Prelúdio para Matar (1975)

Prelúdio para Matar (1975)

Prelúdio para Matar
Original:Profondo rosso
Ano:1975•País:Itália
Direção:Dario Argento
Roteiro:Dario Argento, Bernardino Zapponi
Produção:Salvatore Argento
Elenco:David Hemmings, Daria Nicolodi, Gabriele Lavia, Macha Méril, Eros Pagni, Giuliana Calandra, Piero Mazzinghi, Glauco Mauri, Clara Calamai, Aldo Bonamano, Liana Del Balzo, Vittorio Fanfoni, Dante Fioretti, Geraldine Hooper

“This young Italian guy is starting to worry me!” (Alfred Hitchcock, após ver Prelúdio para Matar)

Diz a lenda que quando o mestre inglês do suspense Alfred Hitchcock viu Profondo Rosso, declarou: “Esse jovem italiano está começando a me preocupar“. Não era uma brincadeira: Profondo Rosso, conhecido por vários nomes nos Estados Unidos (Deep Red e The Hatchet Murders entre eles) e por Prelúdio para Matar no Brasil (algum gênio deve ter pensado que “Vermelho Profundo” não fazia sentido), é uma aula de suspense e tensão – e de arte – que o mestre Hitchcock deve ter aplaudido de pé no final da sessão. Para o diretor e roteirista italiano Dario Argento, este é o seu filme mais famoso e popular; também foi uma volta por cima após um projeto equivocado e traumático em sua carreira, uma comédia histórica sobre a revolução chamada Le Cinque Giornate (também conhecida como “Os Cinco Dias em Milão“), que foi fracasso de público e crítica.

Argento sempre foi comparado com Hitchcock pela imprensa americana, inclusive sendo apelidado, por muito críticos, de “Hitchcock italiano“. Era considerado um herdeiro do talento e do virtuosismo do cineasta inglês antes de surgir o americano Brian DePalma com seus tributos assumidamente hitchcockianos. Embora a comparação com a obra do velho Alfred não seja nada pejorativa, a verdade é que o trabalho de Dario Argento tem vida própria. Ele deu um novo verniz (e até certo “glamour“) a um dos subgêneros italianos mais desgastados e populares, o “giallo“, tipo de filme de suspense onde maníacos com traumas de infância, normalmente vestindo chapéu, casacão e luvas de couro, exterminavam belas garotas com facas brilhantes e pontiagudas. O apelido (giallo significa “amarelo“, em italiano) evoca a cor da capa de antigos livros vagabundos com histórias de mistério e horror, lançados a preços populares nas bancas italianas.

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O cineasta teve uma bem-sucedida incursão pelos gialli na sua chamada “Trilogia dos Animais” (graças ao nome de animais nos títulos): começou com O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), continuou com O Gato das Nove Caudas (1971) e encerrou com Quatro Moscas no Veludo Cinza (também de 71). Concluída a trilogia, Argento achava que era hora de mudar de ares – principalmente devido ao fracasso comercial de Quatro Moscas…, que até hoje não foi devidamente relançado pela sua distribuidora, a Universal. Inicialmente, ele tentou levar o giallo à TV italiana, através de um programa produzido por ele para a emissora RAI, intitulado La Porta Sui Buio. Eram curtas histórias de mistério com menos de uma hora de duração, algumas dirigidas pelo próprio Argento, outras por cineastas italianos como Luigi Cozzi e Mario Foglietti. Encerrada esta experiência televisiva, Dario tentou mudar de gênero no cinema; mas a experiência fora da sua especialidade (suspense e violência) não foi boa. Filmado em 73, Le Cinque Giornate enfrentou todo tipo de problemas, começando com desistência de atores e terminando com críticas demolidoras à produção – o próprio Argento faz coro e considera este o seu pior trabalho.

Prelúdio para Matar surgiu em 1975 e foi inicialmente concebido como um quarto episódio com nome de animais no título, ampliando sua famosa trilogia para uma quadrilogia – o nome de trabalho era “O Tigre dos Dentes-de-Sabre“. Depois, Argento preferiu desvincular Prelúdio para Matar de seus primeiros trabalhos e fazer algo completamente diferente. Com a palavra, o próprio Dario (em frases retiradas da entrevista que circula no DVD lançado nos Estados Unidos pela Anchor Bay): “Quando eu fiz Quatro Moscas No Veludo Cinza, comecei a pensar que se fosse dirigir um thriller novamente, faria ele diferente. Por isso Profondo Rosso traz uma nova maneira de usar a câmera. Pode até parecer um filme bem mais sangrento e violento também, mas não é verdade. Ele foi feito como se fosse um pesadelo, por isso certas coisas são exageradas“.

