Terror nas Trevas (1981)

The Beyond (1981)
Não tente entender e arrepie-se com um dos melhores filmes de Lucio Fulci!
Terror nas Trevas
Original:L´Adilà
Ano:1981•País:Itália
Direção:Lucio Fulci
Roteiro:Lucio Fulci, Dardano Sacchetti, Gianpaolo Saccarola
Produção:Fabrizio De Angelis
Elenco:Catriona MacColl, David Warbeck, Cinzia Monreale, Antoine Saint-John, Veronica Lazar, Anthony Flees, Giovanni De Nava, Al Cliver, Michele Mirabella, Gianpaolo Saccarola

Lançado no Brasil primeiro como Terror nas Trevas e depois relançado com o péssimo título A Casa do Além (sendo que a história se passa não numa casa, mas em um hotel), The Beyond é o filme mais conhecido do mestre do horror e do “gore” europeu Lucio Fulci. Na ordem de preferência dos fãs do diretor, esta obra-prima do cinema dos anos 80, lançada em 1981, vem logo depois do clássico Zombie Flesh Eaters (1979), realizado por Fulci para aproveitar o sucesso de Dawn of the Dead, do americano George A. Romero.

The Beyond – cujo título italiano é L´Adilà, ou O Outro Lado – merece o status de clássico pelas suas antológicas cenas de extrema violência, que não poupam o espectador de closes em feridas abertas, cortes e mutilações diversas, uma particularidade do cinema sangrento de Fulci desde a época em que ele fazia “inocentes” filmes de bangue-bangue estrelados por Franco Nero, nos anos 70. O filme custou uma mixaria (400 mil dólares, que não pagam nem os 15 minutos iniciais de uma porcaria como Premonição 2, por exemplo) e foi filmado em apenas cinco semanas!

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O roteiro maluco, que mistura um hotel assombrado com ataques de animais (no caso, aranhas que comem o rosto de um dos personagens e um cão que arranca a jugular de uma moça), profecias, livros satânicos, assassinatos, acidentes, demônios e mortos-vivos, alçou The Beyond ao status de “cult movie“, sendo adorado por muitos cineastas respeitados, inclusive Quentin Tarantino, o diretor de Jackie Brown e Pulp Fiction, que em entrevista à revista americana Fangoria considerou este um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.

Na verdade, não é para tanto: o filme não chega realmente a dar medo, embora na primeira assistida o espectador seja acometido por uma sensação desconfortável de angústia e ansiedade. Isso acontece porque pouca coisa no roteiro faz sentido. E, dentro desta lógica, TUDO pode acontecer! Quando você pensa que tudo está calmo, fantasmas, animais demoníacos e até mortos-vivos podem aparecer de repente para atacar os personagens, deixando o espectador ansioso para prever o que acontecerá depois!

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The Beyond começa com uma impressionante introdução filmada em tom de sépia (para dar uma ideia de filme antigo), na Lousiana de 1927. No rústico Hotel Seven Doors (Sete Portas), uma garota encontra um antigo livro com as profecias de Eibon, escritas há 4 mil anos. Estas falam sobre os Sete Portões do Inferno, que, quando abertos, liberarão o Mal sobre a face da Terra. Uma curiosidade interessante é que no filme anterior de Fulci, o apenas razoável Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura Nella Città dei Morti Viventi), feito no ano anterior (1980), também existe um livro demoníaco, com nome parecido (Enoch). Mas as histórias dos dois filmes, aparentemente, não têm nenhuma relação.

Ao mesmo tempo em que a mocinha lê o livro, o pintor Spike trabalha num mórbido quadro retratando o Mar dos Mortos, presente em outra das profecias de Eibon, enquanto aldeões com cara de poucos amigos aproximam-se do hotel em um barquinho. Logo, o pintor, que aparentemente também é dono do hotel, é aprisionado e torturado pelos habitantes da cidade, ao mesmo tempo em que blasfema dizendo que o lugar foi construído sobre uma das sete portas do Inferno (daí o nome do lugar, Seven Doors) e que se o matarem não haverá como conter o Mal que ali vive. Claro que não adianta avisar: furiosos sabe-se lá por quê, os aldeões pregam Spike na parede (close angustiante nos pregos penetrando nas mãos do coitado) e em seguida corroem seu rosto com cal!

