Críticas

Cannibal Holocaust (1980)

É tão forte e seus efeitos tão realistas que, na época, ele foi retirado de cartaz e o diretor teve que se explicar às autoridades!

Cannibal Holocaust (1980)

Cannibal Holocaust
Original:Cannibal Holocaust
Ano:1980•País:Itália
Direção:Ruggero Deodato
Roteiro:Gianfranco Clerici
Produção:Franco Di Nunzio, Franco Palaggi
Elenco:Robert Kerman, Francesca Ciardi, Perry Pirkanen, Luca Barbareschi, Salvatore Basile, Ricardo Fuentes, Carl Gabriel Yorke, Paolo Paoloni, Lionello Pio Di Savoia, Luigina Rocchi

Ter o título de mais controvertido e polêmico filme de todos os tempos não é para qualquer um… E é isso que diferencia Cannibal Holocaust de todas as suas imitações, e faz dele um dos mais fortes, violentos e assustadores filmes de horror de todos os tempos, ou the ultimate horror movie (o filme de horror definitivo), como a propaganda anunciava. É um horror que não vem de monstros ou fantasmas, mas de seres humanos, como eu e você…

O cinema italiano era classificado em fases, muitas vezes referentes a sucessos do cinema americano. Digo era porque infelizmente o cinemão classe B made in Italy acabou-se em meados dos anos 90, provavelmente pelo monopólio dos blockbusters americanos. Com isso, realizadores como Ruggero Deodato (diretor deste Cannibal Holocaust), Lucio Fulci, Lamberto Bava, Enzo G. Castellari, Bruno Mattei e Dario Argento foram obrigados a dirigir ridículas produções e séries diretamente para a TV.

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Mas antes eles lançavam de dois a três filmes por ano, sempre calcados no que se fazia em solo americano. O sucesso de Dawn of the Dead, de George A. Romero, por exemplo, detonou o ciclo italiano de zumbis, com clássicos como o Zombie, de Lucio Fulci, e inúmeras tranqueiras para todos os gostos. Mad Max originou o ciclo pós-apocalíptico, gerando pérolas italianas como Guerreiros do Futuro, de Enzo G. Castellari. Já o sucesso de Rambo fez com que os italianos imitassem em filmes como a trilogia Thunder, de Fabrizio de Angelis.

Cannibal Holocaust pertence ao ciclo de canibais, iniciado em meio aos anos 70 e que se encerrou no começo dos anos 80.

Entre as pérolas desta época apareceram O Último Mundo Canibal, também de Ruggero Deodato, A Montanha dos Canibais, de Sergio Martino, e Cannibal Ferox, de Umberto Lenzi. Era fácil fazer produções do gênero porque elas tinham produção baratíssima e sempre davam lucro, mesmo que fosse para ver seres humanos sendo comidos por outros seres humanos. Estes filmes eram lançados numa época em que o canibalismo era um tema frequente na mídia graças ao famoso acidente aéreo nos Andes, que obrigou alguns sobreviventes a comerem carne humana para se salvar. E para fazer um filme de canibalismo era muito fácil: era só ficar um mês, até menos, com uma pequena equipe no meio da selva, recrutando nativos como figurantes e alguns atores sem vergonha de nudez para o papel de vítimas. Flagrantes da vida natural ou cenas retiradas de documentários, mostrando animais se devorando ou índios matando bichos diversos, eram coladas grosseiramente na montagem para garantir cenas de violência baratas e de efeito repulsivo garantido, já que eram reais.

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Consta, inclusive, que os cineastas malucos brigavam para ver quem fazia o filme de canibais mais chocante e violento de todos. A obra definitiva é, certamente, Cannibal Holocaust.

Diferente do que fez em O Último Mundo Canibal, o diretor Deodato tem aqui uma história impressionante e super criativa. Se você fizesse o espectador crer que tudo que ele está vendo é real, o filme não ficaria muito mais arrepiante? Pois foi justamente o que o roteirista Gianfranco Clerici fez: inventou a história de quatro jovens cineastas americanos que se embrenham na Floresta Amazônia para fazer um shockumentary, ou seja, um documentário feito para chocar, com cenas repulsivas. Para isso, pretendem filmar tribos canibais que supostamente ainda existem na Amazônia. Mas eles desaparecem. Um ano depois, uma segunda expedição entra no Inferno Verde e encontra restos do equipamento destruído e os rolos de filme intactos, que são levados de volta à civilização e mostram o derradeiro e violento destino dos quatro jovens.