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Em relação aos trabalhos anteriores, percebe-se claramente o progresso e a maturidade de Argento como cineasta e principalmente como contador de histórias. Embora eu seja um grande admirador da obra de Dario, Prelúdio para Matar será, provavelmente para sempre, meu filme preferido do diretor. Pode até soar meio clichê, mas Argento, neste seu retorno apaixonado ao gênero que o celebrizou, parece um pintor concebendo uma tela cheia de detalhes. Em muitos momentos, as cenas lembram uma pintura – onde o vermelho profundo (“Profondo Rosso“) se destaca em poças de sangue, cortinas, paredes… O próprio Argento considera Prelúdio para Matar sua obra mais famosa e mais bem-sucedida.

Ele nasceu de uma bem-sucedida parceria de Dario com o roteirista Bernardino Zapponi, um contumaz colaborador de outro cineasta italiano que nada tem a ver com horror e violência: Federico Fellini. A única incursão de Zapponi no gênero fantástico foi a adaptação de um conto de Edgar Allan Poe que Fellini dirigiu na clássica antologia Histórias Extraordinárias (ironicamente, o próprio Argento também adaptaria um conto de Poe, “O Gato Preto“, alguns anos depois, em Dois Olhos Satânicos). Foi graças ao trabalho de Zapponi naquela adaptação de Edgar Allan Poe que Dario convidou-o para escreverem Prelúdio para Matar em conjunto; inclusive Dario declara que, hoje, não sabe dizer quanto do roteiro é invenção dele e quanto foi criado por Zapponi, tal a integração entre as duas mentes criativas. Na entrevista que acompanha o DVD da Anchor Bay, Bernardino Zapponi tenta elucidar a dúvida: “Argento surgiu com a ideia de um congresso de parapsicologia, onde a médium sente a presença de um ser diabólico. A partir daí, começamos a escrever a história. Tem muitos elementos que remetem à infância, como a criança, o boneco, a cantiga infantil, a música do Goblin… E a ideia da morte no elevador surgiu aqui na minha casa. Eu lembro que Dario observava o velho elevador do prédio com muito interesse, fascinado pelos seus movimentos“.

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Prelúdio para Matar começa com uma cena importantíssima que praticamente entrecorta o começo e o final dos créditos iniciais: a câmera emoldura a sala de uma casa em um belíssimo widescreen, mostrando uma vitrola que toca um disco de cantigas infantis (a mórbida musiquinha será executada várias vezes durante todo o resto do filme), e um pinheiro de Natal decorado ao fundo. Através de sombras projetadas na parede, o espectador percebe que alguém está sendo esfaqueado fora da cena e dá um grito agonizante. A faca ensanguentada cai no chão, dentro do plano da câmera, e então alguém calçando sapatinhos de criança entra em cena e se aproxima da faca. Os créditos continuam. Sabe-se, desde o começo, que alguém matou e alguém morreu, e uma criança estava envolvida no crime. Mais uma vez, um giallo evoca um trauma de infância para justificar os motivos do assassino. Ou não? Somente muito mais tarde que a tal cena será novamente trazida à tona, explicando qual a relação daquele crime misterioso com os assassinatos que serão praticados ao longo da película.

Em seguida, somos rapidamente apresentados ao nosso “herói“, Marcus Daly (o inglês David Hemmings, falecido recentemente, e aqui numa de suas melhores interpretações). Marcus – ou Marc, como é chamado pelos amigos – é um compositor e pianista inglês que está dando aulas de jazz num conservatório musical em Roma; à noite, também se apresenta num clube noturno com o amigo e pupilo Carlo (Gabriele Lavia). Da aula de Marcus o filme corta imediatamente para o momento mais importante da trama, aquele onde Argento apresenta a complicada situação que dará origem ao pesadelo: a câmera subjetiva, que se movimenta como se fosse o vilão, entra num luxuoso saguão onde está acontecendo o Congresso Europeu de Parapsicologia. O espectador acompanha tudo como se fosse o vilão, atravessando as cortinas cor vermelho profundo (olha o “Profondo Rosso” aí de novo…) e caminhando pelo corredor até acomodar-se numa das fileiras da plateia.

