A Mansão do Inferno (1980)

Mansão do Inferno (1980)

A Mansão do Inferno
Original:Inferno
Ano:1980•País:Itália
Direção:Dario Argento
Roteiro:Dario Argento
Produção:Claudio Argento
Elenco:Leigh McCloskey, Irene Miracle, Eleonora Giorgi, Daria Nicolodi, Sacha Pitoëff, Alida Valli, Veronica Lazar, Gabriele Lavia, Feodor Chaliapin Jr., Leopoldo Mastelloni, Ania Pieroni

As Três Mães…

Não sei que preço vou pagar por romper o que os alquimistas chamam de “Silentium”. A experiência dos nossos colegas nos adverte sobre não compartilhar nosso conhecimento aos leigos.

Eu, Varelli, um arquiteto residente em Londres, conheci as Três Mães, e construí-lhes três casas. Uma em Roma, uma em Nova York e a terceira em Friburgo, Alemanha. Só descobri quando já era demasiado tarde, que destes três edifícios, as Três Mães governariam o mundo, com dor, lágrimas e trevas. “Madre Suspiriorum”, a mãe dos suspiros, a mais velha, vive em Friburgo. “Madre Lacrimarum”, mãe das lágrimas, é a mais formosa das irmãs e governa Roma. “Madre Tenebrarum”, mãe das trevas, é a mais jovem e cruel. Controla Nova York. Eu construí as suas horríveis casas, depósitos de todos os seus imundos segredos. As chamadas Mães são na realidade cruéis madrastas, incapazes de criar vida. Irmãs, senhoras do horror da humanidade. Os homens caídos em desgraça chamam-nas com um único e aterrador nome. Assim como existem 3 musas, 3 graças, 3 destinos e 3 fúrias. A terra sobre a qual estão construídas as três casas eventualmente se tornará fatal e cheia de pragas, tanto que a área circundante se tornará imprestável.

Para entender a obra do cultuado diretor italiano Dario Argento, é preciso refletir sobre a própria essência do cinema. Em Mansão do Inferno, o diretor manipula excepcionalmente os elementos mais básicos e intrínsecos da chamada sétima arte: a cor, o som, a forma e o movimento, consagrando então o estilo que tornou-se característico a toda sua filmografia. O visual barroco, as cores berrantes e a trilha sonora opressiva transportam o protagonista (e o espectador) a um labirinto surreal, onde pouco importa a verossimilhança ou a credibilidade das decisões tomadas pelas personagens.

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Na trama, a jovem escritora Rose Elliot vive num antigo conjunto de apartamentos em Nova York. Estranhos acontecimentos começam a atormentá-la depois que lê um misterioso livro escrito por um arquiteto inglês chamado Varelli.

No livro, o autor afirma ter construído as residências de três terríveis bruxas. Coincidências levam Rose a desconfiar que um destes refúgios seja o edifício onde mora (lá se esconderia a Mãe das Trevas). Com medo, a jovem escreve ao irmão em Roma, que viaja até a América para ajudá-la. Argento assina também o roteiro de Mansão do Inferno, e assim como em Suspiria, evita o aprofundamento da trama, cedendo espaço para a violência estilizada, o delírio visual e o ambiente onírico.

Argento constrói o visual barroco em Mansão do Inferno abusando dos enquadramentos, dos cortes, e principalmente dos recursos de iluminação (bizarras luzes azuis e vermelhas) e dos cenários. Este exagero proposital, quando somado a arquitetura clássica de velhas bibliotecas e conservatórios musicais em Roma, onde decorre parte da ação, evoca um horror milenar, quase mítico. E mesmo quando o palco do pesadelo desenhado pelo diretor é Nova York, a cidade é exposta de forma distinta a aquela retratada nos filmes americanos. A moderna Nova York é redesenhada como uma cidade ancestral e enigmática. E este visual rebuscado e excessivo não tem objetivo puramente estético. Este enlace de escolhas técnicas constitui a ambientação maligna que remete ao grande poder e a provável idade das bruxas.

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Produzido por Salvatore e Cláudio Argento (pai e irmão de Dario), o longa faz parte da fase mais criativa e prolífica do diretor, que o define como uma verdadeira ópera de horror. Mansão do Inferno é o segundo capítulo da fantástica Trilogia das Mães, iniciada em 1977 com Suspiria e finalizada em 2007 com Mother of Tears.

