Críticas

A Casa do Cemitério (1981)

É o filme ideal para quem quer ter uma primeira impressão sobre o tão falado cinema de horror europeu, ou sobre a filmografia de Lucio Fulci

A Casa do Cemitério (1981)

“A casa do dr. Freudstein… O cheiro de sangue… Quantos ainda virão?”

A Casa do Cemitério
Original:Quella villa accanto al cimitero
Ano:1981•País:Itália
Direção:Lucio Fulci
Roteiro:Lucio Fulci, Elisa Briganti, Giorgio Mariuzzo, Dardano Sacchetti, H.P. Lovecraft
Produção:Fabrizio De Angelis
Elenco:Catriona MacColl, Paolo Malco, Ania Pieroni, Giovanni Frezza, Silvia Collatina, Dagmar Lassander, Giovanni De Nava, Daniela Doria, Gianpaolo Saccarola, Carlo De Mejo, Kenneth A. Olsen, Elmer Johnsson

A câmera lentamente passeia pelos velhos túmulos de um cemitério, à noite, até enquadrar uma velha casa em estilo vitoriano. No seu interior, uma mocinha cobre os seios nus com uma camisa enquanto caminha pela sala escura, repleta de móveis velhos e teias de aranha, chamando pelo namorado: “Steve, Steve! Cadê você? Pare de brincar!“. Subitamente, como acontece com frequência nos “slasher movies” tipo Sexta-Feira 13, uma porta se fecha com o tradicional rangido, revelando o cadáver pendurado do namorado da moça, coberto de sangue e com uma tesoura cravada no coração.

A garota seminua não tem nem tempo de gritar: uma mão carcomida, segurando um enorme e brilhante facão, a apunhala na nuca, com tanta violência que a ponta da faca sai ensanguentada pela boca da moça!

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O anônimo assassino então puxa o cadáver da mocinha, deixando um rastro de sangue, até o porão, fechando a porta, novamente com um rangido. Começa, oficialmente, A Casa do Cemitério (House by the Cemetery/Quella Villa Accanto al Cimitero). E como se trata de uma produção do mestre do horror italiano Lucio Fulci, obviamente não é mais um “slasher movie“, nem mais um filme de terror cheio de clichês com os outros, mas sim uma obra única, feita por um hábil artesão.

Realizado em 1982, A Casa do Cemitério é considerado por muitos como o último grande filme de horror de Fulci. Historicamente, ele fecha um ciclo de excelentes filmes de horror feitos pelo cineasta para o produtor italiano Fabrizio De Angelis e sua Fulvia Films. Esta colaboração iniciou-se em Zombie, de 1979. Até então, Fulci era mais conhecido como diretor de faroestes e suspenses “giallo“, tendo pouca relação com o sobrenatural e a carnificina dos filmes de horror.

A partir de Zombie, Fulci começou a dirigir dois filmes de horror por ano, normalmente com produção assinada por De Angelis. Iniciou com o razoável Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura Nella Città dei Morti Viventi), de 1980, disponível em VHS no Brasil. Em 1981 fez dois: o clássico The Beyond e a adaptação de Edgar Allan Poe Black Cat (uma tentativa de abandonar o cinema “gore” e tentar um horror discreto, mais próximo do inglês; este filme é inédito no Brasil e não foi produzido por De Angelis). Enfim, em 1982, lançou o “giallo New York Ripper (inédito no Brasil) e este A Casa do Cemitério, que de certa forma encerra uma “quadrilogia” sobre mortos-vivos e cemitérios, iniciada em Zombie, passando por Pavor… e The Beyond.

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Os filmes de Fulci feitos a partir de A Casa do Cemitério ficariam bem longe do material apresentado até então (Manhattan Baby, Enigma de um Pesadelo, Murder Rock e outras são produções bem fraquinhas). Por isso, podemos analisar A Casa do Cemitério como uma espécie de despedida de Lucio Fulci dos seus grandes filmes de horror, partindo depois para produções mais convencionais e sem graça.

