Críticas

Dracula in Istanbul (1953)

Consegue, apesar de seus visíveis defeitos, ser mais interessante que muitas adaptações da obra clássica de Bram Stoker!

Dracula in Istanbul (1953)

Dracula in Istanbul
Original:Drakula Istanbul'da
Ano:1953•País:Turquia
Direção:Mehmet Muhtar
Roteiro:Ümit Deniz, Ali Riza Seyfi, Bram Stoker
Produção:Turgut Demirag
Elenco:Annie Ball, Cahit Irgat, Ayfer Feray, Bülent Oran, Atif Kaptan, Kemal Emin Bara, Kadri Ögelman, Münir Ceyhan, Toron Karacaoglu

Quando se fala em cinema na Turquia a primeira coisa que vem a memória são aqueles plágios hediondos dos blockbusters hollywoodianos que foram cometidos por lá entre as décadas de 60 e 80. Como esquecer, por exemplo, de Dunyayi Kurtaran Adam o Star Wars turco? Ou Seytan, o Exorcista de lá? Produções tão toscas, malucas e indigentes que acabaram sendo cultuado mundo a fora, simplesmente pela falta de qualidades.

Agora o espectador que for assistir Dracula in Istanbul esperando uma bomba atômica do nível de Supermen Dönüyor (o Superman turco) ou Badi (o ET turco) acabará se surpreendendo, pois a qualidade aqui é melhor que a média, mas não deve se preocupe, pois a pobreza da produção e alguns momentos nonsense ainda garante a diversão. Acredite, apesar de todos os seus defeitos, ainda assim é superior ao Drácula do Argento, por exemplo.

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Os créditos indicam que o filme foi inspirado no livro Kaziki Voyvoda, escrito em 1928 por Ali Riza Seyfi, um provável plágio do livro Drácula de Bram Stoker. Não seria aqui o caso de creditarem Ali Riza Seyfi apenas para fugir dos copyrights do livro de Stoker? Para não pagarem o mico que F. W. Murnau pagou com seu Nosferatu? Malandragens a parte, o filme se apropria de vários elementos do clássico de Stoker, a ponto de ser mais fiel que muitas adaptações que há por aí, e é quase impossível não compará-lo ao clássico livro britânico. E é claro que esta obra turca também bebe inspiração no pescoço do filme de Tod Browning. Fica praticamente impossível não comparar esse Drácula turco com o clássico hollywoodiano e com a versão do livro.

O filme começa com a chegada de Jonathan Harker, quero dizer, Azmin (Bülent Oran) à lendária Transilvânia, para visitar o castelo do Conde Drácula (interpretado pelo calvo e grisalho Atif Kaptan). Aqui o equivalente turco ao Jonathan Haker do original de Stoker não é um agente imobiliário, mas um advogado (isto se as legendas não me enganaram, é claro), mas os motivos são os mesmos, a negociação de um terreno em Istambul (e não em Londres, obviamente).

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Segue-se o padrão de praxe, o rapaz chega até a estalagem local, onde todos temem o castelo sinistro do amaldiçoado nobre. Obviamente que o advogado, um homem urbano que não é dado a crendices vai para o castelo. Seguindo o figurino criado por Stoker, o rapaz vai de carona até uma parte do caminho, para depois ser levado de carruagem, guiado por Drácula até o castelo – a fachada do castelo é na verdade uma pintura incapaz de enganar uma criança.

Ao entrar no castelo, o jovem advogado se depara com um relógio de parede, quanto a ele Drácula avisa: “Nunca se guie por esse relógio, pois o tempo aqui não tem sentido”. Claro que não falta a cena do jantar, em que o visitante corta o dedo para desespero do vampiro. O retrato da esposa do advogado.

Uma pequena diferença se faz notar aqui em relação a sua fonte britânica: Drácula tem um criado corcunda (seria o equivalente ao Reinfeld?). Este criado fica incumbido de servir o desavisado advogado durante o dia, enquanto o vampiro dorme. Neste meio tempo o criado, no melhor estilo guardador de carros, acaba se afeiçoando ao hóspede quando este último lhe oferece um cigarro.

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O visitante acha estranho alguns acontecimentos no castelo, inclusive quando ele vai olhar pela janela e vê o conde andando pelas paredes no melhor estilo Homem-Aranha; dezoito anos depois Christopher Lee realizaria a mesma façanha em O Conde Drácula (Scars of Dracula) de 1970.

Aqui também há uma variação da cena das noivas de Drácula, imortalizada na versão estrelada pelo Bela Lugosi. Ao invés de três vampiras, como no clássico de Tod Browning, aqui há apenas uma (provavelmente por causa das contenções de despesas). O herói está dormindo quando é acordado e seduzido pela vampira, mas Drácula chega para estragar a festa e repele a moça, alegando que o visitante é dele, ou seja, se compararmos com o filme de Bela Lugosi dá para se dizer que o número de vampiras diminuiu, mas a cena mantém sua carga homoerótica.

Mas para a sorte de nosso visitante, ele é salvo pelo criado corcunda que o protege das garras de seu patrão, utilizando uma réstia de alho para afugentar o vampiro (não há crufixos, afinal estamos numa produção de um país islâmico, portanto cruzes não funcionam aqui) e obviamente o criado acaba pagando caro por isso.

Depois de tanto contratempo, Drácula faz sua mudança para a Turquia, e Azmim finalmente foge para do castelo para voltar para sua casa e enfrentar o vampiro.