A ideia é tão boa que vinte anos depois deu origem ao sucesso do cinema americano A Bruxa de Blair. Enquanto este é totalmente filmado pelos próprios jovens-vítimas, Cannibal Holocaust começa como um filme normal, e só no final são mostradas as imagens captadas pelos próprios personagens. Outra diferença brutal é que A Bruxa de Blair investe no medo do escuro, dos ruídos e barulhos noturnos. Já em Cannibal Holocaust não tem meio termo: é pauleira pura, com muito sangue, mutilações e as doses mais insuportáveis de violência, física e psicológica, contra seres humanos e animais, já mostradas pelo cinema.

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O filme é tão forte e seus efeitos tão realistas que, na época do seu lançamento, ele foi retirado de cartaz e o diretor Deodato teve que se explicar às autoridades. Eles acreditavam que Cannibal Holocaust era um snuff movie, ou seja, um filme onde os atores são mortos de verdade em frente às câmeras. As cenas de assassinato são tão reais, principalmente a impressionante sequência de empalamento (uma nativa é atravessada do ânus à boca por uma estaca de madeira), que qualquer pessoa facilmente impressionável acredita que as pessoas estão morrendo de verdade. Colabora, ainda, a impressionante atuação do elenco amador, que parece estar sofrendo e sentindo medo mesmo… Deodato foi acusado de drogar e assassinar os atores em frente às câmeras, tendo que provar que o elenco estava vivo e bem.

Na verdade, como A Bruxa de Blair, Cannibal Holocaust é uma farsa. Muito bem feita, por sinal, com cenas de mutilações que um médico-legista poderia até dizer que são verdadeiras. Mas os atores que interpretam os cineastas vítimas dos canibais realmente estão vivos e bem, mas não fizeram mais filmes depois deste. A exceção é Perry Pirkanen, que apareceu ainda em Cannibal Ferox. Os outros três simplesmente sumiram do mapa, o que certamente contribuiu para muita gente acreditar que eles tinham morrido mesmo no filme!

O diretor Deodato também teve que explicar as sequências reais de animais sendo mortos. Uma cena em particular é chocante, por mais insensível que o espectador seja: os jovens, com a ajuda do guia Felipe, tiram do rio uma enorme tartaruga. Logo, divertem-se barbarizando o bicho: primeiro cortam sua cabeça, depois arrebentam seu casco a machadadas e arrancam suas entranhas. Perto dali, a cabeça decepada observa a tudo, com os olhos ainda se mexendo. De tremer nas bases!

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A história começa explicando que os quatro jovens, Alan, Faye, Mark e Jack, sumiram na selva enquanto faziam o tal documentário, juntamente com seu guia Felipe. O professor Harold Monroe (Robert Kerman) resolve seguir os passos dos jovens, e logo no começo enfrenta os terríveis rituais dos canibais, inclusive uma nauseante cena de violência sexual onde uma mulher é penetrada com uma cunha de madeira e depois morta com pauladas na cabeça! Devido a um prisioneiro de uma tribo rival que escolta, Monroe consegue a amizade dos canibais, e descobre então o que aconteceu aos quatro cineastas: eles foram mortos e seus restos ornamentam um ídolo construído com as câmeras e rolos de filme.

Ele consegue voltar à civilização com os rolos de filme, que são revelados, mostrando a brutal realidade: na verdade, os cineastas abusaram dos nativos na busca de um documentário chocante, fazendo barbaridades como queimar uma aldeia inteira e ainda estuprar uma jovem nativa. Para piorar, o próprio quarteto matou o guia Felipe, ao cortar sua perna a facadas depois que ele foi picado por uma cobra! Assim, as vítimas de quem temos tanta pena no começo do filme se tornam os vilões da história!