E o melhor é que o filme funciona perfeitamente: poucas vezes Fulci teve um roteiro tão coeso em suas mãos, e sua equipe habitual de colaboradores parece estar no auge da eficiência. O cinema italiano de horror é conhecido por seus excessivos enigmas, que normalmente deixam os roteiros sem pé nem cabeça. Pavor na Cidade dos Zumbis e The Beyond eram assim, e o espectador precisava esquecer a lógica e as explicações para se divertir. A Casa do Cemitério também tem seus enigmas e algumas passagens inexplicáveis, mas o roteiro de Dardano Sacchetti, Giorgio Mariuzzo e do próprio Fulci é tão bem bolado e amarrado, sem apelar para os exageros ou soluções fáceis, que o espectador até esquece os buracos no enredo.

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Encerrado o prólogo onde os dois jovens são mortos no interior da velha mansão vitoriana, e encerrados os créditos iniciais, o filme começa com uma cena excelente: uma misteriosa menina aparece na janela da mesma casa, e subitamente a imagem congela e passa de colorido a preto-e-branco. A câmera se afasta e descobrimos que aquele é o detalhe de um velho retrato do casarão, pendurado na parede do apartamento de um historiador nova-iorquino, o dr. Norman Boyle (Paolo Malco, em excelente atuação).

Bob (o menino chato Giovanni Frezza, que trabalhou com Fulci também em Manhattan Baby), filho pequeno de Boyle, está olhando o retrato enquanto sua mãe Lucy (Katherine MacColl, a mesma de Pavor na Cidade dos Zumbis e The Beyond) empacota coisas para a mudança. É quando Bob pergunta para a mãe: “Por que aquela garotinha fica dizendo para eu não ir para lá?“. Lucy vai examinar o retrato e a mesma janela onde a menina estava agora tem uma cortina cobrindo a imagem. Ela acredita que o garoto está brincando. Mas é só saírem da sala para a câmera voltar para um close no retrato, e novamente a menina aparece na janela, com a mão encostada no vidro, uma advertência para que Bob fique longe daquela casa!

Corta para o dr. Boyle conversando com o professor Müller (Lucio Fulci, em participação especial não-creditada). Ficamos sabendo que ambos integram a Sociedade Histórica de Nova York, e que um amigo e colega de Boyle, o dr. Eric Petersons, que fazia uma pesquisa histórica em New England (Boston), recentemente matou a amante, Sheila, e depois enforcou-se na biblioteca onde fazia suas pesquisas. Müller pede que Boyle viaje para Boston e fique por lá seis meses, para encerrar a pesquisa de Petersons, recebendo uma generosa soma em dinheiro como incentivo.

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Norman se muda com a família para New England, mas como Lucy demorou muito tempo para decidir-se a acompanhar o marido, a casa originalmente alugada por ele foi ocupada por outro inquilino. Assim, a corretora de imóveis Laura Gittleson (Dagmar Lassander) oferece ao casal, por uma bagatela, uma velha casa histórica em estilo vitoriano. Um pirulito para quem não adivinhar que é a mesma casa dos assassinatos no início do filme. Quando ela comenta sobre o imóvel, seu assistente, Harold, murmura, misteriosamente: “A casa de Freudstein!“. Mas, sem dar maiores esclarecimentos, Laura leva o casal até o casarão e entrega as chaves do lugar. Lucy fica fascinada com o fato de a casa ser idêntica à do retrato pendurado no apartamento do casal, mas Norman a tranquiliza dizendo que existem muitas casas parecidas naquela região. Mas é, sim, a mesma casa. Detalhe: é o mesmo casarão, também, onde morava o suicida dr. Petersons, e o mesmo cenário onde ele matou a amante!

