Críticas

Dylan Dog e as Criaturas da Noite (2010)

Como filme, é fraco. E como produto, representa tudo o que há de mais asqueroso na forma como Hollywood vê o seu público.

Dylan Dog (2010)

Dylan Dog e as Criaturas da Noite
Original:Dylan Dog: Dead of Night
Ano:2010•País:EUA
Direção:Kevin Munroe
Roteiro:Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer, Tiziano Sclavi
Produção:Gilbert Adler, Scott Mitchell Rosenberg
Elenco:Brandon Routh, Anita Briem, Sam Huntington, Taye Diggs, Kurt Angle, Peter Stormare, Mitchell Whitfield, Michael Cotter, Laura Spencer, James Landry Hébert, Dan Braverman, Marco St. John, Kyle Russell Clements

Dylan Dog é uma história em quadrinhos da criada por Tiziano Sclavi para a companhia italiana Bonelli Comics, que retratava as aventuras do Detetive do Pesadelo, o personagem título, que enfrentava todo tipo de situações insólitas ao lado de seu parceiro Groucho, do seu amigo delegado Bloch e de muitas mulheres que conquistava. O grande barato das histórias era retratar os velhos monstros que todos conhecíamos de formas absolutamente inusitadas. Uma edição, por exemplo, apresentava um lobisomem que nascera lobo e se transformava em homem. Em outra, vimos um homem que se tornava invisível por não ter ninguém que ligasse para sua existência. Além dos monstros clássicos, tínhamos criaturas originais, como Mana Cerace, Uskebasi, a loja Safarà e o professor Xabarás. Algumas edições nem ao menos se baseavam nas investigações de Dylan, e preferiam mostrar dramas e romances com pano de fundo sobrenatural.

O personagem já havia ganhado um filme antes, o estupendo Dellamorte Dellamore de Michelle Soavi, que, embora não usasse seu nome, trazia todas as características pelas quais ele ficou conhecido. A começar pelo ator principal, Rupert Everett, cujo rosto inspirou os traços físicos de Dylan nos quadrinhos, e incorpora sua personalidade à perfeição , mesmo que o personagem aqui tivesse outro nome e fosse um coveiro, em vez de detetive. Dellamorte Dellamore poderia não ser 100% o filme de Dylan Dog, mas era tão genial que nós, os fãs, estávamos satisfeitos, e nem tínhamos tanta assim vontade de ver uma versão oficial. Ainda mais lembrando os desastres que haviam sido as últimas tentativas de transpor os quadrinhos da Bonelli para outras mídias, como o caubói Tex, que ganhou o fraquíssimo filme Tex e o Senhor do Abismo; ou o arqueólogo Martin Misterè, que estrelou o patético desenho animado Martin Mistery.

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É aí na nossa história que entra uma aranha. Ou melhor, três. Eles se chamam Kevin Munroe, Thomas Dean Donnelly e Joshua Oppenheimer. O primeiro é um diretor de quinta, cujo crédito mais expressivo foi a fraquíssima versão em CGI de As Tartarugas Ninja. Os outros dois são os roteiristas responsáveis pelo novo Conan, o Bárbaro (que eu nem quero ver), e que demonstraram um enorme talento em negligenciar completamente tudo o que Dylan Dog representa. Estes três transformaram o que era um personagem rico, poético e melancólico num caçador de monstros vulgar, com direito a bombas anti-vampiro, soqueiras de prata contra lobisomens e narração hard boiled que parece querer transformá-lo num novo Edward Carnby.

