemplo, virou um verdadeiro referencial do gênero, sendo copiada tantas vezes que perdeu a graça – inclusive por Andrea Bianchi em Nights of Terror e pelo próprio Fulci no posterior Pavor na Cidade dos Zumbis, feito no ano seguinte. Outro clichê máximo do gênero é a contaminação dos personagens centrais, quando estes são apenas mordidos pelos zumbis e fatalmente se transformarão em novos mortos-vivos – gerando aquele tradicional conflito, como quando Brian vê Susan já transformada em morta-viva e se recusa a matá-la achando que sua amada está viva. Dos filmes de Romero, Fulci reaproveitou a forma utilizada para matar os zumbis (tiro no meio dos cornos), e, claro, o final apocalíptico.

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A diferença é que Zombie e outros filmes de zumbis feitos na Itália eram extremamente pessimistas e raramente tinham final feliz, ao contrário do que acontece na conclusão amena dos filmes de Romero, tipo O Despertar dos Mortos e O Dia dos Mortos, quando os heróis sempre escapam vivos e bem. Na Itália, é comum os zumbis não só devorarem todo o elenco humano, como ainda dominarem o mundo!

Um detalhe interessante do roteiro é, a exemplo dos filmes de Romero, nunca revelar qual o verdadeiro motivo pelo qual os mortos estão retornando à vida. Os nativos da ilha falam em feitiço vodu, mas isso nunca é confirmado – nem nunca aparece qualquer ritual de feitiçaria ou magia negra para comprovar a teoria. Talvez não tenha mais lugar no inferno ou então o lugar foi usado como área de testes de uma nova arma química do exército, quem sabe? Mas é interessante porque o espectador fica tão perdido quanto o dr. Menard, que tenta, inutilmente, descobrir o que é aquela infecção e uma forma de controlá-la antes que toda a ilha seja “zumbificada“. E o pobre pesquisador acaba não fazendo outra coisa além de amarrar os cadáveres em lençóis e abatê-los com tiros na cabeça assim que eles começam a levantar. Isso rende alguns momentos realmente arrepiantes, com aqueles embrulhos humanos repentinamente se erguendo da cama, bem devagar…

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O clima “tropical” é muito bem aproveitado. Tirando o começo e o final, todo o restante da história se passa em alto mar ou na ilha. Claro que os filmes de zumbis em cidades e casas também são legais (é impressionante ver as ruas cheias de zumbis em filmes como O Despertar dos Mortos, por exemplo). Mas mortos-vivos cambaleando em uma floresta escura são ainda mais assustadores… Fulci aproveita para colocar os personagens em locais cada vez mais difíceis de escapar, como o cemitério no meio da floresta e depois a igreja transformada em fortaleza contra os zumbis. Isso sem contar que os personagens estão numa ilha, de onde é impossível fugir a não ser que se chegue aos barcos (e vale lembrar que os zumbis atacam pela água, como Fulci representou muito bem com a briga do morto-vivo e do tubarão). Além da trilha sonora reproduzir o som de tambores africanos, conta pontos a filmagem em locais como Haiti e San Domingo.

Os críticos costumam dizer que o péssimo elenco afunda qualquer tentativa de o espectador simpatizar com os personagens. Ora, isso não é verdade. Primeiro, porque o elenco é simpático e é difícil não torcer pelos heróis, especialmente por Peter e Ann, frente à selvageria dos zumbis. Além disso, são bons atores, curiosamente de diversas nacionalidades. O galã McCulloch, por exemplo, é escocês; Tisa Farrow é americana; Richard Johnson é inglês; Al Cliver nasceu no Egito; Olga Karlatos é grega, e os irmãos Otaviano e Roberto Dall’Acqua (que interpretam zumbis) são italianos. Logo, um elenco internacional, que muita superprodução americana não tem!

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O roteiro é enxuto e sem complicação. A trama toda pode ser resumida a meia dúzia de palavras (“Pessoas são atacadas por Zumbis em ilha tropical“), não há grandes reviravoltas e nem os tradicionais surrealismos de Fulci (tipo acontece em The Beyond e em Pavor na Cidade dos Zumbis, onde a lógica vai pro espaço depois de meia hora de filme!).

