Críticas

Schock (1977)

O último filme de Mario Bava é um exemplo de tudo o que deu certo no cinema contemporâneo de terror italiano!

Schock (1977)

Schock
Original:Schock
Ano:1977•País:Itália
Direção:Mario Bava
Roteiro:Francesco Barbieri, Lamberto Bava, Paolo Brigenti, Dardano Sacchetti
Produção:Turi Vasile
Elenco:Daria Nicolodi, John Steiner, David Colin Jr., Ivan Rassimov, Lamberto Bava, Paul Costello, Nicola Salerno

A visão artística de Mario Bava sempre encheu os olhos de quem acompanhou sua carreira, mas em 1977 ele já não estava mais sozinho e o cinema italiano estava mais forte do que jamais esteve… Dario Argento já estava no augem em 1975 e seu Prelúdio para Matar e neste ano estava as vésperas de lançar Suspiria, outro clássico. Lucio Fulci em 1977 lançava Premonição (The Psychic) e Ruggero Deodato começava a trilha canibal macarrônica com Jungle Holocaust.

O velho mestre já não andava tão bem de saúde, vindo a falecer em 1980, porém ainda tinha fôlego o suficiente para co-dirigir seu último filme e dividiu o cargo com seu filho, Lamberto Bava. O resultado: Shock é uma das mais fiéis amostras de como o cinema de terror na Itália era na época e de como, com sua visão única, conseguia trazer para as telas todas as cores da escuridão.

Dora (Daria Nicolodi) e seu segundo marido, Bruno (John Steiner de Tenebre e Calígula), se mudam para uma nova casa com Marco (David Colin, Jr.), filho de Dora de seu primeiro casamento. Não demora muito e eventos estranhos começam a acontecer com o pequeno Marco dando sermões não muito amigáveis como “eu vou ter que te matar, mamãe!“.

Shock (1977) (2)

Como o trabalho de Bruno como piloto de avião o força a ficar longe por períodos extensos, Dora tem que arcar com seus próprios ataques de insanidade quando desconfia cada vez mais fortemente que seu filho pode estar possuído pelo espírito de seu primeiro marido, um viciado em drogas que morreu de overdose. As coisas não tendem a melhorar quando Marco passa a picotar a roupa de baixo da própria mãe, tenta vê-la tomando banho enquanto Dora começa a ter terríveis visões de mãos lhe agarrando vindas sabe-se lá de onde.

O roteiro em si, escrito por Lamberto Bava e Dardano Sacchetti (que futuramente roteirizariam Demons juntos), é bem simples, segue uma linha bem definida que gera dúvida sobre o quanto é real e o quanto é imaginário, recurso vastamente usado por Stephen King em suas obras e um toque de Edgar Alan Poe, mas o que se destaca mesmo é o impacto visual, tão inebriante que só encontra precedentes em The Beyond, de Lucio Fulci (1981), e Prelúdio para Matar e Suspiria de Dario Argento.

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Ainda que o diretor seja lembrado por sua influência por Black Sunday e Bay of Blood, em Shock Bava entrega seu filme mais assustador, com algumas cenas bem violentas, repleto de visões soturnas e cenas de pesadelo incríveis – o trabalho atrás das câmeras é primoroso. Ao preencher até as cenas mais escuras com uma paleta de tons coloridos que beira o surrealismo, com cortes secos, closes inesperados e passagens claustrofóbicas, é como se o público compartilhasse das alucinações da protagonista. Tudo correspondido pela excelente atuação da atriz Daria Nicolodi, figura frequente nos filmes de Dario Argento de Prelúdio para Matar até A Mãe das Lágrimas (2007), que tem neste filme seu melhor trabalho.

A entrega histérica da atriz é notória em cenas antológicas difíceis de descrever, como quando ela tem seu corpo molestado pelo fantasma do marido morto ou mais para o final, quando ela é “assombrada” pelos móveis no porão da casa onde mora. Os demais já não são tão bons, contudo aparecem muito pouco em cena para prejudicar o resultado final. O ritmo deixa a desejar pela extrema lentidão em que as coisas acontecem, alguns sustos falsos desnecessários e o próprio envelhecimento da película deixam algumas impressões negativas.

Shock (1977) (1)

No todo, não dá para ignorar que a Bava teve em sua última obra filmada uma bela e psicologicamente devastadora criação. Uma pena que Shock foi negligenciado pelas distribuidoras brasileiras, tanto em DVD quanto em VHS. Nos Estados Unidos originalmente a produção foi lançada nos cinemas e em VHS como Beyond the Door II, apesar de não ter absolutamente nada com Beyond the Door (de Ovidio G. Assonitis e Robert Barrett, lançado no Brasil em VHS pela Alvorada Vídeo como Espírito Maligno) a não ser a presença do ator mirim David Colin Jr.

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2 Comentários

  1. MORCEGO

    Sem dúvida, o filme mais assustador – realmente! – do Mestre Mario Bava.
    Nem sei dizer qual a cena mais assustadora; mas, digo o seguinte: nunca vi um filme de “jump scares” tão bem feito! Um filme realmente assustador.
    Apesar de tão ter visto todos os filmes do Mestre Bava, digo, sem medo de errar, que ele deixou o melhor para o final.
    Um filme assustador!

    Nota: 10.0

  2. É uma pena ele ter falecido no ” auge ” do Cinema de Horror Italiano , que sou fã e que considero um dos melhores do mundo .
    Em questão desse ” Shock ” , o último filme e o melhor pelo que diz o Gabriel Paixão , me despertou um grande interesse em ver o resultado do seu último filme de sua carreira antes de morrer .

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