Um Drink No Inferno 3: A Filha do Carrasco (1999)

Um Drink no Inferno 3 (1999)

Um Drink No Inferno 3: A Filha do Carrasco
Original:From Dusk Till Dawn 3: The Hangman's Daughter
Ano:1999•País:EUA
Direção:P.J. Pesce
Roteiro:Álvaro Rodríguez, Robert Rodriguez
Produção:Michael S. Murphey, Gianni Nunnari, Meir Teper
Elenco:Marco Leonardi, Michael Parks, Temuera Morrison, Rebecca Gayheart, Ara Celi, Lennie Loftin, Sonia Braga, Orlando Jones, Danny Trejo, Jordana Spiro, Mickey Giacomazzi

A Saideira

Depois do fiasco da segunda parte, este Um Drink no Inferno 3 – A Filha do Carrasco é um verdadeiro colírio para os olhos, contrariando aquela tradição de que o terceiro filme é sempre o pior – lembra de Hellraiser 3, A Profecia 3, Amityville 3, Sexta-feira 13 Parte 3, Halloween 3, Pânico 3, O Massacre da Serra Elétrica 3, Poltergeist 3, O Exorcista 3, O Retorno de Jedi, O Poderoso Chefão 3, De Volta para o Futuro 3, Indiana Jones e a Última Cruzada, Máquina Mortífera 3, Superman 3, Tubarão 3 e uma pá de outros filmes fraquinhos com o cabalístico número 3 no título????

Na verdade, enquanto rolam os créditos de abertura, esqueça que o nome do diretor é um tal de P.J. Pesce. Faça de conta que é Robert Rodriguez, o diretor do filme original, que está de volta à ativa. Pois do jeito que está lembra tanto o estilo narrativo frenético e as gracinhas de humor negro da dupla Rodriguez/Quentin Tarantino que quase nem deixa saudades do primeiro filme.

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Os desavisados podem achar estar diante de uma refilmagem do original, apenas deslocada da ambientação nos tempos modernos para 100 anos atrás, no Velho Oeste sem lei. Como eu adoro filmes de bangue-bangue e sempre achei que nunca foi feito um filme de horror interessante passado nos tempos dos xerifes e pistoleiros, Um Drink no Inferno 3 é uma verdadeira preciosidade, que veio preencher esta lacuna “sobrenatural” no Velho Oeste americano.

Assim como no original, este filme começa sério, como um verdadeiro western (apesar de algumas brincadeiras sanguinolentas). Tem enforcamento, tiroteios, desavenças entre pistoleiros inimigos, duelos, assaltos à diligência, enfim, tudo aquilo que estamos acostumados a ver nos velhos filmes de bangue-bangue. Nenhuma menção a horror ou vampiros é feita até que passa uma hora de filme. Pois é no final que o “western” vira terror podreira, quando os personagens inventam de parar no Titty Twister, um bordel na fronteira mexicana – aqui chamado “La Tetilla del Diablo“, mas com o velho aviso “Open from dusk till dawn” (Aberto do crepúsculo até o amanhecer).

A grande novidade é que esta sequência é, na verdade, uma “prequel”, ou seja, conta uma história anterior à das duas partes anteriores. Para criar um vínculo com o original, descobrimos que a história pretende contar a origem da vampirona Satánico Pandemonium, interpretada pela escultural Salma Hayek na primeira aventura e infelizmente morta por George Clooney, que colocou um fim à sua carreira de chupadora de sangue derrubando-lhe um lustre na cabeça.

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Este é o toque de Robert Rodriguez no filme: o argumento e a ideia de contar a origem da sexy vampira vieram dele, e o roteirista, Álvaro Rodriguez, é seu primo. Nota-se a influência de Robert em cada cena do filme, e ele certamente deve ter dado seus palpites no trabalho do parente. Mas a fotografia, os enquadramentos e os tiroteios prestam homenagem a um outro diretor, o genial Sergio Leone (de clássicos como Era Uma Vez no Oeste e Por um Punhado de Dólares).

Um Drink no Inferno 3 se passa no México do século 19. As primeiras tomadas realmente lembram o Robert Rodriguez da trilogia El Mariachi: a câmera passeia por uma vila mexicana pobre, por uma velha igrejinha em ruínas, e dando closes na cara bizarra dos habitantes da região, com seus bigodões, seus sombreros e suas bocas desdentadas.