Um salto no tempo e vemos o Hotel Seven Doors na Lousiana de 1981 (a atualidade, nos tempos de lançamento do filme). Lisa, interpretada por Katherine MacColl (que trabalhou com Fulci no anterior Pavor na Cidade dos Zumbis e voltaria a atuar com o mestre posteriormente, em A Casa do Cemitério), discute sobre a restauração do local com o amigo Martin. A conversa encerra de forma trágica, com um dos trabalhadores caindo de um andaime e rachando a cabeça – mais um close sangrento, e olhe que não chegamos nem nos dez minutos de filme ainda!

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É quando somos apresentados aos outros personagens-vítimas: há Arthur e Martha, esquisitos criados do hotel, e o dr. John McCabe, o médico da cidade, interpretado pelo simpático David Warbeck – com sua tradicional barba por fazer, apesar de seu personagem ser um médico. Uma curiosidade: apesar de Warbeck (cujo nome de batismo é David Mitchell) só ter aparecido praticamente em filmes italianos classe B até sua morte, por câncer, em 1997, o ator nasceu na Nova Zelândia.

Joe, o encanador, vai detonar todo o horror do filme ao checar um vazamento de água no porão. Ao fazer desabar uma parede centenária, ele liberta o cadáver de Spike, transformado em morto-vivo, que rapidamente ataca o encanador e arranca seus olhos, em mais uma excelente cena de extrema violência preparada pelo mestre Gianetto de Rossi.

A partir daqui, começam os furos do filme: apesar de encontrarem os dois corpos (o de Joe, sem os olhos, e o de Spike, adormecido, apesar de estar “vivo” minutos antes), as autoridades não fazem nada, apenas levam ambos para o hospital e nem ao menos investigam ou fazem alguma coisa para descobrir o que aconteceu no porão!!! Como se fosse normal encontrar um cadáver putrefato de 80 anos de idade!!! Enquanto isso, Lisa conhece Emily, uma garota cega, que parece saber bastante sobre o hotel e sobre o tal livro de Eibon – tanto que tenta convencê-la a deixar o local e não voltar.

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Está armado o cenário para mais um típico filme de Lucio Fulci. Efeitos e mortes exageradas (a melhor é aquela em que um cachorro rasga o pescoço de uma mulher e o sangue jorra intensamente), cenas repletas daquele “clima” italiano, com supercloses nos olhos dos atores e vítimas, música sempre a todo volume (o tema, assustador, é de Fabio Frizzi) e muita coisa louca acontecendo ao mesmo tempo. Lá pelas tantas o filme vira um verdadeiro “samba do crioulo doido“, perde toda a sua lógica e fica simplesmente impossível tentar entender a história, então vai-se levando no piloto automático e apreciando as cenas de horror e morte.

Exemplo de furo número 1 (além de todos os já citados anteriormente): apesar da cega, Emily, receber Lisa em sua casa em determinado momento, logo mais tarde o dr. McCabe visita a mesma casa e descobre que ela está trancada e abandonada há 50 anos. Até aí tudo bem, a ceguinha poderia ser um “espírito do bem“, comum em filmes do gênero, tentando avisar os heróis sobre o hotel. Mas na cena seguinte Emily não só aparece novamente em sua casa (que desta vez não está abandonada, mas sim limpinha e mobiliada!!!), como ainda é morta violentamente pelo zumbi de Joe (cujo cadáver tinha sido sepultado algumas cenas antes!!!) e pelo zumbi de Spike (cujo corpo calcinado estava no necrotério, e para onde voltaria na cena seguinte!!!!). Deu para entender o drama???

Aliás, o corpo de Joe aparece em todos os lugares: minutos depois ele é encontrado dentro de uma banheira por Martha, que tem a cabeça atravessada por um prego que lhe arranca o olho (outra cena violentíssima do mestre de Rossi).

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Até o final a história se transformará definitivamente num pesadelo, pois tudo acontece sem que seus personagens (ou o espectador) entendam os motivos. Sabe quando você está sonhando uma coisa e de repente o “roteiro” do sonho muda radicalmente? Pois a sensação de ver The Beyond é a mesma! O mal que parecia condicionado ao tal hotel, de uma hora para a outra, se espalha, fazendo com que no final todos os habitantes da cidade viram zumbis. Misteriosamente, Lisa e o dr. McCabe são os únicos sobreviventes, tendo que abrir caminho à bala na tentativa de fuga. É o momento Dawn of the Dead do filme, quando Fulci parece homenagear seu próprio Zombie Flesh Eaters, ao apresentar zumbis cambaleantes agarrando os heróis e tomando sangrentos balaços bem no meio da testa.