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No palco, o professor Giordani (Glauco Mauri), ladeado pelo professor Barni (Piero Mazzinghi), apresenta Helga Ulman (Macha Méril), uma médium vinda da Lituânia para demonstrar seus fantásticos poderes psíquicos. Quando Helga está para iniciar sua apresentação, tem convulsões e entra em choque. Ela “sente” uma presença maléfica na plateia – não por coincidência, é o vilão que vimos entrar, do ponto de vista da câmera, momentos antes. Diante dos olhares confusos dos espectadores, e dos próprios Giordani e Barni, Helga começa a recitar frases desconexas, com os olhos vidrados na multidão. “Entrei em contato com uma mente perversa! Você matou, e vai matar novamente!“, balbucia a médium, em seguida gritando: “A canção infantil e a casa… E o sangue, todo aquele sangue! Precisamos esconder tudo na casa para que ninguém saiba o que aconteceu… Para sempre!“. No final do Congresso, Giordani e Helga conversam no auditório vazio sobre a visão que ela teve. “Eu senti seus pensamentos cruéis e ao mesmo tempo infantis“, diz a médium, que garante ter condições de identificar o criminoso. Ela promete deixar uma explicação por escrito para Giordani no dia seguinte. Mas, para seu azar, alguém (novamente a câmera subjetiva de Argento) observa – e escuta – a conversa, escondido atrás de um pilar.

Então, num dos mais belos momentos do filme, a câmera passeia, num longo take sem cortes e em superclose, sobre uma mesa repleta de objetos infantis, como uma boneca com alfinetes espetados e bolinhas-de-gude, até chegar a facas afiadas e brilhantes. Um novo superclose apresenta o misterioso personagem – cuja identidade, óbvio, só será revelada no final -, pintando os olhos. O assassino sabe que será obrigado a agir, preservando seu segredo com a morte da médium que pode identificá-lo. A pobre Helga está em seu estiloso apartamento, repleto de pinturas grotescas de arte moderna (representando carrancas e bizarrias diversas), quando escuta uma misteriosa cantiga infantil ecoando pelos corredores – a mesma cantiga do início.

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Enquanto isso, alheios à conspiração que em breve irá enredá-los, Marcus e Carlo bebem numa rua deserta. A alegria da dupla de amigos é entrecortada por um grito arrepiante – quase tão horrível quanto aquele da introdução do filme. É Helga, que neste momento está sendo atacada pelo assassino em seu apartamento, a golpes de cutelo filmados com detalhes (novamente, o “Profondo Rosso” se mostra ao espectador, através do sangue num vermelho claro, vivo). Carlo fica para trás, mas Marcus consegue correr até o prédio onde o crime está acontecendo e chega bem a tempo de ver o derradeiro golpe do assassino: numa única facada, ele faz com que o rosto da vítima atravesse o vidro da janela, rasgando sua garganta nos cacos. Sem nem pensar no perigo, Marcus corre até o apartamento, mas Helga, claro, já está morta.

A polícia chega, o músico presta seu depoimento e entra em cena a repórter bisbilhoteira Gianna Brezzi (Daria Nicolodi, em seu primeiro trabalho com Argento, seu futuro companheiro). Tentando conseguir informações mais detalhadas para a sua reportagem, Gianna aproxima-se de Marcus, que, àquela altura, acredita ter visto um detalhe muito importante na cena do crime, mas não consegue lembrar o que era – lembra de O Pássaro das Plumas de Cristal? O detalhe, segundo o músico, estaria relacionado a um dos quadros de arte moderna pendurados no corredor entre a porta da frente do apartamento da médium e o local onde ela foi encontrada morta. Será que a pintura revelava algum detalhe importante e foi roubada pelo assassino?