Paralelamente, Bob encontra a garotinha da foto, aquela que o aconselhava a não ir até a casa. Seu nome é Mae, e ela é um daqueles tipos fantasmagóricos de filmes de horror: aparece e desaparece, fala por enigmas, só é vista pelo garotinho, mas não pelos adultos, e parece ser um prenúncio do horror. Mae adverte Bob: “Eu avisei que era para você não vir para cá!“. :”Eu falei para meus pais, mas eles não me escutaram. Você sabe como são os adultos!“, responde o garoto. Na mesma cena, Mae olha para o manequim de uma vitrine e, subitamente, a cabeça do boneco cai, jorrando sangue! Loucura? Alucinação? Não… Premonição!

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Enquanto o casal Boyle se estabelece no casarão, aparece a misteriosa Ann (Ania Pieroni), uma baby-sitter, aparentemente recomendada pela imobiliária. “Misteriosa“, porque Ann é idêntica à tal manequim decapitada vista por Mae na loja momentos antes. Mais uma vez demonstrando seu fetiche por olhos, Fulci escolheu a atriz Ania pelo fato de ela ter belos olhos azuis, que o diretor faz questão de mostrar em closes o tempo todo.

O casarão é sinistro. Barulhos estranhos amedrontam os novos moradores, o lugar é escuro e tétrico, há teias de aranha e a porta do porão foi barricada para que ninguém pudesse entrar. Remexendo nos arquivos do falecido Petersons, Norman encontra uma pasta antiga com o nome que tinha escutado anteriormente na imobiliária, “Freudstein“, mas a pasta está vazia.

Ele então vai à biblioteca da cidadezinha, onde o colega se matou, e descobre que a pesquisa histórica que Petersons vinha fazendo sobre New England mudou de foco nos últimos tempos: o novo alvo da investigação era o dr. Jacob Alan Freudstein, um cirurgião que viveu no século 19 e aparentemente fez experiências ilegais com seres humanos, sendo banido e proibido de exercer a profissão. A casa onde Freudstein vivia é a mesma onde a família Boyle atualmente está morando, e a mesma onde Petersons matou a amante. Em um velho documento, Norman descobre mais sobre a trama: “7 de junho de 1875 – O dr. Freudstein é suspenso pela Associação dos Médicos e proibido de praticar medicina para o resto da vida“.

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No casarão, Lucy e Bob fazem suas descobertas também. O garoto, brincando com Mae (menina que, volto a frisar, só ele vê), vai ao cemitério e descobre um túmulo que diz “Mary Freudstein“. Mas Mae faz uma colocação misteriosa: “Ela não está enterrada aí! É tudo mentira, eu sei!“. Já Lucy, limpando a casa, encontra uma sepultura debaixo de um tapete, no piso da construção, com os dizeres: “Jacob Alan Freudstein“.

Até então, A Casa do Cemitério se desenvolve com ênfase no suspense, no mistério, na investigação. Quando a porta bloqueada do porão é aberta por Norman, que resolve investigar o que tem lá embaixo, na volta da biblioteca, a sangreira e o “gore” têm início. Afinal, ainda estamos vendo um filme de Lucio Fulci.

O historiador desce ao escuro porão para investigar o que existe lá de tão terrível, mas é atacado por um morcego, que crava suas presas na mão de Norman. Ele não consegue arrancar o bicho de jeito nenhum, então pega uma faca e o apunhala repetidas vezes, em uma cena bem sangrenta – embora o morcego seja mal-feito pra caramba!

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Norman decide sair da casa com a família e chama a corretora Laura para lhes mostrar um outro imóvel. Infelizmente, a mulher vai à casa no momento em que a família não está e, sozinha, vira alvo fácil de um misterioso assassino, que se esgueira pelas sombras e a apunhala com um espeto. A cena é longa e violentíssima, culminando com uma espetada no pescoço e o close do buraco jorrando sangue, muito bem feito.

