Críticas

A Besta de Yucca Flats (1961)

Tor Johnson interpretando um cientista russo é a primeira das inúmeras coisas erradas que tornam este filme uma pérola!

A Besta de Yucca Flats (1961)

A Besta de Yucca Flats
Original:The Beast of Yucca Flats
Ano:1961•País:EUA
Direção:Coleman Francis
Roteiro:Coleman Francis
Produção:Coleman Francis, Anthony Cardoza
Elenco:Douglas Mellor, Barbara Francis, Bing Stafford, Larry Aten, Linda Bielema, Ronald Francis, Alan Francis, Anthony Cardoza, Bob Labansat, Jim Oliphant, John Morrison, Eric Tomlin, Jim Miles, George Prince, Conrad Brooks, Graham Stafford, Tor Johnson

O maravilhoso mundo do cinema bagaceiro tem diversos ícones e muitos deles já foram apresentados aos leitores pelo Boca do Inferno. Por aqui já passaram medalhões como Ed Wood (A Noiva do Monstro, Plano 9 do Espaço Sideral), Bruno Mattei (Ratos: A Noite do Terror), Uwe Boll (Alone in the Dark) e outros menos conhecidos, como Harold P. Warren (Manos: The Hands of Fate). A este segundo grupo você acrescentará mais um nome, ao conhecer a magna obra do diretor Coleman Francis, A Besta de Yucca Flats, que para sempre será lembrada como uma peça da mais pura falta de noção, coerência e continuidade já vista na sétima arte.

Exagero? Vamos por partes e ao fim o infernauta poderá tirar suas próprias conclusões. O filme abre com uma mulher anônima (Lanell Cado) terminando seu banho (junto com um barulho ensurdecedor de relógio) e sentando-se na cama para se secar até ser estrangulada pelas mãos fortes de algum desconhecido. Digamos que é a versão Coleman da famosa cena de Psicose (1960) com um peitinho gratuito para quem não piscar o olho e uma suposição de necrofilia embutida. A cena não faz sentido já que no decorrer da projeção não há nada que lembre remotamente este ataque aleatório.

A Besta de Yucca Flats (1961) (5)

Entram os créditos iniciais e finalmente vemos quem gostaríamos: o wrestler sueco Tor Johnson. Em Plano 9 do Espaço Sideral já era irreal ele interpretar um inspetor de polícia, neste aqui ele faz o papel de Joseph Javorsky, um cientista espacial soviético dissidente, que pretende deserdar seu país entregando segredos, incluindo um suposto pouso lunar dos russos, para os Estados Unidos.

Chegando de avião acompanhado por dois agentes do FBI (Bob Labansat e Jim Miles) em um campo afastado da civilização, eles são surpreendidos por outros dois agentes da KGB que pretendem matar Joseph e recuperar os documentos roubados.

O que se segue é uma série de cortes do que deveria ser uma cena de tiroteio e perseguição das mais fantasticamente ridículas que já se viu… Os carros andam em velocidade normal, fazem barulhos de derrapagem no asfalto a despeito do fato de estarem em uma estrada de terra, dos tiros não saem nem pólvora de espoleta (apesar do barulho característico), quanto mais sangue ou mesmo vidros estilhaçados, porém o que mais chama a atenção é uma antológica passagem onde as balas de um dos agentes do FBI acabam (enquanto Tor corre a esmo pelo deserto carregando a pasta com os documentos) e os agentes inimigos ESPERAM-no carregar sua arma antes de retomar o tiroteio… É uma demonstração de cortesia profissional sem precedentes, hehehe…

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A perseguição termina em Yucca Flats, área de testes nucleares, e calha de ser bem na hora do lançamento de uma bomba atômica no lugar. Os agentes dos dois lados morrem e Tor sobrevive, porém deformado e se tornando… Tcham, tcham, tcham!!! A Besta de Yucca Flats, uma máquina de matar sem consciência ou “um monstro pré-histórico na era nuclear” como nos diz a narração.

Neste ponto o público já percebeu duas características predominantes no filme: primeira,  ninguém fala para a câmera (não houve captação local de áudio e os atores tiveram que dublar suas vozes na pós-produção) e, segundo, é que não dá pra ter ideia da passagem do tempo, pois mesmo as cenas “noturnas” são claras como as cenas “de dia“. Fato é que tudo foi filmado de dia para poupar custos, porém nem um filtro escuro foi usado para nos dar esta noção.

A “transformação” de Javorsky é tipo a do Hulk sem tinta verde, ou seja, umas roupas rasgadas e um papel machê na cara, andando como um zumbi obeso. As primeiras vítimas da besta é um casal que tem problemas no carro numa estrada próxima: o homem é estrangulado e a mulher é sequestrada deixando só a bolsa, o que chama a atenção de dois policiais, Jim Archer (Bing Stafford) e Joe Dobson (Larry Aten), que passam a persegui-lo – sem nunca encontrá-lo até o fim do filme, por sinal.