E olha que a cena do ataque dos zumbis ainda registra um histórico erro de continuidade: enquanto Warbeck atira neles, em certo momento dá para ouvir o “clic” da arma descarregada, mas um segundo depois, sem que ele tenha colocado mais balas no tambor, o revólver começa disparar de novo, pelo menos umas 15 vezes (apesar de só caberem 8 balas no tambor)!!!! Outro rombo no roteiro é a forma como o médico combate os zumbis: primeiro ele atira várias vezes no peito, sem resultado. Vendo que nada acontece, dá um tiro certeiro na cabeça, quando o zumbi morre (é a tradição, não é?). Mas logo que aparece outro morto-vivo em cena, Warbeck repete toda a operação desde o início (tiros no peito, nos braços, e somente no fim o mortal na cabeça), como se não tivesse aprendido a lição!!!

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E não pensem que The Beyond tem final feliz! Tem, isso sim, uma conclusão super-confusa, mas extremamente melancólica e sem esperança. Realmente impressionante e típico do cinema de horror italiano. O incrível (no bom e no mau sentido) roteiro foi escrito a seis mãos pelo próprio Fulci mais Giorgio Mariuzzo e Dardano Sacchetti, o roteirista por trás de nove entre dez bons filmes italianos da época – além da maioria das obras do próprio Fulci, ele também escreveu o roteiro da série Demons, por exemplo. Repare, ainda, em duas participações não-creditadas do diretor, como o tabelião da cidade, na cena em que Martin vai procurar o registro do hotel, e do roteirista Sacchetti, como um dos assassinos de Spike no início do filme (nesta cena também aparece o câmera Sergio Salvati, outro colaborador frequente de Fulci).

The Beyond parece ser uma versão melhorada de Pavor na Cidade dos Zumbis. Os dois filmes têm roteiros confusos que não se justificam. Em ambos há uma figura catalisadora do mal que morreu muitos anos antes (um padre em Pavor… e um pintor aqui), um livro demoníaco, mortos-vivos e um final infeliz. A diferença é que Pavor… é arrastado e mal-dirigido, com poucos momentos memoráveis. The Beyond, em comparação, é muito superior, o roteiro funciona (mesmo quando confunde a cabeça do espectador), assim como as cenas de horror e violência. E por falar em violência, mais uma curiosidade: nos Estados Unidos, nos anos 80, o filme foi originalmente lançado em vídeo com a ridícula duração de 65 minutos (quando originalmente tem mais de 90 minutos!!!), com todas as cenas mais fortes cortadas, até ser finalmente relançado em versão “uncut“.

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Resumindo: com todos seus erros e acertos, The Beyond é um filme obrigatório para quem pretende conhecer este tipo peculiar de cinema (o italiano), e especialmente para os fãs de violência explícita e mutilações. Eu pessoalmente o considero um dos melhores filmes feitos na década de 80, e uma das obras mais consistentes do diretor Lucio Fulci, cujos filmes costumam se destacar mais pelo sangue propriamente dito do que pelo conjunto da obra. Esta é uma rara exceção, pois mesmo se o filme fosse censurado nas cenas mais violentas (como aconteceu nos EUA), ainda assim manteria o interesse do espectador até o final.

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E certamente é anos-luz mais interessante do que qualquer baboseira produzida hoje em dia, em larga escala, pelos estúdios americanos, especialmente os mais do que desgastados “terror teen“. Dá o maior alívio saber que durante todo o tempo de projeção de The Beyond, nem um único personagem adolescente aparece em cena! Obrigado, Lucio Fulci! Os verdadeiros fãs de horror te saúdam!

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

15 comentários em “Terror nas Trevas (1981)

  • 04/03/2018 em 16:23
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    Esse clássico é prá ser apreciado, não para ser entendido!
    Tipo um pesadelo, onde tudo pode ocorrer!

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  • 15/08/2017 em 17:55
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    Não vi ainda o filme, mas acredito que essa resenha seja muito melhor. Dei muitas risadas. Valeu!