Ainda no aguardo de que Laura lhes mostre uma nova casa, sem saber que ela foi morta (o corpo desapareceu), a família Boyle permanece por mais um dia na casa. Mas Norman, ainda investigando a papelada do colega morto, encontra uma fita gravada por Petersons, com voz alucinada de quem perdeu o juízo, dizendo: “Faz dias e dias que parei de trabalhar nisso… Não como, não durmo… Não posso parar agora! Perdi toda a perspectiva crítica! Os sinais! O aviso da casa… A casa de Freudstein! Ela me chama como um imã do inferno! A casa de Freudstein! O cheiro de sangue… Quantos ainda virão?“.

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A próxima vítima do furioso psicopata que vive na casa de Freudstein é a babá Ann, que desce ao porão, alheia ao perigo, e a porta bate, se fechando. Uma misteriosa figura sai das sombras com uma faca brilhante. Ann bate violentamente na porta, tentando fazer com que Bob vá abri-la, mas é inútil: o assassino corta o pescoço da garota múltiplas vezes, em uma das mais realistas cenas de garganta sendo cortada da história do cinema! Sabe aqueles filmes tipo Sexta-Feira 13 onde o assassino passa a faca no pescoço da vítima e escorre um filetinho de sangue, que qualquer mané sabe que está saindo da própria faca falsa??? Pois é: aqui a maquiagem é tão bem feita que Fulci dá um close, mostrando como a faca está cortando a “carne“, afundando no “pescoço” da vítima, não uma, mas três vezes, deixando a garganta da moça literalmente aberta, até decapitá-la! Quem encontrar uma cena de degola melhor que essa em algum filme de horror, por favor me escreva! Até porque este é um dos momentos mais violentos de toda a obra de Lucio Fulci.

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A partir de então, o mistério da casa de Freudstein passa a ameaçar a família Boyle. Norman continua suas investigações e descobre que a solução para os misteriosos fenômenos pode estar na figura do próprio dr. Jacob Freudstein, cujo túmulo ele não consegue localizar. Será que o assassino que ataca na casa é o próprio Freudstein, um cirurgião do século 19, mantido vivo por algum processo misterioso ou força satânica? Ou será, ainda, que Norman enlouqueceu como o seu colega e está matando a todos, influenciado por alguma força diabólica presente naquela casa? A solução do mistério só virá no sangrento final, que envolve a família toda no escuro e tétrico porão da “casa do cemitério“, onde Fulci nos brinda com mais uma rodada de violência explícita, nojeiras variadas e muito suspense!

A Casa do Cemitério é um filme simplesmente perfeito, desde a criação do clima de mistério e horror até os efeitos “gore“. Considerando o restante da obra do diretor, nesta a contagem de cadáveres é relativamente baixa, pois o filme prioriza o suspense e a investigação. Mas vale a pena esperar: sempre que acontece alguma morte, ela é violentíssima, gráfica, sangrenta e hedionda, como poucas vezes o cinema de horror já mostrou (curiosamente, quase todas envolvem o pescoço das vítimas, que é cortado, furado, rasgado, mutilado…).

Talvez o filme funcione tão bem porque Fulci está cercado da sua equipe preferida em grande forma (afinal, eles vinham trabalhando com o diretor desde 1979…). Até mesmo no elenco, considerando que Katherine MacColl está em seu terceiro filme com direção de Fulci. A fotografia é de Sergio Salvati, colaborador habitual do diretor, e a edição ficou a cargo de Vincenzo Tomassi, que abre mão do estilo frenético dos filmes anteriores. A maquiagem, desnecessário dizer, é do “mestreGianetto de Rossi, mais inspirado do que nunca.