O letreiro inicial explica que o escritor americano Ambrose Bierce, famoso por escrever contos e livros de horror, foi ao México tentar juntar-se aos revolucionários liderados por Pancho Villa – isso é histórico, não é invenção. Segundo os livros de história “oficiais“, Bierce desapareceu na fronteira do México, morto por bandidos ou pelos próprios homens de Villa, quem sabe? Mas o roteiro de Um Drink no Inferno 3 tenta dar uma “versão trash” do desaparecimento do escritor, que é no mínimo curiosa e original.

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Bierce é interpretado pelo ótimo Michael Parks, que apareceu no primeiro filme (olha ali mais uma relação com o original) fazendo o papel do texas ranger Earl McGraw, morto pelo personagem de Quentin Tarantino com um tiro na cabeça, bem no começo. Neste terceiro filme, pode-se dizer que Parks é o “herói” do filme, ou pelo menos um dos seus personagens centrais.

O verdadeiro herói é um perigoso bandido, Johnny Madrid (interpretado pelo italiano Marco Leonardi), em outra relação com a fita original (onde os heróis também são bandidos perigosos). O enforcamento de Madrid é a grande atração na desolada vila de Purgatório, onde está o escritor Bierce e também um casal de carolas, aqueles chatos que tentam converter as pessoas para Cristo. São John Newlie (Lennie Loftin) e Mary Newlie (Rebecca Gayheart, a assassina do péssimo Lenda Urbana).

O bandidão é levado até a forca e encara o terrível Carrasco (Temuera Morrison), que não hesita em arrancar sangue das costas de Madrid a chicotadas antes da execução (a câmera de Pesce chega a acompanhar o percurso do chicote até as costas da vítima, e ainda mostra os grilhões pingando sangue, em câmera lenta). Quando o Carrasco enxerga na plateia sua filha, Esmeralda (a desconhecida Ara Celi), fica furioso, pois tinha ordenado que ela nunca fosse ver uma execução. Como castigo, chicoteia também a garota.

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Logo Madrid é colocado no laço da forca e pronto para ser executado. Mas, como acontece em nove de cada 10 filmes de faroeste (inclusive os de Sergio Leone), um providencial tiro de rifle parte a corda no meio bem no momento em que o bandidão está para ter seu pescoço quebrado. O autor do disparo é um garoto (na verdade garota) chamado Reese (Jordana Spiro), e aí começa um tiroteio dos diabos, onde o diretor abusa de câmera lenta e acelerada ao mesmo tempo, closes em buracos de balas jorrando sangue e muitos pulos e malabarismos de Johnny Madrid – mais uma vez, lembrando a trilogia El Mariachi, de Rodriguez. A brincadeira encerra com o bandido fugindo a cavalo e levando consigo a bela Esmeralda, emputecendo o seu pai, o Carrasco, que inicia uma perseguição ao criminoso.

Enquanto Madrid executa um desafeto com dois balaços na cabeça e reúne sua velha quadrilha (formada, entre outros, por Joaquin e Chato, que tem parte do rosto deformado), Bierce e o casal Newlie entram em uma diligência guiada por dois condutores, um mudo e outro cego (!!!). Calha de Madrid e seu bando atacarem justamente esta carruagem. E é quando acontece um dos grandes lances do filme, depois copiado por Rodriguez no seu filme Era Uma Vez no México: o condutor cego usa o som para atirar nos bandidos que atacam a diligência, virando o ouvido na direção de onde vêm os tiros dos inimigos para responder ao fogo. E ainda consegue matar boa parte deles, hehehehe!

Claro que no fim os criminosos param a diligência e descobrem que ela não leva nada de valioso. Eles fogem, após agredir John e Bierce e quase estuprar Mary. É claro que os dois grupos de desafetos vão se reencontrar mais tarde, em pleno bar “La Tetilla del Diablo“, para resolver suas diferenças. Ao contrário do primeiro filme, onde o confronto principal era entre os personagens e os vampiros, aqui o roteiro cria uma situação divertida: três grupos conflitantes de personagens “inimigos” acabam se encontrando, na mesma hora, no mesmo lugar.