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Após o velório de Helga, Gianna publica uma reportagem de capa estampando a foto de Marcus como testemunha ocular do bárbaro crime. “Eu queria te agradecer por isso“, ironiza Marcus para a jornalista. “É sempre bom atrair a atenção de assassinos“. Obviamente, a reportagem realmente atrai as atenções do psicopata, que, temendo novamente ser identificado, resolve eliminar o músico. Naquela noite, Marcus está compondo em seu apartamento (e novamente a câmera de Argento brinca com os supercloses da partitura e dos dedos do músico dançando sobre o piano) quando escuta a mórbida canção infantil que o vilão adora tocar num pequeno gravador toda vez que vai atacar. Pensando rápido, Marcus tranca a porta e se isola na sala; o assassino, que estava prestes a entrar, apenas fala, através da porta: “Você não vai conseguir escapar… Eu vou matá-lo mais cedo ou mais tarde“.

Sabendo que é o próximo alvo, Marcus não vê outra alternativa: com a ajuda de Gianna, precisa investigar o assassinato de Helga e tentar descobrir qual é o detalhe que ele viu no apartamento da vítima na noite do crime, para poder identificar o psicopata e entregá-lo à polícia. Ele vai conversar com Giordani e Brezzi, os organizadores do Congresso de Parapsicologia, e descobre que as últimas palavras da médium no evento eram sobre uma casa e uma canção infantil. Brezzi se recorda, então, de um episódio folclórico que leu num livro sobre lendas urbanas: uma mansão no interior seria assombrada pelo fantasma de uma criança. Marcus acredita que o criminoso possa estar de alguma forma relacionado com a tal mansão assombrada. Por isso, vai à biblioteca e encontra um volume do livro “Fantasmas de Hoje e Lendas da Era Moderna“, que traz uma foto da casa. Sem que o músico saiba, entretanto, o assassino observa tudo de longe.

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A escritora do tal livro é Amanda Righetti (Giuliana Calandra), que mora numa casa no interior. Ela se torna a próxima vítima na lista do misterioso matador: quando encontra uma boneca enforcada na sala da casa, Amanda percebe que está em perigo e tenta escapar, mas é agarrada pelo criminoso, que a afoga numa banheira de água fervente – inclusive deixando o rosto da vítima repleto de queimaduras. Porém, quando o assassino sai da casa, Amanda “acorda“, reúne suas últimas forças e escreve uma mensagem no azulejo embaçado da banheira – mensagem que logo é apagada quando a janela abre e um pé de vento se encarrega de eliminar a umidade do banheiro… Quando Marcus chega à casa, encontra Amanda morta. Com medo de ser acusado pelos crimes, ele foge avisando apenas o professor Giordani. E é o próprio Giordani que descobrirá a mensagem deixada por Amanda, tornando-se, obviamente, a futura vítima na lista do assassino.

Paralelamente, Marcus consegue identificar a tal casa assombrada através da foto publicada no livro da falecida Amanda – acontece que, para a sua sorte, as plantas cultivadas no jardim da casa são raras e crescem apenas em uma determinada região da cidade. A tétrica mansão está abandonada desde que seu último morador, um escritor, morreu “acidentalmente” ao cair de uma janela. E é no interior do casarão que Marcus descobrirá uma importante pista que levará diretamente à solução do mistério: um colorido desenho infantil escondido atrás do reboco de uma das paredes. O que o “detetive” não sabe é que o assassino fará de tudo para manter o seu segredo bem escondido…

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Prelúdio para Matar é uma obra fantástica em todos os sentidos: parece melhor a cada vez que se assiste, e novos detalhes, antes imperceptíveis, vêm à tona a cada revisão. A intrincada trama está repleta de detalhes aparentemente sem relação (mas que, milagrosamente, se relacionam). O excesso de pistas falsas e de suspeitos também é uma prova do talento de Argento e Zapponi, que não raras vezes mesclam os clichês do “giallo” (assassino traumatizado com luvas de couro, crimes violentos) com toques de horror (as premonições da médium, a mansão “assombrada“, um esqueleto escondido). O roteiro da dupla ainda brinca de confundir o espectador, concebendo uma trama onde todos, sem exceção, são suspeitos, talvez excetuando-se apenas o próprio Marcus (porque foi ele quem viu o crime com seus próprios olhos). Argento e Zapponi fazem com que desconfiemos tanto da jornalista Gianna (que parece estar sempre presente nos momentos mais suspeitos) quanto de uma “inocente” menininha, filha do corretor de imóveis que leva Marcus à “casa assombrada“, e que adora torturar animais e desenhar cenas de assassinatos. Chega um momento em que você até desiste de tentar descobrir quem é o criminoso, o que apenas realça a surpresa da revelação final – acredite, é praticamente impossível acertar a identidade do dito cujo!