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Esqueça a carola e virginal moça vitoriana Mina Haker, do original inglês; seu cosplay turco é uma loira chamada Güzin (Annie Ball), que aqui trabalha como cantora de um teatro de revista (!), que apesar do cortejo dos fãs, aguarda fielmente seu esposo voltar de viagem. Há também a amiga de Güzin, a equivalente turca à personagem Lucy, que aqui se chama Sadan (interpretada por Ayfer Feray), e que será a primeira vítima do vampiro, quando este chega em terras turcas.

Aqui se suprime toda a melhor passagem do livro de Stoker, a antológica viagem de navio de Drácula, em que o vampiro suga o sangue de toda tripulação, transformando a nau num autêntico navio fantasma. Nesta versão turca sabemos da viagem apenas através de diálogos, de que o navio teria chegado a Istambul com a tripulação dizimada e um estranho carregamento de supostos caixões de argila. Uma pena que a passagem no navio não tenha no filme – mais um provável corte de gastos.

Güzin vai dormir na casa de Sadan, pois anda preocupada com o sonambulismo da amiga. De noite a sonâmbula vai até a beira do mar, onde é atacada pelo vampiro.

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Enquanto Sadan vai definhando, Azmim é encontrado em um hospital na fronteira. Logo Azmim se unirá a Turan (Cahit Irgat), o namorado de Sadan e o Professor Nuri (Kemal Emin Bara), o Van Helsing turco, aqui com a aparência lembrando mais o Freud. São estes três cavaleiros que terão que deter o temível vampiro.

Como podem ver Dracula in Istanbul é um xerox turco escarrado do livro de Stoker. A pobreza da produção é escancarada, como nas cenas em que Drácula vira um morcego, na verdade um boneco dos mais fajutos, ou no clímax final no cemitério, cheio de fumaça. Reza a lenda que a equipe de filmagem não tinha uma máquina de fumaça. A solução? Colocaram trinta pessoas fumando fora de cena para dar o efeito da fumaça!

O filme conta com momentos de puro humor involuntário, como quando Drácula se encontra a sós no teatro com Güzin. Ao invés de tacar uma dentada na moça, ele prefere hipnotizá-la para que a moça faça uma dança particular para ele. Neste interím, Azmim entra em cena com seus alhos e Drácula sai correndo em disparada, com o nosso herói no encalço. Daí você se pergunta se não era mais fácil Drácula virar morcego e fugir? O vampiro marca muita bobeira aqui.

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O filme também foi um marco histórico, pois além de ser um dos primeiros filmes de horror realizados na Turquia, também é considerado o primeiro filme de vampiros a exibir caninos pontiagudos, apesar do russo Dracula’s Death / Dracula Halála (1921) de Karoly Lajithay, e hoje tido como perdido, já exibia caninos em seu pôster. De qualquer forma foi um precursor! Vale lembrar que o Nosferatu de Murnau apresentava dentes incisivos centrais pontiagudos. Bela Lugosi, assim como os outros vampiros de Hollywood das décadas de 30 e 40 estavam impedidos de mostrar os dentes pela censura norte-americana. Os caninos ficariam populares após Christopher Lee exibi-los em O Vampiro da Noite em 1958, cinco anos depois do Drácula turco. Curiosidades odontológicas.

Se o diretor Mehmet Muhtar, com apenas onze filmes no currículo, não se destacou muito além deste trabalho, o mesmo não se pode dizer do diretor de fotografia Özen Sermet. Depois de mais alguns trabalhos em seu país natal acabou, na década de 50, vindo parar no Brasil, provavelmente fugindo de uma crise econômica na Turquia. Primeiro aterrissou na extinta TV Tupi, depois trabalhou em muitas produções como o filme episódico Cinco Vezes Favela de diretores como Carlos Hugo Christensen, Wilson Silva, Carlos Manga (fez vários, entre eles estão títulos como De Vento em Popa, Esse Milhão é Meu), Alberto Pieralisi (O 5° Poder), fotografou vários documentários oficiais durante a Ditadura Militar; durante o governo Médici chegou a dirigir um filme chamado Tormento em 1972. Nos anos 80 foi morar em Los Angeles. Faleceu em 1995 aos 72 anos.

Outra curiosidade é a atriz Annie Ball, nascida em Viena, Áustria em 1930. Foi para a Turquia trabalhar em clubes noturnos como dançarina exótica, quando foi descoberta em uma de suas apresentações pelos produtores de Dracula in Istanbul que a convidaram para trabalhar no filme e ela topou, mas com uma peculiaridade: Annie Ball só sabia falar duas palavras em turco. A solução foi dublá-la. No filme se ouve a voz da atriz Gulistan Guzey.

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O ator Atif Kaptan, que interpreta Drácula, teve uma carreira quilométrica com 273 trabalhos em seu currículo, morreu aos 69 anos em 1977 na Jordânia.

Dracula in Istanbul vale tanto para curiosos quanto para fãs do cinema tranqueira. E ainda consegue, apesar de seus visíveis defeitos, ser mais interessante que muitas adaptações da obra clássica de Bram Stoker.

Nota: agradeço aos amigos pesquisadores Fabio Vellozo e Carlos Thomaz Albarnoz pelas valiosas informações sobre o Özen Sermet e a Annie Ball respectivamente. Vocês são os caras!

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2 Comentários

  1. TTrash

    Nossa acabei de saber da versão espanhol do clássico de 31 o mesmo ano do clássico da universal e essa versão agora, daqui a pouco será melhor as novas gerações ou quem é a old tb ler primeiro o livro do que ver as mais de mil versões do livro em filmes kk.

  2. Sérgio

    Fiquei curioso para ver esse filme, até porque à pouco tempo assisti Dracula In Pakistan(1967), com direito a inacreditáveis números musicais em meio a essa adaptação não oficial do clássico de Bram Stoker!

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