O filme não espera nem dez minutos para arruinar completamente a essência de Dylan Dog. Vamos deixar de lado o fato de que a trama agora se passa em New Orleans, em vez de Londres, o que acaba com a deliciosa fleuma britânica do nosso herói. Oxalá o maior problema fosse esse. O que não dá para suportar é a narração em off de “Dylan”, que começa com aquele papo de “eu estou aqui para te proteger do que você não acredita” e “os fantasmas que você ouviu falar quando era criança eram reais”. Esse tipo de discurso nunca, NUNCA foi típico do personagem. E acostume-se, porque este voice over vai continuar até o fim, uma vez que Donnelly e Oppenheimer não imaginam que alguém possa fazer uma história de detetive sem narração em primeira pessoa. Depois disso, temos uma cena ainda pior, em que “Dylan” acorda com uma arma apontada para sua cabeça, segurada por um marido infiel que foi descoberto pelo detetive. O “Dylan” do filme, agindo na maior tranquilidade, tira a arma do cara no papo e continua com a mesma cara de bonzão. Assim, ao transformar o personagem em uma espécie de James Bond sem medo da morte, os roteiristas cabeça de vento matam uma das coisas mais legais do Detetive do Pesadelo, que era o fato de ele nunca ter sido um super-herói imbatível, e de ter medo em situações de perigo como qualquer outra pessoa, o que ajudava a aproximá-lo do público.

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O filme continua e somos apresentados ao parceiro de “Dylan”. Bem, nos quadrinhos ele era assistido por Groucho Marx, personagem baseado num dos maiores comediantes que o cinema já produziu. Mas como os herdeiros do verdadeiro Groucho não liberaram o uso de sua imagem, ele foi substituído por Marcus, interpretado por Sam Huntington, aquele moleque que interpretou Jimmy Olsen em Superman Returns, estrelado também por Brandon Routh. Marcus não cheira nem fede, e lembra muito o personagem de Shia LaBoeuf em Constantine. Não é irritante, só não é memorável. Mas pelo amor de deus, se vamos ter uma reunião do casting de Superman Returns, me diga ao menos que Frank Langella interpreta o delegado Bloch!

Mas não, porque, acredite se quiser, não tem Bloch nesse filme. Já que estamos falando disso, não tem Xabarás, não tem Morgana, não tem Jenkins, não tem Wells, não tem Killex, não tem Hicks, não tem Safarà, não tem Johnny Freak nem nada que justifique as palavras “Dylan Dog” no título. Em vez de se aterem a estes detalhes essenciais, os roteiristas e o diretor preferiram usar os pequenos detalhes periféricos do personagem, como seu fusca velho, os créditos em fontes semelhantes às da revista e o fato de ele tocar clarinete. Aliás Bradon Routh precisa de umas aulas de clarinete. Até eu toco o instrumento melhor do que ele. Não, sério mesmo, eu toco clarinete melhor do que ele! Venham na minha casa, e eu mostro.

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Dylan” e Groucho… quer dizer, Marcus (eu realmente digitei Groucho instintivamente!) são chamados para investigar o assassinato do pai de Elizabeth (Anita Briem, mais uma beleza de plástico). A garota afirma que o assassino foi um lobisomem, o que espanta “Dylan”, que, ficamos sabendo, se aposentou como Detetive do Pesadelo, e agora é um investigador comum, se recusando a assumir casos sobrenaturais. Ele a princípio não aceita o caso, mas quando a próxima vítima do monstro acaba sendo Marcus, “Dylan” veste sua camisa vermelha e seu blazer preto e se prepara para chutar uns monstros na bunda.

É só ladeira abaixo a partir daí…

Ficamos sabendo que “Dylan” tem amigos entre os monstros, começando por um lobisomem chamado Gabriel (interpretado por Peter Stormare, de Fargo, que pouco a pouco está ganhando meu ódio mortal) e pelo vampiro Vargas (Taye Diggs, de Equilibrium). “Dylan” volta à casa de Elizabeth, onde são atacados por vampiros. Depois de escapar dos sanguessugas, ele explica para a garota como se tornou o Detetive do Pesadelo. E eu juro, é melhor ganhar um fio-terra do Zé do Caixão do que ouvir esse discurso: aparentemente, “Dylan” foi eleito pelo submundo dos monstros para vigiá-los quando algum deles infringisse as regras e se expusesse para os humanos. Assim, ele protege os monstros “inocentes” dos “malvados” caçadores de monstros que querem destruí-los.