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Bierce e John têm a chance de dar o troco nos bandidos da quadrilha de Madrid, ao mesmo tempo em que Madrid tem que encarar o Carrasco e seu exército, que também chegam ao bar. E, paralelamente a isso tudo, os vampiros também mostram a cara, atacando os sobreviventes do sangrento confronto. Entram em cena novos personagens, como um negro vendedor de escovas (Orlando Jones), a maligna sacerdotisa das trevas Quixla, que comanda o puteiro (interpretada por, vejam só, Sonia Braga!!!), e o nosso velho conhecido barman Razor Charlie (Danny Trejo), que também está no filme original, onde foi morto por Sex Machine (Tom Savini).

A orgia sangrenta no Titty Twister (ops, Tetilla del Diablo) se assemelha ao primeiro filme, já que em Um Drink no Inferno 2 o bordel é apenas citado no meio da história. Aqui, é no bar que acontece o final da história, o sangrento confronto com os vampiros sedentos de sangue. O filme equilibra muito bem o terror e o humor, com boas brincadeiras e algumas cenas muito bem feitas – como quando um bandoleiro se lembra, em flashback, que foi mordido por uma vampira, ou ainda a sinistra dança de sedução, filmada em câmera lenta, de Mary com um vampiro.

Por sinal, também lembrando o filme original, Um Drink no Inferno 3 tem muita violência e sangue jorrando o tempo inteiro, mas tudo bem exagerado, fazendo o espectador rir nervoso. Na cena do ataque à diligência, o condutor leva um tiro de espingarda na nuca e a câmera mostra o tiro saindo pela frente da cabeça, fazendo o rosto da vítima explodir!!! Já no bar, John se vinga de um dos homens de Madrid dando-lhe uma facada na boca, tão forte que a lâmina atravessa o balcão, pregando a vítima na madeira! Mas o clímax do humor negro e da podreira é quando Johnny Madrid, usando um sapato com uma lâmina na ponta, dá um chute no saco de um vampiro… somente para depois constatar que ficaram dois testículos do monstrengo cravados na lâmina!!!

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Claro que os vampiros, é até inútil dizer, atacam os personagens “humanos” rasgando nacos do pescoço das suas vítimas, e arrancando braços e pernas com a maior facilidade, na tradicional série de sangreira trash que caracteriza a trilogia.

Sobram alguns poucos personagens centrais, que se embrenham pelos corredores escuros do puteiro, tentando sobreviver aos ataques dos vampiros e encontrar uma saída do local. Curiosamente, ao contrário do filme original, os sobreviventes são todos inimigos entre eles, que precisam resistir à tentação de se matarem uns aos outros para somar esforços e combater os vampiros (outra sacada interessante do roteiro).

Quem gosta daqueles filmes onde é impossível levar qualquer coisa a sério não pode perder Um Drink no Inferno 3, que, por outro lado, será pavoroso para quem procura um filme sério e assustador.

A produção ainda merece uma medalha por ter conseguido reunir o elenco mais maluco e diferente já visto em uma produção cinematográfica. Temos, por exemplo, o italiano Marco Leonardi, que até então caracterizava-se por papéis “sérios” em filmes europeus ou mexicanos, tipo Cinema Paradiso e Como Água para Chocolate (mas estrelou um filme do italiano Dario Argento, Síndrome de Stendhal). Temos também Temuera Morrison, da Nova Zelândia, outro ator respeitado em filmes “sérios“, como O Amor e a Fúria (e recentemente está na “nova” trilogia Star Wars, como Jango Fett). Temos ainda a brasileira Sonia Braga, provavelmente a maior surpresa do filme: falando inglês, num papel assumidamente trash, onde beija homens e mulheres, não recusando nem mesmo a maquiagem de vampirona em determinada cena!

Pena que o elenco não inclua a belíssima Salma Hayek, já que a personagem Esmeralda será a futura Satánico Pandemonium, a vampira interpretada por Salma no filme original.

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E dê-lhe sangue e estacas no coração, em um filme que se não é uma obra-prima da originalidade, pelo menos é bem divertido e não faz feio em comparação com o original.

Ah sim: não esqueça de passar os créditos finais, pois há uma última cena que explica o destino de um dos personagens centrais da trama. A cena se passa nos dias atuais, em um bar (que NÃO é o Titty Twister), onde tal personagem relata a um homem (interpretado pelo próprio diretor P.J. Pesce) a história do filme. Quando este duvida do acontecido, o narrador da história vira vampiro e arranca o coração do homem, dando-lhe a prova cabal do que havia contado.