Entretanto, um detalhe não fica bem explicado (ou pelo menos eu não entendi direito, vendo o filme sem legendas): como aquele zumbi gordo e careca foi parar no barco do professor Bowles e, consequentemente, em Nova York? Será que o dr. Menard, ao deixar o barco sair da ilha, queria propositadamente espalhar a praga de zumbis em Manhattan, ou foi um acidente (o zumbi se escondeu no navio e ninguém percebeu)? Porque se Menard estava na ilha justamente para descobrir uma cura para a praga, que razão ele teria para mandar um zumbi até Nova York, sabendo que acabaria em tragédia? Aliás, por que será que o cientista deixou o barco ir embora, antes de tudo? Será que ele queria que as autoridades descobrissem o que estava acontecendo na ilha e o paradeiro do professor Bowles? Não era mais fácil ele mesmo deixar a ilha e explicar tudo em Nova York? Mistérios…

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Se o roteiro é simples, Zombie não poupa em sangue e mutilações. Graças aos efeitos de Gianetto De Rossi, que são extremamente realistas (inclusive no uso do sangue mais escuro do que aquele vermelho vivo dos filmes de George Romero), vemos membros arrancados, zumbis devorando nacos de carne, grandes feridas abertas com mordidas no corpo dos “vivos” (especialmente no pescoço) e sangrentos balaços na cabeça dos zumbis. Não há meio-termo: sempre que um zumbi ataca alguém, Fulci filma closes da boca descarnada arrancando pedaços de carne da vítima, sem cortes. Já a cena do contra-ataque dos vivos aos zumbis na igreja sitiada é um festival de ação, tiros e explosões, além de muito gore, e fico imaginando o que Castellari (o diretor inicialmente cogitado para o projeto) faria, provavelmente abusando da câmera lenta e dos supercloses nos buracos de bala nos zumbis! Mas Fulci não fica para trás, usando e abusando de uma edição dinâmica (que lembra os filmes de ação atuais), com cortes rápidos e excelentes ângulos de câmera.

É uma pena que, diferente de O Despertar dos Mortos, a carência de recursos transpareça em alguns momentos. Por exemplo, na falta de figurantes (a vila na pequena ilha está quase sempre vazia e os zumbis atacam em pequeno número; muitas vezes, um mesmo zumbi é abatido várias vezes, pois os mesmos atores interpretam mortos diferentes). O fim, que mostra os zumbis marchando por Nova York, também ficou comprometido, pois dá para ver nitidamente alguns poucos figurantes com roupas esfarrapadas caminhando enquanto carros e pessoas transitam normalmente pela rua – Fulci deve ter simplesmente armado sua câmera e filmado, sem permissão para parar o trânsito no local. O resultado fica um tanto risível, ao invés de trágico, bem diferente do herói caminhando pelas ruas desertas de Londres no filme Extermínio, por exemplo.

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Mas isso não compromete em nada o espetáculo. Na verdade, Zombie pode ser colocado com folga em qualquer lista dos cinco melhores filmes de mortos-vivos de todos os tempos. Sinceramente, talvez até entre os três principais. Se bem que eu fico na dúvida se o troféu de primeiro lugar deveria ir para a obra-prima O Despertar dos Mortos ou para esse clássico de Fulci. São dois filmes bem diferentes, com suas próprias qualidades e defeitos – o italiano opta pela ação e pela sangreira, sem a crítica social proposta por George Romero. Logo, seria melhor propor um empate técnico entre os dois.

Teoricamente, Zombie foi exibido nos cinemas brasileiros no começo dos anos 80 (com o título Zombi 2), mas nunca chegou a ter um lançamento digno para uso doméstico – apenas uma versão simples pelo selo Darkside da Works Editora. O que não deixa de ser uma pena, ainda mais considerando que em 2004, quando ele completou 25 anos, foi lançada nos EUA uma luxuosa edição em DVD duplo… Mas, como eu gosto de dizer sempre, terceiro mundo é fogo. Aqui, as distribuidoras acham que filme de zumbi é House of the Dead ou Resident Evil. Eles sim mereciam ser trucidados por mortos-vivos decompostos…

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DEVORADOS PELOS ZUMBIS!