Dario Argento é considerado o sucessor do cineasta Mario Bava na história do cinema de horror italiano. Bava foi o grande representante do gênero durante muitas décadas (são dele: Black Sabbath – As três Máscaras do Horror, Hércules no Centro da Terra e Black Sunday – A Máscara do Demônio), quando desenvolveu um estilo particular que influenciou diretores de todo o mundo e que foi incorporado e aperfeiçoado por Argento. A reunião entre os dois diretores acabou acontecendo em Mansão do Inferno por razões não muito agradáveis, já que Bava assumiu a direção de algumas sequências quando Argento adoeceu e não pode comparecer aos sets de filmagens. Entretanto, Argento gostou tanto do resultado que acabou aceitando a colaboração de Bava em toda a produção. A sequência em que o dono do antiquário é devorado por centenas de ratos durante o eclipse, uma das mais macabras do longa, foi dirigida por Bava, mas que por motivos não conhecidos (provavelmente algum desafeto entre distribuidoras), não teve seu nome creditado a produção. Infelizmente Bava faleceria no mesmo ano do lançamento internacional de Mansão do Inferno. Lamberto, seu filho, foi o assistente de direção de Argento no filme, começando uma parceria que se repetiria com sucesso no ótimo Demons (Dèmoni, 1985, Itália), agora com Argento como roteirista e Lamberto como diretor.

O elenco, um tanto irregular, conta com Leigh McCloskey, cuja filmografia se resume à dezena de participações em séries de TV, e Irene Miracle (de Mestre dos Brinquedos), que interpretam os irmãos Mark e Rosie Elliot. Entretanto, esta possível deficiência do elenco não compromete em nada o resultado final, já que as personagens criadas por Argento em Mansão do Inferno são quase todas descartáveis e coadjuvantes, destinadas a sucumbir da pior forma possível.

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Desta vez a trilha sonora ficou a cargo de Keith Emerson, deixando de lado a parceria constante entre Argento e a banda de rock progressiva Goblin, muito elogiada em Suspiria. Surpreendentemente, o resultado das melodias compostas por Emerson para Inferno é tão eficaz quanto a trilha de Cláudio Simonetti na primeira parte da Trilogia das Mães. São órgãos e corais numa harmonia demoníaca, que ratificam a definição de Argento para Mansão do Inferno como um filme de horror extremante musical. A propósito, trilhas sonoras incisivas sempre foram marca registrada nas obras de Dario Argento.

Enfim, Mansão do Inferno é um filme extremamente autoral. A explosão de criatividade e o estilo famigerado refletem o espírito de jovem diretor de Argento, como se o filme fosse sua estreia no cinema. Toda esta passionalidade é a principal característica do cinema argentiano. Dario Argento ama o que faz e faz muito bem o que ama.

A Família Argento

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O italiano Dario Argento é o primeiro filho do produtor Salvatore Argento com a fotógrafa brasileira Elda Luxardo (sim, há sangue brasileiro nas veias do mestre). Salvatore Argento, que faleceu em 1987, produziu diversos filmes, na maioria filmes dirigidos por Dario (Suspiria, Prelúdio para Matar e Mansão do Inferno, entre outros). O próprio Dario afirma que sua maior influência vem de seu pai, quem lhe deu apoio desde o início da carreira, quando produziu o seu primeiro trabalho como diretor, O Pássaro das Plumas de Cristal. Cláudio é irmão de Dario e foi produtor associado da maioria de seus filmes em conjunto com Salvatore. Cláudio Argento também é responsável pelo roteiro e produção da enigmática obra-prima do chileno Alejandro Jodorowsky, Santa Sangre (Santa Sangre, 1989, Itália/México). Dario Argento e a atriz italiana Daria Nicolodi mantiveram um longo relacionamento. Daria trabalhou em pequenos papéis em diversos filmes de Dario, como Inferno e Prelúdio para Matar. A bela Asia Argento é a filha mais famosa de Dario (com Daria) e é conhecida do grande público por participações em longas do calibre de Maria Antonieta e Terra dos Mortos. Já a carreira de sua meia-irmã (filha de Dario com a primeira esposa), a também atriz Fiori Argento, se resume aos filmes do papai e a um papel de maior destaque no clássico do terror italiano Demons.

