Críticas

Cidade Sombria (2004)

Mesmo que tenha sangue jorrando em doses generosas, o interesse por Cidade Sombria logo se esvai pela sua ruindade completa!

Cidade Sombria (2004)

Cidade Sombria
Original:Dark Town
Ano:2004•País:EUA
Direção:Desi Scarpone
Roteiro:David Birke
Produção:Susan R. Rodgers, Desi Scarpone
Elenco:Janet Martin, Delpaneaux Wills, Joel King, Meghan Stansfield, Alison Dian Miller, Claire Mills, Curtis Nysmith, Derrick Wayne Smith

De todos os monstros do cinema de horror, um dos que mais rendeu filmes no mundo inteiro, até hoje, com certeza é o vampiro. Duvida? Então faça um teste: entre no Internet Movie Database e realize uma busca pelo nome “Drácula“; só ali, aparecerão exatos 298 filmes. Se fizer a busca por “Vampire“, o número de títulos encontrados é ainda mais absurdo: 2057 filmes, nem todos de horror. Isso nos leva a uma triste constatação: se já foram feitos tantos filmes de vampiros, que novidade eles ainda podem ter nos dias atuais? E vocês lembram qual foi o último filme sobre as criaturas da noite realmente interessante ou digno de destaque?

Infelizmente, nos últimos tempos as locadoras foram praticamente tomadas de assalto por uma nova raça de vampiros. Além da trilogia Blade, apareceram os Drácula 2000, Drácula 3000, Anjos da Noite e outras podreiras. Poucos escapam de uma análise mais profunda. E um outro título na categoria “vampiros capengas” chama-se Cidade Sombria, uma produção amadora feita nos Estados Unidos em 2004, filmada em vídeo digital. O filme foi lançado no Brasil pela Flashstar. Quando eu escrevi minha resenha sobre o péssimo Sangue Eterno (uma história de vampiros rodada no Chile!!!), comecei da seguinte forma: “O que estão fazendo de filme de vampiro ruim nos últimos tempos, não está no mapa!“. Infelizmente, vou ser obrigado a tomar emprestadas as minhas próprias palavras para falar de Cidade Sombria, que é um dos piores filmes a chegar no nosso mercado de vídeo – enquanto um filmaço como Session 9 permanece inédito… E o pior é que o desavisado pode até se enganar com a capa bonitinha da fita ou DVD.

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Porém, como todos sabemos, “não se julga um livro pela capa“. Amador do começo ao fim, Cidade Sombria faria Bram Stoker morrer de vergonha por ter escrito seu livro “Drácula” e inspirado bobagens como esta. E digo mais: se os Irmãos Lumière, aqueles franceses que inventaram o cinema, viajassem no tempo e dessem de cara com esta bomba, certamente se arrependeriam de sua criação, voltariam ao século 19 e destruiriam todos os projetos do seu velho cinematógrafo!!! Sabe aquelas histórias que começam no nada a terminam no lugar nenhum? Aqueles filmes que acabam e você se questiona: “Tá, e aí?“??? Pois o roteiro de Cidade Sombria, escrito por David Birke (responsável também pelos roteiros de cinebiografias de serial killers, como Dahmer e Gacy), é exatamente assim. Em momento algum você se importa com o que está acontecendo, não há reviravoltas, tudo é previsível, os personagens são horrorosos… Enfim, um verdadeiro horror!

Se duvida, acompanhe: Curtis Armstrong (Joel King) é o senhorio de algumas propriedades no subúrbio, que está visitando um de seus velhos depósitos quando é atacado por uma vampira… Paralelamente, na casa de Armstrong, sua família lhe prepara uma festinha de aniversário. Lá estão a esposa, a filha mais nova e o filho Curtis Jr. com sua esposa grávida; logo chega também a filha mais velha, Jen (Janet Martin), com sua namorada lésbica, Lisa (Meghan Stansfield). A inclusão do casal lésbico é só uma desculpa “exploitation” descarada para poder mostrar um rápido rala-e-rola de velcro, talvez porque os produtores do filme achassem “super-moderninho” ter cenas de lesbianismo – até porque sexo heterossexual já virou clichê no cinema…

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Logo, um misterioso blecaute (jamais explicado) deixa todo o quarteirão na escuridão (só pra rimar). E, no mesmo momento, Curtis Armstrong Sr. chega em casa bem diferente, agora transformado numa criatura das trevas. Ele traz numa das mãos uma garrafa térmica com o que diz ser “energético” – que na verdade é, claro, sangue humano. Sem que ninguém estranhe o comportamento ou as ridículas “caretas vilanescas” que Armstrong faz, ele começa a espalhar o contágio pela família, transformando a esposa, a filha pequena e o filho em vampiros, e estes, por sua vez, vão fazendo novas vítimas pela cidade, criando um verdadeiro exército de vampiros.

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Então, numa das muitas imbecilidades do roteiro, entra em cena uma gangue de marginais negros, liderados por Rakeem (Del Wills), que perdeu o irmão mais novo no incêndio de um dos edifícios que Armstrong possuía. Julgando que a culpa da tragédia é do senhorio (sabe-se lá porquê!), Rakeem resolve ir até a casa da família com seus amigos bandidos e a irmã Trisha para acertar as contas – só que escolheu o pior dia para isso. Após um sangrento confronto com um grupo de vigilantes do bairro, os bandidos feridos buscam refúgio na casa dos Armstrong, onde fazem a família de refém – mas logo descobrem que quase todos já estão transformados em vampiros. Novo massacre e sobrevivem apenas Jen e Rakeem, que fogem e tentam lutar pela sua sobrevivência, enquanto a praga vampiresca vai se disseminando pelo bairro e pela cidade.