Enquanto isto acompanhamos uma família composta por Hank Radcliff e a esposa (Douglas Mellor e Barbara Francis, esposa do diretor) em férias com seus dois filhos (Ronald e Alan Francis, filhos do diretor). Os pestinhas desgarram dos pais e saem andando pelo deserto, coincidentemente o mesmo onde a besta está a solta. É quando o espetáculo da incoerência atinge um novo patamar…

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Os policiais vagam pelo deserto procurando Javorsky e concluem que ele está em uma caverna no alto de um platô. Um platô tão alto que após duas tentativas de escalar a mãos nuas – e o narrador reforça insistentemente este aspecto – Jim decide saltar de paraquedas no topo dele e caçar “a besta“… Se você parar para perguntar “se Javorsky ficou tão caquético com a bomba, como ele chegou lá em cima sem ajuda” vai perder a comédia que é quando as próprias crianças chegam em frente da caverna da besta ANDANDO pelo deserto!

É impossível descrever o roteiro que se segue sem apelar para a ignorância, mas os que ficarem até aqui vão ver cenas antológicas como Jim no avião crivando Hank de balas enganado ao pensar que se tratava da besta e o homem continua correndo como se nada tivesse acontecido; a constatação de que tudo o que separa Yucca Flats – um lugar perigosíssimo e radioativo – da civilização é uma cerca de arame farpado e uma placa de madeira (para não falar que não há um soldado do exército nas redondezas); a besta irada jogando uma pedra no chão ou a cena final, onde um coelho dá um beijo em Tor Johnson… É sério…

A Besta de Yucca Flats (1961) (4)

Absolutamente tudo no filme é errado, e tão errado que chega a ser de uma perfeição perversa. O trabalho de câmera, meticulosamente cortando as pessoas ou deliberadamente não mostrando os personagens falando; as caras e bocas do elenco inapto; todos os 36 mil dólares do orçamento estimado transpirando efeitos e maquiagem toscos na tela sobre o roteiro cheio de besteiras escrito por Coleman Francis.

Coleman, que, inclusive, faz uma ponta no filme (ele compra um jornal que noticia as mortes da besta) e protagoniza o papel mais chato e hilário da produção: o narrador. A narração é tão esdrúxula e ilógica que chega a ser bizarro quando, com a maior seriedade do mundo, Coleman declama falas como “Um toque num botão. Coisas acontecem. Um cientista se torna uma besta“, “Garotos da cidade. Ainda não capturados pelo redemoinho do progresso. Alimentam porcos sedentos com refrigerante.” ou minha favorita “Jim Archer, parceiro de Joe, outro homem pego na corrida frenética pela melhoria da humanidade. Progresso.“. Sen-sa-cio-nal!

Por outro lado a tortura dura pouco, 53 minutos apenas, contudo é suficientemente longo para redefinir qualquer padrão estabelecido sobre filmes bagaceiros, um vácuo de técnica e aptidão tão grande que só pode ser considerado como um “crássico“.

A presença de Tor Johnson abrilhanta mais a produção e só foi possível graças aos contatos do produtor Anthony Cardoza, soldador de profissão que afundou seus dólares em Yucca Flats, e que já havia vendido uma casa e dado dinheiro para Ed Wood realizar Noite das Assombrações, um de seus últimos filmes. Outro associado frequente de Wood, Conrad Brooks, também aparece aqui numa ponta tão pequena que mal merece seu nome nos créditos.

Filmado em diversos fins de semana durante o ano de 1959, já que a maioria dos atores tinha empregos “de verdade“, Johnson na época estava tão gordo – mais de 175 quilos – que literalmente teve de ser puxado para cima da colina onde a caverna da besta ficava em uma comunidade próxima a Hollywood, o que era muito desgastante para os envolvidos, especialmente quando ainda se soma com o peso do equipamento.

Após a película ser editada e finalizada, o produtor Cardoza mandou imprimir cerca de 75 cópias que chegaram a ser oferecidas para a 20th Century-Fox e para AIP – American International Pictures sem sucesso (e podem adivinhar o porquê), mas acabou nas mãos da minúscula Cinema Associates e pouco retornou o investimento que já era pequeno.

Nascido em 1919, Coleman Francis teve diversos créditos como ator em papéis menores de pequenos filmes, como Mundos que se Chocam (1954) e Guerra Entre Planetas (1955), porém tentou se tornar diretor e roteirista fazendo três filmes sendo A Besta de Yucca Flats o primeiro deles. Todavia não alimentem esperanças, os outros dois filmes posteriores de Coleman (The Skydivers e Red Zone Cuba, também produzidos por Anthony Cardoza) também acompanham a ruindade deste aqui de perto, tanto que é um dos poucos diretores que possuem sua obra completa zoada no seriado cult Mystery Science Theater 3000, fato de questionável orgulho.

Após largar a carreira por trás das câmeras, Coleman continuou fazendo pequenos papéis até De Volta ao Vale das Bonecas (1970) antes de falecer em 1973 as vésperas de fazer 54 anos. A causa oficial da morte é arteriosclerose, embora alguns tenham visto indícios de suicídio. O mundo “blockbuster” pode ter se esquecido da obra de Coleman Francis, quiçá foi lembrado um dia, porém enquanto existirem admiradores do cinema porcaria (e o Youtube, já que todos seus filmes caíram em domínio público) seu legado poderá ser visto e apreciado. Por piores que sejam, existem diretores mais aptos e talentosos que não tem o mesmo reconhecimento, um feito para poucos. No mínimo, um progresso.

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2 Comentários

  1. DougTrash

    Numa entrevista, o Cardoza disse que foi o próprio Francis que fez os gritos do “monstro”.
    O pior é que eu vi esse filme sem MST3K, mas os que eu vi por meio desse foram muito piores que esse primeiro.

  2. vanessa vasconcelos

    uma caveira? VISH.

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