Na verdade, Prelúdio para Matar lembra uma versão “ampliada e melhorada” do primeiro longa do diretor, O Pássaro das Plumas de Cristal, feito cinco anos antes. Em ambos, um “herói” ligado ao mundo das artes (escritor em O Pássaro…, músico em Prelúdio…) testemunham por acaso um assassinato através de uma vidraça (o vidro de uma vitrine em O Pássaro…, o vidro da janela em Prelúdio…), e em ambos a testemunha ocular visualiza, na cena do crime, um detalhe importantíssimo para a resolução da trama. Descobrir qual é este detalhe se tornará sua obsessão ao longo do filme, e a charada só será completamente desvendada no final (quando então os dois filmes reapresentam as cenas iniciais em flashback para o espectador ver que A SOLUÇÃO ESTAVA LÁ O TEMPO TODO!!!). Parece uma brincadeira com a própria magia do cinema, já que o próprio espectador, a exemplo dos protagonistas de ambos os filmes, “viu” o tal detalhe, mas não assimilou como algo importante. E Argento ainda homenageia Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni, ao roubar o astro David Hemmings.

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Todo mundo já sabe que foi graças a Prelúdio para Matar que o tímido e introvertido cineasta conheceu sua companheira Daria Nicolodi, com quem teve um caso de amor e ódio que resultou no nascimento da gatíssima Asia Argento. Apesar de algumas fontes indicarem a atriz como atual “ex-esposa” do cineasta, na verdade eles nunca se casaram. A indicação de Daria veio do co-roteirista Zapponi. “Lembro de ter contribuído para a descoberta de Daria Nicolodi. Argento posteriormente me agradeceu, dizendo que graças à minha indicação ele conseguiu não só a protagonista do filme, mas também uma namorada“, conta ele, no featurette incluído no DVD americano da Anchor Bay. Com Prelúdio para Matar, a atriz iniciou uma longa parceria com Argento, aparecendo em diversos outros trabalhos do companheiro: Mansão do Inferno, Tenebre, Phenomena e Terror na Ópera (este último quando já estavam praticamente separados). A relação tumultuada na vida real encontrava uma válvula de escape nos filmes, com Dario inventando formas cada vez mais horríveis para Daria morrer em cena (basta ver o destino tenebroso da moça em Phenomena!). Hoje, os dois são apenas bons amigos.

Além dos estilosos ângulos de câmera e dos cenários em vermelho forte, há um outro aspecto que se destaca fortemente em Prelúdio para Matar: a música. Foi a primeira vez que Dario adotou um estilo menos minimalista e mais exagerado de música, quase uma “ópera-rock“. O mérito é de um jovem grupo de músicos conhecidos apenas como “Goblins” (mais tarde, a banda adotou o nome no singular, Goblin). Argento os conheceu num conservatório de música, onde eles brincavam mesclando clássico e contemporâneo. E o cineasta estava justamente em busca de algo completamente diferente de seus filmes anteriores. Em O Pássaro das Plumas de Cristal, O Gato das Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza ele usara trilha do genial Ennio Morricone, mas sempre sem ficar completamente satisfeito com o resultado (!!!); no caso específico de Quatro Moscas…, seu sonho era incluir composições originais do Deep Purple, fundindo horror e rock, mas não conseguiu vender a ideia. Argento sabia muito bem o tipo de música que queria em Prelúdio para Matar e chegou a voar para Londres, onde tentou contratar o Pink Floyd para fazer a trilha (já pensou?). Com a recusa da banda, deixou o pepino nas mãos de Giorgio Gaslini, um talentoso compositor italiano.