Este momento é tão desrespeitoso com tudo o que os quadrinhos procuram representar que não pode ser expresso em palavras. Ora, Dylan sempre foi representado como um ex-policial da Scotland Yard que resolveu largar o cargo para se dedicar à sua verdadeira paixão, os casos sobrenaturais. Mais tarde descobrimos que ele era de certa forma predestinado a isso, mas mesmo assim nunca houve nenhum tipo de acordo entre ele e os monstros; aliás, os monstros sempre foram representados de forma bem sutil ao longo das histórias, e nunca como uma máfia que controla o submundo de Nova Orleans, Londres nem de lugar nenhum! Mais uma vez vem a pergunta: por que diabos chamar o filme de Dylan Dog? O personagem nem é célebre fora da Itália, e mesmo se fosse, isso só serviria para enfurecer os fãs. E eu ainda estou na primeira meia-hora do filme!!!

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As investigações de “Dylan” continuam, sempre tendo como base a ideia de que organizações de monstros estão escondidas na cidade, e que ele tem contatos nelas. Temos também as dificuldades de Marcus, que voltou como zumbi, em se adaptar à sua nova condição de morto-vivo, e de uma série de visitas aos points das criaturas da noite, em cenas que se encaixariam mais em filmes como MIB, o roteiro desemboca num dos maiores clichês neste tipo de filme: a busca por um artefato misterioso, no caso uma relíquia que teria o poder de ressuscitar o demônio conhecido como Belial. Essa informação é dada a “Dylan” por um vampiro chamado Borelli (Marco St. John), o que levanta a questão: seria difícil chamar este personagem de H.G. Wells, que é um dos grandes colaboradores do detetive nos quadrinhos e que é mestre justamente em descobrir esse tipo de mistério? Mas deus nos proíba de ter alguma fidelidade aos quadrinhos!

Agora, eu imagino o que você estão pensando: eu não deveria, ao menos por um segundo parar de pensar nos quadrinhos e tentar analisar o filme por si mesmo? Afinal de contas, essa insistência em comparar os dois acaba se tornando um pouco implicante, não é? Ao que eu respondo: eu não estaria fazendo essas comparações se não fosse pela própria safadeza dos caras que me fizeram acreditar que havia, de fato, uma conexão entre filme e quadrinhos. Os executivos de Hollywood quiseram nos atrair com uma adaptação de Dylan Dog? Então vamos assistir com os olhos de quem espera uma adaptação de Dylan Dog, e apontar sem dó como ela falha como tal.

Mas mesmo analisando de forma independente, o filme não se sustenta. É muita correria, blábláblá, monstros nada ameaçadores, discursos sem graça, personagens que se esforçam ao máximo para serem memoráveis, surpresas pouco surpreendentes e efeitos digitais em excesso. Algumas ideias são muito boas, mas não têm o espaço necessário para se desenvolverem e se tornarem algo realmente interessante. A aparição final de Belial, num efeito digital que parece saído de A Filha da Luz, só serve para decepcionar mais ainda quem estava esperando um final que compensasse a mediocridade geral. Como adaptação, é um desastre. Como filme, é fraco. E como produto, representa tudo o que há de mais asqueroso na forma como Hollywood vê o seu público.

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3 Comentários

  1. Claudio martins

    Ainda bem que vai retornar as hqs de Dylan dog ao Brasil em 2017..poque esse filme é fraco demais.As hqs são muito boas historias de terror.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

      Veja Dellamore Dellamorte. Ou Cemetery Man… É um filme baseado no mesmo livro que deu origem aos quadrinhos.

  2. Cristina

    Esse filme é uma afronta aos olhos e ouvidos humanos!

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