Mas nem isso ajuda o espectador a torcer pelos canibais nas cenas finais, quando os índios atacam os jovens. As cenas são filmadas sempre com a câmera tremendo, como se estivessem sendo feitas de verdade por pessoas atacadas pelos índios. Eles são aprisionados e sofrem as mais bárbaras torturas – castração, decapitação, morte a pauladas – até que a câmera cai e se quebra (à la Bruxa de Blair), fazendo uma última tomada do rosto ensanguentado de Alan, o líder da expedição.

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Terminada a projeção das tétricas cenas, o professor Monroe pede que o filme seja queimado. Mas, como explicam os letreiros finais, os rolos de filme foram vendidos a uma pequena produtora cinematográfica, o que originou Cannibal Holocaust. Claro que como tudo é convincente, muita gente acreditou nesta excelente jogada de marketing.

O trailer deste filme é uma das coisas mais horripilantes que há para se ver, com frases como Os homens que você vê sendo comidos vivos são os mesmos que filmaram estas imagens, ou Não feche os olhos, veja! Eles são homens, homens como você, ou ainda É melhor morrer sobre o corpo morno de um amigo do que cair no chão frio! Brrrrr…

Do começo ao fim, Cannibal Holocaust é violentíssimo, e certamente não é um filme para todos os tipos de público. Mas é um clássico, um dos melhores filmes de horror já feitos, com uma música espetacular de Riz Ortolani, que passa toda a dramaticidade das situações.

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Curiosamente, Lamberto Bava, que depois faria a série Demons, foi diretor de segunda unidade no filme, trabalhando como assistente de Deodato; Ruggero, por sinal, ganhou o apelido de Monsieur Cannibal, que lhe acompanharia pelo resto da vida!

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17 Comentários

  1. FSociety

    Nossa lembro até hoje quando assisti esse filme ainda adolescente fiquei chocado com as cenas voltei a assistir de novo tem uns 7 anos e até hoje eu fico me perguntando porque os Italianos gostavam tanto de filmes sobre canibais putz rsrs

  2. Luiz Augusto

    Olá, lendo aqui vários comentários sobre o filme fiquei com muita vontade de velo, alguém sabe onde posso encontrar este filme?

    • RENATO

      FOI LANÇADO EM PELO SELO PLATINA FILMES A UNS 3 ANOS ATRAS,TENHO ELE NA MINHA COLEÇÃO MAS ATUALMENTE É DIFICÍLIMO DE ACHAR,POIS ESTA FORA DE CATÁLOGO,A SAÍDA É VC BAIXAR OU COMPRAR UM DVD ALTERNATIVO.

    • FSociety

      Baixei ele a uns 7 anos na internet mesmo, é só dar uma procurada, as cenas são muito fortes principalmente as torturas, castração e tal.

  3. Eu ate q queria ve mas falou q tem morte de animal desanimei total se n tivesse isso o via de boa

  4. Isabelle

    Já vi Um Filme Sérvio, Centopéia Humana 1 e 2, Eraser Head, Grotesco e Taxidermia. Parei no início e não sei se consigo ver o resto. Filme pesado! Fiquei horrorizada com a morte dos animais

  5. Juliana Brandini

    Olá Queridos!! Gostaria muito que vocês postassem novamente aquelas criticas do filme Cannibal Ferox (1985) que inclusive foi um bela critica que me lembro na época!
    Por favor!!!!!! Grata!

  6. Tulio Voohees

    Sem dúvidas é polêmico e bastante violento, realmente chocante principalmente no final ! Mas o que mais me incomoda nesse filme, são as desnecessárias mortes de animais, crueldade transformada em entretenimento é algo que nunca deveria ser chamado de arte. Infelizmente o filme peca e muito nesse ponto.

    • O Deodato depois se arrependeu de ter incluído os animais na história. Confesso que a cena da tartaruga é a que mais incomoda do filme todo.

  7. Luiz Henrique

    Assisti esse filme há uns 2 anos e digo que foi uma das coisas mais chatas que já vi na vida. Respeito quem gosta, mas eu acho uma porcaria.

  8. pablo

    Filme superestimado, assim como praticamente todos o filmes Italianos de terror dos anos 80.

  9. vanloid

    Simplesmente perfeito, está no meu top 5 pra sempre, certamente não é um filme pra qualquer um.