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Passemos a palavra ao próprio Argento (extraído do featurette incluído no DVD da Anchor Bay): “Giorgio me trouxe algumas músicas, mas sinceramente não achava que aquilo era a coisa certa para o filme. Eu queria que tivesse algo completamente diferente, e Giorgio não conseguiu capturar o espírito certo. Então eu decidi procurar por outro compositor e encontrei estes jovens músicos no conservatório. Eles me deixaram ouvir uma peça que tinham composto, achei que funcionava e dei-lhes uma chance. E todas as noites, às nove horas, eles vinham até minha casa mostrar o que haviam gravado. Penso inclusive que a trilha sonora que o Goblin fez para Profondo Rosso e depois Suspiria influenciou muitos outros filmes“. Verdade seja dita: a música que os Goblins compuseram para Prelúdio para Matar alterna momentos singulares e assustadores com outros exageradamente ridículos. O tema de suspense (muito parecido com a música que John Carpenter posteriormente compôs para Halloween) e a tenebrosa cantiga infantil tocada pelo assassino são imortais e inesquecíveis; mas outras composições, principalmente o distorcido tema de sintetizador que toca quando Marcus está escalando a velha mansão assombrada, chegam a doer nos ouvidos.

Como aconteceria com outros trabalhos posteriores de Dario, Prelúdio para Matar chegou aos Estados Unidos e sofreu diversos cortes. A versão original italiana tem 126 minutos de duração. Nos EUA, o distribuidor cortou 26 minutos, eliminando os momentos mais violentos, as cenas de humor, quase todas as cenas “românticas” entre Marcus e Gianna e parte da trama paralela envolvendo a investigação na casa assombrada. Esta versão, que ficou com 100 minutos, acabou rebatizada com o título sensacionalista The Hatchet Murders (“Os Assassinatos com Cutelo“). Somente anos depois a versão sem cortes, mais longa, chegaria aos EUA, sendo então intitulada Deep Red (o equivalente em inglês para Profondo Rosso), e com as cenas cortadas reinseridas na montagem, porém mantendo o áudio original em italiano (já que estes fragmentos não haviam sido dublados para o inglês).

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Quando o filme saiu em VHS no Brasil, pelo antigo selo Videocast/Poletel, foi lançada a versão cortada, mas dublada em italiano. Recentemente, o selo Works relançou Prelúdio para Matar em DVD, por um preço popular, e na versão sem cortes. Mas cometeu o bizarro erro de não legendar as cenas faladas em italiano, apenas aquelas com diálogos em inglês!!! O resultado são pelo menos 22 minutos com os personagens subitamente falando em italiano (e não dublados em inglês, como no restante) e sem legendas em português, o que acabou dando um nó na cabeça de quem nunca tinha visto o filme e não compreendia o idioma original. Não bastasse esse completo amadorismo, a legendagem ainda entrega o sexo do assassino quando traduz de maneira bisonha um diálogo logo nos primeiros minutos, entre um homem que entra no banheiro e o vilão que lá está!!!

Graças a esta brincadeira de cortes e dublagens, existem no mercado mundial, atualmente, diversas edições de Profondo Rosso. A mais conhecida é a “director’s cut” lançada pela Anchor Bay (a mesma trazida ao Brasil pela Works). Mas a mais respeitada pelos admiradores da obra é a versão lançada na Europa pela Platinum, que tem as duas versões diferentes: a “director’s cut” é a mais longa, com áudio em italiano e legendas em inglês; já a versão para exportação é aquela com cortes lançada nos EUA e dublada em inglês, mas mantendo as cenas de violência intactas (foram suprimidas apenas as cenas românticas entre os protagonistas. Há alguns anos, também foi lançada na Europa uma edição limitada em apenas 3.000 cópias, pelo selo Dragon, com 3 discos (!!!): o primeiro trazia a director’s cut de Profondo Rosso, com áudio em italiano, inglês e alemão; o segundo trazia uma entrevista com Argento e o documentário “World of Horror“; já o terceiro disco era um CD com as 28 faixas compostas pela banda Goblin para a trilha sonora da obra. Coisa de colecionador mesmo!