A maioria dos participantes de Zombie despontou para o anonimato logo após o sucesso do filme ou algum tempo depois. Fica a impressão de que foram realmente devorados pelos mortos-vivos do filme. Confira o que aconteceu com o elenco após trabalhar com Lucio Fulci em 1979:

IAN McCULLOCH (Peter West): Um simpático ator escocês que merecia melhor sorte no cinema. Apareceu em alguns conhecidos filmes de horror italianos da época: além de Zombie, fez Zombie Holocaust/Dr. Butcher (1980), de Mario Girolami, e o ótimo Alien Contamination (1980, também), de Luigi Cozzi. Abandonou definitivamente o cinema em 1982. Hoje, vive de bicos do tipo fazer faixa de comentário no DVD americano de Zombie.

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TISA FARROW (Ann Bowles): Depois de Zombie, apareceu em outro ultrajante filme italiano do período, o violentíssimo Antropophagous (1980), de Joe D´Amato. Ainda em 1980, interpretou uma repórter em plena Guerra do Vietnã no excelente filme de ação The Last Hunter, de Antonio Margheritti – lançado no Brasil com o título Apocalypse 2. E com esse trabalho abandonou o cinema. Era cunhada do cantor americano Frank Sinatra e, até o começo deste ano (2004), trabalhava como enfermeira em Vermont (EUA).

RICHARD JOHNSON (Dr. David Menard): Um dos poucos que continua trabalhando até hoje. Já era um ator conhecido na Itália antes de Zombie (fez, por exemplo, A Ilha dos Homens-Peixe, de Sergio Martino, também em 1979). Depois, continuou fazendo muitos filmes, inclusive uma pequena participação no blockbuster americano Tomb Raider, de 2001.

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AL CLIVER (Brian Hull): O ator egípcio era um grande amigo de Fulci e apareceu em praticamente todos os filmes feitos posteriormente pelo mestre, inclusive no clássico The Beyond, em 1981 – onde interpreta um médico que morre com o rosto crivado de cacos de vidro! Abandonou o cinema em 1990. Antes, fez Demonia – dirigido, claro, pelo amigão Fulci.

AURETTA GAY (Susan Barrett): A carreira desta atriz negra morreu com Zombie… Ela só fez mais três filmes sem qualquer destaque. O ponto alto de sua carreira foi levar a dentada no pescoço de um zumbi putrefato!

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OLGA KARLATOS (Paola Menard): Esta atriz grega fez pequenas participações no clássico Era Uma Vez na América (1984), de Sergio Leone, e até na megaporcaria Purple Rain, aquele musical mela-cueca estrelado pelo Prince (interpretando a mãe do dito-cujo!). Abandonou o cinema em meio aos anos 80. Também apareceu no fraco Murder Rock (1984), de Fulci.

OTAVIANO DALL´ACQUA (Zumbi): Mais conhecido pelo pseudônimo americano “Richard Raymond“, esse ator interpretou outro zumbi em Nightmare City (1980), de Umberto Lenzi, e depois teve mais sorte: virou amigo de Bruno Mattei (será que foi sorte?), que deixou-o aparecer sem maquiagem de zumbi em filmes como Ratos, Cop Games e Strike Commando 2. Ironicamente, também apareceu de cara limpa combatendo seus “colegas” zumbis no famigerado Zombie 3, dirigido por Fulci e Mattei em sociedade. Um de seus melhores momentos na telona é como capanga de Richard Lynch em Cut and Run (1985), de Ruggero Deodato.

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ROBERTO DALL´ACQUA (outro zumbi): Roberto é irmão de Otaviano. Interpretou tão bem um morto-vivo em Zombie que o diretor Fulci convidou-o para atuar no posterior The Beyond… novamente como zumbi! Fique atento à sua participação: em The Beyond, ele é o morto-vivo que arrebenta uma janela e agarra Katherine MacColl pelos cabelos! Ele não merecia o Oscar?