Para conhecer melhor o Cinema Italiano de Horror e Fantasia

Como a fase áurea do cinema italiano, em especial no gênero fantástico, foi entre a década de 60 e 80, poucos destes filmes foram lançados em DVD no Brasil. Clássicos como A Casa do Cemitério (Quella Villa Accanto al Cimitero, 1982, do Fulci), O Anticristo (The Antichrist, 1974, de Alberto De Martino), Mansão da Morte (Bay of Blood, 1972, de Mario Bava), O Pássaro Sangrento (Aquarius, 1986, de Michele Soavi), Terror na Ópera (Opera, 1988, do Argento), Terror nas Trevas (The Beyond, 1982, do Fulci), foram distribuídos apenas em VHS e só podem ser encontrados (com muita sorte) nos sebos especializados.

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Em DVD foram lançados poucos títulos, entre eles estão: Demons (Demons, 1986, dirigido por Lamberto Bava, filho do mestre Mario Bava), Demons 2,  A Catedral (The Church, 1989, de Michele Soavi),  Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust, 1980, dirigido por Rugero Deodato), O Pássaro das Plumas de Cristal (L´Ucello Dalle Piume de Cristallo, 1970), Prelúdio para Matar (Profundo Rosso, 1975), Phenomena (Phenomena, 1985), Suspiria (Suspiria, 1977), Sleepless (Non ho sonno, 2001) , Jogador Misterioso (Il Cartaio, 2004), o episódio Jenifer (da série Mestres do Horror), Black Sabbath: As Três Máscaras do Terror (I Tre volti della paura, 1963), A Máscara do Demônio (La Maschera del demonio, 1960), Hércules no Centro da Terra (Ercole al Centro Della Terra, 1961) e Zombie – A Volta dos Mortos..

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João Pires Neto

João Pires Neto

Formado em Letras e Literatura, embora trabalhe com Tecnologia; Vegetariano não batizado; apaixonado por Livros, Música e Filmes e colaborador desde 2005. Contato: joaopiresneto@bocadoinferno.com.br

7 comentários em “A Mansão do Inferno (1980)

  • 25/07/2017 em 18:26
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    Suspiria é melhor, não adianta. Acho q Inferno se perdeu por não se fixar em personagem algum, todo mundo ali é descartável, e o personagem do irmão é muito ruim, q atuação horrenda hahahaha
    A primeira personagem é a mais interessante, Argento matou ela cedo demais, p mim esse filme poderia ter seguido a linha d psicose, ou seja, acompanharíamos somente a história dos irmão, a primeira metade com a irmã e a outra com o irmão indo atrás dela.
    O final em q ele adentra na parte da bruxa poderia ser maior, tudo acontece mto rápido, porra akela é a catarse, Argento poderia ter explorado mais o irmão espiando a rotina do velho com a bruxa, descobrindo como ela manipulava o velho, enfim, Inferno p mim é akele filme q vc enxerga potencial, mas perde pelo excesso d coadjuvantes e por um final abrupto demais. Agora só falta eu ver a conclusão da Trilogia!

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  • 23/01/2017 em 10:59
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    Meu filme favorito do Mestre Dario Argento. Ponto.

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  • 10/11/2014 em 23:48
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    Embora não tenha a unidade de Suspiria e prejudicado por coisas tipo a transformação na Morte no final ainda consegue ser um bom filme, da boa fase do cineasta.

    Pena que nos ultimos 20 anos ele desaprendeu a fazer Cinema. Se antes a falta de verossimilhança no roteiro era compensada por uma preocupação estética, hoje nem isso.

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  • 31/07/2014 em 19:43
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    Ótimo filme lembro de ter assistido quando moleque na época em que a Globo exibia filmes de qualidades 🙂

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  • 31/07/2014 em 15:55
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    Ainda não vi, mas sou louco pra ver e ter (risos). Um am(ini)igo meu disse que gravaria uma cópia pra mim – até hoje.

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  • 26/07/2014 em 00:50
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    Tão bom quanto ao Suspiria , pra mim também é nota 10 .
    Tenho a enorme felicidade de ter não só o ” Inferno ” como sou acostumado a chamá-lo que é a segunda parte da trilogia , mais sim a trilogia completa em DVD em minha coleção !!!

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