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Prelúdio para Matar é meu filme preferido de toda a obra de Dario Argento. Mas como o italiano esquisito não é Deus – ao contrário do que seus fãs mais fanáticos gostam de pensar -, gostaria de destacar alguns defeitos visíveis neste clássico incontestável. O principal é o relacionamento entre Marcus e Gianna, que nunca convence. Até acho que as cenas cortadas na versão americana, que mostravam os dois se encontrando e falando bobagem (um alívio cômico para a tensão natural da trama), realmente não fazem falta nenhuma. Dario ainda estica algumas cenas além do limite do suportável: é o caso da investigação noturna que o herói faz na velha mansão assombrada, que se arrasta por um tempo muito superior ao que deveria. Na tentativa de criar “clima“, Argento coloca vários takes de David Hemmings perambulando pelo casarão escuro, subindo escadas, descendo escadas, escutando barulhos, indo investigar, e até levando um pedaço de vidro na cabeça (que se desgruda de uma das janelas do andar superior). A cena toda poderia ser bem abreviada, até porque a única coisa de útil que Marcus descobre no casarão é o desenho escondido atrás do reboco – e, posteriormente, uma sala secreta, mas não vamos falar muito sobre isso para não estragar a surpresa de quem ainda não viu o filme. Em comparação com a demorada andança pelo casarão, a cena final, do confronto entre o músico e o assassino, é muito rápida e apressada.

O roteiro ainda tem dois outros problemas. Embora a aparição de um sinistro boneco vestido de criança, no escritório de Giordani, seja eficiente para pegar o espectador de surpresa e dar-lhe um susto daqueles, a cena simplesmente não tem lógica alguma. Afinal, de onde é que saiu aquele boneco? Como é que o assassino tem meios e condições financeiras para obter um robô (!!!) somente com o objetivo de dar um susto numa de suas futuras vítimas – e por que ele não usou o tal boneco nos outros crimes, se a intenção era apavorar a vítima? Outro furo que até hoje me tira o sono é o fato de Amanda Righetti, antes de morrer, deixar um recado escrito nos azulejos embaçados do vapor da água quente. “Estat“, diz a mensagem, traduzida para “It was” nas legendas em inglês (e não traduzida no DVD nacional). Quando Giordani encontra a mensagem, ele identifica na mesma hora o assassino. Infelizmente, tal palavra jamais faz qualquer sentido para o espectador, nem o roteiro se preocupa em explicar seu significado e sua razão de existir (um grande buraco num roteiro bastante eficiente). Se alguém descobriu a razão do “Estat“/”It was“, por favor me informe.

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Porém, uma coisa é inegável: a solução para o enigma que atormentava Marcus ao longo da trama é simplesmente genial. Principalmente porque aquele “detalhe” realmente estava lá, e é só voltar o filme para a cena do assassinato de Helga e passar quadro a quadro para perceber que poderíamos, assim como o herói, ter desvendado o mistério muito tempo antes, bastava prestar mais atenção aos pequenos detalhes. A resolução da trama inclusive tem semelhanças com o livro “A Maldição do Espelho“, de Agatha Christie, lançado em 1962. Talvez não tenha sido uma mera coincidência: após o fracasso de Le Cinque Giornate, antes de envolver-se com Prelúdio para Matar, Dario foi procurado pelo produtor Dino De Laurentiis, que praticamente obrigou-o a ler 27 livros de Agatha Christie (entre eles, “A Maldição do Espelho“) para que pudesse escolher um e fazer sua própria versão cinematográfica. Embora tivesse lido os livros, Argento não se sentia à vontade para filmar um texto que não era dele mesmo. Mas a inspiração para Prelúdio para Matar, pelo visto, ele manteve.

Outro grande trunfo são as exageradas cenas de violência. Argento e Zapponi queriam momentos que mexessem com os nervos do público. Eles achavam, por exemplo, que poucas pessoas no mundo conhecem a dor de se levar um tiro ou uma facada, mas todo mundo sabia o quanto doía enfiar a mão na água quente ou bater o joelho na quina de um móvel. É por isso que as cenas de morte em Prelúdio para Matar envolvem elementos tão simples e ao mesmo tempo violentos como um pescoço cortado com cacos de vidro (quem nunca se cortou com vidro?), um pobre coitado tendo a boca batida repetidas vezes contra a pontuda quina de uma cômoda (quem nunca deu uma topada com o dedinho do pé?) e até uma antológica cena de morte no elevador, daquelas que é ver pra crer – e tome criatividade para pensar em algo tão genuinamente mórbido!!! Os efeitos especiais, bastante eficientes numa época em que não se falava no diabo do computador, são assinados por Carlo Rambaldi, o sujeito que fez os efeitos especiais de ET – O Extraterrestre, Alien e do King Kong de 1976, e que há um tempão está desaparecido, sem assinar novos trabalhos…