Curiosidades do Inferninho

Michael Parks interpretou o texas ranger Earl McGraw em Um Drink no Inferno.

– O diretor P.J. Pesce foi editor do “clássico” trash The Refrigerator (1991), lançado por aqui como A Geladeira Diabólica.

– Dois personagens do primeiro filme aparecem nesta “prequel“: Razor Charlie, o barman do Titty Twister (interpretado por Danny Trejo), e Satánico Pandemonium, a sexy dançarina/vampira do bar (interpretada por Ara Celi aqui e por Salma Hayek no filme original).

Danny Trejo, por sinal, é o único ator a aparecer nos três filmes da trilogia (mesmo que seu personagem na parte 2 seja “outro“, o irmão gêmeo de Razor Charlie).

– O escritor Ambrose Bierce (personagem de Parks) realmente existiu e foi declarado oficialmente desaparecido em 1914, após viajar sozinho para o México, tentando juntar-se aos guerrilheiros liderados por Pancho Villa. Entre suas obras famosas, O Dicionário do Diabo e Visões da Noite, uma coletânea de contos de mistério/horror. Ateu convicto, Bierce costumava dizer que “a religião é uma filha da esperança com o medo, explicando para a ignorância a natureza do incognoscível“. Como curiosidade, o escritor também passou pelo Brasil no final do século 19.

– O final repete um ângulo de câmera do primeiro filme, mostrando os fundos do bar como um gigantesco templo asteca. A diferença é que, ao invés de carros dos clientes mortos, vemos inúmeras carroças em ruínas.

– O filme tem uma referência hilariante a Taxi Driver, de Martin Scorsese, quando Johnny Madrid brinca com suas pistolas repetindo: “Are you talking to me? Are you talking to me?“, como o personagem interpretado por Robert DeNiro no clássico de Scorsese.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

9 comentários em “Um Drink No Inferno 3: A Filha do Carrasco (1999)

  • 15/06/2018 em 08:28
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    O Exorcista 3 não o pior filme da franquia. Não está a altura do primeiro porém muito longe de ser tão ruim como Exorcista 2- O Herege e Dominion- Prequel de o Exorcista

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  • 07/12/2016 em 18:08
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    Pois eu acho esse título o mais divertido dos 3.Agora,declarar o terceiro Indiana Jones como ruim é piada.O filme é quase unânime entre os fãs como o segundo melhor da franquia,atrás somente de Caçadores da Arca Perdida.

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  • Pingback:Um Drink no Filme e outro na Netflix | Meu Megafone

  • 20/02/2015 em 15:33
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    Não tem nem como começar a ler uma crítica que já no começo mostra a incapacidade do “crítico” de ter compreendido pérolas como O poderoso chefao 3″ e “De volta para o futuro 3”! Zero.

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  • 02/10/2014 em 16:39
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    Putz! eu respeito a opinião de todos mas acho esse terceiro filme pior que o segundo(que já era pavoroso).Possui um argumento bem original, mas o desenrolar “só Jesus na causa.”Deveria ter parado no primeiro que já está de bom tamanho.

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  • 16/08/2014 em 23:54
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    Pois discordo de todos vocês , acho o terceiro e último o mais sem graça da trilogia , mais pelo menos é mais violento que o segundo contendo até um bom gore mais sem comparação com o primeiro .
    ” Um Drink no Inferno 3 : A Filha do Carrasco ” também está na minha coleção e é o que menos eu assisti da trilogia .

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  • 12/08/2014 em 23:24
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    Excelente critica só não concordo quando disse que o Massacre da Serra Elétrica 3 foi o pior o 2 foi bem pior.

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  • 11/08/2014 em 19:20
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    É um bom filme, sangrento e assustador em determinados momentos.
    Destaque para Sonia Braga em um papel digno de sua filmografia – ao lado de Gabriela e a Mulher-Aranha. Sonia interpreta a Rainha dos Vampiros de forma natural e tenebrosa – com um toque assumido de sensualidade e sexualidade.
    Ara Celi também dá um show de atuação – no papel de Satanico Pandemonium na juventude.
    Enfim, UM DRINK NO INFERNO 3 consegue ser melhor e mais trash que o primeiro – e faz o segundo passar quase batido.

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