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Claro que como todo bom filme de horror italiano, algumas coisas ficam meio confusas no final, mesmo que a solução do mistério e a identidade do assassino sejam uma boa sacada do roteirista. Quem já viu o filme deve se perguntar o que diabos aconteceu com um dos personagens do filme, que de repente está em situação de perigo de morte e no momento seguinte tem um encontro insólito e surpreendente (outra grande surpresa do filme, citada no desenrolar da história, mas que talvez passe desapercebida do espectador afoito pelo “gore“). Há múltiplas explicações para este final aberto, considerando que o filme não se preocupa de explicar, e o melhor mesmo é que cada um pode criar a sua teoria – não, eu não vou contar o que acontece, pode continuar lendo até o fim!

Outro momento mal-explicado (e deixado de lado pelo roteiro) é quando Norman vai pela primeira vez à biblioteca e o atendente diz que lembra dele. Embora o historiador insista que está pisando naquela cidade e naquela biblioteca pela primeira vez, o rapaz da biblioteca diz: “Mas o senhor veio com sua filha várias vezes, junto com o dr. Petersons…“. Considerando que Boyle tem um filho, e não uma filha, qual seria a explicação para o fato??? Será que a tal menina era Mae, aquela amiga fantasmagórica de Bob??? E será que o historiador realmente esteve na cidade antes com Petersons??? Infelizmente, o roteiro não se preocupa em esclarecer este detalhe. O filme também tem seus furos. Por exemplo: por que a família Boyle nunca se preocupa em descer até o porão durante todo o filme para descobrir o que, afinal, existe por lá, fazendo isso somente no final??? E como ninguém sente o cheiro dos cadáveres apodrecidos que vem de lá??? Para encerrar: por que na gravação que fez antes de se suicidar, o dr. Petersons não falou a verdade sobre a casa e seus segredos, deixando bem claro para todos que ficassem longe de lá??? Mas nada que comprometa a diversão…

A Casa do Cemitério é o título adotado pela falecida distribuidora Reserva Especial ao relançar o filme em VHS no Brasil, em meados de 1995. Antes, no final dos anos 80, a também extinta distribuidora Dado Group havia lançado a obra com o título inadequado de A Casa dos Mortos-Vivos, que podia confundir o espectador, levando-o a acreditar que era um filme de zumbis, tipo Pavor na Cidade dos Zumbis (mas não é, apesar de alguns personagens voltarem do mundo dos mortos). Mesmo com o relançamento, o filme já virou peça rara (afinal, faz quase dez anos que voltou às locadoras), e trata-se de mais uma excelente obra do cinema europeu que está no aguardo de alguma distribuidora interessada em relançá-lo, agora em DVD (nos EUA existem quatro versões diferentes do filme, mas as mais caprichadas são a da EC e a da Anchor Bay). Além do quê, A Casa do Cemitério foi lançado no Brasil em full screen, com a imagem sendo cortada dos lados para “caber” na tela (nunca foi do feitio das distribuidoras nacionais lançar os filmes em “widescreen“), arrasando com a fotografia original do filme e comprometendo algumas cenas sangrentas.

Mesmo com muito mais acertos do que erros, A Casa do Cemitério é um filme que pode desagradar a alguns tipos de espectadores, como os fãs mais radicais de Fulci, que preferem suas obras mais frenéticas, pirotécnicas e exageradas (tipo Zombie e The Beyond). Em A Casa do Cemitério a história é contada lentamente, quase não há momentos de ação, perseguição ou correria. O foco é no suspense, e há uma cena fantástica onde Bob fica trancado no porão e o misterioso assassino que lá se esconde começa a subir lentamente as escadas para pegá-lo, enquanto o garoto grita para que seus pais abram a porta. O espectador “” a cena do ponto de vista do assassino (da câmera, em primeira pessoa), e a angústia cresce na medida que a “câmera” vai galgando os degraus e aproximando-se cada vez mais do menino…

O roteiro tem uma história criativa, mas não escapa de reunir elementos recorrentes a outros filmes. O modelo mais óbvio é O Iluminado, de Stanley Kubrick, graças à participação fantasmagórica da menina Mae, que aparentemente não existe de verdade, e tenta fazer com que Bob não vá para a casa – semelhante ao que fazia Tony, amigo imaginário do garotinho no filme de Kubrick. Fulci repete, também, uma cena angustiante de Pavor na Cidade dos Zumbis, em que Christopher George dava picaretadas na tampa do caixão onde Katherine MacColl estava trancada, e a ponta da ferramenta, atravessando a madeira, quase atingia a cabeça da moça. Aqui, a cena é repetida com um machado atravessando a porta do porão e quase atingindo, várias vezes, a cabeça de Bob.