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Como a maioria dos filmes de vampiro da recente safra, Cidade Sombria não tem história para contar (até porque, depois de tantas produções sobre vampirismo, as boas histórias já foram praticamente todas contadas, não é mesmo???). Para disfarçar a inexistência de boas interpretações ou situações, o filme tenta manter a atenção do espectador com gore do primeiro ao último minuto. Tudo muito bom, tudo muito bem… Só que os efeitos especiais vão do amadorístico ao cretino – refletindo o orçamento mixuruca de 1 milhão de dólares… O sangue utilizado em cena parece aquele dos filmes caseiros, feitos por amigos em vídeo amador, de suco de groselha. E não tem como segurar a risada diante da pobreza da produção. Numa cena, por exemplo, uma garota abre a blusa (uma desculpa para mostrar os peitinhos), e então corta os próprios seios com uma garrafa quebrada. Só que o diretor dá um close mostrando que o sangue de groselha está saindo de dentro da garrafa quebrada, deixando riscos vermelhos na pele, mas sem cortar. É algo ridículo de se ver, coisa de teatrinho escolar!!!

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Cidade Sombria até tem algumas cenas mais fortes, mas percebe-se que tudo já foi mostrado (e melhor) em outros filmes de horror, e que o diretor Desi Scarpone (queiram os deuses que jamais faça outro filme!!!) apenas chupou suas cenas preferidas de produções clássicas. Scarpone recria, por exemplo, a famosa cena de Antropophagous, de Joe D’Amato, em que o canibal arranca o feto da barriga de uma mulher grávida; aqui, é um vampiro que arranca o feto pela vagina da grávida e depois atira o bebê contra uma cerca, num momento bem sangrento e revoltante, mas totalmente anulado pela pobreza dos efeitos e pelo próprio fato de que já vimos isso antes. E espere só para ver como Scarpone chupou o personagem de dr. Hill, de Reanimator, ao colocar um vampiro com a cabeça decepada – na verdade, um corpo que anda para lá e para cá levando a cabeça debaixo do braço!!!

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Mesmo que tenha sangue jorrando em doses generosas, o interesse por Cidade Sombria logo se esvai, seja pela ruindade dos efeitos, da direção ou das interpretações – especialmente a da filha mais nova. E o roteiro também não ajuda. Temos confrontos entre gangues, sem qualquer relação com a história principal; a súbita aparição de uma amante de Armstrong Sr., elemento colocado na trama apenas para enrolar, e muitas outras besteiradas. Os negros são representados como marginais estúpidos que falam, andam e mexem as mãos como cantores de rap (mais parece uma sátira, tipo Não é Mais um Besteirol Americano), e Jen, a filha lésbica, logo se transforma numa vampira boazinha, que luta com as demais criaturas das trevas.

Para o diretor, parece ser o máximo mostrar beijos entre moças, já que ele utiliza este recurso diversas vezes ao longo da projeção – inclusive um ensanguentado e gratuito beijo entre duas vampiras. Mais perdido que cego em tiroteio, Scarpone simplesmente não se decide entre tentar fazer um terror sério e pesadão ou uma avacalhação trash – no que o filme se transforma depois de algum tempo, incluindo uma cena onde a filha vampirizada devora seu gatinho de estimação!!!

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Olha, para não me estender muito, Cidade Sombria é simplesmente imbecil, abobado mesmo. Como dizer outra coisa de uma produção em que, lá pelas tantas, um cara ferido a faca se esconde no armário debaixo da pia, e, mesmo perdendo sangue aos borbotões, só consegue pensar em passar um spray de Bom Ar no próprio corpo, tentando disfarçar o “cheiro” de sangue para não atrair os vampiros??? Sinceramente, eu achava que Drácula 3000 fosse o pior filme de vampiros da atualidade. Mas tendo este Cidade Sombria para concorrer ao título, surgiu a dúvida. Ah sim: vai saber, também, o que Cidade Sombria tem a ver com um filme sobre uma família de vampiros, e não sobre uma cidade…

Pior que perder 1h30min da sua vida vendo uma bobagem tão mal-realizada, só mesmo visitar a página oficial de Cidade Sombria na Internet depois (www.darktownthemovie.com/index.htm), e descobrir que o diretor Scarpone pensava estar realmente fazendo um grande filme. Pois lá no site o cara não só inventa que a história se inspirava em um conto de Tolstói (!!!), mas também tem a cara-de-pau de comparar a tralha que fez a Black Sabbath, o clássico do italiano Mario Bava!!! Juro!!! Sem a menor vergonha na cara, Scarpone até escreveu que seu “filme” tem diversos detalhes “Bavaescos“. Argh!!! Prendam esse cara num hospício!!!!

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Quem deve estar contente com tudo isso é o péssimo Uwe “House of the Dead” Boll, já que seu próprio filme de vampiro, BloodRayne jamais seria ser tão ruim quanto a concorrência – nem que o “cineasta” se esforçasse muito…

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