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  • 18/07/2017 em 03:20
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    Comprei o box da versátil, vi Martin do Romero e achei genial, o melhor filme d vampiro q vi na vida. Q roteiro foda!
    Então fui assistir Terror nas Trevas com o hype lá em cima, pois o filme tem uma fama cult e tanta no meio dos cinefilos d terror, mas infelizmente me decepcionei com o filme. Um punhado d furos d roteiro, uma cena q não passa d uma copia mal feita d Suspiria (a do cachorro atacando a cega), personagens rasos até não poder mais, e efeitos super datados. Enfim, mais um entre tantos terrores italianos superestimados. Se fosse feito hoje em dia por um Shyamalan da vida cairiam matando falando q é uma merda, mas como foi feito pelo Fulci em mil e quinhentos dizem q é indispensável, só rindo mesmo….

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  • 04/02/2016 em 15:02
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    Juro que tentei entender o motivo de ele ser um clássico, mas não consegui. Não dá pra dizer que ele é um precursor de gêneros atuais, porque ele não pode ser classificado em nenhum (ou pode, só que na maioria deles: profecia, apocalipse zumbi, sobrenatural, slasher…).

    Não entendi porque esse filme é bom.

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  • 07/02/2015 em 01:02
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    Até que enfim apareceu uma distribuidora para lançar esse clássico em DVD! Ele está na caixa Obras-Primas do Terror 2, da Versátil, que ainda traz o Mansão do Inferno, do Argento; dois filmes do Bava; o cultuado e também inédito até agora Martin, do Romero e o maravilhoso Pelo Amor, Pela Morte. Enfim, alguém para dar atenção a nós, fãs do terror! Faço propaganda gratuita para a Versátil com gosto!

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    • 19/02/2015 em 22:33
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      Realmente. Comprei esse boxe pois tinha o primeiro mas principalmente porque tinha o Delamore e o Inferno do Argento fiz questão de antecipar a compra,

      Mas todos os filmes são aproveitáveis. Só não tinha visto os dois do Bava e me surpreendi com Lisa e o Diabo. Filmaço.

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    • 22/07/2015 em 17:10
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      De fato! Eu também comprei a caixa, e, devo dizer, que a Versátil está de parabéns por lançar esses filmes extremamente raros – e até agora perdidos – em DVD.
      A cópia do filme está maravilhosa, colorida, fotografia cristalina, e, o melhor de tudo, VERSÃO SEM CORTES!
      Só achei uma pena não haver áudio em inglês disponível nos filmes italianos – praticamente, a caixa é clássicos do cinema de horror italiano, exceção de MARTIN.

      Mas isso não importa. O que importa é que finalmente, TERROR NAS TREVAS está disponível no mercado brasileiro de DVD!

      Meu filme favorito de Lucio Fulci, e um de seus melhores!

      Nota: 10,0 / 10,0

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  • 20/01/2015 em 11:36
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    Meu filme favorito do Padrinho do Gore.

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  • 27/07/2014 em 19:40
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    Realmente é um bom filme, um dos melhores filmes da década de 80.

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  • 26/07/2014 em 02:23
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    O segundo melhor filme do Mestre Fulci , e também concordo que é um dos melhores filmes da década de 80 !
    ” The Beyond ” é uma obra-prima não só de Fulci mais do Horror em geral e merece com certeza as 5 caveiras e é obrigatório para todo fã de Horror declarado !!!!!
    ” The Beyond ” é óbvio que faz parte da minha coleção e o tenho em DVD !

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  • 25/07/2014 em 10:59
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    Boooa Boca, texto das antigas do ótimo Felipe Guerra. Quantos filmaços eu nao conheci graças as visitas diarias àquele saudoso site antigo, nos milhoes de textos do Felipe, Rossati, Gabriel, Marcelo…eee tempo bom. Sobre The Beyond, é isso mesmo, não tente entender e delicie-se com mais uma obra prima do Lucio. Atenção p/ trilha sonora do Fabio Frizzi, uma das melhores que eu ja vi no genero, e pra gatissima da Cinzia Monreale, estrela tambem de um outro classicaço, Buio Omega, cujo a critica podia ser atualizada pra ca tambem.

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  • 24/07/2014 em 12:20
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    Estou gostando muito dessa sequências de críticas dos grandes diretores italianos Fulci e Argento. Particularmente, The Beyond é o meu filme favorito por parte do Fulci e foi ele que me introduziu a arte italiana de fazer terror.

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