A história também tem um ar “Edgar Allan Poe“, com casarões assombrados, cemitérios e uma criatura que vive no escuro porão da casa (já repararam em quantos filmes, de Evil Dead à série Amityville, a ameaça sobrenatural vem do porão????). Fulci não nega esta inspiração literária, tanto que encerra o filme com uma frase do escritor Henry James, que diz: “Ninguém nunca vai saber se as crianças são monstros ou se os monstros é que são crianças“.

A Casa do Cemitério é o filme ideal para quem quer ter uma primeira impressão sobre o tão falado cinema de horror europeu, ou mesmo sobre a filmografia de Lucio Fulci, pois é um filme mais convencional, com uma história redondinha, nada tão alucinado e amalucado quanto outros filmes do período e do mesmo diretor. É quase um filme sobre casas mal-assombradas, semelhante àqueles feitos na Inglaterra e nos Estados Unidos – apenas com o sangue e a violência quintuplicados!

E é ver cenas como a chocante revelação final no porão da casa de Freudstein para perceber como os filmes de hoje, definitivamente, têm muito que aprender com estes pequenos clássicos feitos na Itália no início dos anos 80…

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7 Comentários

  1. MORCEGO

    Graças a Deus, esse Clássico também está disponível em DVD no Brasil, pela mesma Versátil que lançou “Terror nas Trevas”. A CASA DO CEMITÉRIO está na caixa “Obras-Primas do Terror 4”, junto com outros clássicos do gênero.
    Sem dúvida, é um dos filmes mais assustadores de Lucio Fulci, e o mais sangrento também.
    Excelente.

  2. Isaac

    Eu acabo de ler sua critica e me deixou animado para ver o filme.
    Acabo de comprar, e me sinto confiante de que vou adorar p filme.
    ?

  3. MORCEGO

    Um dos filmes mais sangrentos e assustadores do Padrinho do Gore LUCIO FULCI.
    O sangue jorra na tela a todo momento, sem nos deixar respirar.
    A figura do assassino, sua fúria contra os personagens, a atuação brilhante de Katherine MacColl, a fotografia colorida e, principalmente, a Casa Vitoriana, fazem de A CASA DO CEMITÉRIO um verdadeiro Clássico, não só do Cinema de Terror Italiano, ou de Lucio Fulci, mas do Cinema de Terror!
    Um filme recomendadíssimo para qualquer amante de Filme de Terror.

    10/10

  4. Edu Manfredo

    Vi esse filme umas três vezes e, juro, até hoje não entendi o final. Até hoje sou frustrado por não saber quem é o assassino, o motivo de ele fazer o que faz e que lugar é aquele que o tal personagem em perigo de morte é “teleportado”. Quem souber, por favor, me mande por E-mail.

  5. FILMAÇO que na minha opinião é pra 5 caveiras , suspense e “gore” numa combinação perfeita em mais uma obra prima do Lucio Fulci que pra mim é sem dúvida o Mestre do Horror Italiano .
    ” A Casa do Cemitério ” com certeza faz parte da minha coleção em DVD numa das versões dos EUA !

  6. clecy

    Gostei e me diverti muito com o filme, mas ate hoje não entendi o final.

  7. Luiz Henrique

    Lembro de ter achado esse filme na internet há alguns anos atrás e foi um dos melhores do gênero que eu assisti.

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