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

7 comentários em “Zombie – A Volta dos Mortos (1979)

  • 17/01/2017 em 15:57
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    O título original desse filme é Zumbi 2??? Pensei que fosse Zombie, mesmo.

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  • 01/05/2015 em 14:52
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    Sério pra ser sincero e na minha opinião esse ai é o melhor filme de zumbi já feito

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  • 15/05/2014 em 12:07
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    O site de vocês antes era mais pratico agora ficou mais encheção de linguiça porem sobre este filme tirando cena de nudez e a perfuração do olho da mulher pois eles são zombies não imitadores do Jason o filme é uma aula de terror hoje em dia você assiste filmes como Rec que em vez de mostrar algo bem absurdo como esse filme zombie mostra babaquices como possuídos pelo mal éum cada vez mais me da saudades desses filmes pois após esse só teve filmes meia boca até chegar em lixos como fome animal e rec

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  • 23/04/2014 em 14:36
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    Graaande Felipe, você pode não saber, mas eu sou seu fã. Não é bajulação não, é só uma sinceridade. É bom saber que seus artigos longos e detalhados estão voltando pro site. Vida longa e próspera pra você.

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  • 20/04/2014 em 03:24
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    Uma verdadeira obra-prima do mestre Fulci , não é só melhor que O Despertar dos Mortos , mais sim ” um dos melhores filmes de mortos-vivos de todos os tempos ” ! Está sim entre os três melhores mais ficando em terceiro lugar na minha preferência ou lista pessoal , mais não é criticando nem falando que O Despertar dos Mortos é ruim , muito pelo contrário é o melhor filme de Romero , mais comparando com o Zombie de Fulci mesmo sendo um diferente do outro fica bem abaixo do famoso clássico do Horror italiano que sou muito fã e que considero um dos melhores . É óbvio que o clássico Zombie de Fulci faz parte da minha enorme coleção .

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  • 18/04/2014 em 20:50
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    Sem dúvida ZOMBIE (1979) é o Filme de Zumbi Italiano!!!!!!!!!!!
    Não apenas isso. Ao lado de Romero, Lucio Fulci se consagrou como o Pai dos filmes de Zumbi ao dirigir essa verdadeira obra-prima do Terror.
    Difícil dizer qual o melhor momento, pois existem tantos: o zumbi dentro do barco abandonado; zumbi x tubarão; o olho na madeira; a ressureição do zumbi que aparece no pôster ou então todas as cenas em que eles aparecem!!!!
    Não há nada de errado com esse filme; nenhuma falha no roteiro ou direção…
    O melhor é que Fulci faz igualzinho à Romero, não explica a origem dos Zumbis, ele simplesmente os joga para nós na tela, cheios de sangue, feridas, germes, órbitas, olhos vazados, buracos… TUDO QUE TEM DIREITO!!!! Isso até os faz melhores do que os Zumbis de Romero… embora seja impossível compará-los.
    O cenário também parece perfeito, uma ilha deserta no meio do nada, com uma vila às moscas praticamente, um cemitério velho, uma igrejinha abandonada, um hospital claustrofóbico…
    Fulci não nos poupa nem por um segundo de ver sangue espirrado, vísceras expostas, feridas abertas, olhos arrancados… tudo de uma forma tão realista que coloca qualquer filme de terror de hoje no chinelo…
    A maquiagem de Giannetto de Rossi o coloca no posto de rei da maquiagem de terror italiano – de Rossi praticamente transforma os Zumbis naquilo que imaginamos que eles seriam, com seus olhos furados, feridas cheias de minhocas, faces cobertas de terra… Tudo certinho.
    ZOMBIE é, sem sombra de dúvida, o filme de Zumbi perfeito.
    Recomendável para todos – até para aqueles que não gostam de Filmes de Terror.
    UM CLÁSSICO.

    Resposta

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