Ao longo dos anos, Prelúdio para Matar passou à história como um dos grandes clássicos na respeita filmografia de Dario Argento. O cineasta americano John Carpenter é um dos fãs apaixonados deste giallo originalíssimo, tanto que a música-tema de seu clássico Halloween é bastante parecida com a trilha principal do filme de Argento; além do mais, em seu episódio “Cigarette Burns” da série Masters of Horror (lançado em DVD no Brasil como Pesadelo Mortal), Carpenter colocou na trama um velho cinema que exibia Profondo Rosso. Pode-se perceber influências até em trabalhos da nova geração: o fato do assassino de Argento usar um robô em forma de criança não lembra os autômatos utilizados por um famoso assassino recente, o Jigsaw da série Jogos Mortais? Já as mortes filmadas por Argento foram infinitamente “homenageadas” em outras produções, de Halloween 2 (rosto mergulhado na banheira com água fervente) ao obscuro filme classe B Kolobos (cabeça batida na quina de um armário). Verdade seja dita: o que é bom, é para homenagear/copiar mesmo!

Para concluir, vou pegar emprestadas as palavras do próprio Dario Argento no livro “Profondo Argento“, sua biografia: “Eu queria que Profondo Rosso incorporasse novas sensações, novas emoções e que diminuísse as fronteiras entre thriller e horror“. Amém, Dario. Quem ainda não viu Prelúdio para Matar simplesmente não sabe o que está perdendo…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

12 comentários em “Prelúdio para Matar (1975)

  • 09/04/2018 em 18:00
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    Olha, vou falar por mim, encontrei esse filme, num aglomerado de dvds numa banca da Paulista, o filme estava cinco conto, eu olhei pro filme, li a sinopse e não tinha me chamado a atenção, mas ai não tava afim de sair, queria ficar em casa, comprei o filme e assisti e meu, que filme é esse? Se loko, rs, Filme foda, falo por mim e até arrisco, esse filme é o melhor suspense que eu já assisti, sério, nunca tinha visto ao tão único.

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  • 25/03/2018 em 14:25
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    Maravilhoso. Obra-prima de Dario Argento.
    Com um clima de suspense, combinando elementos de humor, romance e, principalmente, horror, Dario Argento cria uma verdadeira obra de arte, com seus maravilhoso truques de fotografia e ângulos e movimentos de câmera surreais, quase impossíveis de serem imitados.
    O medo e a tensão estão presentes em todos os momentos.
    Uma aula de como fazer um Giallo de verdade.
    Maravilhoso. Divertido. Violento. Colorido. Um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.

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  • 12/02/2018 em 14:21
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    O “ESTAT” já li algumas teorias, a mais interessante diz que provavelmente a mulher estava escrevendo “è stato”, que em inglês é traduzido como HAS BEEN – e não “è stata”, que é o IT WAS. Seria uma dica da identidade do assassino, um “has been” é alguém que teve relevância no passado mas hoje não tem mais.

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  • 30/11/2017 em 14:45
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    Adoro Dario Argento, é meu filme favorito dele também. E Goblin, é uma das bandas de rock progressivo mais queridas, inclusive o Claudio Simonetti, tecladista, nasceu em São Paulo. Vira e mexe to ouvindo a trilha de Profondo Rosso!

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  • 14/01/2017 em 17:45
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    Muito interessante. Boa dica de filme.

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  • Pingback:Deep Red (1975) – Cine Bigode

  • 27/07/2014 em 20:59
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    Muito bom este filme, as cenas da câmera acompanhando o vilão são muito legais, muito bom mesmo.

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  • 20/07/2014 em 16:19
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    Perfeito! Cria uma ótima tensão acompanhada da trilha sonora. Um dos melhores que já assisti

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  • 15/07/2014 em 01:50
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    Filmaço e a trilha sonora é show…

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  • 14/07/2014 em 22:05
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    Prelúdio para Matar é FODA assim como todos os seus filmes são , sou um grande fã de Dario Argento , que tenho em minha coleção quase todos os seus filmes , mais pra mim não é o melhor de todos na minha preferência , mais concordo com ele que é o filme mais famoso e mais bem sucedido .
    Falar o que desse Gênio do Horror que é inspiração pra muita gente inclusive do John Carpenter e de vários outros !
    Altamente Recomendável !
    ” Prelúdio para Matar ” é claro que faz parte da minha coleção em DVD lançado aqui no Brasil !

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