  10. Clássico absoluto e merecidamente ” Um dos Melhores Filmes de Horror de Todos os Tempos ” e intitulado ” O Filme mais Polêmico de Todos os Tempos ” , considerado na época em ser um snuff movie resultando problemas e explicações de Ruggero Deodato .
    Também concordo que na briga dos diretores pra ver quem fazia o filme de canibais mais chocante e violento de todos é o Cannibal Holocaust , mais o também violentíssimo ” Cannibal Ferox ” não fica muito atrás não , exibindo na frente de sua capa em ser ” Banido em 31 Países ” e por isso está até no Guiness !
    Cannibal Holocaust não é indicado para pessoas com estômago fraco e para os mais sensíveis !
    ” Cannibal Holocaust ” é um pérola que sempre será lembrada e apreciada principalmente por nós fãs de Horror , portanto ” orgulhosamente ” faz parte da minha coleção !

  11. Tiago

    Fui na maior expectativa pelas estórias de que andava lendo na internet sobre esse filme
    So que foi tudo em vão,esse e um dos filmes mais ridículos e inúteis que ja vi,um completo lixo que não sei o porquê e chamado de clássico,se for por causa desse sensacionalismo até da para entender pois como filme e um lixo completo.

    • Fael

      Concordo. Tbm criei uma puta expectativa e não achei gde coisa.
      Qquer filme thrash gore, se assemelha.

  12. Antonio

    Um fragoroso desserviço ao cinema de horror. Passo.

  13. MORCEGO

    Com toda certeza, CANNIBAL HOLOCAUST se enquadra entre os melhores filmes de terror de todos os tempos, e também merece o título de Filme Mais Polêmico da História.
    Tudo em CANNIBAL HOLOCAUST funciona para nos assustar: o clima perturbador, a trilha sonora arrepiante, o elenco afiado, e principalmente, os Canibais e as cenas violentas!
    A violência não pára na tela em nenhum minuto, deixando-nos com uma dúvida: Nós paramos de ver, ou vemos o filme até o fim?
    Dois exemplos são a cena da pobre tartaruga e o final, onde os jovens são torturados e mortos pelos Canibais – destaque para a terrível cena de estupro de Faye, com o índio montado sobre ela, penetrando sua vagina. É uma cena absolutamente chocante, que, misturada com a trilha sonora tensa, se torna ainda pior, e realista; chegamos a imaginar como Faye se sente ao ser estuprada por ele; e ele o faz com a maior violência, sem nenhuma descrição, em frente aos companheiros, que seguram as pernas da moça e permitem que ele a estupre!
    Outro momento assustador é o ataque final dos Canibais, que correm em direção a Alan, que ainda está com a câmera na mão. Os gritos dos índios são assustadores e sua aproximação de Alan, numa tomada em PDV nos faz pensar que estamos vivendo aquilo tudo.
    Vale lembrar que CANNIBAL HOLOCAUST faz parte do chamado Green Inferno, subgenero de terror italiano que surgiu nos anos 70 e durou até o inicio dos anos 80.
    O primeiro filme de Ruggero Deodato no gênero, LAST CANNIBAL WORLD, possui quase os mesmos toques de CANNIBAL, além de mostrar cenas de violência gráfica sem cortes.
    Mas, CANNIBAL HOLOCAUST é O Filme de Ruggero Deodato, sua Marca Registrada e mais polêmica, considerada um snuff-movie na época de seu lançamento, e por que não, hoje em dia também, apesar de o elenco ter comparecido em uma conferencia de horror recentemente…
    Um ano depois, o diretor Umberto Rezi lançou CANNIBAL FEROX (1981), que segue a mesma linha do filme de Deodato, inclusive, uma cena de tartaruga sendo morta, desta vez, pelos indios, sem trilha sonora aterradora. CANNIBAL FEROX, assim como CANNIBAL HOLOCAUST, não é filme para todos, pois as cenas de violência gráfica são igualmente fortes e sangrentas, com direito a um corpo sendo aberto pelos índios, que comem as viceras, tudo on-camera.
    Enfim, CANNIBAL HOLOCAUST é um verdadeiro Clássico do Terror e sem dúvida, o Filme Mais Polêmico da História!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    ALTAMENTE RECOMENDÁVEL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    10-10

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